30 de junho de 2009

Nota de Falecimento

Do CEA - Centro de Estudos Anglicanos:

Informamos, dolorosamente, o falecimento, na tarde de hoje, do rev. Dr. Jaci Correia Maraschin.

Triste, muito triste, perder um amigo de 25 anos.

Em nossa última troca de emails, estávamos planejando organizar um simpósio em 2010 sobre as tendências musicais nas igrejas de hoje.

O sentimento de hoje, é de dor, por essa inestimável perda.

O sentimento de sempre, será o de gratidão por tudo o que nos ensinou, e de saudade, pela incomparável pessoa que era.

Que ele cante e dance por toda eternidade.


"Eu faço parte da tua história, na qual amar-te é renascer"
(Jaci Maraschin),

Prezados irmãos e irmãs,

Ainda consternados pela notícia do falecimento de nosso irmão, rev. Jaci Maraschin, transmitimos aos familiares, especialmente, Sra. Ana Dulce, às filhas Ana Isabela e Rosa Maria, nossos sentimentos de dor e solidariedade.
Todos nós perdemos uma extraordinária figura humana. Recentemente, ainda discutíamos a organização de um Simpósio sobre Música Contemporânea para 2010.

Ainda não conseguimos dimensionar o tamanho da perda, não apenas para nossa Igreja mas para o mundo ecumênico, acadêmico e artístico do Brasil e do exterior. Só podemos dizer que somos imensamente gratos por tudo o que ele nos ensinou, através de seus textos, músicas e constante bom humor. Seu legado à Igreja à qual sempre foi fiel é incalculável. Certamente vamos rir bem menos.

Estive ontem relembrando algumas canções de Jaci. Creio que no próximo domingo, todas as paróquias anglicanas no Brasil irão inserir na liturgia, alguns de seus muitos hinos. Além do incomparável "Poema ao Crucificado", recordo um, muito especial, que revela muito de seu caráter
:

Tu me encontraste em meio à noite
E me chamaste a em ti viver
Eu não sabia, confesso agora
Que ainda existia o amanhecer

Tu me seguiste por tanto tempo
Eu era triste, sem perceber
Até que um dia eu vi teu mundo
Com alegria e pude crer

Deixei de lado a indiferença
Fui abalado por teu poder
Meu egoísmo mudaste em luta
No meu batismo sem merecer

Te achei sofrido, com fome e sede
Te vi oprimido a padecer
Te achei cansado, te achei nos pobres
Desamparado a esmorecer

Te achei na face de tanta gente
Sem que eu buscasse te surpreender
Eu faço parte da tua história
Na qual amar-te é renascer

Com fé na ressurreição
rev. Carlos Eduardo Calvani
Coordenador do CEA


O blog Cristianismo, meramente também aqui se solidariza, prestando sua homenagem deixando o referido poema/canção clássico, "Poema ao Crucificado", de Jaci Maraschin
:

Meu Deus, eu te amo, não porque
espere os céus e o bem;
nem é que eu tema, ao não te amar,
sofrer no inferno, além.
Mas só porque, Senhor, por mim
morreste numa cruz,
e ali sofrendo em dor cruel,
me deste vida e luz!

Induz-me o teu infindo amor
de tal maneira a ti,
que mesmo sem o inferno e o céu
eu te amaria aqui.
Assim compreendo e vivo, ó Deus,
cantando o teu louvor;
a minha salvação és tu,
manancial de amor!


A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil deixa aqui sua nota oficial de pesar.

Louvamos a Deus pela vida e testemunho do Seu filho, nosso irmão, que participa agora da comunhão dos santos!!

27 de junho de 2009

Paulo, o Apóstolo Universal de Jesus Cristo


Imagem I : "A Conversão de Saulo de Tarso" de Michelangelo


Neste domingo, consagra-se o término do "ano paulino". É a culminação do "Ano Jubilar de São Paulo", comemorando 2000 anos de seu nascimento [ por convenção, já que não se tem fontes sólidas do ano de seu nascimento].

Deixo de brinde aos amigos, leitores e transeuntes do “Cristianismo, meramente” umas pérolas magníficas para quem quiser se inteirar mais a respeito do apóstolo e personagem essencial para a difusão e sistematização da doutrina cristã. Aquele que foi reconhecido, introduzido e comissionado junto aos apóstolos diretos de Cristo – Atos 9.26-30.

É uma ESTUPENDA referência, o especial sobre Paulo da IHU Online, a revista do Instituto Humanitas Unisinos. Cara, excelente para desbaratar com diversos preconceitos arraigados contra o Apóstolo, bem como para esclarecer diversas questões confusas.

Destaco a entrevista com Alain Gignac: “A redescoberta de Paulo pela pós-modernidade”: Na história da literatura, trata-se do primeiro escritor a se expressar em ‘eu’ com tal força. Mas o ‘eu’ de Paulo é livre e inscrito em uma comunidade, não é individualista e isolado, nem escravo e alienado.

E a com Jerome Murphy O’Connor : Paulo tem uma má reputação entre as feministas, que o consideram um anti-mulher. De fato, Paulo foi o mais ativo promotor do ministério das mulheres no Novo Testamento. Lídia, Evódia e Síntique tiveram um papel ativo na evangelização de Filipos, e Paulo situa a participação delas precisamente no mesmo nível que a dos apóstolos homens. Ele reconhece Febe como uma líder da igreja de Cêncris, o porto mais ao leste de Corinto. Priscila liderava uma igreja doméstica com seu esposo, primeiro em Éfeso e depois em Roma. Ápia era uma integrante do comitê de três pessoas que dirigiam a igreja de Colossos. Em Corinto, Paulo assumiu como dado que as mulheres, assim como os homens, podem rezar e profetizar nas assembléias litúrgicas. A profecia para Paulo é um dom de liderança, e a oração articula publicamente as necessidades da comunidade. São papéis de liderança.


Deixo também uns textos que fiz para um biblioblog de um colega, Flávio, AD CUMMULUS, que contribuo como convidado. Busquei propiciar modestamente alguns esclarecimentos sobre assuntos mal-tratados a respeito do discurso paulino, mostrando a vinculação estreita com o contexto de seu ambiente, tradição e cultura:

Transculturalismo e retórica no Cristianismo Nascente

Novo Testamento, Linguagem, Teologia e Paradoxos

A temática cristã do destino pessoal eterno e sua raiz no pensamento religioso judaico


Alguns testemunhos dos contemporâneos:

Ananias (Atos 9.11-17), discípulo cristão enviado pelo Jesus Ressurreto, após o choque de Paulo com Jesus, na estrada próximo a Damasco quando Paulo estava indo trucidar mais cristãos, em que Jesus se manifestara e Paulo ficou temporariamente cegado:
O Senhor acrescentou: Vai à rua chamada ‘Rua Direita’ e, na casa de Judas, perguntarás por alguém chamado Saulo de Tarso; ele está lá rezando, e acaba de ver um homem chamado Ananias entrar e lhe impor as mãos para lhe restituir a vista. Ananias respondeu: ‘Senhor, eu ouvi muita gente falar deste homem, e contar todo o mal que ele fez aos teus santos em Jerusalém. E aqui, ele dispõe de plenos poderes recebidos dos sumos sacerdotes para aprisionar todos os que invocam o teu nome.’ Mas o Senhor lhe disse: ‘Vai, pois este homem é um instrumento do meu nome perante as nações pagãs, os reis e os israelitas. Eu mesmo lhe mostrarei o que precisará sofrer pelo meu Nome.’. Ananias partiu, entrou na casa e lhe impôs as mãos, dizendo: ‘Saul, meu irmão, é o Senhor que me envia – este Jesus, que te apareceu no caminho que seguias – a fim de que recuperes a vista e fiques repleto do Espírito Santo’.

O Governador Pórcio Festo, Procurador Romano na Judéia: Estás louco, Paulo! As tuas muitas letras estão te levando à loucura! - Atos 26.24

O Rei da Judéia Agripa II: Pouco te falta, pela tua argumentação, para fazeres de mim um cristão! Atos 26.28

Lucas. Atos 28.30 – Paulo viveu assim [se referia a circunstância de algo parecido com uma prisão domiciliar e um período posterior de liberdade sob custódia e ainda depois sob vigilância – a prisão no término de Atos não é a definitiva, que culminara em sua decapitação; esta ocorrera depois, perto de 67 a.C., sendo que neste primeiro período escrevera a primeira carta a Timóteo e Tito, e no derradeiro cativeiro, a segunda a Timóteo] dois anos inteiros, às próprias custas [era tecelão], e recebia todos os que vinham ter com ele, proclamando o Reinado de Deus e ensinando o que concerne ao Senhor Jesus Cristo com inteira firmeza e sem impedimento.

Em II Pedro 3.15-17. E convencei-vos de que a longa paciência do Senhor é a vossa salvação! É neste sentido que Paulo, nosso irmão e amigo, vos escreveu consoante a sabedoria que lhe foi dada. Aliás, é o que diz em todas as suas cartas, em que trata destes assuntos: nelas se encontram passagens difíceis, cujo sentido pessoas ignorantes e inconstantes deturpam, como, também, fazem com as demais Escrituras, para a própria perdição.

Palavras do Apóstolo:

Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a miséria, o perigo, a espada? Conforme está escrito, ‘Por tua causa fomos levados a morte o dia inteiro, fomos considerados gado para o matatadouro’. Mas em todas essas coisas somos mais do que vencedores, por Aquele que nos amou. Porque sim, estou certo de que nem morte, nem a vida, nem os anjos nem os dominadores, nem o presente nem o porvir, nem a força das alturas, nem a das profundezas, nem outra criatura alguma, nada poderá nos separar do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor.
Romanos 8. 35-39.

Não é a necessidade que me faz falar, pois aprendi a contentar-me com o que tenho em qualquer situação. Sei viver na penúria, sei viver na abundância. Aprendi em todas as circunstâncias e de todas as maneiras, tanto a ter fartura como a ter fome, a ter abundância como a passar necessidade. Tudo posso nAquele que me dá forças.
Filipenses 4.11-13

Mas este tesouro, nós o carregamos em vasos de barro, para que esse poder incomparável seja de Deus e não nosso. Premidos de todos os lados, nós não somos esmagados; em impasses, mas conseguimos passar; perseguidos, mas não alcançados; prostrados por terra, mas não liquidados; sem cessar trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus, a fim de que a vida de Jesus seja manifestada em nosso corpo. Com efeito, nós, que estamos vivos, somos sem cessar entregues à morte por causa de Jesus, a fim de que a vida de Jesus também seja manifestada em nossa carne mortal.
II Coríntios 4.7-11.

Quanto a mim, eis que já fui derramado em sacrifício e o tempo da minha partida chegou. Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa de justiça que o Senhor me dará em recompensa naquele Dia, Ele, o justo juiz; e não só a mim, mas a todos os que tiverem ansiado a Sua manifestação.
II Timóteo, 3.6-8.

24 de junho de 2009

"Meu Poder se Aperfeiçoa na Fraqueza"

TESTAMENTO
ALDA LARA
À prostituta mais nova
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos, lavrados
em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os humildes
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada...
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora...
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontreres em cada rua...
''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
NA FONTE DA VIDA ETERNA
RODRIGO GONÇALVES DE SOUZA
Novamente me imaginei sozinho
no escuro úmido, os alicerces ruindo
A aurora atingindo a singularidade nua
A neblina me sussurrando que as picadas na mata
eram um jogo de dados viciados, um raminho
perdido na trilha pisei distraindo
mim (onde estava o eu?) era um acrobata,
um náufrago em um bote a alto-mar sem lua

Estava(-mos) como um feto no útero, sem cordão umbilical
Quando no desespero, em meio aos sentimentos havia uma melodia
No olho do furacão agonia, o ardor de vergonha dizia
que a mais um passo estava o ponto de apoio existencial

Não há como já atracar o porto final, mas a resposta parcial
está no caminho-indo
Num rapel, enxergando um pouco do Céu, mas ou cairia
Ou iria prosseguindo
'''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
Trecho de “THE HOUND OF HEAVEN” ( O PERDIGUEIRO DO PARAISO)
FRANCIS THOMPSON
Oh mundo invisível, nós te enxergamos,
Oh mundo inatingível, tocamos em ti,
Oh mundo intangível, nós te conhecemos,
Inapreensível, nós te agarramos

Sai voando o peixe para achar o oceano,
e mergulha a águia para obter o ar?
Perguntamos nós aos astros a mover-se
Se lá eles ouvem falar de ti?

Não onde os sistemas em rotação se toldam,
E o nosso pensar entorpecido adeja! -
O rufar de asas é o que ouviríamos,
E batidas em nossas portas de barro.

Os anjos mantém seus antigos lugares;-
Vire-se uma pedra, e aparece uma asa!
Vós mesmos, sim, vossos alienados rostos
É que a multiesplêndida grandeza perdem.

Mas quando estiveres triste a não mais poder,
Clama – e sobre eles a lamentável perda
Fará brilhar a circulação pela escada de Jacó,
Erguida e inclinada entre o Céu e Charing Cross.

Sim, durante a noite, oh minh'ama, minha filha,
Clama – segurando o céu por suas orlas;
E vê Cristo andando sobre as águas
Não de Genesaré, mas dali, do Tâmisa!
'''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
CANTIGA DOS PASTORES
ADÉLIA PRADO
À meia noite no pasto,
guardando nossas vaquinhas,
um grande clarão no céu
guiou-nos a esta lapinha.
Achamos este Menino
entre Maria e José,
um menino tão formoso,
precisa dizer quem é?
Seu nome santo é Jesus,
Filho de Deus muito amado,
em sua caminha de cocho
dormia bem sossegado.
Adoramos o Menino
nascido em tanta pobreza
e lhe oferecemos presentes
de nossa pobre riqueza:
a nossa manta de pele,
o nosso gorro de lã,
nossa faquinha amolada,
o nosso chá de hortelã.
Os anjos cantavam hinos
cheios de vivas e améns.
A alegria era tão grande
e nós cantamos também:
Que noite bonita é esta
em que a vida fica mansa,
em que tudo vira festa
e o mundo inteiro descansa?
Esta é uma noite encantada,
nunca assim aconteceu,
os galos todos saudando:
O Menino Jesus nasceu!
'''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''''
de: LAURA PERES DA ROCHA FERNANDES COSTA
[presente na publicação Em Tua Graça — o livro de culto e orações, publicado para a IX Assembléia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI)]
Quando o sofrimento for por demais doloroso, que ouçamos Jesus dizendo:
A minha graça te basta!
Quando o desânimo tomar conta de nossos corpos e mentes, que ouçamos Jesus dizendo:
A minha graça te basta!
Quando as injustiças assolarem nossos olhos e nossas vidas, que ouçamos Jesus dizendo:
A minha graça te basta!
Quando o desejo da morte for maior do que a luta pela vida, que ouçamos Jesus dizendo:
A minha graça te basta!
Porque o poder do amor se aperfeiçoa na fraqueza, ouçamos Jesus dizendo:
A minha graça te basta!

20 de junho de 2009

Repúdio à Homofobia


Nos solidarizamos com as vítimas do ato vil e nefasto realizado no Largo do Arouche, em São Paulo, em que a explosão de uma bomba de fabricação caseira feriu 21 pessoas. Podia ter sido pior. Expressamos nosso repúdio e o desejo de que o /ou a responsável, ou responsáveis, sejam levados à justiça; também de que o Espírito de Deus lhes constranja o coração ao arrependimento.

Em um evento público, aberto, de tal vulto, ainda por cima envolvendo adrenalina e álcool, frequentemente ocorrem incidentes de brigas, assaltos, etc. Contudo, fica claro que esse episódio foi movido por uma beligerância homofóbica fanática.

Isso nos move a uma reflexão em relação à postura da Igreja Cristã e dos cristãos em particular.

Existem posições que invocam a autoridade bíblica e/ou a tradição para expressarem que a prática erótica homossexual é incompatível com a vivência e expressão da fé cristã segundo aquelas. Apregoam a opção do celibato ou que a pessoa passe a ser heterosexual. É ainda a majoritária na maioria das posições oficiais das diferentes igrejas.

Existem outras posições que dizem que a leitura bíblica referente à homossexualidade é mal-interpretada, admitindo que no Antigo Testamento as referências mentalizavam identificações com a identidade de práticas e crenças idólatras, assim como na passagem de Paulo em Romanos, e que os termos gregos arsenokoites e malakoi, referidos em textos de Coríntios, Timóteo, etc., não se traduziriam diretamente à homoafetividade. Lembram também que a tradição nunca é ou foi algo extático e completo, mas algo que se desdobra sobre si mesma e que possui núcleos essenciais e questões acidentais relidas à luz daqueles. Algo expressado pelo filósofo Alasdair MacIntyre, uma tradição genuína não seja marcada por rigidez, mas será distinguida por sua própria capacidade de responder aos legítimos desafios; ao encontrar tais desafios, a tradição pode expandir-se ou modificar-se em meios previamente neutros.

Essa perspectiva condena sim a banalização da vida afetiva, a não-horizontalidade e mutualidade das relações, e a visão instrumental do corpo e alma da outra pessoa, independente de se dar numa relação hetero ou homoafetiva, não uma delas em si.

Não versaremos aqui sobre um balanço dentre estas duas perspectivas, dada a busca do blog “Cristianismo, meramente” em ser mais abrangente entre as diversas fileiras das igrejas que professam a fé ortodoxa. Contudo, a fé cristã, independente de qualquer igreja em particular, é direcionada pela defesa da dignidade da vida humana, da justiça e do direito, da empatia e alteridade. Sendo assim, é desautorizada toda e qualquer expressão homofóbica, desrespeitadora da integridade moral e física de qualquer ser humano, advinda de meios, ambientes ou pessoas cristãs, de qualquer outra religião, indiferente ou que se diz ateísta. E proclamamos peremptoriamente a igualdade de direitos civis de homossexuais e heterossexuais.

Lamentamos como pessoas misturam as coisas neste âmbito. Frequentemente vemos polêmicas nos espaços legislativos envolvendo os direitos dos homossexuais. Políticos que muitas vezes nem estão aí para a fé, a não ser instrumentalizá-la em discursos demagogos, jogam com ela eleitoralmente. Outros, religiosos, fazem vistas grossas ao esbanjamento do dinheiro público, direitos humanos sobretudos sociais, ou crimes cometidos explorando a fé alheia, como extorsões. Pessoas engajam-se contra qualquer questão envolvendo as liberdades civis dos gays achando (ou dizendo achar) que vai se obrigar as igrejas da primeira perspectiva descrita a admitir homossexuais não-celibatários em suas instâncias.

Um engodo. O cristão, ciente das perseguições e martírios sofridos ainda hoje em diversas partes do mundo, devem prezar como ninguém a liberdade civil dos indivíduos. E é esse o âmago da questão.

Está tramitando no Senado o Projeto de Lei de Câmara nº122/2006 . No relatório da matéria, vemos escrito que "Objetivamente, sem fazer opção pelo comportamento homossexual ou sua apologia, o PLC nº 122, de 2006, propõe meios legais para desestimular e coibir penalmente situações em que a opinião privada de alguns gera prejuízos aos direitos de outros.
Assim, todas as condutas definidas criminalmente no projeto referenciam comportamentos que arbitrariamente recusam, a indivíduos LGBT, direitos que são conferidos a outros indivíduos em igualdade de condições.
Por outro lado, o projeto não criminaliza a crença pessoal desfavorável à homossexualidade, mas ações que conduzam à imposição dessa crença a outros indivíduos, de modo a suprimir a liberdade de uns pelo arbítrio de outros.
Desse modo, em consonância com a Constituição Federal, as normas propostas buscam proteger a vida, não apenas em seu sentido biológico, mas nas relações sociais indispensáveis ao seu desenvolvimento.
Quanto ao mérito específico da proposta, cabe ressaltar que todas as condutas descritas no PLC nº 122, de 2006, se referem a comportamentos dolosos, que têm a intenção explícita de vitimar o outro, motivados por preconceito contra indivíduos ou grupos.
Assim, por exemplo, no que se refere à criminalização da despedida motivada por preconceito, a norma busca coibir penalmente casos em que o empregador se valha de seu preconceito para eliminar o direito ao trabalho de determinados indivíduos, sem, contudo, privilegiar qualquer categoria de indivíduos com a estabilidade incondicional no emprego".


Desta forma não procedem as alegações de que o Projeto atenta contra a Constituição ao ferir o principio da livre manifestação do pensamento. Tanto que se fosse assim, seria simples apresentar propostas de modificações, supressões ou adendos que prevenissem ataques ao princípio da livre-manifestação (desde que se considere que a livre manifestação não suprime a responsabilidade por esta e não permita que fira direitos civis de outrém, a dignidade, os direitos e liberdades básicas da Constituição).

Dentre as propostas de emendas apresentadas, o Senador Wilson Matos apresenta:

Dê-se ao art. 7º do PLC nº 122, de 2006, a seguinte redação:

Art. 8º-A Proibir ou restringir a expressão e a manifestação de afetividade, permitida a qualquer cidadão, de homossexual, bissexual ou transgênero em locais públicos. Pena: reclusão de um a dois anos.


"Ademais, a restrição imposta aos locais privados não nos parece adequada, uma vez que, segundo a Constituição Federal, é livre a manifestação de pensamento (art. 5º, IV), inviolável a liberdade de consciência (art. 5º, VI), do mesmo modo que são invioláveis a intimidade, a honra, a imagem e a vida privada das pessoas (art. 5º, X). Assim, optamos por excluir a expressão “em locais privados”."

O que se deve considerar é que o que seria atentado ao pudor ou relacionados, aplicados a heterossexuais, sejam aplicados a toda a população de diferentes orientações e identidades sexuais.
Ou seja, não há pretexto para a rejeição da PL em si. O referido Senador requer ainda a supressão do termo “orientação sexual” por achar que não foi bem discutido. Provavelmente acredita que se alguém não é heterossexual, isso não é uma orientação. Não sei o que seria. Contudo, o dado objetivo é que não se pode dizer que os homossexuais, gays, lésbicas, bissexuais e transexuais já encontram suficiente proteção na legislação do país.

O Inciso IV do art. 3º da Constituição Federal fala sobre “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação." E o Inciso XXX do art. 7º “proibição de diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil." Os homossexuais têm o direito, dados os notórios casos em que são vítimas de violações desses preceitos enquanto homossexuais, de serem mencionados explicitamente. Não o são. Nossa Constituição não os menciona, faz menção explícita a “quanto a sexo, raça, cor e idade”. O inciso VII do artigo 5º estipula que “ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”.

Isso abre brecha para a impunidade quanto a discriminações e achincalhamentos a demonstrações públicas de afeto de homossexuais, mesmo em lugares públicos aonde heterossexuais o fazem livremente. E outras questões até mais sérias. A lei não cria uma "população especial". O agravante é para crimes com motivações homofóbicas.

Porque alguém com ressalvas quanto ao Projeto de Lei 122/2006 não apóia então emendas constitucionais aos artigos 3º e 7º?

A não ser que pratiquem o Duplipensar.

Deixamos a pérola “We Shall Overcome”, na versão da cantora Joan Baez.
Vamos superar,
vamos superar,
Vamos superar algum dia

Oh, do fundo do meu coração,
eu creio
Iremos superar algum dia

Vamos caminhar de mãos dadas,
Vamos caminhar de mãos dadas,
Nós vamos caminhar lado a lado, algum dia.

Oh, do fundo do meu coração

Vamos viver em paz,
vamos viver em paz,
Vamos viver em paz algum dia

Oh, do fundo do meu coração,

Vamos todos ser livres,
vamos todos ser livres,
Vamos todos ser livres algum dia

Oh, do fundo do meu coração,

Não temos medo,
Não temos medo,
Não temos medo, HOJE

Vamos superar,
vamos superar,
Vamos superar algum dia

Oh, do fundo do meu coração,
eu creio
Iremos superar algum dia
video

Imagem: Reverendo Jesse Jackson.

17 de junho de 2009

Acontece em BH


Hoje, quarta feira 17/06 haverá no "Sempre Um Papo" um bate-papo com Frei Beto e Frei Fernado de Brito a respeito do livro “Diário de Fernando – Nos cárceres da ditadura militar brasileira” - editora Rocco. São as memórias e registros de Frei Fernando dos porões e cárceres da Ditadura Militar. Presentes nos registros estão personagens conhecidos como Carlos Marighella,Lamarca, Franklin Martins - ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da República e Dilma Rousseff - ministra da Casa Civil e pré-candidata à presidência da República.

Será às 19:30h, no Auditório da Cemig (Av. Barbacena, 1200, Santo Agostinho). Entrada Franca, mas com lotação limitada.

15 de junho de 2009

Bíblia e O Sopro de Deus - parte III - Mensagem e Busca


O gênero literário preponderante na Bíblia é a narrativa; conclama à reflexão a partir de relatos vívidos e memórias, reflexões sobre a experiência, apelando tanto à imaginação quanto a um senso realístico e ao envolvimento pessoal. Abrange metáforas, narrativas históricas, míticas (menos na acepção moderna do termo, psicológica, e mais na socrática, uma narrativa que ilustra histórias remotas em que os símbolos são personificados para o significado se representar pela sua imagem representada).

Os compiladores dos textos sagrados buscavam visualizar seus temas e agendas teológicos a partir da história; a visão deles era muito menos a da discussão metafísica, em relação a teologia se fazendo narrativamente no drama do povo. E assim é a Bíblia. Tal como o Verbo se fez carne, quando Deus assumira uma vida plenamente humana, assim também as Escrituras, em que escritos plenamente humanos são assumidos em Deus para seus propósitos de redenção da criação. Ocorre nela um processo de “acomodação”, como o teólogo João Calvino expressou, algo também sugerido por teólogos da patrística como São Clemente de Alexandria, Santo Ambrósio e Santo Agostinho. Uma adequação ou adaptação ao entendimento e maneira de expressar da época, visando atender as necessidades da situação e a capacidade humana de entendê-las, alcançando assim as pessoas comuns em suas vidas em geral.


O que falamos aqui sobre “acomodação” pode ser confundido com um grande engano que se encontra ao comentar sobre a linguagem bíblica. Alguns tomam isto como “metáfora”, atribuindo ao termo um sentido de algo que não tenha uma realidade própria, independente, mas apenas subjetiva ou moral. E isto é uma violência, não uma ferramenta. É uma atitude arbitrária, que favorece a que o indivíduo decida o que quer que o texto, símbolos e apontamentos signifiquem de acordo com seus caprichos.

Mas penso poder encontrar no livro “Milagres” de C.S. Lewis, o autor das “Crônicas de Nárnia”, no capítulo “Coisas Vermelhas Horríveis”, a melhor explicação e ilustração sobre o que essa perspectiva da “acomodação” do texto quer dizer. Permitam-me citar umas passagens.

Temos agora diante de nós três princípios de orientação. (1) O pensamento é distinto da imaginação que o acompanha. (2) O pensamento pode ser acertado em sua maior parte mesmo quando as imagens falsas que o acompanham são tidas como verdadeiras. (3) Que quem quer que fale sobre coisas que não podem ser vistas, tocadas ou ouvidas, ou outras semelhantes, deve inevitavelmente falar como se elas pudessem ser vistas, tocadas ou ouvidas (isto é, devem falar de “complexos” e “repressões” como se os desejos pudessem ser realmente atados em fardos ou empurrados para trás; de “crescimento” e “desenvolvimento” como se instituições pudessem realmente crescer como árvores ou abrir-se como flores; de energia sendo “libertada” como se fosse um animal saído da jaula).

Ele fornece aí exemplos para o terceiro princípio enunciado. Para o primeiro princípio, ele fornecera antes esta ilustração: Quando penso em Londres, imediatamente vejo a estação de Euston num quadro mental. Mas quando penso (como faço) que Londres possui milhares de habitantes, não estou querendo indicar que existam milhares de imagens de pessoas contidas em minha imagem da estação Euston. Nem afirmo que milhares de pessoas reais vivam na estação Euston. De fato, embora tenha essa imagem na mente ao pensar em Londres, o que penso ou digo não está ligado à imagem e seria rematada tolice caso fosse assim. Minhas idéias fazem sentido porque não tratam de minhas imagens mentais, mas da Londres real, fora de minha imaginação, da qual ninguém pode ter um quadro mental adequado.

Para o segundo esta: Ouvi certa vez uma senhora dizendo à sua filha pequena que se alguém tomasse um número excessivo de comprimidos de aspirina morreria. “Por quê?” perguntou a filha, “ela não é venenosa.” “Como você sabe que não é venenosa?” replicou a mãe. “Porque”, respondeu a filha, “quando você esmaga um comprimido não encontra dentro dele coisas vermelhas horríveis.” (...)Mas isto não indica que tudo o que pensava e dizia sobre veneno era necessariamente sem sentido, pois ela sabia perfeitamente bem que veneno representava algo que poderia matá-la ou fazê-la adoecer se o engolisse. Sabia também, até certo ponto, quais as substâncias na casa da mãe que continham veneno. Se um visitante fosse advertido pela menina: “Não beba isso, mamãe disse que é veneno”, seria imprudente deixar de seguir o conselho só porque “Esta criança possui uma idéia primitiva de veneno como Coisas Vermelhas Horríveis, que meu conhecimento científico adulto de há muito refutou”.

Esperamos aqui ter colaborado, modesta e limitadamente, com aqueles que buscam uma compreensão sobre esse tema da linguagem bíblica, sua inspiração, sua autoridade e seu valor perene, nos quais se apóiam os conteúdos da fé cristã e a inspiração para a vivência de sua espiritualidade no meio das alegrias, tristezas, sofrimentos, indagações, conflitos, rotinas, surpresas, comemorações da vida, e para sua esperança e expectativa para o destino da criação, o sentido da história e a vida além da vida após a morte.

Não é um manual de receitas nem bola de cristal, mas um quadro, uma janela, um prisma iluminador do sentido da realidade, de um drama maior que se passa nela e que nos envolve, que sem essa revelação especial de Deus não seria contemplado por nenhuma especulação a partir de um ponto zero. Não é um “ditado” de Deus, mas nela está pintada Sua Mensagem. Trata da busca do ser humano por parte de Deus.


Eu te conjuro, quem copiar este livro, por Nosso Senhor Jesus Cristo e por seu glorioso Advento, quando vier julgar os vivos e os mortos, que compares o que transcreves e o corrijas a partir deste manuscrito do qual estás copiando, e também que transcrevas este conjuramento e o coloques na cópia.

Santo Ireneu, “prescrição contra os hereges”, 37.

Agora devemos transformar em ações as palavras da Escritura; ao invés de falar das coisas santas, devemos desempenhá-las.

São Jerônimo

Bíblia e O Sopro de Deus - parte II - Linguagem e Revelação



E como então alguém pode procurar perscrutar, examinar, absorver e proclamar a realidade da Palavra de Deus, usando a Bíblia? A "Palavra de Deus" pode ser real, direta e objetivamente apreendida, ensinada e proclamada?

Tentarei aqui pegar um gancho em uma discussão a respeito da natureza da ciência e suas bases. A maioria das pessoas tem assimilada uma visão, hoje tida como inocente, do caráter da exploração científica. Há um discurso-pronto que fala que a ciência retrata a realidade como ela é, diretamente, pura, pela sua lente sem embaçamento e distorção alguma, sem interferências. Apresenta a verdade nua e crua com fatos puros. Infelizmente, como agrônomo, tenho que reconhecer que tal discurso é mais difundido entre quem lida com ciências biológicas, sobretudo zoologia e botânica. Mas, no âmbito científico, nos últimos tempos, essa visão é contestada e caracterizada como “realismo ingênuo”. Principalmente dentre os que estudam fenômenos e objetos grandes demais e pequenos demais para serem observados diretamente pelo olho, ou com instrumentos simples.

Constatam eles que o próprio instrumental interfere na imagem que se nos apresenta, do que se observa e interpreta, então, não temos uma imagem “pura” das coisas. E os dados em si não nos dizem nada se não forem interpretados, e a preocupação recai sobre como é a melhor maneira de interpretar e falar sobre a interpretação, o que pode ser dito, não o que seria de fato. Sobretudo com a física quântica, a perspectiva que predominou é a chamada “instrumentalista”. As teorias seriam julgadas sobre quão proveitosas e frutíferas são para correlacionarem as observações com as previsões de comportamento dos fenômenos.

Nas palavras de um gigante da física, Niehls Borh, “Não existe ‘mundo quântico’. Existe apenas uma descrição física-quântica abstrata. É errado pensar que a tarefa da física seja descobrir como é a natureza. A física se preocupa com o quê podemos dizer sobre a natureza” - extraído de "Explorando a Realidade".

Uma contribuição recente neste debate servirá de forma esplendida para nos ajudar na compreensão do conhecimento da interface "Palavra de Deus"/Bíblia.

Uma perspectiva intermediária despontou na discussão científica, entre o “realismo ingênuo” e o “instrumentalismo”. Apregoa que as ferramentas científicas não podem mesmo expressar crua e perfeitamente a realidade tal como é em si, tampouco se restringem a construções intelectuais úteis e internamente consistentes. Dentro de limites, podem apresentar a realidade, mediada por “atos de imaginação criativa, nos quais analogias e modelos conceituais têm frequentemente um papel. Os modelos conceituais nos ajudam a imaginar o que não é diretamente observável, especialmente no domínio do muito grande e do muito pequeno”. - extraído de "Quando a ciência encontra a religião", Pg. 41-42 Essa perspectiva é chamada “Realismo Crítico”.

Um dos expoentes fora o cientista e filósofo Roy Bhaskar. É encampada por grandes teólogos-cientistas cristãos, como o cientista e teólogo Arthur Peacocke (biologia molecular), Ian Barbour (física nuclear), John Polkinghorne (física quântica), Owen Gingerich ( astrônomo e historiador da ciência); entretanto se expandira para bem além das fronteiras deste âmbito. Traduzido no Brasil podemos encontrar uma exposição sistemática acompanhada com estudos de caso no livro “Além da Ciência”, de John Polkinghorne, capítulo 2, editora Loyola. Os realistas críticos atentam que um conhecimento da realidade é auferido pelas ferramentas, mas em aspectos limitados e parciais, em interação com quem conhece.

Isso pode ser transposto para o entendimento da nossa questão. Expressa-se a Revelação Especial de Deus, um conhecimento revelado ao qual não chegaríamos especulando por nós mesmos a partir do nada. Seu sopro, mediado pelas expressões e vivências humanas, as ferramentas e a própria mente de quem lê, e os condicionamentos internos e externos de quem expressa.

A Bíblia e o Sopro de Deus - parte I - Inspiração e Palavra


Toda a Escritura é inspirada por Deus, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça
II Timóteo 3.16.

Esta confiança e firmeza é professada durante todos esses séculos pelos cristãos, expressando através dela uma base de suas fontes para a vivência do cristianismo, expressão doutrinária, apoio para espiritualidade e devoção. Como reza a tradição anglicana, à qual pertenço, as Escrituras contém “todas as coisas necessárias à salvação”.

O trecho “inspirada por Deus” é do grego theopneustos, literalmente “soprada por Deus”, algo que indica a ação do mover do Espírito de Deus.

Vamos tentar apresentar algumas imagens para ajudar o entendimento dessa relação com a Escritura. Não será uma exposição teológica acadêmica, mas uma busca de compreensão, com algumas ferramentas intelectuais de auxílio, para facilitar nosso entendimento da ecumênica e histórica autoridade da Bíblia para a igreja cristã, e uma “via média” dentre as variações de abordagens sobre ela.

Já começamos por apresentar essa noção central: de que o Espírito de Deus está atuando nas Escrituras. Qual seria uma implicação vital disso? Seria importante nos remetermos a um atuar do Espírito que já abordamos no texto “Festa de Pentecostes, parte I”, que seria a atuação vivificadora; a capacitação de agentes de Deus para execução de tarefas especiais; a consagração para legitimar um mensageiro de Deus.

Assim, Deus agiu sobre as faculdades humanas envolvidas na composição e edição do texto bíblico; não suprimiu essas faculdades, tampouco transformou as pessoas envolvidas em meros fantoches passivos em que Ele agiu. A imagem do “tesouro em vaso de barro” é eficaz para ilustrar isso.

Os cristãos se referem também a Bíblia, historicamente, como “a Palavra de Deus”. Isso significa necessariamente que cada termo, letra, passagem, seria um ditado direto de Deus para nós? Não falo disto. Vamos refletir sobre como esse conceito, o da “Palavra de Deus”, foi tratado dentro da própria Bíblia. No Salmo 119.89, fala-se dela como fundamentada na fidelidade eterna de Deus, ela permanece com Ele para sempre, este é o fundamento para a orientação e retidão; Sl.147.15-20, ela é retratada como impetuosa, implacável, apresentando seus juízos; em Isaías 55.10-11, o mesmo ocorre, com a ênfase no confronto com os propósitos divinos.

Agora, um ponto vital: Jesus é nos apresentado na abertura do Evangelho de João como o Verbo, Logos. Ocorrera aí uma fusão de imagens do conceito grego, orientado mais para o princípio racional do cosmo, que estrutura sua ordem (algumas vezes elevado a categoria divina no pensamento grego), e a “Palavra”, dos hebreus, nos sentidos que colocamos. E fala que o Verbo -> Jesus era Deus, desde o princípio. Isso implica a personificação do Verbo de Deus. Se mostra então que em Jesus se expressou a vontade, ética, propósito, de Deus, alicerçado na sua Razão criadora e fundamentadora da criação.

Sendo assim, a Verdadeira Palavra de Deus, para os cristãos, que deve ser o prisma pelo qual a Bíblia deve ser lida e no sentido do qual ela pode compartilhar e ser também Palavra de Deus, é Jesus.

Prosseguindo, penso que, com cautela, algumas alusões facilitadoras poderiam ser tomadas de empréstimos das reflexões de importantes teólogos sobre um outro tema. Eu tomaria, buscando logo aqui ser prudente se tratando de um tema delicado, as reflexões de Calvino, Zuínglio e Melanchton sobre a Eucaristia o Ceia do Senhor. O foco aqui não é esse Sacramento [ que significa sinal divino] em si; não estou pregando, defendendo ou tentando incutir a percepção deles, que é uma percepção importante, dentre outras sobre esse importantíssimo elemento da adoração, teologia e da vida cristã. Apenas vi, nas exposições deles, coisas úteis para ilustrar a temática aqui desenvolvida das Escrituras.

Zuínglio evoca a imagem do anel de uma rainha. Estando acima de uma mesa, visualizamos apenas uma anel comum a nível dos outros. Ele estando nos dedos da rainha, adquire um outro patamar, e um outro nível de significação. Ele ali, tendo sido conferido a ela pelo rei, possui associações com sua autoridade e majestade, a partir da ligação do rei com a rainha, o anel já não é mais do valor de que seria por si mesmo, apenas pelo seu material e forma.

Melanchton refletia sobre a Eucaristia, na perspectiva de que com o pão e vinho, [não sendo eles próprios, os elementos], Cristo “está verdadeiramente presente e ativo nesta participação [na Ceia]”. João Calvino, sob uma ótica estreitamente similar, afirmava que pela “ação espiritual de seu Espírito o Cristo Celeste oferece o corpo e sangue aos crentes”. Afirmava que a Comunhão com Cristo é real, cuja presença real só é dada àquele que crê por obra do Espírito Santo.

Como havia falado antes, minha preocupação aqui de forma alguma é para discutir esse Sacramento, mas pego emprestada essas imagens, independente da questão se são as apropriadas ou não para a Eucaristia ou Santa Comunhão, para poder ilustrar, mediante uma transposição, a noção aqui sobre a Palavra de Deus e a Bíblia.

Diria que o exemplo de Zuínglio se aplica no nosso foco. A Bíblia, por si mesma apenas, seria um livro como outros, ou melhor, um conjunto de livros, podendo ser estudada e lida como os outros. Contudo, no que afirmamos acima sobre o papel do Espírito nela, sob a inspiração de Deus ela adquire uma nova dimensão de significado, associando-se com Àquele de quem o Espírito provém, de forma a adquirir um valor que vai além de seu material literário em si. Nela, está verdadeiramente presente e ativo Deus, participando com ela pela ação de Seu Espírito em uma comunhão com aquele que crê, e sua presença real nela é dada àquele que crê por obra do Espírito Santo.

11 de junho de 2009

À Mesa do Senhor



















No dia a que chamamos dia do sol [domingo], nas cidades e nas aldeias, todos os habitantes se reúnem num dado lugar. Lêem-se as memórias dos apóstolos e os escritos dos profetas segundo o tempo de que se dispõe. Quando a leitura termina, aquele que preside toma a palavra para chamar a atenção sobre os ensinamentos recebidos e para exortar ao seu seguimento. Depois levantamo-nos, e em conjunto apresentamos as intenções de oração. Seguidamente traz-se o pão, vinho e a água. O presidente dirige ardentemente ao céu súplicas e ações de graças, e o povo responde com a aclamação “Amen!”, uma palavra hebraica que quer dizer: “Assim seja”.

Chamamos este alimento de eucaristia, e ninguém o pode tomar se não acredita na verdade da nossa doutrina e se não recebeu o banho do batismo para a remissão dos pecados e regeneração. Porque nós não tomamos este alimento como se toma um pão ou uma bebida vulgar. Do mesmo modo que, pela Palavra de Deus, Jesus Cristo nosso Salvador encarnou, tomando carne e sangue para nossa salvação, também o alimento consagrado pelas próprias palavras rezadas e, destinado a alimentar a nossa carne e o nosso sangue para nos transformar, este alimento é a carne e o sangue de Jesus encarnado: esta é a nossa doutrina. Aos apóstolos, nas memórias que nos deixaram, a que chamamos os evangelhos, transmitiram-nos a recomendação que Jesus lhes fez: Tomou o pão, abençoou e disse: “Fazei isto em minha memória; isto é o meu corpo “. De igual modo tomou o cálice, abençoou-o e disse: “Isto é o meu sangue”. E só lhes deu a eles... É no dia do sol que nos reunimos todos, porque este é o primeiro dia, aquele em que Deus para fazer o mundo, separou a matéria das trevas, e ainda o dia em que Jesus Cristo nosso Salvador ressuscitou dos mortos.

São Justino (100-160), filósofo, mártir
Primeira Apologia, 67.66



Tu vais participar da eucaristia? Então, não humilhes teu irmão. Não desprezes o faminto... Quê? Tu fazes memória de Cristo e desprezas o pobre?Tu não ficas horrorizado? Bebeste o Sangue do Senhor e não reconheces teu irmão? Ainda que o tenhas desconhecido antes, deves reconhecê-lo nesta mesa... Tu, que recebeste o pão da vida, não faças obra de morte

São JoãoCrisóstomo (c. 349-407), Pregador e Exegeta



10 de junho de 2009

O Livro de Rute

Fica hoje, na véspera de Corpus Christ, uma dica diferente. A dica é do livro de Rute, que creio falar diretamente ao momento que estamos passando, de crise geoeconômica e conseguinte insegurança, que atravessa várias dimensões de nossa vida além da financeira. E é um livro que fala profundamente à questão da jornada de vida.

Deixo com os leitores de "Cristianismo, meramente" um breve mas excelente estudo, disponível na internet, sobre o livro, contemplando o enfoque da crítica histórica e sociológica, importante para nos situarmos no plano concreto do livro, contando por parte do professor as importantes ressalvas quanto à interferência do paradigma de quem aborda-o; também contemplando um tom de indagação pelo valor como lição de vida, de inspiração para a busca e a grande labuta. É do professor de Antigo Testamento da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista de São Paulo, Tércio Machado Siqueira.

Recomendamos também "Como ler o livro de Rute - Pão, família, terra", de Carlos Mesters.

A história de Rute fora apontada pelo famoso escritor alemão Goethe como protótipo do conto perfeito.

Aqui deixamos uma pérola, extraída do Youtube, sinopse em vídeo do espetáculo "O Balé de Rute", da Cia. Rhema de Teatro e Dança, disponibilizado em formato DVD.

Grandes abraços!

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7 de junho de 2009

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE - parte II


Algo que nunca podemos perder de vista é a consciência sobre o quê, melhor, sobre quem, estamos falando. Falando de Deus. Ouvi uma mensagem de um Reverendo que dizia “se não podemos conhecer as pessoas com quem convivemos direito, nem nós mesmos sabemos nos explicar bem, como queremos explicar de vez Deus”?

Mas isso não é uma “saída pela esquerda”, ao estilo Leão da Montanha.

Estamos falando da Realidade Fundamental, da causa primária, que sustenta a criação e de quem viera a razão de todo o Cosmos vir a ser; estamos falando da Realidade Última, a causa maior, para a qual converge toda a realidade; falamos do “infinitamente básico” e o “infinitamente maior”.

Como o teólogo da tradição ortodoxa Vladimir Lossky acentua, “Sendo anterior a qualquer qualificação - bondade, inteligência, amor, potência, infinidade - em que Deus se manifesta e pode ser conhecido, a Trindade é uma realidade primordial, que não pode estar baseada em nenhuma outra razão que não a de si mesma...A Trindade permanece para nós o Deus absconditus [escondido], o Santo dos Santos da existência divina, ao qual não é lícito levar nenhum 'fogo estranho'".

Portanto, esse espanto, ao experimentarmos uma esfera de conhecimento que extrapole o usual é algo a se esperar. O biólogo Richard Dawkins admite que “ a física moderna nos ensina que a verdade não se limita ao que os nossos olhos podem ver, ou ao que pode ver a limitação da mente humana, desenvolvida como ela foi para dar conta de objetos de tamanho médio movimentando-se a velocidades médias ao longo de distâncias médias na África”.

Por exemplo, temos fenômenos que são parte da natureza, como a “dilatação anômala” da água, essencial para a existência de vida abundante na Terra.

O “princípio da superposição”, em que uma partícula fundamental como os elétrons podem se encontrar em um estado combinado entre “estar cá” e “estar lá”.

A Relatividade Geral que, prevê coisas estranhas como “curvamento do espaço” e “distorção do tempo”.

O “problema da medição” na mecânica quântica: e o “Princípio da Incerteza”.

Os “números surreais” e “números hiperreais” em matemática. Os “atratores estranhos”, “fractais” e “espaços de fase” na teoria do caos. O vôo das abelhas e besouros

Sob esse prisma vejo o quanto atinge diretamente ao alvo a perspicaz observação de C.S.Lewis, no capítulo “A Invasão”, de “Cristianismo Puro e Simples”, "Algumas pessoas forjam uma versão do cristianismo própria para um garoto de seis anos a fazem dela objeto de seus ataques. Quando se procura explicar a doutrina cristã como realmente é professada por um adulto instruído, reclamam que você está querendo mexer com suas cabeças e que é tudo muito complicado. Dizem ainda que se existisse um Deus estão certos de que teria feito da religião algo simples, porque a simplicidade é tão bonita, etc."

No tópico “O Deus Tripessoal”, ele lança ““Hoje em dia, um bom número de pessoas diz: 'Acredito em Deus, mas não num Deus pessoal.' Elas pres sentem que o mistério por trás de todas as coisas deve ser maior que uma pessoa. Os cristãos concordam com isso. Porém, os cristãos são os únicos que oferecem uma idéia de como seria esse ser que está além da personalidade. Todas as outras pessoas, apesar de dizerem que Deus está além da personalidade, na verdade concebem-no como um ser impessoal: melhor dizendo, como algo aquém do pessoal.”

(...) “O nível humano é um nível simples e mais ou menos vazio. Nele, uma pessoa é um ser e duas pessoas são dois seres separados - da mesma forma que, num plano bidimensional como o de uma folha de papel, um quadrado é uma figura e dois quadrados são duas figuras separadas. No nível divino, ainda existem personalidades; nele, porém, as encontramos combinadas de maneiras novas, maneiras que nós, que não vivemos nesse nível, não podemos imaginar. Na dimensão de Deus, por assim dizer, encontramos um Ser que são três pessoas sem deixar de ser um único Ser, da mesma forma que um cubo são seis quadrados sem deixar de ser um único cubo. E claro que não conseguimos conceber plenamente um Ser como esse. Do mesmo modo, se percebêssemos apenas duas dimensões do espaço, não poderíamos jamais imaginar um cubo. Mesmo assim podemos ter dele uma noção vaga. Quando isso acontece, nós conseguimos ter, pela primeira vez na vida, uma idéia positiva, mesmo que tênue, de algo suprapessoal — algo maior que uma pessoa.”

Em “Da Trindade”, Santo Agostinho de Hipona reflete que, à luz da doutrina da Trindade, podemos entender que Deus é amor, pois já experimentara em si mesmo o vínculo e a relação de amor antes de existir qualquer coisa além de Si mesmo. Deus seria uma eterna relação de amor auto-doador. Leonardo Boff desenvolve essa perspectiva em “Santissima Trindade é a Melhor Comunidade”: “ O entrelaçamento das divinas Pessoas faz emergir a intimidade, o aconchego e a expansão da ternura, próprias da felicidade eterna. Esta felicidade é a própria Trindade se mostrando como Trindade de Pessoas distintas na unidade de uma mesma comunhão, de um só amor e de uma única vida, comunicada, recebida e devolvida.” Isso está fundamentado na leitura que os primeiros cristãos empreenderam, com sua ação desvelada na Bíblia no plano da salvação, e manifestando em referências como "Sabedoria"[ Pv. 1.20-23;9.1-6;Jó 28; Sb. 6.12-21; 7.24-11.3; Sirácida 24.1-22], "Palavra de Deus" [Sl.119.89; 147.15-20; Is.55.10-11] e "Espírito"[ Is.42.1-3; Ez.36.16; 37.1-14].

Jurgen Moltmann, incisivamente, formulara uma teologia em que a visão da realidade triúna de Deus seria a luz que iluminaria a reflexão sobre seu envolvimento com o mundo, e sua participação nas lutas e sofrimentos humanos, não como expectador frio, complacente ou julgador real implacável, mas comprometido, partilhando de nossas dores. Desde a criação :

“ Se deixarmos de entender Deus monoteísticamente, como sujeito absoluto, mas o vermos em sentido trinitário como unidade do Pai, do Filho e do Espírito, então já não poderemos conceber o mundo por ele criado como uma relação de dominação unilateral. Somos obrigados a encarar isso como uma intrincada relação de comunidade – muitas camadas, muitas facetas e em muitos níveis.”

Até ao plano redentor para nós, “Se a base central de nosso conhecimento da Trindade é a cruz, na qual o Pai entregou o Filho por nós através do Espírito, então é impossível conceber qualquer Trindade de substância no fundamento original desse evento, em que a cruz e a abnegação não estão presentes. Mesmo a afirmação do Novo Testamento de que “Deus é amor” é o resumo do abandono do Filho através do Pai por nós. Isto não pode ser separado do acontecimento do Gólgota sem se tornar falso“ - no já citado "A Trindade e o Reino de Deus”.


“E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.” Legião Urbana.

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE - parte I


Porque és um só Deus, Triúno, uma só Substância Divina,
subsistindo eternamente como Pai, Filho e Espírito Santo,
digno de adoração, honra e louvor pelos séculos dos séculos.
Prefácio para a Festa da Trindade, do Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana


Hoje a Igreja Cristã comemora a Festa da Trindade.

Realmente, a doutrina trinitária seria um dos princípios teológicos cristãos mais difíceis de serem assimilados, para não-cristãos e muitos cristãos também. Vamos falar a respeito um pouco.

Ao primeiro contato, as pessoas ficam assombradas. O Cristianismo não é essencialmente monoteísta? Não prega que Deus é um, o Eterno, o Absoluto, O Senhor? Então ele fala de três deuses?

A percepção da doutrina da Trindade foi desenvolvida paulatinamente nas comunidades cristãs. Primeiramente, com o reconhecimento de que Jesus Cristo refletia o Pai, estava imbuído da autoridade do Pai, seria o elo entre o ser humano e o Pai, e perfeitamente coadunado com a vontade do Pai. Que sua ressurreição corporal atestava que esteve e está à altura de tal reivindicação. Ele então tinha autoridade para perdoar pecados diretamente, para se dizer assentado à direita do Pai (ou seja, co-regente da Criação ), para dizer que cumprir a Torah não bastava para entrar no Reino de Deus se não houvesse a disposição incondicional de segui-lo (quem a não ser Deus poderia reivindicar tal, de um judeu para os judeus?), que poderia dizer “os antigos [= para os judeus, Moisés, tendo repassado as instruções diretas de Deus]disseram isso...eu porém", e tendo, a partir de sua entrega à crucificação e sua ressurreição, fora vindicado para ser o mediador da Nova Aliança com Deus, ser o próprio Novo Templo de Deus entre os homens, manifestar a Glória [Shekkinah] de Deus e levar a criação e a humanidade à consumação nos propósitos divinos.

Pela reflexão sobre Jesus e o envio do Espírito e o que Cristo referiu como o papel que desempenharia junto ao povo da Nova Aliança, relendo à luz do que as Escrituras Hebraicas mencionam sobre o Espírito, e à luz de suas experiências de culto e adoração, acreditando que o Espírito de Deus os capacitava ao testemunho, impelia-os à comunhão espiritual com Deus e à caminhada rumo à Cristo, se apecerberam que o Espírito Santo era Deus, não “alguma coisa”, provinha de Deus e levava ao alvo: Deus. O apóstolo Paulo profere um preceito cristão vigente em seu período, na Carta aos Romanos, 8.11, de que o Espírito é aquele “que ressuscitou o Filho dentre os mortos”. Em II Coríntios ele despede-se dos cristãos da igreja de Corinto com a saudação “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vós. Amém [Assim Seja]". São Gregório de Nazianzeno, nos meados do século IV, observara que as Escrituras aplicavam ao Espírito todos os atributos e títulos divinos, salvos “aquele que é eterno, que sempre existiu, que não foi gerado”.

Nos meados do século II, o teólogo Santo Irineu de Lyon, sacerdote e escritor, cujo pensamento era totalmente focado em ser fiel ao ensino e continuidade do ministério dos apóstolos, já expressava, na obra Demonstration of the apostolic preaching [Demonstração da pregação apostólica]:

"Deus Pai, que não foi criado, que é indivisível, o único Deus, criador do universo; esse é o primeiro artigo de nossa fé... E o Verbo de Deus, o Filho de Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo...que, na plenitude do tempo, para reunir todas as coisas em si mesmo, tornou-se um ser humano entre os seres humanos, capaz de ser visto e tocado, de destruir a morte, de trazer vida e de restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade. E o Espírito Santo...que na plenitude do tempo, foi derramado de forma inédita sobre a natureza humana para renovar a humanidade, em todo o mundo, aos olhos de Deus."

Os princípios da leitura neotestamentária sobre a Trindade são bem sintetizados por um dos maiores teólogos do século XX e da atualidade, Jurgen Moltmann:

"(...) o Pai ressuscita o Filho, pela força do Espírito; o Pai revela o Filho, pelo Espírito; o Filho é estabelecido como Senhor do poder de Deus, mediante o Espírito”. Desta forma, “o Pai ressuscita o Filho morto, pelo Espírito vivificador; o Pai estabelece o Filho como Senhor do seu reino; o Filho ressuscitado envia o Espírito criador do Pai, que renova céus e terra”. Do livro "Trindade e reino de Deus".

O termo “Trindade”, do latim Trinitas, foi cunhado, juntamente com todo um edifício correspondente de terminologia, por Tertuliano de Cartago no século II., para a sistematização do pensamento, especialmente no escrito "Contra Praxeas", quanto às três pessoas de Deus fundamentadas em uma existência em comum numa substância única.

Mas como pode ser isso? Não seria algo completamente fora de senso? Onde já se viu alegar que Deus é um, mas é três? Seria lógico? Como na música “Índios”, do Renato Russo,
”Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três”.

3 de junho de 2009

Cântico Litúrgico na Abadia de Westminster

Uma linda canção litúrgica em uma cerimônia anglicana na Abadia de Westminster.

O Cântico é "Lord Bless You And Keep You".

O Senhor o abençoe, e te guarde!!

O Senhor te abençoe e te guarde,
O Senhor eleve sobre ti o Seu semblante,
E te dê a paz, e te dê a paz,
O Senhor faça Sua face brilhar sobre ti,
E seja misericordioso para contigo, seja misericordioso,
O Senhor seja misericordioso, misericordioso para contigo.
Amén


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1 de junho de 2009

Acontece em BH

Sábado, dia 05/06, às 15:00hs, haverá uma palestra na capela da Missão Santo Agostinho de Cantuária, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil - IEAB, proferida pelo Rev.Prof. John Kater, professor do Church Divinity School of the Pacific, sediado na diocese da California, e na Universidade de Berkeley. O tema será "Anglicanismo". Uma excelente oportunidade para quem queira conhecer o perfil da Igreja Anglicana, sua maneira de se ver enquanto expressão da Igreja de Cristo, algumas de suas particularidades, espiritualidade e identidade. Também versará sobre desafios do contexto sóciocultural contemporâneo no mundo e algumas perspectivas que a igreja tem para atuar diante deles.

O endereço está na janela (ou link) clicando em "Missão Santo Agostinho". Aproveito e deixo uma explêndido texto sobre a história da Igreja Anglicana, que ultrapassa em muito o que se ensina nas histórias de cursinho pré-vestibular. A autora é a professora Vera Lúcia Simões de Oliveira, do Seminário Teológico Dom Egmont Machado Krischke. Ao abrir a página, clique em "História do Anglicanismo".


Dia 09/06 haverá no auditório do Colégio Santo Agostinho, o "Sempre um Papo" com "Venha Conversar com Leonardo Boff - homenagem aos seus 70 anos", e o lançamento do livro "Leituras Críticas sobre Leonardo Boff", de organização de Juarez Guimarães.Será às 19:30, entrada gratuita, mas limitada à 368 pessoas.