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6 de janeiro de 2013

O Desafio de Bonhoeffer - A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo ( Parte I)

O movimento em direção à autonomia humana (refiro-me à descoberta de leis segundo as quais o mundo vive e dá conta de si mesmo nas áreas da ciência, da sociedade e do Estado, da arte, da ética e da religião) que iniciou por volta do século XIII – não quero entrar na discussão sobre o momento exato – chegou a uma certa completeza na nossa época. O ser humano aprendeu a dar conta de si mesmo em todas as questões importantes sem apelar para a 'hipótese Deus'.
(…)
Assim como no campo científico, também na esfera humana em geral 'Deus' está sendo afastado cada vez mais da vida; ele está perdendo terreno. Ora as visões católica e protestante da história concordam que se deva ver nesse processo a grande apostasia de Deus, de Cristo, e quanto mais elas se valem de Deus e Cristo e os jogam contra esse desenvolvimento, tanto mais este se compreende como anticristão. O mundo que chegou à consciência de si mesmo e de suas leis vitais está a tal ponto seguro de si mesmo que ficamos inquietos com isso. Desvirtuamentos e insucessos não conseguem deixar o mundo inseguro quanto à necessidade de sua caminhada e seu desenvolvimento; (…).
Ora, a apologia cristã reagiu, das mais diversas formas, contra essa segurança de si próprio. Procura-se demonstrar ao mundo que atingiu a maioridade que ele não seria capaz de viver sem o tutor 'Deus'. - Cartas do Cárcere, 6.6.44 - em "Resistência e Submissão"


Essas provocações não são proferidas por um renegado religioso que entrou para a onda pentelha atualmente chamada de “neo-ateísmo”. Foram escritas por um dos grandes nomes da teologia do século XX, Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, que fora morto em campos de concentração nazistas devido à sua luta de desobediência civil contra o Reich, escritas na prisão em 1944 para seu amigo também teólogo Eberhard Bethge; sobre seu comportamento na prisão e sua morte temos não-poucas testemunhas de como se mantinha íntegro em sua fé, irradiando a paz de Cristo.

Desafios que pairaram sobre toda a teologia séria feita desde então. Figura em toda reflexão conscienciosa sobre o futuro da religião cristã no mundo. Muitos grandes nomes repensaram seu teologar a partir delas, e houveram várias tentativas de responder a esses vergalhões: Neo-ortodoxia, Teologia da Cultura, Teologia da Secularização, Teologia da Morte de Deus, Teologia da Esperança, Teologia da Libertação, etc., são algumas elencadas aqui que o espaço não permite destrinchar.

Mas ouso dizer que ainda não se conseguiu levar a cabo um tratamento que tenha dado conta efetivamente da tarefa, diante de todos os fenômenos socioculturais decorridos desde então. Todas tiveram seus condicionamentos momentâneos e tiveram como fraqueza circunscrever estes momentos como se fossem a configuração definitiva. E acabou que foi-se esquecendo... tenho ficado inquieto e busco aqui trazer alguns pontos importantes para justificar que, tanto como nunca, é preciso resgatar a preocupação atinente, sem respostas-prontas, para a ressonância das palavras de Bonhoeffer, sopradas pelo vento impetuoso, no período de transição caótica para o imprevisível que atravessamos.

O que pretendo com isso, portanto, é que Deus não seja introduzido clandestinamente em algum derradeiro lugar secreto, mas que simplesmente se reconheça a maioridade do mundo e do ser humano, que o ser humano não 'seja tornado ruim' na sua mundanalidade, mas que seja confrontado com Deus no seu ponto mais forte (...).
Mais uma vez ficou bem claro para mim que não devemos fazer com que Deus figure como o tapa-furos do nosso conhecimento imperfeito; quando então – e isto acontece forçosamente – os limites do conhecimento deslocam-se cada vez mais para fora, também Deus é deslocado junto com eles e encontra-se assim, num movimento de constante retirada.
(…)
Isso vale também para a relação entre Deus e o conhecimento científico. Mas vale também para as questões humanas gerais da morte, do sofrimento e da culpa. Atualmente, ocorre que também para essas questões há respostas humanas que podem prescindir totalmente de Deus. De fato, pessoas de todas as épocas conseguiram resolver essas questões também sem Deus, e simplesmente não é verdade que só o cristianismo tenha a solução para elas.
(…)
Também neste ponto Deus não é um tapa-furos; tem de ser conhecido não apenas nos limites de nossas possibilidades mas no centro da vida.

Tem sido comum nos depararmos na internet com pesquisas demográficas sobre confissões religiosas; o ponto mais destacado é a diminuição significativa nos últimos anos do número de fiéis religiosos em países com mais altos IDH's [Índice de Desenvolvimento Humano], também, a diminuição à medida em que um país ou região chega de forma mais ampla em índices elevados. A relação entre não-participação religiosa e não-crença não é equivalente nem linear, bem como a não-crença em uma religião sistematizada com a não-crença em alguma realidade transcendente, supranatural ou exotérica. Mas é correlacional e não-discrepante.

O clima de fanatismo aguerrido e de provocações pentelhas em diversos ambientes costuma esculhambar com a análise sóbria e ponderada. Raramente vemos comentários com mínima capacidade de abstração lógica e substancial para abrir caminhos ao pensamento com propriedade, predominando interesses apologéticos (religiosos e antirreligiosos) obtusos, e o embotamento faz brotar pirraças patéticas ao estilo de gritos de torcidas organizadas. O que dificulta o empreendimento de quem não se identifica com os coros.

É patente que não ocorrera um processo de primária e básica apostasia da(s) fé(s) tradicional do recorte (país, nacionalidade, região, etc.), em que se catalizou de uma vez uma explosão da barbárie ao topo de indicadores de desenvolvimento social, como se fosse uma causa-efeito para um “Big-Bang civilizatório”.

Decorre dos dados mensurados que a desvinculação confessional com a religiosidade tradicional se acentua após se chegar a níveis maiores nos índices de renda econômica. Não houvera uma “apostasia” para depois se começar a construir escolas, hospitais, se avultarem empreendimentos econômicos, redes de articulações sociais, inserção mais favorável na cadeia mercantil e divisão internacional do trabalho. É depois desses processos já estarem em maiores níveis que começa a cair, em destaque, o compromisso regular com instituições religiosas.


A religiosidade atua em comunidades e sociedades experimentando privações, de múltiplas maneiras nos pulsos motivacionais das pessoas. Algumas acentuam-se mais. Pode servir de um escape subjetivo para o íntimo diante de uma situação opressora ( opressão para muito além do sentido restrito de coerção política). Refrigério, ou força interior para suportar a pressão e não se entregar ao sentimento de absurdo ou desespero. Pode servir também de acomodação; embora se desconte que, em muitas situações, o indivíduo realmente não tem condições concretas de subverter seu contexto, restando a loucura ou o suicídio. Esperanças transcendentais não necessariamente “alienam”, a pessoa “esquecendo” suas condição e evitando mudar devido a ela; não, as pessoas podem enfrentar a realidade, apesar de algumas batalhas serem inglórias e desesperadoras, considerando que sua resistência não ficará inútil e desperdiçada em vão, mas “contará”. A situação de opróbrio não fica sendo como a condição última e realidade definitiva para dizer quem a pessoa é e a quê foi incondicionalmente destinada.

A partir daí, agentes institucionais de religiões criam condições de trabalhá-la como aglutinador e estabilizador comunitário, social, “nacional”. A religião expande seus papéis e atua como “cimento” para a coesão social e fator simbólico-estruturador para a diferenciação e identidade, mesmo de “sintonização” para o cosmos que é projetado, idealizado e no qual as mentalidades se concebem inseridas e condicionadas. Há efeitos adversos para pessoas e ideias que se considere fator de desagregação e geradores de “caos” quanto a isto.

Sem dúvida, há limites variados para se conseguir cumprir esta “função”. Quando a leitura da vida passa a ser plenamente negativa, o apelo espiritual começa a ser encarado como engodo. A impressão de futilidade e desperdício, de tudo ser estabelecido em um fundamento de maldade e vaidade, cego e surdo a qualquer apelo melhor, passa a criar sim uma revolta quanto a qualquer discurso ou ideia de Sagrado ou Transcendente. A “coesão” começa a ser encarada de fato como artificial e deslegitimada.

O prisioneiro leitor da Bíblia, sobre o qual igualmente contei que, num estado de demência, havia se atirado sobre o major com um tijolo, certamente estava entre os desesperados que perderam todo o resquício de esperança e, como não se pode viver sem esperança, acharam uma saída no martírio espontâneo, quase produzido artificialmente. (…) Quem sabe qual o processo psicológico se passou nele; nenhum ser humano pode existir sem alvo e sem buscar esse alvo. Um ser humano que não tem mais alvo nem esperança muitas vezes se transforma, em virtude do vazio, num monstro... Mas o alvo de todos os presidiários era a liberdade.
 - Do romance “Recordações da Casa dos Mortos”, de Fiódor Dostoiévski.

Podemos situar nisto a famosa e mal compreendida colocação de Marx quanto a religião ser o “ópio” do povo, numa época em que o ópio tinha consideração também de funções medicinais além da entorpecente. Colocação que também, de forma oportunista, costuma aparecer “surecada”:

“O sofrimento religioso é, a um só e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.”


Nos lugares apontados nas pesquisas, as populações chegaram a uma condição de desenvolvimento material mais emancipada ante as precariedades em que viviam seus antepassados, mesmo em comparação com os menos distantes. Uma maior “liberdade” ante as “necessidades” duras de desprendimento de esforço físico e tempo para o mínimo necessário ao sustento material básico. Diversas atividades desgastantes cujos produtos gerados são necessários para manter seu padrão de vida são desenvolvidas e externalizadas em outras localidades e suas condições econômicas lhes permitem aproveitar disso. Muitos povos e países foram inseridos ou se inseriram de maneira mais oportuna nos ciclos e jogos de poder entre impérios, potências, hegemonias e grandes forças econômicas, por diversos fatores estratégicos nos locais e momentos certos.

Assim se permite mesmo às classes médias nestes países usufruírem de aproveitar gozos que, relativamente – ou mesmo não-relativamente – só se era usufruído pelos mais altos extratos das elites mais antigas, mesmo os reis da Antiguidade. E as classes mais baixas terem necessidades atendidas e oportunidades de usufrutos também inimagináveis em qualquer período da história. Mirando para adiante, vêem oportunidades antes inacessíveis, muito o que têm a ganhar; olhando para trás, vêem o quanto têm também a perder, que antes não se tinha. E ao redor, possibilidades de usufrutos e experiências.

Já em primeira instância, a religiosidade não é mais fundamental para conferir coesão social. Essa nova situação engendra outros mecanismos motivacionais de recompensa e fracasso, ambição e marginalização. Imprime-se nas consciências de que estão abertas no horizonte as fronteiras para ganho de status e mais bem-estar, poder e satisfação, usufrutos e conquistas, para a perícia e mérito. Ainda que não esteja aberto para todos, o argumento validador é que está aberto a “qualquer um”, mesmo com necessários ajustamentos periódicos, e sobre isto repousa o equilíbrio – estável ou instável – do sistema.

E neste ponto, encontra-se o fio da navalha das religiões. De força motivacional, passam a ser encaradas como entraves e constrangimentos para as pessoas aproveitarem a pleno alcance as possibilidades que a nova condição econômica, social e cultural lhes abre. Seu “descarte” é facilitado, no interior dos sujeitos, pela autonomia que o cosmos passa a ganhar no sistema simbólico também, que em grande parte, sua estrutura de produção está integrada aos mecanismos de funcionamento regular do sistema. Não significa que os sujeitos não busquem recursos simbólicos motivacionais e estabilizadores para seu ser e estar, buscam e se apegam a alguns, embora muitas vezes a alternativa optada seja cair sim na anomia social ou apatia. Quando não se encontra, o sentimento de desajustamento costuma ser não convivível. Contudo, tais recursos devem ter êxito em se amalgamar com o potencial aberto de demais recursos de vida, disponíveis nas condições em que ele está inserido (ou como ocorre por vezes, há aqueles e aquelas que acabam se encontrando com estímulos e significados em maneiras alternativas de viver que desafiam em pontos cruciais valores de sua sociedade, sendo opções contraculturais em escalas variadas, mas com baixo apelo em escala – e muitas vezes absorvidos e instrumentalizados pelo caráter social do sistema) e alimentem seu modo de vida de sentidos menos imediatos.

Em várias ocasiões, líderes e representantes das religiões tradicionais reagem a este cenário com apelos e discursos retrógrados, buscando formas de causar pânico e recorrer a medos em cenários que acarretem queda no status quo: “dissolução da família tradicional”, o temor de contatos, misturas e um “diluir” sociocultural com pessoas e respectivas culturas “alienígenas” à formação tradicional da sociedade a qual apela; além de apelos à identidade étnica e/ou nacional que pode estar se “dissolvendo”, à perda do reconhecimento mútuo e orgulho tradicional, etc. Nesse caso, o apelante aceita sacrificar o conteúdo último e ontológico do sistema religioso, quando ocorre de causar desconforto em conciliar com tais questões e se remeter a desafios mais profundos, impelindo a buscas de sentido último que não se ajustam ao status quo que se promete e para o qual aponta no apelo feito - em prol de sua função como amálgama e verniz social e legitimador identitário nacional ou étnico.

Vale lembrar que, obviamente, os cenários descritos não se aplicam igualmente em cada e todo os casos passíveis de observação; você verá casos de realidades com pessoas em condições mais pobres generalizadamente, com alto grau de evasão ou baixo grau de adesão religiosa, e realidades com pessoas em condições econômicas mais confortáveis generalizadamente, com alto grau de adesão e prática. Mas são cenários que se aplicam de maneira mais geral e difundida geograficamente.

3 de novembro de 2012

Mensagem para o Domingo de Todos os Santos e Todas as Santas

Leituras Bíblicas

Sirácida 2,1-9
Efésios 1, 15-23
São Lucas 6,20-26.

"Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: Mas o charco do irmão mais novo se transformou em um oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa:'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Passado sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu filho sem juízo montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar as desgraças: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá' o pai o repetiu. Passado poucos dias, vieram os soldados o rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada, os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Assim termina a história, sem fim e com reticências (...) Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la, é como se contasse a estória de minha vida.

Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja a condenação final. As vitórias se desfazem como castelos atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. 'Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá'. "

em "As Melhores Crônicas de Rubem Alves", pg. 82

TEMA: O “Ainda Não” como motivo de viver o “Agora”

Incerteza inerente à vida. O risco do qual não se tem como fugir. Tentação de renegar a fé, de não suportar nenhuma dor ou mau em nome do bem, em “jogar o jogo” para ser bem estabelecido no mundo. Não temos garantias. Viver a virtude agora não oferece nenhum penhor de que aqui seremos bem-sucedidos ou estamos livre de quaisquer desgraças.

Então, pra quê perseverar? Pra quê arriscar? Nossas decepções e frustrações não nos dão as devidas desculpas para sermos condescendentes, e de consciência limpa, buscarmos “levar vantagem em tudo”, porque afinal, não faz sentido nos expormos a “fracassarmos” aqui?

Definitivamente, os padrões do chamado cristão, do sentido de viver chamado por Jesus, não são as chaves do sucesso aqui; a cruz, foi o exemplo de maior, fraqueza, humilhação e derrota para aquele mundo. Para um cidadão romano, só era utilizada caso fosse culpado de uma nojenta traição à pátria e servia para dizer que chegara ao extremo da vergonha. Era o castigo apropriado para escravos revoltosos, o serville suplicium.

Por isso o cristianismo tem sido alvo de ataques ao longo da história, como uma religião de fracos. Que usam a desculpa da esperança no porvir para aceitar fracassos do agora.

Essa acusação não esteve presente apenas no mundo moderno, embora tenha ganhado frequência nele com suas promessas de que o progresso da humanidade é inevitável.

Um grafite anti-cristão do segundo século de Roma, bem conhecido entre os historiadores que estudam o período, mostra um homem crucificado grosseiramente elaborado, com uma cabeça de burro, em que está uma figura humana, e sob este um escárnio rabiscado: "Alexamenos adora o seu Deus" [Alexamenos sebetai ton theon].

Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é insignificante e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é.  I Coríntios, 1, 27-28.

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No mundo dos inícios do cristianismo, a convicção geral das pessoas era de que toda a existência era regida e movida pela força do Destino. Se remetia sua expressão às estrelas, e ninguém escaparia dele. Nem os deuses estavam a altura do Destino. Muito da busca da sabedoria, seja mística, religiosa, filosófica, se dava em entender o destino saber aproveitá-lo o possível.

É estranho revisitarmos a história e pensar nestes termos. Muitas vezes parece que está certo. Coisas e situações costumam se repetir, com leves mudanças que só realçam os pontos em comum. Parece que não conseguimos escapar de certos padrões. Por outro lado, por diversas vezes se percebeu que o mundo estava seguindo uma tendência, todos julgavam tudo no mundo, as pessoas, ideias, crenças, comportamentos, enquanto utilidade ou obstáculo haveria de proporcionar para essa tendência. Achou-se ter captado a sintonia da realidade. Por diversas vezes na vida também é assim. Seja para o bem ou para o mal, enxergamos um horizonte como se fosse apenas uma linha de consequência em que desaguou o curso do rio que achamos estar a nado nele, derivado de uma leitura que fazemos da situação.

Até que vem o inesperado e sacode tudo. Aí, a história já começa a parecer um bêbado andando e trupicando, fazendo troça de tudo. Parece que tem alguém brincando com nossa vida.

Vamos continuar sempre ouvindo um caso sobre “progresso da humanidade”. E quanta coisa, quantas vidas já fora sacrificadas em nome disso? Seja para ajudar, acelerar o progresso, ou não atrapalhar. Contudo, por diversas vezes, as guerras mais monstruosas vieram depois de períodos de grande otimismo e louvor pelos tratados de paz, como a Guerra dos Trinta Anos, na Europa, depois do Tratado de Paz de Westfalia, quando todos achavam que finalmente o caos do mundo iria se consertar.

Reluta-se a admitir que a transitoriedade, que o fato de que vivemos uma realidade sempre transitória, passageira, faz com que não possamos dizer que em algum momento teremos um cenário para o qual apontaremos e diremos “é assim que as coisas são”. Não vivemos numa existência marcada pela estabilidade, embora ansiamos e buscamos trazê-la à força. Remédios, exercícios, livros, conselhos, buscas e fugas, fugindo da incerteza e querendo uma estabilidade para firmar os passos, deitarmos, estarmos seguros.

Mas qualquer segurança neste mundo é frágil. Como a imagem de uma areia que se querermos apertar as mãos, ela escorre. Por isto São Paulo escreveu, em I Coríntios 15, 19: “Se pusermos nossa esperança em Cristo somente para esta vida, somos as pessoas mais dignas de piedade”.

Por isto a crença na vida eterna. No caso da fé cristã, a crença na renovação do Universo, numa Nova Criação, em que tomaremos parte na sua nova realidade, não sujeita mais à decomposição, ressurretos. Nossa fé na ressurreição que participaremos juntos com toda a Criação de Deus.

Não é de forma alguma uma crença para alienar e tornar covarde as pessoas. Muito pelo contrário. É a única esperança de que podemos desafiar o absurdo, na vida, na história, e não ficaremos frustrados. Diversas pessoas lutaram contra atrocidades, males, injustiças, e não viram resultado algum. Diversas pessoas tentaram, em sua vida, não pagar o mal com o mal, abrir mão de um certo sucesso e prestígio não vendendo a alma para tal, não caindo em jogos sórdidos, e pelas aparências do mundo, ficaram frustradas enquanto outras chegaram ao topo. Diversas pessoas se pautaram pela justiça, amor, integridade, por servir ao próximo, por não buscar saciar o anseio de dominação sobre o outro, e o veredito que o mundo deu foi: fracasso. Fraqueza. Estupidez. Loucura. Não vale a pena! Não vale a pena!

Muito além então de ser um apelo alienante, para as pessoas se resignarem com os augúrios e males da vida e do mundo, esperando pelo “Céu” - a Redenção e Reconciliação da Existência com Deus no Renovar dos Tempos - serve de motivação para independente do que for, podermos não nos entregarmos a isto, não caracterizarmos nenhuma condição atual como definitiva, pois Deus não deixará nada perdido, esgotado, desperdiçado mas a coragem de não se entregar e se definir pela lógica do mundo, e todos os atos de amor machucados pelo desamor, serão matérias-primas para a construção da Verdadeira Realidade Eterna, por parte do próprio Deus. Nada será desperdiçado ou em vão.

Sem esse olhar da eternidade, essa é a realidade crua. É muita bobagem querer disfarçar dizendo que a luta dessas pessoas não se perdeu, continua viva em não sei onde. Não. Porque ninguém sabe se a qualquer momento, tudo vai se frustrar. Não se tem garantia de que tudo não será em vão. E a pessoa não está ciente de nada se está na memória de não sei quem. Não está vendo, sentindo, nada. E para tantas pessoas que são lembradas, muito mais caíram no limbo do esquecimento. Outras tantas foram traídas. E quem busca continuar o legado delas, pode também morrer a qualquer momento. Até mesmo a daqui a pouco.


Por que nos expomos continuamente ao perigo? Dia após dia estou morrendo. Juro, irmãos, pelo orgulho que sinto de vós diante de Cristo Jesus Senhor nosso. Se por motivos humanos lutei com as feras em Éfeso, de que me serviu? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. I Co. 15, 30-32.

Jesus, com as bem-aventuranças, está revertendo, pondo de cabeça-para-baixo os valores consagrados, “normais”, aqui na sociedade terrena. Em comparação ao projeto de Deus para seu Cosmo renovado, estamos numa era “torta”, em um mundo “torto”; e os valores norteadores deste projeto divino, atualmente, são “tortos” para este mundo. Bonitinhos e gostosinhos às vezes para se sentir no fundo do peito ou na ponta da colher, mas não para pautar a “vida real”. A esperança cristã manifestada em Jesus Cristo é que a vida, a existência, e estes valores finalmente se “ajustarão” na ressurreição, e então, não hão de cair no Nada, não estarão perdidos para sempre, todos os atos de desafio ao mundo feitos pela mais humilde e esquecida figura humana. Se converterão em fôlego de vida, um fôlego que não se acaba, alimentados por uma chama que não se apaga, a que criou a primeira fagulha do primeiro sol, a energia do Espírito de Deus.


Este Espírito vem com amor e graça entrar em comunhão com a gente, nos chamando a Si, já no agora. E cremos estar presentes aqui. É nessa comunhão com Ele que nos unimos hoje aos Santos e Santas de Deus na história, os de dentro da Igreja, e os de fora da Igreja, incluindo aqueles que só Deus conhece. Na compreensão da tradição anglicana, comemoramos e prestamos homenagem e deferência aos Santos e Santas, não como pessoas dotadas de um poder especial para intermediar entre nós e o Sagrado, nem para operar feitos miraculosos. Mas como exemplos de pessoas que foram pecadores e pecadoras como nós, imperfeitos, falhos, mas cuja vida teve um peso, significado ou papel edificador importante para a história da igreja ou para o testemunho cristão no mundo, glorificando Deus e servindo para fazer seu Reinado mais presente no mundo.

Que esta reflexão seja trabalhada pelo Espírito, para que em Cristo, nenhum feito ou testemunho destes irmãos e irmãs, seja em vão. Honremo-los.

2 de setembro de 2012

Escapismo, Batalha e as Trevas do Ar

Finalmente, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti a armadura de Deus para poder resistires às insídias do diabo. Pois não lutais contra carne e sangue, mas contra as Autoridades, contra os Soberanos, contra os Dominadores das trevas deste mundo, contra os espíritos do mal que povoam o ar. Portanto, tomai as armaduras de Deus, para poderem resistir no dia mau e saírem firmes de todo o combate. Cingi os rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça, calçai as sandálias com o zelo para com o evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual se apagarão as lanças inflamadas do Mal. Tomai o capacete da salvação e espada do Espírito, que é a palavra de Deus.

Permanentes na oração e súplica, orai constantemente no Espírito; para isso, vigiai com toda a perseverança, rezando por todos os consagrados.
Efésios, 6,10-20

Há um tempo em que a maioria dos especialistas técnicos considera que o autor do livro “Aos Efésios”, do Novo Testamento, não é o apóstolo Paulo. Não temos uma explicação de consenso ainda a respeito desta autoria. Minha posição é de que seus discípulos, seja ainda com o apóstolo em vida, autorizando, seja após sua morte, retrabalharam a Epístola aos Colossenses, para aplicá-la, da especificidade desta comunidade, para a Ásia Menor em geral considerando a pertinência da sua pauta para as igrejas da região. Daí o enfoque dela, menos cristológico, ou seja, uma ênfase menor sobre a natureza universal de Cristo, para mudar as ênfases eclesiológicas, de igrejas locais para a natureza universal da Igreja de Cristo.

Ele é profundamente marcado por traços do imaginário intelectual apocalíptico judaico, depositário de heranças como constante no Livro de Ezequiel, Joel, Daniel, etc. Nesta tradição, se ressaltava as Forças do Mal como figuras e poderes cósmicos, atuando nos sistemas sociais humanos, disputando o controle e destino final da História.

Mais cedo neste livro neotestamentário, no primeiro capítulo, versículos 19-20, fala-se do Poder de Deus operando na história, através de Cristo, suplantando as forças diabólicas através da sua Ressurreição, completando o desfecho da história com a consumação de Seu Reinado em uma Terra transformada.

O psicólogo social Eric Fromm cunhou o conceito de “caráter social” para assinalar a energia psícossomática canalizada nos contornos dos padrões que um sistema social requer para funcionar. Nosso sistema histórico hoje tem como eixo a acumulação autorreplicante de capital... “acumulai, acumulai, assim dizem a Lei e os Profetas” (Karl Marx)... O lucro efetivamente capitalista é o lucro extraordinário, situado num patamar acima da média do mercado. Rompe com qualquer limite ou constrangimento. O indivíduo, para o sistema, existe em função do quanto contribui para maximizar, para a regularidade e inexorabilidade disto, os que falham são deixados para trás e existe uma rede de artifícios para fazê-lo se sentir inferiorizado e descartável. Este dínamo impulsona as pessoas e gera cargas simbólicas e psicológicas que influenciam o comportamento, tendendo a aumentar o egoísmo implacável, a ardilosidade, trapaça, desconfiança e falta de amor; “naturaliza” isto. Está por traz de todos os processos que sustentam este sistema. Por vezes, parece ter vontade própria, consciência, sabendo aprender, recuar, contra-atacar... Sua fome é insaciável.

Sem disciplina espiritual, oração e silêncio, silêncio e escuta, sem uma certa “ritualidade do Sagrado” - não mecânica – de forma a nos organizar na integralidade do nosso ser, para abrirmo-nos e entregarmo-nos, sermos preenchidos e impulsionados pela e para ação da Força do Bem Maior, que provém da vontade de Deus, nossa luta no mundo é um “bater-cabeças”. E o mal pode até este nosso pugnar contra nós mesmos, pois por fora nos faremos de idealistas, “pessoas boas”, virtuosas, porque cumprimos os códigos, proferimo-los; os jargões de quem contende pelo bem, mascarando e cuidando das maldades que brotam em nosso interior. Escapando de enfrentá-las.

Escapismo...que palavra galhofeira!

"Não derrame lágrimas", por Denis Peterson

Dizem que devemos deixar de lado fantasias e imaginação, porque são coisas escapistas, e costumamos ler ou ouvir que as artes, as artes devem nos “trazer para” a vida real, ou “falar da vida real”, ou “re-tratar a" vida real; se chega a estabelecer como parâmetro de qualidade o quão “fiel à vida real” se consegue ser... “Vida real”...o que que é isto? Nossas funções orgânicas, o que se processa entre os glúons, quarks e léptons? Como tudo isso se encadeia no conjunto total?

A discussão política, ou da “vida”, nossos temas “concretos”, às vezes servem de escapismo pra conta que tem de se pagar, pro perdão que se deixou de pedir, de dar...pros defeitos que apontamos nos outros para escapar dos nossos. Nossas manifestações humanitárias não servem de escapismo para os modos como agimos de forma rude com aquela pessoa?.. Nossos motes e jargões religiosos e antirreligiosos, ideológicos, nossas “compaixões”, não são escapismos das vergonhas que sentimos de muitas nossas ações, nossas frustrações, para as quais buscamos esses escapismos pra nos convencer que no fundo somos “pessoas boas” e nos darmos todas as licenças ao sabor de nossos caprichos?

…

Influenciado pelo mestre Paulo, o (s) discípulo (s) autor (es) emprega o estilo retórico dos filósofos de moral; costumavam explanar sobre os conflitos para se viver uma vida de virtude como uma competição esportiva ou uma guerra. As imagens: o preparo dos soldados e a formação das brigadas do exército romano. Cinturão: protegia o ventre. Couraça: protegia o peito. Capacete, obviamente a cabeça. Sandálias: proteção dos pés para poder marchar firme e compassado. Escudo: protegia contra os dardos.

Para a eficácia verdadeira, se formava um bloco fechado de soldados. A espada era empregada na luga frontal com o inimigo. Assim, a mensagem e o espírito do Evangelho é o que o cristão tem para manejar quando confrontado frente a frente com os poderes do caos, absurdo, exploração, crueldade... agindo sobre as pessoas e pelo sistema. Alude-se ao “Evangelium de César”, as “boas-novas” que eram proclamadas à frente da procissão pomposa que vinha do Imperador saudando uma conquista bélica de um território. Aqui, é o Evangelho da Paz, de Jesus Cristo, em desafio franco e aberto.

A oração de uns pelos outros... Um soldado só, é vulnerável. Ele abre a guarda do grupamento. O exército coeso não se conseguia deter. As portas do inferno não prevalecem sobre ele. Cada assessório mencionado, maneado em conjunto, cobria o pelotão e o permitia avançar. Os cristãos se unem e se cobrem orando uns pelos outros, porque não se deixa assim a união espiritual ante os ataques do cotidiano que pode fazer os momentos mais vívidos de fé íntima esvanecerem. Persistir.

Um dos meus maiores constrangimentos em orar costuma ser em não me achar bom o suficiente, vindo à tona que encontro em mim sentimentos de que o momento de oração logo se torna desagradável, vem a mim todas minhas motivações diversas que são harmoniosas com os valores e propagandas deste sistema que o Evangelho condena. Mas o escritor de Efésios pede que o próprio Espírito de Deus seja o Suscitador da oração. “Pois, embora a consciência nos acuse, Deus é maior que a nossa consciência e tudo conhece”. Não se manifestar em mim ainda aquilo a que Deus sonhou para mim, e ousar dobrar meus joelhos para Cristo, não é escapismo. E encontro. Destes encontros vêm a vitória de Deus contra o mal em mim, e no meu mundo. O mistério do Evangelho.

17 de agosto de 2012

Quem é o vencedor? Quem é o vencido? "Cristianismo" x Cristianismo

Certo dia, quando íamos para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem escrava que tinha um “espírito de Píton”; ela dava para seus patrões muito lucro, emitindo oráculos. Começou a seguir-nos, a Paulo e a nós, clamando: 'estes homens são servos do Deus Altíssmo, vos anunciam um caminho de salvação'. Isto ela o fez por vários dias. Fatigado com aquilo, Paulo voltou-se para o espírito, dizendo: 'Em nome de Jesus Cristo, ordeno que te retires dela!' E na mesma hora o espírito saiu.
Vendo seus patrões desaparecer a esperança de seus lucros, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram até a praça pública – a Ágora -, à presença dos magistrados. Apresentando-os aos estrategos, disseram: ' Estes homens estão perturbando nossa cidade; são judeus e anunciam costumes que não nos é lícito acolher nem praticar, nós que somos romanos”. Amotinando a multidão contra eles, os estrategos depois de mandarem arrancar-lhes as vestes, ordenaram que fossem espancados com varas. Depois de lhes infligirem muitos golpes, lançaram-nos à prisão, recomendando ao carcereiro que os vigiasse com cuidado.
Atos 16, 16-23




Tem ficado cada vez mais escancarado o quanto muitos manipulam a fé cristã, não se contentando em apenas tratá-a como simples mercadoria, mas como uma ferramenta de dominação psico-econômica. Pisa-se e ataca-se os sofrimentos, angústias, aspirações das pessoas, enquanto lhes transformam em nacos de uma massa de um bolo de estelionato. “Apóstolos” e congêneres arrogam ter um poder especial sobre forças espirituais que os atendem e podem produzir milagres em massa para solucionar os problemas, em troca requerem poder na engrenagem econômica de um sistema de lógica exploradora. Por outro lado, as pessoas se submetem a esquemas mesquinhos, justificam-lhes, caçam jargões para os justificar. Em nome de serem “bem-estabelecidas” no mesmo sistema. E o cristianismo é instrumentalizado pelas forças as quais nasceu se opondo.

Tomemos um episódio especial dos registros das origens cristãs que iluminam como a lógica essencial da fé cristã é diametralmente oposta a estes apelos estelionatários, como na verdade nasceu com um norte subversivo e julgado extremamente perigoso para o “caldo religioso” do sistema.

O cenário para essa narrativa é cuidadosamente preparado por Lucas para apresentar o contexto maior na aproximação e primeiros contatos com a fé cristã emergente e o sistema religioso do Império ( que seja mais apropriado focar o sistema religioso do Império, ao invés de ser as religiões em si, veremos adiante como se justifica).

Nessa narrativa, o escritor não nomeia a mulher, como o faz com as mulheres de suas narrativas habituais. Pois ela não fala por si mesma. Ela tinha um “espírito de Píton”, a serpente mitológica que nas tradições em torno do Oráculo de Delfos, fora derrotada pelo deus Apolo (conforme transmitido pelos escritores Ésquilo e Plutarco). Píton e todo o seu sistema cultual a controla para dar lucro aos seus senhores. Ela é um canal do mecanismo de acumulação deles, um instrumento e objeto de tal. E isto lhe roubara a identidade.

A tradição remontada ao Oráculo de Delfos o aponta como um centro religioso em que se buscava respostas e soluções práticas para as vicissitudes da vida com augúrios. Se contava com o bom agouro da profecia, palavras garantindo que tudo vai dar certo; cumprindo-se protocolos para agradar ao deus, esperava-se que fosse garantida mais estabilidade, previsibilidade e segurança para a existência. “Ora Apolo intervém sob a forma corporal do próprio deus, ora concede ao espírito de algumas criaturas humanas conhecer a sua própria vontade” (Plutarco, “Sobre o desaparecimento dos oráculos”, IX, 26). O oráculo interpretava a ordem do mundo e o sistema religioso ofertava uma relação em que a pessoa trabalhava em cima de supostos mecanismos de regência da “ordem” do mundo. E utilizava-o às suas conveniências.

A escrava “vende” o produto de seus patrões aos seus clientes, e aqueles ficam com os frutos. A questão monetária é mencionada cedo com sutil ênfase por Lucas. Primeiramente o mercadológico, enfatizando que a dimensão religiosa é eminentemente funcional para aquele.

A primeira vista pareceria que os missionários poderiam se servir deste sistema econômicorreligioso. Parece que ela estava sendo arauto deles. Mas não. Os proclamando como servidores do “Deus Altíssimo”, seria naquele ambiente como dizer que eram também alguém parte deste sistema, em nome de “Zeus-Hyposistos”, o Deus Altíssimo cultuado em diversos lugares, e seria uma evocação de uma fórmula mágica; soaria como “são dos nossos”. A ação deles que ela designa, como anunciando caminho de salvação, estaria embebida perfeitamente nas apresentações de iniciações de cultos esotéricos. Eles poderiam ter tirado proveito, de maneira utilitária, de um sistema bem firmado e sucedido.

Mas não; rejeitam a lógica. Peremptoriamente deslegitimam que sua missão se utilize desta forma de exploração religiosa. A divindade que anunciam não é inofensiva. O caminho até ela não é inofensivo para o sistema. Toleram por dias a repetição e dão a compreender que não chegam a priori com uma guerra aberta. Mas não dão corda. Não têm parte.

Paulo confrontara não a escrava, a parte mais frágil do elo, mas a própria força da cadeia de dominação. E sua espiritualidade se manifesta gratuitamente, diretamente em propiciar, primeiro como consequência, que a escrava seja ela mesma. E a “fraqueza” vencera a “força”. Não se conta que ela seguira os cristãos. Mas ela não era mais dominada, nem pelo sistema, nem pelos patrões. Teria sua liberdade interior. Mostraram o que para eles era seria “salvação”. O poder espiritual deles sobre ela não tinha mais eficácia. O sistema havia sido confrontado por uma contra-cultura.

E o que era “estes homens são servidores do Deus Altíssimo” na boca da “propriedade” dos patrões, passa a ser “ estes homens estão perturbando”; o que era “eles vos anunciam um caminho de salvação” passa a ser “anunciam costumes [ ethos – modo de ser e viver] que não são lícitos a nós”. Ameaçou-se seu “orgulho nacional”. Os senhores viram que findara a “esperança de seus lucros”. A vida da escrava não contava. Nem mesmo a divindade e a religião em si não era o centro. Eram apenas o que lhes propiciavam lucros.

E o grande sinal: apresentaram os missionários aos magistrados, acusando-lhes do ponto mais nevrálgico do que tinha se passado: desestabilizar a ordem. Poderiam ter frisado a questão econômica, dentro do que as leis versavam. A “Lei Aquileia” versava sobre danos à atividade econômica, pedindo contas à justiça; a “Lei das Doze Tábuas” falava do emprego de forças sobrenaturais para causar prejuízo à propriedade de alguém (o que um escravo era naquele regime). Mas vão além, ao mais básico, ao mais radical, ao mais profundo: a subversão. E o perigo do “proselitismo” era que isso pudesse contaminar a população e se espalhar. O status quo da organização econômica estaria em perigo. Não era apenas um caso de relações privadas, mas um fato político. As estruturas estavam em perigo. Este era o poder do nome de Cristo.

O que poderia ser uma exposição para alimentar um chauvinismo religioso aqui, muda de figura quando se convoca à reflexão: o “rosto” predominante da apresentação dos discursos dotados de símbolos cristãos hoje, na sociedade, incorporam que lado? As mega-igrejas e as instituições econômicas de cobertura religiosa cristã têm hoje tomado o papel do sistema aí representado envolvendo o Oráculo e o Espírito de Píton, com seus senhores, escravos, clientes querendo garantias contra os riscos da vida. E reproduzem o caráter social, a canalização de nossa energia e vontade para uma lógica dada, bem como o apelo simbólico fetichista, do nosso sistema econômico. As pessoas sacrificam sua integridade, sua auto-expressão, e os “manipuladores do discurso divino” se alimentam de suas carências e medos. Mudaram apenas os nomes dos símbolos, mas os códigos subjacentes permanecem. Irônica e tragicamente. E sempre a mesma prontidão contra os mesmos que ousarem fazer o que os missionários fizeram, deixando os “escravos” emancipados do controle de sua alma. Deve-se ter cuidado com estes.

Lembrando o poeta Horácio, “os vencidos conquistaram os vencedores” ?

1 de agosto de 2012

Acontece em Goiânia


11 de julho de 2012

Nem alforje, nem dinheiro ao cinto

E ele percorria os povoados circunvizinhos, ensinando. Chamou a si os Doze e começou a enviá-los dois a dois. E deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. Recomendou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado apenas; nem pão, nem alforje, nem dinheiro ao cinto. Mas que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E dizia-lhes: “Onde quer que entreis numa casa, nela permanecei até vos retirardes do lugar. E se algum lugar não vos receber nem vos quiser ouvir ao partirdes de lá, sacudi o pó de debaixo dos vossos pés em testemunho contra eles”. Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo.


Diferente de muitos líderes carismáticos e formadores de grupos religiosos, Jesus não parecia ter um ministério marcado por um apelo a se apartar da sociedade e da vida do povo; parecia se envolver e adentrar nas comunidades e relacionar sua mensagem com a vida delas.

O cenário retratado pelo evangelista Marcos acentua isto bastante. Ele situa essa passagem logo após narrar a rejeição do Mestre em sua região. Ainda assim, não sucumbe à tendência de dar, a partir disso, um direcionamento à sua proclamação para um sentido de apartamento do mundo social dos aldeões... antes ele permanece percorrendo e ministrando nos povoados, e a atribuição aos seus discípulos para fazer o mesmo, no mesmo caráter.

Os Doze. Jesus não selecionou doze discípulos priores à toa; sem dúvida passava o entendimento de remontar ao povo de Israel unido; ao Israel idealizado; remetiam às doze tribos das origens do povo de seu Deus. Mas a ênfase de Jesus não seria a nostalgia do passado; mas à perspectiva do futuro, à restauração do povo, restauração com a terra, restauração consigo mesmos, restauração com Deus.

E muito importante quando Marcos coloca que a estes Doze ele lhes outorgou poder. A questão passa a ser como ele lhes incumbira de exercer este poder...

Primeiramente, são chamados a associarem sua missão com a vida as comunidades, e não se apartarem num tipo de “esnobismo espiritual” delas. Também, são chamados a se despojarem e dependerem totalmente de Deus.

Não tinham reservas de sustento: não levavam suprimentos, não podiam usa a comum túnica sobre-capa, a qual era cusual como cobertor, colcha de cama, na falta de pousada para a noite. Apenas uma túnca. Tinham que contar que Deus iria providenciar. Não poderiam mendigar, não usando as bolsas que os mendigos usavam. Aceitar o pouso que lhes oferecessem, a comida que lhes dessem, sem ter a opção de migrarem para as casas mais confortáveis nos povoados caso lhes oferecessem no decorrer da estadia. E em caso de rejeição, deixarem a causa por conta de Deus, para ele acertar as contas com as pessoas, não levando consigo a mágoa e rancor...sacudir a poeira e deixar as pessoas com suas responsabilidades.

Marcos, diferente de Mateus 10.9, diz que os discípulos poderiam usar um bordão. Talvez porque a combinação deste com as sandálias remetesse à imagem do êxodo do Egito – Ex. 12.11 – ou porque Mateus os quis diferenciar de outros grupos de pregadores itinerantes.

Marcos chama a nossa atenção para a associação entre a mensagem de arrependimento com a expulsão dos demônios e cura. É como se quisesse mostrar que para o caráter da missão de Jesus, estavam mesmo interligados. O arrependimento, a restauração, a derrota do mal e o sanar. Realmente, causamos muitos males a nós mesmos, de cunho psicológico e físico, com nossas culpas que carregamos; também com as ações más, que reverte-se em nós, ou que deformam nossa imagem e semelhança de Deus. Quebramos nossas resistências e tendemos a entrar numa espiral viciosa de degradação interior ou exterior, que não se retrai; apenas pode ser quebrada; este é o papel da confissão e do arrependimento.

Marcos continua nos conduzindo a esta apresentação do comissionamento de Cristo. Nos transporta a seguir para um cenário contrastante, com o fausto e perversão da corte herodiana, e dela para a morte de João Batista, como que indicar realmente que este discipulado tem um preço, e que não é algo, digamos, “romântico”, mas um embate mortífero com as forças contrárias...

26 de novembro de 2011

A Fraqueza - de Paulo e nossa

por Richard Bauckham

A carta de 2 Coríntios por muito tempo pareceu-me um dos documentos mais impressionantes do cristianismo primitivo. Quando eu preciso me lembrar que a mensagem cristã é convincente - ainda convincente hoje, apesar de nossas grandes distância cultural e cronológica de suas cronológica no primeiro século- dirijo-me tão prontamente a 2 Coríntios como eu faço com os evangelhos, e não lembro de não ficar impressionado. A chave para isto tão impressivo que eu encontro em 2 Coríntios nos dá uma visão sobre a maneira como Paulo integrou sua mensagem e sua vida.

Notável como as exposições de Paulo de sua mensagem são, em Romanos e Gálatas, encontro-me a necessidade também de ver, em 2 Coríntios, como Paulo viveu essa mensagem. Um leitor crítico de Paulo pode se perguntar se uma mensagem como exclusivamente concentrada na morte e ressurreição de Jesus tal qual o evangelho de Paulo foi, realmente pode ter o poder de interpretar e dirigir experiência de um homem real em uma forma de vida em crescimento. 2 Coríntios mostra como no exemplo do próprio Paulo o fez.

Notável como as exposições de Paulo de sua mensagem são, em Romanos e Gálatas, encontro-me a necessidade também de ver, em 2 Coríntios, como Paulo viveu essa mensagem. Um leitor crítico de Paulo pode se perguntar se uma mensagem como exclusivamente concentrada na morte e ressurreição de Jesus tal qual o evangelho de Paulo foi, realmente pode ter o poder de interpretar e dirigir experiência de um homem real em uma forma de vida em crescimento. 2 Coríntios mostra como no exemplo do próprio Paulo o fez.
Dizer que a reflexão autobiográfica de Paulo em 2 Coríntios é impressionante pode ser um pouco paradoxal, porque a obsessão de Paulo nesta carta é com a forma como ele é inexpressivo, ou pelo menos com o fato de que a única coisa impressionante sobre ele é a sua fraqueza. Nesta apologia divagadora para sua vida e obra como um apóstolo, a fraqueza de Paulo é o tema recorrente. No capítulo 4, por exemplo, Paulo escreve sobre a glória de Deus revelada no evangelho e de sua própria chamada para ser ministro desse evangelho, quando a glória de Deus em Cristo brilhou em seu coração (4, 6). Mas o pensamento da glória e do poder do Evangelho que lhe foi confiado imediatamente, ao contrário, sugere o pensamento de sua própria fragilidade: "Temos este tesouro em vasos de barro» (4, 7).

A panela de barro é tanto uma forma muito comum e um recipiente muito frágil para o tesouro. O que torna esse tema de fraqueza do apóstolo tão envolvente e intrigante é que Paulo está pelo menos pedindo desculpas para ele ou mencionando-o apenas por uma questão de honestidade. Nos capítulos 11-12 (com ironia deliberada, é claro) Paul se orgulha de que, como precisamente a qualificação que valida a sua pretensão de ser um apóstolo de Cristo. Ele cataloga seus sofrimentos (11: 23-33), não como provações heróicas, mas como evidência de como o seu ministério foi marcado pela fragilidade física e psicológica de um ser humano comum, terminando o catálogo com uma memória vívida da ocasião ignominiosa quando ele teve que fugir para salvar sua vida a partir de Damasco, a ser baixado em uma cesta da muralha da cidade (11: 32-33).

Esta fraqueza de Paulo foi a ocasião para o poder de Deus para ser ativo e evidente em seu ministério: "Temos este tesouro em vasos de barro, para mostrar que o poder transcendente pertence a Deus e não para nós» (4, 7); Eu estarei ainda mais contente de me orgulhar de minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim "(12: 9). O poder de Deus evidente no ministério de Paulo, sobretudo no efeito transformador do Evangelho que ele pregava, podia ser visto não haver realização meramente humana de Paulo, mas o poder divino que encontrou sua oportunidade na fraqueza de Paulo. Em sua fraqueza Paulo foi obrigado a confiar em Deus e seus convertidos a reconhecer Deus.

Alguns leitores modernos podem começar a se sentir desconfortáveis com esse tema paulino de fraqueza do apóstolo e do poder de Deus. Alguém pode lembrar famosa passagem de Bonhoeffer sobre a religião que explora a fraqueza humana

Pessoas religiosas falam de Deus, quando o conhecimento humano ... Chegou ao fim, ou quando os recursos humanos falham - na verdade é sempre o deus ex machina que eles trazem para a cena, seja para a solução aparente de problemas insolúveis, ou como força em falha humana - sempre, isto é, dizer, explorando a fraqueza humana ou limites humanos .... Gostaria de falar de Deus não nos limites, mas no centro, e não nas fraquezas, mas em força. [1]

Que pode, à primeira vista, parecer uma rejeição direta da idéia de Paulo. É o Deus de Paulo para ser encontrado apenas no final ose recursos humanos, quando a força humana se esgota?

Ou pode-se pensar que Paulo é vítima da crítica incisiva de Dorothee Soelle do masoquismo (como ela chama), a atitude que exige disposição de sofrer porque o sofrimento demonstra a impotência humana em contraste com a onipotência de Deus.

"O sofrimento está lá para quebrar o nosso orgulho, demonstrar a nossa impotência, explorar a nossa dependência. Aflição tem a intenção de nos trazer de volta a um Deus que só se torna grande quando ele nos faz pequenos."[2]

O Deus de Paulo é o Deus que só pode ser exaltado em detrimento do homem?

Tais questões devem ser tidas em mente e podem nos ajudar a evitar mal-entendidos sobre Paulo, mas como críticas de Paulo elas perdem o seu ponto. Em primeiro lugar, quando Paulo reflete sobre sua fraqueza, ele está sendo sobriamente realista. Em sua dedicação à sua tarefa missionária, Paulo dirigiu-se constantemente aos limites da sua resistência física e psicológica. Como ele teria colocado, o amor de Cristo impelindo-lhe (5: 14), levou-lhe a esses limites. Seu trabalho missionário fora, literalmente, o matando (4: 10-12).
Recursos humanos têm seus limites e Paul descobriu-lhes, não porque ele buscou a Deus somente lá ou porque ele abraçou sofrimento masoquista para demonstrar sua impotência, mas simplesmente porque as exigências de sua missão apostólica levaram-no a esses limites. Dos perigos da viagem antiga, os perigos da perseguição, a ansiedade e a depressão incorridos por suas responsabilidades pastorais, Paulo aprendeu que, quando Deus equipou-o para o seu ministério apostólico ele não transformou-lhe em algum tipo de super-homem ou anjo, imune ao perigo, intocado pelo cansaço ou stress.

Pelo contrário, precisamente o seu ministério apostólico fez as suas normais, limitadas capacidades humanas manifestas para que todos possam ver. No entanto, Paulo descobriu que tal fraqueza não era afinal um impedimento para o seu ministério: de alguma forma (e pode muito bem ter parecido estranho para ele em primeiro lugar) o poder do evangelho se tornou ainda mais evidente e eficaz. Não há nada de vergonhoso quanto a Paulo reconhecer isto. Ele não tem que fingir ser um verme miserável, a fim de deixar Deus ser Deus. Ele simplesmente vê que ele é humano, e não sobre-humano, e não precisa sair de sua fraqueza humana, a fim de ser apóstolo de Cristo.

O avanço teológico de Paulo em 2 Coríntios era entender essa fraqueza do portador do evangelho em relação ao conteúdo do evangelho. Se a ação salvífica definitiva de Deus ocorreu através da fraqueza do Jesus crucificado, então não deve ser nenhuma surpresa que o evangelho salvador de Jesus crucificado deve alcançar os gentios por causa da fraqueza de seu apóstolo. E assim como o Jesus crucificado provou, através de sua ressurreição, ser o poder de Deus para a salvação, então a fraqueza do apóstolo é, como o seu reverso, o poder eficaz de Deus para a salvação através de seu ministério.

Paulo encontrou o padrão da cruz e ressurreição de Jesus - a vida e a morte, fraqueza e poder -refletido no seu próprio ministério e é usado como chave para a sua própria experiência. Se ele experimentou a morte de Jesus na sua fragilidade e sofrimentos (1: 5, 4: 10-12), ele também encontrou em cada escapar da morte, todo o encorajamento após a ansiedade e a depressão, a cada conversões feitas no meio da perseguição, uma participação na ressurreição de Cristo, a habilidade de Deus para trazer vida da morte (cf. 1: 5, 9-10; 4: 10-12).

Tais experiências não foram livramentos necessariamente dramáticos ou milagrosos, como a fuga da morte para a qual 1: 9-10 refere-se, mas eram frequentemente eventos relativamente comuns. Um exemplo que Paulo dá é a chegada de Tito, após um atraso preocupante, com a boa notícia de forma inesperada sobre assuntos da igreja em Corinto (7: 5-7; nota os ecos da língua de 1: 3-7). Em 4: 8-9 Paulo dá uma lista retórica de aspectos de 'crus' e 'ressurreição' de sua experiência:

Nós somos afligidos de toda forma, mas não esmagados;

Perplexados, mas não entregues à desesperança

Perseguidos, mas não abandonados;
Assaltados, mas não destruídos.



O segundo membro de cada par aqui parece notavelmente suavizado: basta apontar o negativo que a fraqueza de Paulo ainda não tinha posto um fim ao seu ministério. As exigências que seu ministério tinham quase foram demais para ele, mas, pela graça de Deus, não é bem assim.

Assim, a experiência de Paulo pode muitas vezes parecer exteriormente normal. Mas porque ele vê a morte e ressurreição de Jesus como a chave para sua vida, como a tudo mais, ele pode encontrar lá um padrão que faz todo o sentido cristão da sua experiência. Para com a forma que todo mundo precisa dar a sua experiência, a fim de entendê-la, Paulo encontrou na cruz e na ressurreição de Jesus. Este padrão, no entanto,era mais do que uma interpretação da experiência: ela também fez a experiência que era para Paulo.

Todos os altos e baixos de seu ministério foram para as experiências de Paulo de Deus, eventos em que ele vivenciou uma identificação com Jesus em sua morte e ressurreição: "sempre carregando no corpo a morte de Jesus, para que a vida de Jesus também possa ser manifestada em nossos corpos "(4, 10).

Para se identificar com a experiência de Paulo, não se precisa ser náufrago ou preso ou abaixado em uma cesta de um muro da cidade. Mesmo sem os perigos físicos da carreira de Paulo, quem se lança a obra do ministério cristão de qualquer tipo com metade da dedicação de Paulo vai experimentar a fraqueza da qual Paulo fala: os tempos em que os problemas parecem insolúveis, os tempos de cansaço do pura excesso de trabalho, os tempos de depressão quando parece haver nenhum resultado, a depressão quando parece haver nenhum resultado, a exaustão emocional, que a preocupação pastoral pode trazer - em suma,todos os momentos em que o ministro cristão ou trabalhador sabe que tem esticado até os limites de suas capacidades para uma tarefaque é quase, mas pela graça de Deus não é bem assim, demais para ele.

Qualquer pessoa que conhece apenas a sua força, não sua fraqueza, nunca se entregou a uma tarefa que exige tudo o que ele pode dar. Não há como evitar essa fraqueza, e devemos aprender a suspeitar desses modelos da vida humana que tentar evitá-la. Nós não devemos ser tomados pelo ideal do super-homem carismático para quem o Espírito Santo é uma fonte constante de força sobre-humana.

Nem devemos cair para o ideal do super-homem moderno secular: o homem que organiza toda a sua vida com o objetivo de manter sua própria integridade física e bem-estar mental, que mantém a impressão de força, porque ele mantém a sua vida bem dentro dos limites do que ele pode facilmente lidar. Um tal homem nunca é fraco, porque ele nunca é afetado, posto em causa, envolvidos ou comprometidos além de um limite seguro com cautela. Que não era o ideal, nem Jesus, nem da vida de Paulo. Ser controlado pelo amor de Cristo significa, inevitavelmente, atingir o limite de habilidades e uma fraqueza experiência.

Claro, eu não estou sugerindo que o ministro cristão não deva tomar precauções sensatas contra excesso de trabalho ou as medidas razoáveis para manter sua saúde física e mental. Nem estou sugerindo que ele não deve fazer o seu melhor para ser eficiente em seu trabalho. Ele deve isso ao seu Senhor a fazê-lo. Mas uma perspectiva paulina sobre serviço cristão leva-nos ainda mais do que isso. O ministro cristão deve ser sensível, mas acima de tudo ele deve ser sincero. Ele deve tentar ser eficiente, mas mesmo quando sua eficiência se esgota a eficácia do seu ministério não precisa fazê-lo. Sua eficiência pode realmente, por vezes, precisar esgotar-se por necessidade, não por negligência - se o poder de Cristo é para provar eficaz em seu ministério.

Que a vida do ministro cristão deve corresponder a sua mensagem é um pensamento bastante comum. Mas o conteúdo que Paulo dá a ele não é tão comum. Para Paulo a fraqueza do ministro cristão não é o ponto em que ele está falhando, mas o ponto onde a integração mais profunda de sua vida e sua mensagem é possível. Se ele pode responder a Deus naquele momento em sua experiência como Paulo fez, então ele vai ser para ele uma experiência de Jesus Cristo, e para o seu ministério uma oportunidade para o poder de Deus para ser o mais evidente e, caracteristicamente, no trabalho. A impressividade do seu ministério não será a sua imponência própria, mas a de que sua mensagem que corresponde à experiência da fraqueza humana e torna o veículo do poder de Deus.


Referencias
1 D. Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison, enlarged edition (London: SCM Press, 1971), pp. 281-282.
2 D. Soelle, Suffering (London: Darton, Longman and Todd, 1975), p. 19.

18 de julho de 2011

O Amor de Cristo nos Constrange

A Carta de Paulo a Filêmon


Esta carta possui proximidade imediata a Filipenses, pois Paulo está em cativeiro: Fm 1.9.13. Timóteo e outros colaboradores estão com ele: Fm 1.23.24. São condições de prisão comparavelmente mais amenas do que em outras circunstâncias, pois Paulo reúne-os em torno de si: Fm1.23, realiza trabalho missionário: FM.10. Fm 9 aponta Roma como local bem provável da redação. Outra possibilidade é a prisão de Paulo em Éfeso – 52-54, dada a proximidade entre Éfeso e Colossas, sendo que os destinatários estão localizados possivelmente na Frígia - Cl.4,17. Colossas seria lugar de residência de Filêmon.

Neste caso, há duas possibilidades muito diferentes do período da carta. Pode ser após o ano de 61 d.C., considerando que a ironia em Fm 19, indica Paulo com melhor humor do que em Filipenses, então pode ser logo depois desta carta. Ou por diversas razões de sincronização no estudo biográfico do apóstolo, pode ser no verão de 53 d.C. Paulo estaria aí com cerca de pouco menos de 60 anos quando escreveu.

Eu mencionei “destinatários”?.. O destinatário imediato é Filêmon, embora Paulo inclua todo um círculo próximo; não é uma carta privada, é destinada à Filêmon e à comunidade. Há todo um proêmio para sintonizar ouvintes e leitores de modo benevolente, envolver Filêmon em seu ser cristão ao insinuar que ele deve fazer o bem que é capaz de fazer 6.7. Nos versos 2.5.6, temos empregado os termos “comunhão” ou “comunicação”, que eram usados frequentemente para sociedades empresariais ou compartilhamento de posses. Filêmon era então o patrono da igreja local.

Podemos ver que Paulo se dirige a Filêmon como “irmão” e “colaborador”, não ao acaso. Faz parte essencial de sua conversa. Desafia Filêmon a romper com a antiga estrutura social padrão do lar e reconhecer em Onésimo um novo status social como irmão amado a partir de serem cristãos, sob seu status legal igual. Identifica-se explicitamente com Onésimo 12.16.17-20.

Por natureza escravos eram considerados pessoas, mas economicamente eram propriedades. Tinham melhor situação do que camponeses livres; às vezes juntavam dinheiro para adquiri liberdade, embora legalmente seus bens pertencessem aos mestres. Costumavam partir incumbidos como agentes com as propriedades dos mestres. Às vezes aproveitavam pra escapar.

A lei romana obrigava a devolver um escravo fugido; Deuteronômio 23.16 proibia, provavelmente com ecos do sentimento de já terem sido escravos! Há um conflito, e a questão não era apenas em relação ao critério de decisão de Paulo, mas com qual que Filêmon naturalmente partilharia. Ele não era um judeu.

Com a aplicação da lei romana, o escravo seria duramente castigado e/ou morto.

No verso 13, se mostra Paulo querendo que Onésimo fique com ele, para servir a ele e à pregação do evangelho. Quer o consentimento de Filêmon 14, pressupondo esse consentimento 21.

Reparemos um possível desfecho: em Colossenses 4.9 Paulo diz que enviaria Onésimo fiel e amado a Colossas...

Paulo usa na carta de diversas estratégias retóricas e recursos argumentativos estilísticos do seu tempo. A preservação da carta sugere que Paulo teve sucesso, pois não circularia se Filêmon não tivesse sido libertado.

Dado o contexto que vivia, não podemos reivindicar de Paulo um tratado abolicionista. Mas dentro do que ele apresenta em seu pensamento geral como nova pulsão ética para quem “está em Cristo”, trabalha no sentido de que o amor e alteridade que são os nortes do viver de Jesus e para quem quer viver com Jesus gera constrangimentos internos que desafiam a tomar atitudes. Esta atitude muitas vezes pode ser dissimilar ao que é convencionalmente aceito na sociedade. Pode extrapolar a “boa moral e costumes”, pode ser extravagante e superar o bom comportamento social corriqueiro.

Os legalistas e os fundamentalistas quando se deparam com um dilema destes, buscam se esconder querendo uma citação explícita de uma atitude a tomar ou não tomar. Assim durante muito tempo justificaram a escravidão, o machismo, a desigualdade social, e hoje ainda o usam para justificar muitos preconceitos e estigmatizações. Atitude destoante com a de Jesus que quebrou tabus ao tocar leprosos, o tabu da mulher se isolar socialmente devido aos seus ciclos naturais de menstruação, discipular mulheres, e dizer que o Reino era dos pobres entre os pobres.

9 de maio de 2011

No caminho de Emaus

Uma passagem estritamente lucana, constando apenas neste evangelho; pergunta-se então sobre quais as fontes... Possivelmente, pelas referências explícitas a Cléofas na passagem, adviera de algum recolhimento de um testemunho deste na comunidade cristã nascente e apresenta-o então como alguém muito considerado e de papel importante na atividade proclamatória de Cristo, ou na exortação dentro desta.

Importante isto à luz do clima do quadro de suas caminhadas à Emaús. Era um clima lúgubre. Soturno. Talvez de frustração. O que mostra a melhor perspectiva que ficaria de Jesus caso sua história terminasse na cruz: no máximo, teria sido mais um profeta que indicaria o caminho e a vontade de Deus ao povo, levantara expectativas de redenção para Israel, e ficaria martirizado. Sobretudo, de forma alguma seria considerado mais como O Messias nem proclamado como tal.

Jesus vai ao encontro deles; os encontra e os busca na profunda situação de senso de falta de sentido, de vazio, de abismo escuro. E no encontro com eles, vai lhes dando sentido e nova perspectiva. Agora assim já vão abrindo seus corações para a Revelação dele... que vontade louca de saber como que Jesus expôs as Escrituras...

Então eles o acolhem. O convidam para entrar.

É digno de cuidado não deixar passar despercebido o momento em que é reconhecido: no partir do pão! É como recapitular neste momento fenomenal tudo o que a vida de Jesus representou, seu projeto, seu ensino, sua autoridade. A comunhão, partilha revestida com um senso de assim estar na atmosfera do Sagrado! E Jesus Ressuscitado vem à tona! A continuidade entre Jesus em seu ministério terreno e Jesus Ressurreto é plenamente frisada! E o detalhe de seu “sumiço” não é apenas um tipo de relato milagroso exaltador hagiográfico. Se assinala enfaticamente nas narrativas da ressurreição algo muito estranho: ao mesmo tempo a materialidade de sua natureza, a fisicalidade dela, no caso nosso aqui, caminhando, partindo o pão... onde faz sentido o aparentemente paradoxal tema paulino do “corpo espiritual”, não mais sujeito à deterioração, um corpo de natureza espiritual... e também há cenas de uma supra-materialidade, parece que a realização da expectativa da ressurreição material clássica dos judeus no tempo dos martírios do século II a.C. com a idéia da libertação dos limites e da decomposição material deste mundo. Uma nova natureza, e um atesto para a esperança para a Nova Criação.

Jesus some, num momento em que as testemunhas provavelmente iriam querer detalhes sobre o que ocorrera durante este tempo; iriam querer detê-lo, propô-lo muitos projetos... Mas ali Jesus parte como que dizendo que o que fez foi confirmar o sentido de sua missão, reafirmar o seu comissionamento, e enviá-los ao mundo para dividir com todos esse encontro com ele no partir do pão, na leitura profética das escrituras apontando para sua vitória sobre o mal...

Partilha, algo bem materno. Pois no geral, é um dom bastante materno, em que inclusive, na carência, mães costumam abdicar de si para seus filhos...

27 de fevereiro de 2011

O desenvolvimento antigo da compreensão da Trindade

Nos meados do século II, o teólogo Santo Irineu de Lyon, sacerdote e escritor, cujo pensamento era totalmente focado na preocupação em ser fiel ao ensino e continuidade do ministério dos apóstolos, já expressava, na obra "Demonstração da pregação apostólica":

Deus Pai, que não foi criado, que é indivisível, o único Deus, criador do universo; esse é o primeiro artigo de nossa fé... E o Verbo de Deus, o Filho de Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo...que, na plenitude do tempo, para reunir todas as coisas em si mesmo, tornou-se um ser humano entre os seres humanos, capaz de ser visto e tocado, de destruir a morte, de trazer vida e de restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade. E o Espírito Santo...que na plenitude do tempo, foi derramado de forma inédita sobre a natureza humana para renovar a humanidade, em todo o mundo, aos olhos de Deus.

O próprio termo “Trindade”, do latim Trinitas, foi cunhado, juntamente com todo um edifício correspondente de terminologia, por Tertuliano de Cartago no século II., para a sistematização do pensamento, especialmente no escrito "Contra Praxeas", quanto às três pessoas de Deus fundamentadas em uma existência em comum numa substância única.

Orígenes escreveu em "Primeiros Princípios, Livro 1, Prefácio 2-8:"

As espécies de doutrina que foram claramente transmitidas no ensinamento dos apóstolos são as seguintes: Primeiro, que há um Deus...Segundo que o próprio Jesus Cristo [...]nasceu do Pai antes de todas as criaturas...Terceiro, que o Espírito Santo era associado em honra e dignidade com o Pai e o Filho...

Atenágoras de Atenas dizia que o Espírito era tal como "uma efluência [aporroiam] de Deus, fluindo dEle e voltando para Ele como um raio de sol".

"Súplica em favor dos cristãos", 10.1

Chega a comentar também que "os homens reconhecem a Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo e declaram tanto o Seu poder em união quanto a Sua distinção na ordem" (tën en të taxei diairesin).

SFC 10.3

Teófilo de Antioquia identificava o Espírito com a Sabedoria, tal como no Salmo 33, Sabedoria de Salomão, Provérbios 8, etc. Em "A Autólico", 1.7;2.15;18

Sobre o Lógos, coloca que
Ele não é seu Filho na acepção em que os poetas e romancistas descrevem o nascimento dos filhos dos deuses, mas sim, no sentido de que a verdade fala do Verbo considerando-o eternamente imanente [ endiatheton ] no seio do Pai
"A.A." 2.10

Justino argui
nós adoramos e amamos, além de Deus, o Logos derivado do Deus não criado e inefável, vendo que por amor de nós Ele se tornou homem.
2ª Apologia, 13,4

No princípio, antes de todas as criaturas, Deus gerou um poder racional a partir de Si mesmo" (...) esse Poder é indivisível e inseparável do Pai.

Diálogo com Trifo, 61.1-2

Irineu de forma diferente considera que
O Pai é Deus, o Filho é Deus, pois tudo o que é gerado de Deus é Deus
- "Demonstração da pregação católica" 47

Hipólito de Roma mais tarde também ecoa
Embora só um, Ele era múltiplo [ monos ön polys ën], pois não estava sem Sua Palavra e sem Sua Sabedoria, Seu Poder e Seu Conselho.
"Contra Noetum" 10

Tertuliano

"Eu e o Pai somos um indica que os Três são 'uma só realidade' unum] não 'uma só Pessoa' unus] (...); o Filho é unius substantiae com o Pai, e o Filho e o Espírito são consortes substantae patris."

"Contra Praxeas", 2-3

De Inácio temos citações mais quanto à divindade de Jesus, em termos que precediam os da Fórmula Calcedoniana.

Afirma que "Cristo" é
Deus encarnado [ en sarki genomenos theos], "Deus manifestado como homem" [theou anthrõpiños phaneroumenou]. Afirma que foi "incriado" [agenñetos].
Epístola aos Efésios, 7.2; 19.3;

Empregava expressões como "o sangue de Deus", "o sofrimento de meu Deus" e "Deus {...]foi concebido de Maria".

Epístola aos Romanos, 1.1;18.2

Existe um só médico, constituído de carne e espírito, gerado e não-gerado, Deus no homem, vida autêntica na morte, procedente de Maria e procedente de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor.
Romanos 6.3

25 de janeiro de 2011

Na Escuta, no Silêncio, na unidade

Sermão do Arcebispo Anglicano de Cantuária, Sua Graça Revdma. Rowan Williams, em Vesper - Catedral de Westminster,  durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, há dois anos, 22 de janeiro de 2009.


Ouvimos o Evangelho e qual é o sotaque que nós ouvimos, qual é o tom que pegamos? É uma voz que é devastadoramente crítica do auto-engano de tantos tipos de religião, devastadoramente crítica da justiça própria e auto-satisfação. É uma voz que é mesmo capaz de soar com raiva ao ver o sofrimento dos filhos de Deus. É uma voz que rompe qualquer número de barreiras e obstáculos, para falar uma palavra de amor para o culpado ou os perdidos. É uma voz que na cruz grita em sofrimento inimaginável à Deus Pai e fica em silêncio depois de um grande grito. E é a voz que é instantaneamente reconhecível para os discípulos no dia de Páscoa quando se pronuncia a palavra 'Paz'. "A paz esteja convosco", a primeira saudação do Cristo Ressuscitado.

Jesus nos diz no Evangelho que ouvimos há poucos minutos (João 10,14-16) que a unidade acontece quando as pessoas estão ouvindo sua voz. "Eles vão ouvir a minha voz", diz ele, "e haverá um só rebanho e um só pastor." E assim, a implicação parece ser que, quando não há um só rebanho e um só pastor não estamos escutando a sua voz. Unidade vem quando todo o povo de Deus está todo a ouvir e reconhecer a voz de Jesus Cristo junto. E isso significa que o coração de nossa busca da unidade é muito simplesmente a busca pelo silêncio quando somos capazes de juntos, ouvirmos a voz de Jesus.

Quando nos reunimos como cristãos, devemos abrir nossos corações e nossas mentes para que possamos ouvir Jesus. Tentamos ouvir Jesus no outro, ouvir o que Jesus Cristo está dizendo a nós através da boca de um estranho, alguém com outra lealdade, outra teologia. Buscamos juntos, em silêncio, ouvir a palavra de Deus, na Escritura, na voz do povo de Deus ao longo dos tempos. E oramos para que quando estamos no ápice do silêncio suficiente, bastante livres, bastante pacientes, amando bastante, vamos ouvir sua voz. Então, e somente então, haverá um só rebanho e um só pastor.

A busca da unidade é muitas vezes um negócio de muito palavrório. Nós gostamos de falar sobre as coisas que nos interessam, dividem-nos, entusiasmam-nos e às vezes (cristãos sendo cristãos) temos muito gosto de falarmos entre nós em exaustão. Existem alguns tipos de diálogos ecumênicos (longe de mim para dar alguns exemplos), quando falar entre si exaustivamente parece um pouco como a ordem do dia. Mas hoje, pela graça de Deus, estamos aqui reunidos para ouvir: ouvir um ao outro, para ouvir a voz de Jesus. Estamos aqui também para lembrar d o Bom Pastor, como ele levanta bons pastores de sua igreja, levanta e concede dons com os quais as pessoas são capazes de fazer os outros ouvirem porque elas próprias ouvem a voz de Jesus.

Então damos graças a Deus pelo maravilhoso ministério entre nós do Cardeal Cormac, que certamente é o que estamos celebrando: um pastor, porque ele ouve a voz de Jesus, é capaz de deixá-lo ecoar em seu ministério. Cormac foi um grande servidor da unidade da Igreja, em grande parte devido ao grande dom de ouvir Jesus, de ajudar os outros escutarem, e de fazer muitas conversas ecumênicas em que ele esteve envolvido muito mais do que ruído competitivo.

Um bom pastor ecoa a voz de Jesus, porque um bom pastor tem estado pura e simplesmente a escutá-lo, paciente e silenciosamente. Ouça as pessoas o tempo suficiente, como todos sabem, e você começa a pegar alguns dos sotaques e as inflexões das pessoas que você está ouvindo. (Quando eu passo muito tempo o suficiente de volta em casa no País de Gales eu descubro que o meu sotaque do Vale Swansea retorna). Todos nós, eu acho, temos experiências similares: nós pegamos o som distinto daqueles em cuja companhia nós estamos. E a lição não é uma questão complicada. Se nós estamos indo captar e transmitir a voz de Jesus temos que passar um tempo em sua companhia, para que seu sotaque e o tom de voz seja a nossa.

Ouvimos o Evangelho e qual é o sotaque que nós ouvimos, qual é o tom que pegamos? É uma voz que é devastadoramente crítica do auto-engano de tantos tipos de religião, devastadoramente crítica da justiça própria e auto-satisfação. É uma voz que é mesmo capaz de soar com raiva ao ver o sofrimento dos filhos de Deus. É uma voz que rompe qualquer número de barreiras e obstáculos, para falar uma palavra de amor para o culpado ou os perdidos. É uma voz que na cruz grita em sofrimento inimaginável à Deus Pai e fica em silêncio depois de um grande grito. E é a voz que é instantaneamente reconhecível para os discípulos no dia de Páscoa quando se pronuncia a palavra 'Paz'. «A paz esteja convosco", a primeira saudação do Cristo Ressuscitado.

E assim nós buscamos ouvir, esses são os tons, os sotaques, que pegamos; que temos que tentar treinar nossas próprias vozes para ecoar. Ou melhor, se ouvirmos o suficiente - o silenciosamente o suficiente, pacientemente o suficiente, e carinhosamente o suficiente - é isso que vai ecoar na câmara de nossos corações e assim ser ouvido em nossas próprias vozes.

Sem isso não há reconciliação. Porque se é verdade que somente a Palavra de Deus pode trazer a paz definitiva para nossos medos, nossas guerras e as nossas rivalidades, é somente quando estamos em silêncio ansiando por essa Palavra, essa voz, que Deus pode romper e fazer a diferença.

Que Deus nos dê todo o silêncio e paciência para ouvir. Que o Pai nos ensine tudo o necessário para falar com o sotaque de seu Filho, e para proferir em nome de seu Filho aquelas palavras que irão quebrar barreiras. Que possamos aprender de novo e de novo para ouvirmos juntos, para ouvir uns aos outros e, então, pela graça e dom de Deus haverá "um só rebanho e um só pastor".