20 de dezembro de 2010

A Adoração do Novo Rei

Mateus 2
Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo".
Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém.
Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo. E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta:
‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’ ".
Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido. Enviou-os a Belém e disse: "Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo".
Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino. Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo.
Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.
E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho.
Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse-lhe: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu lhe diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo".
Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho".
Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos.
Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias:
"Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem".
Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e vá para a terra de Israel, pois estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino".
Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra de Israel. Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judéia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo sido avisado em sonho, retirou-se para a região da Galiléia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.



Conta-nos Mateus que Jesus fora visitado e recebera a adoração de Magos (Magoi). O termo se refere a sábios astrólogos. Diferente da lenda popular, a narrativa da Natividade não enumera muito menos menciona os nomes dos astrólogos. A astrologia era então misturada com a astronomia e era uma ciência que, nas regiões da Pérsia, Babilônia, Arábia do Sul, entre outras do “Oriente”, estava no mais alto degrau da escala das ciências, reservada para os mais disciplinados na busca da sabedoria.

Ainda que tendo em suas escrituras a proibição de adivinhações por consultas aos astros, os judeus da época dos séculos II a.C. a I.d.C. consideravam verossímil que os astros apontavam sinais de acontecimentos espetaculares do futuro. Também no mundo romano circundante era mais comum ainda esta noção, sendo que Augusto e outros imperadores perseguiram astrólogos devido a crença de que cometas, eclipses e estrelas prediziam a queda de governantes. Nero mesmo fora um que chacinou soberanos afim de que evitar que uma famosa profecia relacionada a um cometa se aplicasse à sua morte, mas a deles.

Seguramente menção de que ‘toda Jerusalém” ficara alarmada é uma hipérbole, muito embora a caravana dos astrólogos - sem dúvida não viajavam sozinhos – fora notada pela população. O fato de serem “pagãos” não afetava a consciência religiosa da coorte herodiana, visto que nas cidades que erguera cidades com presença de monumentos que os judeus consideravam “pagãos” em Sebaste, Agrippias, Antipátrida, Fasaelis, e outras. Ele sem dúvida estava bem ambientado no ideário dessas crenças.

Interessante na narrativa e que os líderes religiosos tinham ciência acerca da tradição do nascimento do Rei Legítimo em Jerusalém. E não se menciona reação alguma deles, mas apenas uma menção lacônica à profecia. Muito antes de Pilatos, os chefes dos sacerdotes e os escribas – que tinham prestígio e influência popular – lavaram as mãos. E isso diante de um tirano que em 37 a.C. executara todos os membros do sinédrio porque levantaram uma acusação de assassinato quando ele era governador da Galiléia.

Várias teorias foram formadas para tentar explicar a “Estrela de Belém”. Umas das mais consistentes, de acordo com análises astronômicas e culturais sobre aquele tempo, remetem a uma conjunção tripla Júpiter-Saturno-Signo de Peixes, destacada e levando para o ano 6 a.C., e a de uma hipernova tipo Ic, relacionando a data do nascimento para o ano 8 a.C.  Há algumas com menos probabilidade de correspondência, como as hipóteses do cometa Halley, 12 a.C. (muito tarde, embora pode-se encaixar com ano do nascimento de Jesus, haja vista que nele começara a haver um senso nas províncias da Síria, em que se incluía a Palestina), e a da “estrela teológica”, ou simbólica. Esta agrada alguns sabores, mas é implausível que o evangelista supusesse que uma estrela formada de anjos propiciaria ligações com a cuidadosa relação com os astrólogos, o mesmo se sucedendo em relação a uma estrela apenas simbólica, existente apenas na narrativa. De qualquer forma, não é prudente se apegar a cada detalhe do relato narrativo.

O retrato da paranóia de Herodes é convincente. Movimentos insurrecionistas apoiados na alegação de que a profecia estava se cumprindo conquistariam rapidamente vasto apelo popular. Afinal, estariam do lado daquele que seria o “escolhido por Deus”. Apesar de Herodes se encontrar doente, obviamente ele não levaria em conta que quando a criança crescesse ele poderia estar morto. Que grande tirano leva isso em conta? Ainda mais que rebeldes poderiam se insuflar antes dela crescer, diante do quadro opressivo, para abrir caminho e garantir seu reinado. Herodes naquele tempo executara seus dois filhos, Alexandre e Aristóbulo, por suspeitar que conspiravam. Massacrara todos os que suspeitara de estarem envolvidos num motim no fim do ano 5 a.C. já convalescente, em Jerusalém, tendo queimado vivos os líderes. Nem sua esposa escapou à sua sordidez.

Era natural de se esperar que o regresso dos "Magos" passasse por Jerusalém, visto que era a rota da estrada principal na direção norte de Belém. Por que arriscariam viagens mais longas e perigosas pelo sul, por Hebrom e Gaza, atravessando Nazaré, Cafarnaum e Damasco? Seria necessário imperativamente um motivo muito forte e urgente, relacionado às questões de poder...É inconcebível que Herodes não tivesse tomado atitude alguma. Seria também irracional conceber que Herodes iria se expor ao ponto de pessoalmente ir à Belém à frente de suas milícias. Toda a Judéia tomaria conhecimento, e a expectativa profética em relação a Belém não se extinguiria, antes se reforçaria, motivando rebeldes a alegarem que os tempos messiânicos chegaram, e inspiraria líderes amotinados. Uma débil demonstração de fraqueza.

Isto posto que Belém era uma vila de cerca de mil habitantes, distando menos do que 16 Km de Jerusalém. O massacre teria atingido pouco mais de duas dezenas de crianças. O Herodium, uma das fortalezas de Herodes era o local estratégico de onde partiram os guardas. O evangelista vira neste ato um eco ao pranto de Raquel em Jeremias 31.15.

As oferendas dos "Magos" eram preciosidades destacadas que o Oriente exportava como artigos de luxo nas caravanas: I Rs. 10.10; Sl. 72.10-15. A adoração dos "Magos", característica das reverências aos reis e deuses em sua cultura, fazia ressoar as profecias das homenagens que todas as nações prestariam ao Deus único. O que reforça ainda mais o contraste com os líderes religiosos.

O fato de José ter evitado as terras do cruel Arquelau, outro tirano filho de Herodes que assassinara 3 mil opositores de uma só vez, mesmo antes de ir à Roma reclamar sua herança, tendo ido uma delegação de judeus ao imperador implorar para não nomeá-lo como rei (Augusto acabara lhe dando o governo das terras, negando-lhe porém o título real) num tempo e local de extremada turbulência é compreensível. À primeira vista, porém, há de se estranhar ter procurado abrigo nas terras do outro filho de Herodes, Herodes Antipas. Mas uma investigação breve mas atenciosa afasta os receios. Antipas planejara um opulento plano de infra-estrutura e construção de cidades. Isso incluía Séforis, planejada para 25 mil pessoas. Isso seria trabalho garantido para carpinteiros e serralheiros, e Nazaré, um pequeno povoado, era próximo o bastante para a locomoção diária ao trabalho, bem como segura e de vida pacata comparada com a confusão de Séforis, além de mais barata para se estabelecer e morar.
 Salmo 72
Ó Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei.
Ele julgará o teu povo com justiça e os teus pobres com juízo.
Os montes trarão paz ao povo, e os outeiros, justiça.
Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado e quebrantará o opressor.
Temer-te-ão enquanto durar o sol e a lua, de geração em geração.
Ele descerá como a chuva sobre a erva ceifada, como os chuveiros que umedecem a terra.
Nos Seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá enquanto durar a lua.
Dominará de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da terra.
Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e os seus inimigos lamberão o pó.
Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Sebá oferecerão dons.
E todos os reis se prostrarão perante Ele; todas as nações o servirão.
Porque Ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude.
Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará a alma dos necessitados.
Libertará a sua alma do engano e da violência, e precioso será o seu sangue aos olhos dele.
E viverá, e se lhE dará do ouro de Sabá, e continuamente se fará por Ele oração, e todos os dias O bendirão.
Haverá um punhado de trigo na terra sobre os cumes dos montes; o seu fruto se moverá como o Líbano, e os da cidade florescerão como a erva da terra.
O Seu nome permanecerá eternamente; o Seu nome se irá propagando de pais a filhos, enquanto o sol durar; e os homens serão abençoados nEle; todas as nações lhE chamarão bem-aventurado.
Bendito seja o SENHOR Deus, o Deus de Israel, que só Ele faz maravilhas.
E bendito seja para sempre o Seu nome glorioso; e encha-se toda a terra da Sua glória! Amém e amém!

12 de dezembro de 2010

À Sombra do Altíssimo

Jeremias 48
31 - Por isso uivarei por Moabe,sim, gritarei por todo o Moabe (...)
36 - Por isso o meu coração geme como flautas por causa de Moabe (...)


Amós 9,7
Para mim não sois vós como os filhos dos Kushitas, ó filhos de Israel?
- oráculo do Senhor.
Acaso não tirei eu Israel da terra do Egito,
os filisteus de Kaftor e Aram, de Qir?


Salmo 146, 6-9
Autor da Terra e dos céus
do mar, de tudo o que aí se encontra,
ele é o eterno guardião da verdade:
ele faz justiça aos oprimidos,
ele dá pão aos que têm fome;









o Senhor solta os prisioneiros,
o Senhor abre os olhos aos cegos,
o Senhor levanta os que esmorecem,
o Senhor ama os justos,
o Senhor protege os migrantes,
Ele dá apoio ao órfão e à viúva,
Mas confunde os passos dos maus.

Infelizmente, Deus tem sido "ensombreado" nas imagens que majoritariamente se tem feito dEle em várias pregações e discursos. Não é essa a personalidade de Deus cantada em músicas gospel.

Não é a que tem sido aclamada no "rosto" majoritário das igrejas no Brasil; muitos alegam que ela não encheria os templos, não bancaria seus caros instrumentos, suas caras de shopping-centers, e incomodaria a consciência sensível de muitos ofertantes. Os jovens estão correndo dela, não é teen.

Não é o deus falado com condescendência por tantos que se acham esclarecidos demais para isso, nem os que se acham com uma fé pura demais para algo tão “mundano”.

Nunca é o deus invocado pelos políticos; por grandes líderes em missões diplomáticas.

Não cabe nos sistemas e teias filosóficas de presunçosos que não querem uma Presença assim incomodando suas megalomanias.

Não cabe em mentalidades simplórias, inteligentes para muita coisa, mas que ligam uma “trava” na hora de pensar sua religiosidade.

Tremo em pensar que estou diante desse Deus. Como estou?
De Si mesmo, Ele diz: “Eu Sou quem Sou”.

28 de novembro de 2010

O Retorno do Rei

E, como foi nos dias de Noé, assim será também a vinda do Filho do Homem. Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio, e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem. Então, estando dois no campo, será levado um, e deixado o outro; estando duas moendo no moinho, será levada uma, e deixada outra.
Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor.Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria que fosse arrombada a sua casa.
Por isso, estai vós apercebidos também, porque o Filho do Homem há de vir à hora em que não penseis.

Evangelho Segundo São Mateus, 24.37-44.


Essa passagem, do Evangelho de hoje, é bastante difícil, desconcertante e impressionante. Infelizmente, tem dado lugar a muita difusão de superstições e confusões no seio das igrejas, gerado transtornos desnecessários e servido para que grupos poderosos lucrem com o anacronismo que nada versa sobre o contexto das pessoas imediatas que ouviram as mensagens de Jesus e de seus discípulos.

Para analisarmos brevemente, a qual imagem ela remetia para com a comunidade dos discípulos? Podemos ser iluminados ao voltarmos para o livro de Daniel, capítulo 7.

(...)e eis que com as nuvens do céu vinha um como Filho de Homem; ele chegou até o Ancião, e o fizeram aproximar de sua presença. E lhe foi dada soberania, glória e realeza: as pessoas de todos os povos, nações e línguas o serviam.


(...)
a seguir, os Santos do Altíssimo receberão a realeza, e possuirão a realeza para sempre e para todo o sempre.


(...) e o julgamento fosse dado em favor dos Santos do Altíssimo, e que chegasse o tempo e os Santos possuíssem a realeza.

Tomada no conjunto tendo em perspectiva todo o capítulo 7, tal visão desenvolve o tema a partir do sonho atribuído a Daniel durante o comando de Belshasar na Babilônia; o cenário mais amplo é de resistência e reafirmação da fé judaica ante a perseguição e pressão cultural, afirmando a esperança de que Deus não compactua nem deixará a ordem injusta deste mundo ter a palavra final; é retomada e/ou aludida em passagens importantes do Novo Testamento, que nos ajuda a refletir sobre a expectativa dos primeiros cristãos, sobre seu entendimento de si mesmos, de quem foi Jesus, e de Jesus sobre si mesmo e o caráter de sua missão. E o impacto que se desvela é a da expectativa quanto ao futuro e final da História, em que os mártires e dos fiéis perseverantes tomarão parte no Julgamento Final. Todas as estruturas e lógica de dominação do mundo seriam subvertidas, a partir da intervenção de Deus através de seu agente que levará a odisséia humana ao seu ápice: o Filho do Homem.

Podemos ver como essa crença foi tão marcante e universal na Igreja nascente, por vê-la ecoando em diversas comunidades e documentos. De Paulo para os Coríntios: Acaso, não sabeis que os santos julgarão o mundo?- I Co. 6.2. Compare com Daniel 7.18 a seguir, os Santos do Altíssimo receberão a realeza, e possuirão a realeza para sempre e para todo o sempre, ecoando em Apocalipse 5. 9-10; também nas passagens sobre herdar o reino de Deus, mesmo por contraste, como em I Co. 6.9 – referindo-se aos injustos. Ecoa também no hino de II Timóteo 2.11-14, de forma elaborada em que, de grande importância, podemos ver que a própria liturgia da Igreja assimilara a expectativa do papel de Jesus no que concebiam como a manifestação definitiva da glória de Deus e o reinado do povo eleito e a nova realidade. Reverbera também em Lucas 22.28-30, Vós sois os que perseveraram comigo nas minhas provações. E eu disponho para vós o Reino como o meu Pai dispôs dele para mim: assim, comereis e bebereis à minha mesa em meu reino, e vos assentareis sobre o trono para julgar as doze tribos de Israel, com ecos mais suaves em Mateus 19.28; 25.31.

E quanto ao arrebatamento? Temos hoje sensacionalismos supersticiosos e cabulosos fomentando nas pessoas idéias de carros batendo, aviões caindo, e Jesus aparecendo num ponto no Céu e pessoas subindo e a vida continuando, as pessoas sem entender, e um punhado de propaganda da visão política dos setores ultraconservadores dos Estados Unidos, como o Tea Party, usando terminologia cristã como isca. Algo que não tem nada a ver com a mensagem bíblica.

Para visualizarmos de forma mais aproximada e combatermos tal manipulação, uma passagem emblemática é a da carta de Paulo aos Tessalonicenses, 4.16-18. Ela é clássica.

Paulo emprega aí o famoso termo cristão “Parusia”. Desde séculos é empregado na tradição quando se reflete sobre a volta de Cristo. De onde ele, Paulo, tirou o termo? O que lhe inspirou a emprestar para ilustrar seu ensino?

Era empregado quando das vindas do Imperador às cidades, cheio de pompa e esplendor. Uma delegação vinha para cumprimentá-lo e os súditos vinham em festa para o acompanhar o cortejo imperial. Os arautos soavam as trombetas.

O slogan do Império Romano era Pax et Securis, Paz e Segurança. Se dizia que o Império trouxera o ápice da civilização, dando estabilidade, harmonia e coesão. Em Tes.5.3 Paulo afirma que tal estado das coisas estava na verdade era precedendo algo como um trabalho de parto no qual tudo será sacudido e o verdadeiro Rei virá para estabelecer uma ordem diferente e mais legítima. E ao contrário do Império, que se firmava através do alegado e vangloriado poder de impor a morte e abreviar a vida, a aurora do Reinado de Deus virá com a ressurreição e a vitória sobre a morte.

E o uso das imagens bem terrenas ligadas a símbolos e elementos celestes serve para ligar a Terra ao Céu, e dar a tonalidade cósmica, Universal, da esperança cristã. Nisso, como a advertência de Jesus, cabe a nós vigiar, porque o tempo ninguém sabe. E este irromper da Nova Criação, renovando todas as coisas, virá de forma estrondosa. Será o fechamento da História. Como vigiaremos?

Mais uma vez a Bíblia é o lugar, a lâmpada, para nos proteger da paranóia que alguns querem promover. E Paulo é revisitado para nos instruir sobre o que consiste esta vida de vigilância. Pois antes de nos advertir: “Tanto mais que sabeis o tempo em que vivemos: já chegou a hora de acordar, pois nossa salvação está mais próxima agora do que quando abraçamos a fé” - Rm. 13.12 – ele nos exortara: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mútuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei” – 13.8. É em viver o caráter do novo Reinado de Deus, que mantemos acesas nossas lâmpadas para a chegada do Rei, vivendo na luz, aceitando o caráter deste Reinado que muito fora falado pelos profetas, como na visão de Isaías:.

Ele julgará as nações,
Corrigirá muitos povos.
Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas,
e suas lanças, a fim de fazerem podadeiras.
Uma nação não levantará espada contra a outra,
E nem se aprenderá mais a fazer guerra”.

Isaías 2.4

E agora, tudo isso parece tão irreal, diante do cotidiano que nos apresenta...que apesar da renovação da fé e do amor na vivência cristã, na comunhão do Corpo e Sangue de Jesus, parece tão, tão... fora de cogitação, indiferente, que a vivência cristã deixa a esperança como tema central, de lado. Mas ante ao desânimo que este anti-clímax que o cotidiano e a “realidade” diária do mundo nos apresenta, mantenhamos a Esperança. Este é o sentido.

Consolai-vos, uns aos outros, com estas palavras.” I Tes. 4.18

23 de novembro de 2010

O Morrer à Luz do Evangelho

por Richard Bauckham

O profeta Isaías vê a morte como um vestido de luto que veste toda a humanidade, ou uma mortalha que paira sobre toda a criação, ou talvez um véu negro que esconde até mesmo Deus da visão (Is 25:7). Podemos pensar na escuridão sobrenatural que cobriu o monte do Calvário onde Jesus estava pendurado morrendo no meio da tarde. A morte não é apenas o fim para o qual todas as pessoas vão. A ameaça e a melancolia da morte nublam toda a vida, minando a sua vitalidade, atenuando as suas alegrias e ridicularizando as suas esperanças. Nas experiências vivas dos salmistas que sentem o gosto amargo da morte e pedem libertação a Deus, a morte não é apenas o fim que os espera, mas uma força que se estende diante de si, alimentando-se de vida, ameaçando e diminuindo a vida. Em perigo e depressão, doença e isolamento, abandonados por amigos e largados por Deus, os salmistas se sentem nas garras da morte, e em intervenções de Deus eles experimentam o Deus que ressuscita os mortos exatamente como se tivessem literalmente morrido.

Tentamos manter a morte em seu lugar, escondida em hospitais e mantida fora de nossos pensamentos e nossas palavras; tentamos limitar o seu poder até o fim da vida, mas falhamos. A morte vem ao nosso encontro no meio da vida, ameaçando e minando a vida. O isolamento da morte, a perda irreparável, a dor da separação, a futilidade - essas experiências invadem a vida e tentam esmagá-la. O maior poder da morte é roubar a vida de sentido e de esperança. Qual é a questão, se isto é tudo? A vida deve ser vivida sempre desafiando a morte, e a morte está sempre a trabalhar submetendo a vida a seus próprios fins - ou melhor, a sua futilidade sem propósito.

Este reconhecimento bíblico da morte como uma força de negação contra tudo de positivo é muito diferente da idéia (uma idéia com a qual muitas pessoas contemporâneas tentam conviver) que a morte é natural e biologicamente necessária e então boa. Os mortos deixam-se tornarem compostos a partir dos quais uma nova vida na próxima primavera cresce. Como as estações giram, o ciclo da natureza se move através de decadência e morte para o renascimento e novo crescimento. A vida leva à morte, mas morte também leva à vida. A vida, em certo sentido, precisa de morte. Assim como alguém disse uma vez que o tempo é a maneira de Deus impedir que tudo aconteça de uma só vez, então poderíamos dizer que a morte é a maneira de Deus impedir todos viverem de uma vez. A evolução da vida, o desenvolvimento da história humana precisa da morte para que uma geração possa seguir a outra.

Este sentido da naturalidade biológica da morte não é negado pela Bíblia. Adão foi feito do pó da terra e, naturalmente, retorna ao pó, quando Deus deixa o fazê-lo. Mas a Bíblia de forma significativa não segue o caminho freqüente da religião natural em tomar o ciclo das estações do ano como modelo para a realidade, e assim absorver a morte em um processo cósmico. Na Bíblia não há união fácil, nem a complementaridade de vida e morte. Ao contrário, há uma dialética constante da vida e morte em que os seres humanos são capturados e sofrem.

Por que não devemos nos contentar em pensar na morte como um processo natural? Porque a vida e a morte são muito mais do que apenas biológicas. Porque as pessoas são insubstituíveis. Talvez as flores da Primavera deste ano sejam um substituto adequado para aquelas que morreram no ano passado. Eu posso esquecer do ano passado porque este ano é igualmente bom. Mas as pessoas são indivíduos insubstituíveis. Guardamos as lembranças das pessoas únicas que os mortos eram. É pequeno consolo aos enlutados salientar que sua amada está abrindo caminho para a próxima geração. A morte é o poder da perda irreparável e insubstituível. E o processo biológico da vida e da morte parece ser ponderado a seu favor. Espécies inteiras são irreversivelmente perdidas. Cada paisagem de rara beleza passa embora.

O sol irá arrefecer e toda a vida desaparecerá com o final lento morrendo pelo universo. Teríamos que nos tornar computadores para não lamentar a transitoriedade e a morte de tudo o de valor, para não sentir a tristeza universal do cosmos sujeito à vaidade. E se o nosso Deus não era mais do que o processo natural deste mundo, teríamos de nos reconciliarmo-nos com a vida assim diminuída. Mas o Deus da Bíblia transcende a natureza, é o poder da vida Eterna, não pretende deixar a sua criação a perecer.

No centro da história bíblica é a morte de um homem, contada quatro vezes em relatos detalhados. São histórias que reúnem toda a angústia da experiência humana da morte para eles. Não só Jesus sofre sua morte, o seu ser deixado para morrer por seu Deus, mas também aqueles poucos de seus amigos que se atrevem a estar com ele no final sofrem seu perecer e sua morte. Nestas histórias há dor quase insuportável, há separação e isolamento e abandono, há a ameaça da futilidade, e não há consolo fácil. Não é como um dia que segue a noite ou na primavera seguinte ao inverno que a ressurreição se segue. É como o avanço decisivo da vida plena de Deus para o domínio da morte que Jesus foi ressuscitado dos mortos.

A maré de mortalidade está retrocedida. Além disso, assim como a morte não pode ser confinada ao fim da vida, nem a ressurreição pode. A Ressurreição é realizada para além de sua própria vida mortal, cheia de significado e esperança, superando o abandono, arrebentando o aguilhão da morte, iluminando a sombra que a morte lança sobre tudo na vida, e resplandecendo sua própria luz brilhante ante portais da morte. A vida eterna, vida de ressurreição, adentra a dialética diária da vida diária e da morte. Ela contesta que a morte representa ameaça para toda a vida. Ela liberta a vida para o serviço da vida e não da morte. E quando a morte se esforça para sujeitar a vida à sua própria futilidade, a vida do Cristo ressuscitado, a vida do Espírito de Deus, pressiona até mesmo a morte para o serviço da vida.

Esta é a chave para a linguagem extraordinária de Paulo em 2 Coríntios. 'Sempre levando em nosso corpo o morrer de Jesus, de modo que a vida de Jesus também possa ser visível em nossos corpos "(2 Coríntios 4:10). Nas experiências de fatiga e exaustão mental e espiritual que trouxe Paul constantemente perto da morte, é a morte de Jesus que está ocorrendo em seu corpo, para que a vida de Jesus ressuscitado possa ser mostrada na vida de Paulo e colocada à disposição dos outros. Paulo não escapa a invasão da morte em sua vida. Ele mais ou menos caminha para ela, porque o seu seguimento de Jesus leva-o a sofrer por causa dos outros.

Mas a vida nova de Cristo ressuscitado está presente como um poder sobre a morte nessas experiências intensas de fraqueza e de mortalidade. Na vontade de Paulo para enfrentar a morte para o bem dos outros, a vida está prevalecendo sobre a morte. Na esperança de Paulo - a esperança voltada para o Deus que ressuscita os mortos - a vida prevalece sobre o desespero mortal e s futilidade da vida que está sujeito a morrer. Mesmo que a força física de Paulo e as capacidades estejam diminuídas, a vida é ainda mais animada dentro dele, transbordando de sua vida aos outros. A dialética da vida e da morte está, portanto, não abolida. Está intensificada, enquanto a vida mostra sua força justamente em face da morte.

Para tudo isso a chave está no uso que Paulo faz da frase "a morte de Jesus." Paulo enfrenta a morte não apenas como morte, não apenas como sua própria morte, mas de uma maneira ou de outra sua participação na morte de Jesus. Os escritores do Novo Testamento, diante da morte, em qualquer de suas manifestações, sempre retornam ao que fora contado em quatro vezes sobre a história do sofrimento de Jesus - porque foi aí que Deus uma vez por todas, virou o jogo sobre a morte e recrutou a própria morte para o serviço da vida. Mencionei que, nessas histórias alguns poucos fiéis acompanham Jesus ao seu fim e, portanto, a sua experiência de morrer, e sua morte. A morte é talvez a mais solitária das experiências. Ninguém compartilha.

Mas aqueles que amam e acompanham o morrer, de uma maneira diferente, experimentam a morte. Não é a mesma experiência que a pessoa que morre tem, mas de uma forma diferente, uma experiência de morte dessa pessoa. Nós também podemos experimentar a morte de Jesus, como aqueles que estavam junto à cruz. As histórias são escritas para que nós o façamo-lo. Nós podemos compartilhar o que deve ter sido a o quão vão era aquela morte, o fim de todas as esperanças extravagantes que tinham sido focadas em Jesus por seus seguidores. Porque ele tinha sido identificado com a esperanças da humanidade, é uma espécie de morte universal a que Jesus morre. Assim mesmo como Jesus deve acabar assim por atrai para a sua morte toda a tristeza, a desesperança, a vaidade das sombras com as quais a morte cobre toda a vida. Todas as ameaças de morte s nós mesmos, nós podemos ver tendo efeito nele.

Suponha-se seguindo as mulheres da cruz ao túmulo, suponha nós apreendermos da ressurreição de Jesus. Então nós podemos fazer o que realmente não pode ser feito na vida, mas pode ser feito pelos leitores das histórias: podemos voltar às histórias da Paixão e nos perguntar o que significa que Deus ressuscitou esse homem de morte. Isso significa que - contra todas as aparências - que Deus está neste morrer. Nesta morte que resume tudo o que de pior a morte pode fazer Deus está presente. O horror sombrio da morte de Jesus não é cancelado. O ponto é precisamente que Deus está neste horror sombrio. Se encontrarmos Deus nessa morte nós devemos experimentar cada outra morte de maneira diferente.

Há uma história sobre as últimas palavras de João Wesley. Quando ele tinha ficado muito fraco, ele murmurou algumas palavras que ninguém podia ouvir corretamente. Percebendo isso, Wesley, um pregador do passado, fez um tremendo esforço para comunicar o que ele tinha a dizer. Reunindo o pouco de força que lhe restava, ele conseguiu gritar: "O melhor de tudo é: Deus está conosco". Se nós podemos encontrar Deus em Jesus morrendo, então vamos encontrar Deus em nosso próprio morrer, por mais diferentes que possa ser de outra forma.

O momento em que Deus enxugará toda lágrima de cada olho ainda está por vir. Agora, ainda sofremos a dialética da vida e da morte. Nós ainda encontramos as ameaças de morte em toda a vida e para toda a vida. Mas, se conhecemos que o Deus que ressuscitou Jesus dos mortos, não podemos simplesmente concordar com o curso natural da vida para a morte. A fé na ressurreição de Jesus nos alinha com grande contra-movimento de Deus da vida para os mortos. É isso que nos dá esperança em face da morte, e isso que sustenta o amor com que podemos cuidar dos moribundos e confortar aos enlutados.

Retornando ao pensamento de Paulo sobre a vida e a morte em 2 Coríntios, encontramos esta afirmação extraordinária: "Nós não desanimamos. Mesmo que o nosso homem exterior se decomponha, o nosso homem interior se renova de dia em dia" (2 Coríntios 4:16). Paulo, como todos nós, está sujeito ao curso natural da vida para a morte. Mas o que Deus está fazendo em Paulo corre em direção completamente diferente. Renovação diária. Isso significa novo fazer criativo de Deus da sua criação, resgatando sua criação da morte, renovando-a em união com Sua própria vida eterna, não fazendo um outro mundo, mas renovando o mundo, dando-lhe um futuro eterno, fora do alcance da morte. Paulo vê esta criação divina da vida da morte acontecendo em sua própria vida, ao mesmo tempo que ele vivencia o processo normal de degeneração e morte. Diariamente, ele experimenta essa dialética da morte e da vida.

Então, existem duas dialéticas. Há a dialética ordinária da vida mortal e a morte. Isso é o que trabalha em todos nós. Ela cria em nós o gosto pela vida que faz do morrer uma tragédia. Por muito que nós sejamos campeões da vida mortal contra a morte, a causa é, finalmente, sem esperança. A morte tem a última palavra. O que faz a diferença para os cristãos, como para Paulo, é a outra dialética de morte e vida, a morte de Jesus e a vida de Jesus Ressuscitado.

Vivenciando a morte de Jesus, somos atraídos para essa dialética de sua morte e sua vida. Essa morte leva à vida. Isso leva, finalmente, ao dia em que o profeta previu, quando Deus destruirá a morte para sempre (Is 25:8).

18 de novembro de 2010

Contemplação

"Glosas sobre o êxtase de Alta Contemplação"

por São João da Cruz

glosas 5 e 8

Quanto mais alto se sobe,
tanto menos se entendia,
como a nuvem tenebrosa
que na noite esclarecia;
por isto quem a sabia
fica sempre sabendo,
toda a ciência transcedendo.

(...)

E se o quiserdes ouvir
consiste esta suma ciência
em um subido sentir
da divinal Essência;
é obra da sua clemência
fazer quedar não entendendo,
toda a ciência transcedendo.

 As Obras de São João da Cruz.
Petrópolis, Vozes, 2002

7 de novembro de 2010

Ao Horror da Demofobia, o Lirismo da Contestação

Recomendo aos amigos e amigas do Cristianismo, meramente, a leitura do texto "Xenofobia por toda parte?", de Immanuel Wallerstein.

Trecho:
O dicionário define xenofobia como o “medo dos estranhos ou estrangeiros, ou de qualquer coisa que é estranha ou estrangeira.” Parece ser uma praga endémica em toda a parte do mundo. Mas só às vezes infecta um maior número de pessoas. Esta é uma dessas vezes.

''''''' '''''''''     ''''''''''          ''''''''''      ''''''''''''         ''''''''
Depois voltei-me, e atentei para todas as opressões que se fazem debaixo do sol; e eis que vi as lágrimas dos que foram oprimidos e dos que não têm consolador, e a força estava do lado dos seus opressores; mas eles não tinham consolador.
Eclesiastes, 4.2


(...)A história, um dia, terá sua chance de falar: não será a história que se conta nas Nações Unidas, Waschington, Paris ou Bruxelas, mas a história ensinada nos países que se livraram do colonialismo e de seus fantoches.


Patrice Lumumba


Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira.O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos.Temos aprendido a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não aprendemos a sensível arte de viver como irmãos.

Martin Luther King Jr.





VISITA

Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.

Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam
com os que se foram

Eis que a mim vêm os meus mortos.


Léopold Sédar Senghor

16 de outubro de 2010

Sangue na Bíblia

Propusemos algumas reflexões já no nosso cantinho, “Cristianismo, Meramente”, acerca da leitura bíblica e do caráter sacro das Escrituras.

A Bíblia e o Sopro de Deus - parte I - Inspiração e Palavra

Bíblia e O Sopro de Deus - parte II - Linguagem e Revelação

Bíblia e O Sopro de Deus - parte III - Mensagem e Busca

Ler a Bíblia com Jesus?

http://defideorthodoxa-informadordeopiniao.blogspot.com/2010/03/lendo-biblia-com-jesus-parte-ii.html


Algumas vezes temos necessidade de irmos mais direto e nos debruçar sobre passagens controversas e constrangedoras, para reafirmarmos o princípio encarnacional, da Bíblia sendo divinamente inspirada e humanamente condicionada, os dois pólos em igual força. A condicionalidade bíblica não elimina seu caráter de ser testemunha da Palavra de Deus, e vice-versa.

Não temos espaço para tratar exaustivamente de diversas passagens; mas podemos pegar um exemplo dos mais controversos, examinarmo-lo rápida mas não superficialmente, e ilustrar e explicar esse princípio, podendo valer para extrapolarmos para outras narrativas e passagens.

As guerras israelitas contra as populações canaanitas, no livro de Josué.

- A leitura fundamentalista, para salvaguardar suas ênfases particulares, sacrifica até mesmo Deus no altar. Para sua leitura das “guerras de Yahweh” e do período de estabelecimento das tribos na Palestina, levam Deus a um nível moral muito mais abaixo do que o que Ele supostamente requer dos humanos. Iguala-o aos ditadores mais sangrentos, os mesmos que sofrem diversos oráculos de Juízo no "testemunho da Palavra de Deus" = Bíblia. Para eles, Deus exterminou arbitrariamente povos para promover uma limpeza étnica em favor de invasores.

Assim, eles têm de explicar o que Deus tem de tanta fissura pelos genes. Seria um sóciopata genocida. Dependente de genes – aliás, o que os genes garantem? Também, diversos escritores, como o deuteronomista, não enfatizam que Israel não possui uma santidade essencial, imanente, mas dependente da Graça?

Temos elementos para nos debruçar sobre um prisma mais condigno, fecundo, coerente, abrangente e corroborado?
Sim.

Considerando que:

  • na fuga do Egito, não havia um povo hebreu “puro” de sangue: junto com eles partiram outros povos misturados – Ex. 12.38; e na “conquista”, houvera mistura étnica que não fora nada reprovada - "dando suas filhas aos filhos deles, e seus filhos às suas filhas". Confira Js. 10:20.
  • o panorama geopolítico na região cananéia quando da chegada dos hebreus apresentava um aumento significativo da turbulência envolvendo sublevações de nações contra o Egito e reações egípcias implacáveis (como atestado na Estela de Merneptah) no período da segunda metade do século XIII adiante, com um notório enfraquecimento, substancial, do controle egípcio a partir da segunda metade do século XI; registra-se ainda turbulências internas em Canaã nesse período causadas pelos chamados habiru - semitas aparentados com os hebreus, tribos multiétnicas insurgentes. Tal instabilidade propiciava reinos buscando crescer e se consolidar e, para isso, buscando fortalecer relações tributárias expropriadoras e sendo muito sensíveis e desconfiados. Hazor, uma grande cidade, fora destruída no século XIII. 
  • a arqueologia constata que os pequenos reinados tinham cidades administrativas sobre as colinas, com fortalezas para manter o interior sob vigilância. Registra-se também movimentos de contingentes abandonando as aldeias controladas pelas forças militares em direção à terras menos férteis, na orla desértica da região montanhosa e terrenos acidentados das cadeias.
  • considerando a marca na tradição do povo sendo resistente a ter um rei, algo dissimilar para com o que se tem das culturas circuncidantes, como nos textos hugaríticos, o atestado dos pactos tribais em Juízes para se defenderem de reis, a retórica de valorização da autonomia ante administrações tributárias – resistida com guerra- como se vê em materiais textuais mais antigos, como o “canto de Débora” (Juízes 5), as diversas insurreições e guerras civis ante tentativas de administração mais central e verticalizada e controlada – a matança no recenseamento de Davi, a revolta benjaminita de Seba, a necessidade de Davi recrutar mercenários filisteus contatados na sua estadia lá, a estratégia salomônica dos trabalhos forçados monitorados por mercenários estrangeiros, a dissidência pós-Salomão, etc.
  • considerando o repetitivo resgate da memória coletiva de terem formado sua identidade a partir de uma libertação da escravidão por um império;



e muitos outros materiais, temos que:


  • o que houvera não foram “guerras de conquistas”, mas “guerras por autodeterminação e liberdade”. Aqueles povos nômades, em busca de estabelecerem seu modo de vida pautado por seu ethos e arranjo sócioeconômico de reciprocidade, transitando para o agropecuário, estavam à mercê de reinos que iriam ou massacrá-los, ou reduzi-los à uma servidão, desagregação social e fagocitose cultural, impondo uma servidão opressora de expropriação do excedente da produção. Então, a alternativa era a guerra e estabelecimento de alianças pragmáticas – o que se registra. O povo queria sua liberdade e dava sua vida por isso. Mesmo o famoso “votar em interdito” significava uma atestação de que não guerreavam para conquistar – não fazia sentido isso arrebentar com a terra e matar animais e não fazer escravos das vítimas -, nem eram guerras mercenárias para tomar coisas, mas autodefesa em estado de pânico.

Assim, emerge a imagem de que Yahweh é um Deus Libertador, e Fundamentador da autodeterminação comunitária. Inspirava a luta por liberdade e autodeterminação. A compreensão de que naquela contingência e naqueles condicionantes históricos, tal luta se dava na visceralidade marcante do rosto sangrento da história, por meio de guerras que refletiam a rotina histórica, vividamente narrado, não é um problema, antes, um contraponto para termos cuidado em aplicações automáticas e para usar como justificativa ao colonialismo, genocídio (como foi usado para se massacrar nativos nos EUA e para este invadir o México) e imperialismo. Em outros contextos, tal luta se manifesta de outra forma (e hoje, a luta se dá também impedindo que o Bush brasileiro e sua direita conservadora nos regridam no tempo nas eleições).

Mesmo o biblista evangelical Craig S. Keener tenta apresentar aos leitores a importância da compreensão da condicionalidade cultural da Bíblia:
O problema estava no fato de que, ao lerem a Bíblia, faziam-no baseados em seus próprios pressupostos culturais- o mesmo problema de todos nós ainda hoje, se não somos instruídos a enxergar para além desses pressupostos.
Todos os nossos antecedentes culturais, assim como os dados que estabelecemos como nosso ponto de partida, influem nas categorias e associações que introduzimos num texto - consciente ou inconscientemente.
(...) Se lermos o Evangelho à luz de nossa própria cultura, corremos o risco de confundir nossa cultura com a Bíblia, e impor aos outros nossa própria fórmula como condição indispensável para estarmos em harmonia com Deus.
Em Comentário Bíblico Atos do Novo Testamento.

9 de outubro de 2010

Transpondo o ministério de Jesus para o contexto atual

Recomendo o livro “Arqueologia, História e Sociedade na Galiléia: o contexto social de Jesus e dos Rabbis”. É uma excelente ferramenta para se entender a atmosfera da época, a configuração das relações sociais, as cargas conotativas que determinados termos e ações podiam carregar, cargas simbólicas, reflexos de eventos históricos na mentalidade do povo, o modo de vida, estrutura econômica, condições sociais, base material da cultura, geopolítica, etc. E isso é muito importante para quem quer transpor os cenários e seu impacto para o mundo contemporâneo, e podermos fazer um exame se a pregação e práxis tem refletido de acordo o ministério de Jesus e os primeiros cristãos, ou se estamos domesticando e criando nosso próprio cristianismo e mesmo nosso próprio “Jesus” de forma conveniente ao status quo.

O autor, Richard Horsley, apresenta um resumo ilustrativo da figura do ministério de Jesus entre as pessoas e estruturas de seu contexto, e o impacto de sua mensagem, a partir de uma aproximação histórica. Deixo um trecho que serve como ótima apresentação do que se emana, extraído de um outro livro dele, “Jesus e o Império: o reino de Deus e a nova desordem mundial”:

Recorrendo a esses valores e princípios tradicionais de relações político-econômicas justas e cooperativas, e adaptando-as, Jesus convocou as pessoas a assumirem o controle de suas vidas numa revolução social [ nota: revolução política é necessariamente tomada de poder através de um assalto; revolução social é transformação da ordem social advinda principalmente de transformação das relações sociais e econômicas]. Como Deus agia em nome delas, julgando e libertando, elas mesmas podiam agora agir para detectar comportamentos divisivos e para ® estabelecer a cooperação. Em vez de se culparem umas as outras pela pobreza que afligia a todos, elas podiam prestar socorro umas às outras, numa restauração de assistência mútua. Em vez de suspeição e rancor, podiam reacender um espírito de solidariedade. Longe de imitar as práticas exploradoras dos ricos, tirando vantagem da pobreza e desespero de outros para defraudar seus vizinhos, elas deviam renovar o compromisso com os princípios de justiça da aliança na esperança de que a ação restauradora de Deus era iminente. Em vez de imitar os padrões imperiais pelos quais os “grandes” exerciam o poder sobre outros,os que se dispunham a liderar deviam tornar-se servos dos outros.

27 de setembro de 2010

Olhai os lírios do campo...

A boa fortuna sempre parece trazer felicidade, mas engana a mente com seus sorrisos, enquanto que a má fortuna é sempre verdadeira porque mudando ela mostra sua verdadeira inconstância. A boa fortuna engana, mas a má fortuna ilumina. Com sua demonstração de riquezas ilusórias a boa fortuna escraviza as mentes daqueles que desfrutam dela, enquanto a má fortuna dá aos homens liberdade para reconhecer como é frágil a felicidade... A boa fortuna seduz os homens para longe do caminho do verdadeiro bem, mas, adversa, a má fortuna frequentemente faz os homens recuarem ao seu verdadeiro bem como uma pastora com seu cajado.
Ancius Manlius Severino Boécio (480-524 d.C.). Consolação da Filosofia, 2:8





Se as coisas cuja perda está lamentando fossem realmente suas, nunca as teria perdido.
2:2

18 de setembro de 2010

Lendo novamente A Parábola do Bom Samaritano

O estudo do contexto histórico, da cultura e das idéias do período dos séculos I a.C. e i d.C. é importantíssimo para lançar luz sobre significados e impactos dos escritos do Novo Testamento, para os ouvintes imediatos e para transpor para nosso tempo. Como já comentamos, o anacronismo desvirtua o sentido para um capricho qualquer; e também acaba retirando muito do impacto original.

Jericó mais baixa do que Jerusalém, e o caminho era uma descida. Era uma estrada de 27 Quilômetros, famosamente perigosa. Para iluminar a parábola do Bom Samaritano, e mostrar o quão provocadora, alguns elementos são muito oportunos de serem resgatados hoje. Por exemplo, o óleo era algo muito empregado na assepsia de feridas; nisto, para evitar ficarem “impuros”, os judeus evitavam o óleos dos samaritanos. E foi justo esse que fora empregado para salvar o judeu ferido na história.

Já é muito comum o entendimento entre a grande rivalidade entre judeus e samaritanos,e o desprezo que os primeiros sentiam pelos segundos. Estes últimos tinham vieses diferentes na sua interpretação da Torá, inclusive com alguns detalhes diferenciados no próprio texto. Tinham diferenças em termos de locais e símbolos sagrados. Os samaritanos tiveram também uma influência mais mista de diferentes culturas para sua religião, embora o judaísmo também o tivesse, obviamente. Com a conquista de Samaria em 722-721 a.C. pela Assíria, a maior parte da população fora deportada, mas não toda, havendo continuidade dos antigos israelitas não-judeus inclusive dentre os galileus do tempo de Jesus.

Atentemos para o que o arqueólogo Shimon Gibson aponta no livro “Os últimos dias de Jesus – a evidência arqueológica”, pg. 24:
A segunda rota pelas montanhas de Samaria era considerada perigosa, porque os samaritanos tinham fama de atacar caravanas de viajantes judaicos. O historiador Josefo relata como, enquanto atravessava o planalto da Samaria, “um grande grupo de judeus a caminho do festival [em Jerusalém]” foi atacado e alguns de seus membros, assassinados. Apesar de Sebaste – a Samaria do Velho Testamento – ser uma cidade pagã, havia forte presença samaritana na zona rural.

Esta ponderação acrescenta maior explosividade ainda para a confrontação que Jesus fizera ao interlocutor. De igual modo, a transposição da parábola para nossa situação, para se manter fiel ao Mestre, não pode perder nenhum ponto de grau de impacto. Exercício: tentemos reler Lucas 10.25-37, assimilando tal espírito. Quem poderia estar no lugar dos samaritanos, e do mestre da Lei?

14 de setembro de 2010

Serenidade do Coração

Esta é uma reflexão de São Simeão, O Novo Teólogo– 949-1022 d.C.
O mais importante dos místicos medievais bizantinos.


É um texto que primeiramente, a impressão forte em nós é de um estranhamento total. Chega a parecer algo que beira à loucura, de acordo com o ambiente de vida contemporâneo. Contudo, se formos pensar diversos pontos de tensão a que chegamos: grandes casos índices de suicídio; anomia generalizada; depressão se avizinhando como o mal do século; situações de extrema de confusão nervosa sendo transformados pelo corpo em transtornos que não conseguimos cuidar com medicamentos convencionais; uma espiritualidade “fast-food”, rasa e instrumentalizada pelos caprichos de consumo e mentalidade do egoísmo materialista; chegamos à conclusão de que o padrão de consumo das pessoas de classe média de países desenvolvidos é ingeneralizável e insustentável, exigindo diversos planetas. Não conseguimos vislumbrar nenhuma alternativa para um novo panorama, um novo cenário. Sabemos que existem diversas estruturas injustas e insustentáveis para transformar. Mas talvez a principal seja o caráter social, a canalização de nossa energia e vontade para uma lógica que mantém o status quo vigente, a principal estrutura a ser transformada, e para isso, precisemos nos transformar.


Com essa disposição de espírito podemos nos aproximar das proposições difíceis de disciplina espiritual de Pais Espirituais como São Simeão, resgatando legados que nunca podem ser enterrados, e trazendo-os como energia de mudança para nós hoje, em nome de uma ecologia integral da pessoa.


As Três Vias da Atenção e Oração


Introdução



Há três formas de atenção e oração, pelo qual a alma pode ser ascendida e tornar-se espiritualmente elevada ou desintegrar-se e perecer. Se essas três formas são usadas de forma adequada e no momento certo, a alma será erguida, enquanto que se forem utilizados indevidamente e na hora errada, a alma perecerá. Atenção, portanto, deve ser amarrada e inseparável da oração, da mesma forma que o corpo é amarrado e inseparável da alma. A atenção deve ter a liderança e mente para os inimigos como um guarda, e o lutar contra o pecado e resistir aos maus pensamentos da alma. Deve-se então ser sucedida por meio da oração, que irá destruir todos os maus pensamentos contra os quais a atenção lutara antes, uma vez que a atenção por si só não é capaz de fazer isso.


É dessa guerra de atenção e oração que a vida e a morte da alma depende. Pela atenção é que mantemos a nossa oração segura e, portanto, nós progredimos: se não temos a atenção para mantê-la limpa e nós deixamo-las desguardada, então é declinada por maus pensamentos e nos tornamos maus e sem esperança. Assim, as formas de atenção e oração são três, temos de explicar as características de cada uma e deixar a escolha para quem queira encontrar a salvação.


A primeira via de atenção e oração


As características da primeira forma são as seguintes: alguém está a rezar, erguendo as mãos para o céu juntamente com os olhos e a mente. Imagina os conceitos divinos, as boas coisas do Céu, os exércitos dos anjos, as residências dos santos e, em suma, reúne em sua mente tudo o que já ouviu da Sagrada Escritura. Lembra, no tempo de sua oração olhando para o céu, e exorta a sua alma para o que parece ser o amor e o apego ardente de Deus. Às vezes até tem lágrimas e gemidos. Desta forma, sua alma se torna gradualmente orgulhosa, sem perceber, pensando que o que faz é pela graça da compaixão de Deus para consigo. Daí pede a Deus que lhe conceda ser sempre digno de tais atos, que são, no entanto, sinais de erro.


Uma coisa boa deixa de ser boa, quando é realizada de forma errada ou na hora errada. De tal forma que este é o caso aqui que, se essa pessoa encontra a solidão perfeita, será impossível para ela não perder a cabeça. Se isso não acontecer, ainda será impossível para ela adquirir virtudes ou distanciamento do mundano. Por este método são enganados todos aqueles que vêem a luz com os olhos corporais, sentem os perfumes com o seu sentido de olfato, ouvem as vozes com os ouvidos e assim por diante. Alguns deles têm sido possuídos, movendo-se sem sentido de um lugar para o outro. Outros foram induzidos em erro ao aceitar o Diabo, que foi transformado e apareceu para eles como um anjo de luz, e eles permaneceram sem correção até o final, sem querer ouvir os conselhos de seus irmãos. Alguns deles chegaram a ser incitados pelo Diabo e cometeram suicídio, enquanto outros foram desintegrados e outros se tornaram loucos. Quem pode descrever as várias ilusões do diabo pelas quais ele enganou-lhes!


Qualquer pessoa razoável pode entender o tipo de danos que vem desta primeira forma de atenção e oração. Se acontecer que alguém, sendo acompanhado pelos irmãos (uma vez que estes males, geralmente acontecem para aqueles que estão por conta própria) não sofre qualquer das coisas que descrevemos, no entanto ele gasta toda a sua vida sem nenhuma melhora espiritual.

A segunda via de atenção e oração



A segunda maneira é esta: quando alguém concentra a mente em si mesmo, desvinculando-a de tudo que é terreno, guardando os seus sentidos, e congrega seus pensamentos de tal forma que eles não são dispersos pelos vãos do mundo. Às vezes, ele examina os seus pensamentos e às vezes ele presta atenção às palavras da oração que recita. Às vezes, ele volta aos seus pensamentos que estavam presos pelo Diabo e foram atraídos para o que é mau e vaidoso e, às vezes com muito esforço e luta, ele volta para si mesmo, depois de ser derrotado e possuído por alguma fraqueza.


Tendo esta batalha e guerra consigo mesmo, ele não consegue encontrar nenhum tempo de paz para fazer as ações virtuosas boa e receber a coroa da justiça. Para este homem é como aquele que luta uma guerra contra seus inimigos na escuridão e na noite, quem ouve as vozes dos inimigos e sofre sendo esfaqueado, mas não pode ver com clareza quem são, de onde vieram e como e por que estão atacando. Pois esse dano é causado pelas trevas em sua mente e a confusão em seus pensamentos, e, portanto, ele nunca pode escapar de seus inimigos, os demônios, de modo que eles parem de desbaratá-lo. O lastimável sofre em vão, pois ele perde a sua recompensa sendo possuído pela vaidade sem perceber, pensando que está atento. Muitas vezes, ele condena os outros e acusa-os, louvando-se e pensando que ele é digno de se tornar pastor de ovelhas racionais, guiando os outros. Ele é como o cego que promete guiar outros cegos!


Esta é a segunda forma; qualquer pessoa que queira encontrar a salvação precisa começar por aprender os danos que ela causa à alma, e ser cautelosa. Esta segunda maneira é, no entanto, melhor que a primeira, porque o céu com a Lua é melhor que a noite escura sem ela.


A terceira via


A terceira maneira é realmente estranha e difícil de explicar, embora, para aqueles que não estão cientes disso, ela é frequentemente incompreensível, aparentando irreal e impossível que tal coisa pode acontecer. Isto é porque nestes dias a terceira via não é encontrado em muitos, mas em raros. Pelo que entendi, esta virtude nos abandonou, juntamente com a obediência, pois é em sua obediência que alguém demonstra ao seu pai espiritual que o faz verdadeiramente livre, deixando todos os cuidados com ele e buscar se afastar das lutas do mundo, apesar de ser um artesão diligente desta terceira via. (Isto é, se encontra um verdadeiro pai espiritual sem o erro!) Assim, aquele que dedica a si mesmo e todos os cuidados para com Deus e o pai espiritual, pela obediência real já não vive sua própria vida onde ele faz seus próprios desejos, mas está livre de qualquer tipo de combate do mundo ou sua carne. Por que coisa efêmera, em seguida, essa pessoa pode ser derrotada espiritualmente ou escravizada, ou que preocupação ou afetação ela poderia jamais ter? É, pois, desta forma, juntamente com a obediência, que os dispositivos e maquinações dos demônios para distrair a mente para pensamentos muitos e diversas, são todos derrotados e dissolvidos. A mente, então permanece livre, e tem muito espaço e oportunidade de examinar os pensamentos trazidos pelos demônios, com uma maior destreza para expulsá-los e oferecer suas orações a Deus com um coração puro. Este é o começo do verdadeiro caminho da vida e aqueles que não fazem um começo tão tenaz lutam em vão, mesmo sem saber.


O início da terceira via não se dá por ficar olhando para o céu, levantando as mãos, tendo a sua mente no céu e pedir ajuda de lá. Como já dissemos, essas são da primeira maneira e são falsas. Também não é para guardar os sentidos com a mente e concentrar-se exclusivamente a esta, embora nem estar atento, nem vendo as guerras interior da alma realizado pelos inimigos. Estas são todas as segunda maneira. Quem os usa são presos pelos demônios e é incapaz de vingança daqueles que o preso, enquanto os inimigos estão sempre brigando ele secreta e abertamente, tornando-o orgulhoso e vaidoso.


Mas você, meu amigo, se você procurar a sua salvação, você deve começar da seguinte forma: após a perfeita obediência que disse que você deveria ter para o seu pai espiritual, então você deve realizar todas as suas ações com a consciência limpa, como se você tivesse Deus na frente de você, para a consciência jamais pode ser claro sem obediência. Você deve manter sua consciência limpa para estas coisas: Deus, pai espiritual, outras pessoas e coisas terrenas. Para Deus, é uma obrigação para manter sua consciência limpa, evitando as coisas que você está ciente de que Ele não gosta nem dar-lhe alguma alegria. Para o seu pai espiritual, você deve fazer as coisas que ele ordena que você faça, fazendo nada mais e nada menos, viver de acordo com seus planos e desejos. Quanto às outras pessoas, você deve manter sua consciência limpa por não fazer-lhes algumas das coisas que você odeia e não gostaria que fizessem para você. Para o terreno é de sua obrigação de se conter os abusos, usando-os todos de forma adequada, alimentos, bem como potável e roupas. Em resumo, você deve fazer tudo como se você tivesse Deus na frente de você, certificando-se que sua consciência não impede, nem condená-lo por não ter feito algo certo. Este é o início da rota verdadeira e firme da terceira forma de atenção e oração.


A terceira forma de atenção e oração é então este: a mente deve guardar o coração no tempo de oração e ficar sempre dentro dela. De lá, das profundezas do coração, deve em seguida, levante as orações a Deus. Pela primeira vez ele tenta dentro do coração e gosto e é aliviada - como o Senhor é bom! - Então a mente nunca mais vai querer deixar o lugar do coração. Vai lá repetir as palavras de Pedro, o apóstolo: "É maravilhoso para nós estarmos aqui!" [Mt 17:4, Mc 9:05, Lc 9:33] Então, ele sempre querer olhar dentro do coração, permanecendo lá e empurrando para o lado e expulsando todos os conceitos que são plantadas pelo diabo. Para aqueles que ainda não realizou este trabalho de salvação e de permanecer inconscientes, isto na maioria das vezes parece muito difícil e desagradável. Mas quem já provou sua doçura e gozava o prazer dentro das profundezas do seu coração, todos eles choram juntos com Paulo: "O que pode nunca vir entre nós eo amor de Deus?" [Rm 8:38-39].


Nossos sagrados pais ouviram o Senhor quem disse que a partir do coração procedem as más intenções, assassínios, adultérios, prostituição, roubo, falso testemunho, calúnia [Mt 15:19] e estas são as coisas que fazem um homem impuro [Mt 15:20]. Além disso, eles ouviram a parte do Evangelho em que estão ordenados para limpar o interior do copo e do prato primeiro, para que o exterior fique limpo também [Mt 23:26]. Por conseguinte, deixaram de lado qualquer outro trabalho espiritual e concentraram-se exclusivamente na guarda do coração, estando confiantes de que, através desta, eles facilmente alcançariam todas as outras virtudes, ao mesmo tempo sem o que nenhuma virtude pode ser preservada. Esta prática foi chamada por alguns pais de “serenidade do coração", enquanto outros denominaram-na “atenção”, outros “sobriedade” e outros “retenção”, outros “exame dos pensamentos” e outros “guarda da mente"; pois eram todos absorvidos nisto, e por isso foram achados dignos de aceitar as virtudes divinas.


É por isso que o Eclesiastes diz: "Alegra-te, ó homem jovem, na tua mocidade, e anime-te o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração irrepreensíveis e claros, e previna seu coração de pensamentos” [Ecles. 11:09 (LXX)] O mesmo se diz o Provérbio: “Se o diabo faz um ataque a você, não deixe que ele ocupe o seu lugar [Ecles. 10:04 (LXX)], onde "o lugar", significa o coração. O próprio Senhor nos diz no Evangelho que não deve se preocupar [Lc 12:29] ,em outras palavras, para não dispersar as nossas mentes aqui e ali. Mais uma vez, em uma passagem diferente Ele diz: “Felizes os humildes de espírito” [Mt 05:03], o que significa que felizes são aqueles que nunca adquiriram qualquer afetação deste mundo em seus corações e estão livres de todos os pensamentos meramente terrenos. Todos os nossos santos padres escrevram muito sobre isso, então quem quiser pode ler as suas obras procurar aqueles escritos por São Marcos o Asceta, São João de Klimax, São Hesychios, Philotheos do Sinai, Abba Hesaites, Barsanouphios o Grande, e muitos outros.


Em suma, quem não está atento para guardar sua mente não podem ser purificado em seu coração e, portanto, ser digno de ver a Deus. Quem não é atento nunca pode ser humilde de espírito, nem pode, ainda, lamentar e chorar, ou tornar-se manso e pacífico, ou ter fome e sede de justiça, ou tornar-se pacificador, misericordioso, ou perseguido pela causa da justiça [Mt 5:3-10]. É quase impossível adquirir alguma virtude por qualquer outro meio de atenção. É da atenção que você deve principalmente cuidar, para poder então entender as coisas que eu estou dizendo. Se agora você deseja aprender a maneira de conseguir isso, vou dizer-lhe.

Existem três coisas que você deve preservar para além qualquer outra coisa: desinteresse em tudo razoável ou irrazoável e vão, em outras palavras, o desapego de tudo; então clara consciência em tudo, como já dissemos, para o que não proporcione discernimento para nada; enfim uma completa paz, tendo sua mente independente de qualquer coisa meramente terrena. Quando você tem tudo isso, encontra um lugar calmo, senta sozinho em um canto, fecha a porta [Mt 6:06] e deixa sua mente de qualquer coisa efêmera e vã. Compila o seu queixo em seu peito para que você possa ter a sua atenção em si mesmo, com ambos os olhos e a mente. Segure a respiração ligeiramente para concentrar sua mente e, em seguida, tendo toda a tua mente lá, tente encontrar o lugar do seu coração. No início, o que você descobrirá é escuridão, insensibilidade e muito mal. Mas então, após ter praticado este método de atenção muito, dia e noite, você vai encontrar - grande maravilha! - uma felicidade incessante! A mente, através da luta, vai ter finalmente chegado ao lugar do coração, onde você vai ver as coisas que você nunca já tenha visto ou conhecido. Lá você vai ver o céu que está dentro de você, dentro do coração, e você vai encontrar-se iluminado, cheia de toda a graça e virtude.


A partir daí, se qualquer tipo de mau pensamento sempre aparece de qualquer direção, antes mesmo de ser considerado ou tomado forma, você irá imediatamente empurrá-lo de lado e dissolvê-lo pelo nome de Jesus com a sua oração: "Senhor Jesus Cristo tem misericórdia de mim". Daí em diante a mente vai começar a ter rancor e animosidade contra os demônios, estando em uma guerra incessante. Isso vai aumentar sua ira justificada e caçá-los, atacá-los, dissolvê-los. No que diz respeito às coisas para além disso, aqueles que você pode descobrir por si próprio, com a ajuda de Deus, através de seu esforço e atenção de sua mente, mantendo Jesus em seu coração com a Sua oração: "Senhor Jesus Cristo tem misericórdia de mim." É por isso que um pai da Igreja costumava dizer: "Fique na sua cela e tal vai te ensinar tudo".



PERGUNTA [Por que não é possível conseguir tudo isso através da primeira e da segunda maneira?]


RESPOSTA. Porque nós não estamos usando-as como deveríamos. São João de Klimax compara esses caminhos com uma escada de quatro degraus e explica: "Há aqueles que diminuem as suas pontos fracose humilham-se, outros que cantam, rezam com as suas vozes, outros que são absorvidos na oração espiritual e outros que alcançam à contemplação”. Aqueles, portanto, que desejam subir essas etapas, não comecem a partir de cima para baixo, mas que comecem a partir da mais baixas e ir para cima. Eles passam na primeira etapa e, em seguida, na segunda, em seguida, na terceira e, finalmente, na quarta. É desta forma que se é capaz de ser levantado da terra e subir aos céus. Primeiro de tudo é preciso lutar para diminuir e cessar as suas fraquezas. Só então ele deve ser absorvido em cantar: rezar com sua voz. É uma vez que diminuídas suas pontos fracos que a oração traz prazer e doçura da língua, e ele pode ser considerado próximo e apreciado por Deus. Então é preciso começar a orar com seu espírito e, finalmente, ele alcançará a contemplação. A primeira é a dos iniciantes, a segunda daqueles que estão aumentando as suas virtudes, a terceiro dos que chegaram a realização da virtude, ao passo que a quarta pertence ao perfeito.


O começo, portanto, nada mais é que a diminuição e cessação das deficiências, que não diminuíram na alma de qualquer outra forma, mas através da atenção e vigilância do coração. É o coração de onde vêm, como nosso Senhor diz, os maus pensamentos que fazem um homem imundo, [Mt 15:19-20], e é aí onde a guarda e a atenção é necessária. Uma vez que as pontos fracosestão totalmente diminuídas a resistência do coração, a mente vem a ansiar e procurar o caminho para reconciliar-se com Deus, estendendo a sua oração e tornando-se mais absorvida nela. Através deste desejo e oração, a mente está fortalecida e demite todos os pensamentos que a cercavam a fim de encontrar o seu caminho para o coração, e enfrenta-lhes com a oração.


Então começa uma guerra e os demônios resistem com grande estresse, causando confusão e tonturas no coração, explorando suas fraquezas. No entanto, pelo Nome de Jesus Cristo, todos eles são dissolvidos e derretem-se como cera no fogo. Mesmo depois de serem expulsos e terem deixado o coração, os demônios não renunciam, mas perturbam a mente externamente, através dos sentidos. No entanto, a mente vai sentir muito rapidamente a tranqüilidade que está dentro dela, pois eles não têm poder para perturbar as profundezas da mente, mas apenas a superfície. Escapar completamente desta guerra e parar de ser confrontado com os demônios malignos é impossível. Isto pertence ao perfeito e aqueles que verdadeiramente deixaram tudo para trás e tornaram-se inteiramente dedicados à oração do coração.


Aquele que, portanto, usa esses meios corretamente, cada um no momento certo, depois de ter limpado o seu coração das fraquezas, ele pode tornar-se dedicado em entoar cânticos, e lutar contra os pensamentos de olhar para o céu com seus olhos sensuais (se ele sente a necessidade de fazer isso há algum tempo) e olhar para ele com os olhos espirituais da alma, e orar de forma honesta e sinceramente, como é apropriado. Olhar para o céu, no entanto, deve ser evitado, pois o perigo dos demônios que existem e que são chamados espíritos do ar. Estes podem causar vários delírios diferentes, e assim devemos ser cautelosos. Esta é a única coisa que Deus nos pede para fazer: ter o nosso coração purificado por meio da oração. Segundo o Apóstolo, se a raiz é santa, em seguida, os ramos e os frutos são igualmente sagrados [Rm 11:16]. Sem a maneira que nós descrevemos, aquele que levanta os olhos e a mente para o céu e imagina vários conceitos, é obrigado a ver as criações de sua imaginação, coisas falsas e mentirosas, vindo de seu coração impuro.


Como já dissemos várias vezes, a primeira e a segunda maneira não trazem nenhum avanço espiritual. Quando queremos construir uma casa, não fazemos o telhado e depois lançamos as bases – porque isso é impossível -, mas em primeiro lugar, estabelecemos a fundação, em seguida, construímos a casa e depois adicionamos o telhado. Devemos fazer o mesmo em questões espirituais: em primeiro lugar colocar a fundação, que é para proteger o coração e expulsar os seus pontos fracos, e depois construir a casa espiritual, que é para expulsar os espíritos do mal lutando conosco através de nossos sentidos e, finalmente, tendo superado a guerra o mais cedo possível, adicione o teto, que é afastar-se todas as coisas meramente terrenas, e se entregar completamente a Deus. Assim completamos nossa casa espiritual em Cristo, nosso Deus, a quem toda a glória é devida, pelos séculos dos séculos.
Amém.

8 de setembro de 2010

Rezar

por Richard Bauckham

Mais pessoas rezam do que poderíamos supor. Pessoas que nunca vão à igreja e que dificilmente mencionam Deus rezam. Muitas vezes suas orações são orações aprendidas na infância, que continuam a preencher uma necessidade que sentem. Eles podem orar apenas quando as circunstâncias difíceis sugerem a necessidade de oração. Mas algumas pessoas apenas com a vaga sensação de crença em Deus oram mais ou menos regularmente.

Para o crente comum que reza e o aspirante a crente que reza, sua oração é uma atividade muito pessoal e bastante secreta. Eles sabem, talvez, o quão vulnerável isto é. Eles mal sabem por que oram ou para quem eles oram. Eles não poderiam defendê-lo para amigos ou familiares que achariam infantil ou inútil.

A mais simples oração - a oração de pedir - é também a mais fácil de julgar infantil. As crianças empregam-no naturalmente: "Deus abençoe a mamãe e o papai e Teddy e melhore Tia Maria, e por favor, faça Darren parar de ser horrível para mim, e por favor faça nevar amanhã para que eu possa andar de trenó." Nós crescemos até acharmos que Tia Maria, muitas vezes não fica melhor e que males muito piores do que Darren assolam o mundo, apesar de todas as orações de todos os fiéis. Também chegamos a pensar que, se existe um Deus, Ele não pode estar lá para conceder os nossos desejos mesquinhos, como fazer nevar amanhã, como se Ele fosse um gênio em uma lâmpada. E se existe um Deus, Ele deve, em qualquer caso, saber o que queremos, antes de perguntarmos a Ele.

Então, é infantil pedir a Deus as coisas? À primeira vista, o que Jesus diz sobre a oração não ajuda. Ele coloca-a na simples - infantil? - maneira: "Pedi e vos será dado, procurai e encontrareis, batei e a porta será aberta para você."

Este tipo de abordagem à oração só faz sentido se atentarmos para o fato de que Jesus pertence ao tipo de relacionamento com Deus de que ele fala, um relacionamento de confiante intimidade. Jesus quer que nós confiemos em Deus como as crianças pequenas confiam nos pais amorosos ou amigos próximos confiam uns nos outros. Uma criança não hesita em pedir a um pai amoroso por nada. Um bom amigo é alguém que você pode pedir qualquer coisa de que você precisa.

As crianças não obtêm tudo o que pedem aos seus pais. Por qualquer número de razões, somente algumas das quais podem ser devidamente explicadas às crianças, pais amorosos não dão ou não fazem o que os filhos lhes pedem. As crianças não deixam de confiar neles ou param de pedir-lhes. Isso ocorre porque a relação de amor e confiança é muito mais básica e importante do que qualquer dos pedidos.

Se as nossas orações de petição derem lugar a um relacionamento de amor e confiança, então podemos continuar orando, mesmo os tipos mais infantis de oração. Em certo sentido, somos sempre como crianças pequenas em relação a Deus, amando e confiando, como as crianças fazem bem, sem, muitas vezes, compreender. Mas existem maneiras em que a nossa oração deve também tornar-se mais adulta.

Nas orações de petição existem dois lados. Há partilha de nossas preocupações com Deus, e há também partilha das preocupações de Deus. Não devemos ser minimamente hesitantes sobre a primeira. Nada é muito trivial ou muito irrazoável de se compartilhar com Deus. Uma vez que Deus nos ama, Deus está preocupado com o que nos importa. É uma parte necessária do amor e confiança em Deus que possamos levar o que nos diz respeito a Ele, confiantes de que Ele se importa.

Isto não pode deixar as nossas preocupações inalteradas. Trazer a preocupação de Deus pode nos fazer perceber que nós estamos vendo a questão do ponto de vista muito egoísta e precisamos vê-la de forma diferente. Coisas podem acontecer com as nossas preocupações quando as levamos para Deus - assim como as crianças descobrem quando elas trazem as suas preocupações aos pais.

À medida que crescemos na oração, o que nós aprendemos também a fazer é compartilhar as preocupações de Deus. Isso pode começar por ver os nossos próprios interesses se virarem para vê-los da maneira como Deus o faz. Mas isso também significa olhar além das preocupações imediatas de nossas próprias vidas em todo o mundo, onde a preocupação de Deus abraça todas as pessoas e Sua criação. A oração envolve vir a compartilhar, de uma forma muito pequena mas real, algo da extensão da preocupação de Deus e da profundidade da preocupação de Deus para com seu mundo. Desta forma, a oração deveria expandir as nossas preocupações e alargar os nossos horizontes.

No relacionamento das crianças pequenas com os pais, partilhar as suas próprias preocupações com eles é muito mais importante do que partilhar as preocupações dos pais. Na relação de amigos íntimos, a partilha mútua de interesses é natural. É por isso que a Bíblia chama os fiéis não só como as crianças de Deus, mas também amigos de Deus. Não devemos ter vergonha dos aspectos “infantis” da nossa oração. Nós nunca crescemos para deixarmos de sermos crianças de Deus, mas nós também tornamo-nos amigos de Deus.

31 de agosto de 2010

As armadilhas da falsa humildade

Por isso o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei que quis fazer contas com os seus servos; e, começando a fazer contas, foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele com que pagar, o seu senhor mandou que ele, e sua mulher e seus filhos fossem vendidos, com tudo quanto tinha, para que a dívida se lhe pagasse.

Então aquele servo, prostrando-se, o reverenciava, dizendo: Senhor, sê generoso para comigo, e tudo te pagarei. Assim o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida.

Saindo, porém, aquele servo, encontrou um dos seus conservos, que lhe devia cem dinheiros, e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: _Paga-me o que me deves.
Então o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo:
_Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei.

Ele, porém, não quis, antes foi encerrá-lo na prisão, até que pagasse a dívida.

Vendo, pois, os seus conservos o que acontecia, contristaram-se muito, e foram declarar ao seu senhor tudo o que se passara.

Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe:
_ Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste.Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?

Há pouco tempo trabalhamos com uma exegese, um exercício interpretativo desta parábola contada por Jesus. As parábolas que Jesus contava primam, em primeiro instante, no relevo do plano de salvação que Deus estava implementando naquele momento crítico da História, em Jesus. Em segundo plano, são lições práticas sobre a vida cotidiana. Desta forma é o nosso tratamento em “Cristianismo, meramente”.

Essa parábola serve como dissecação arguta sobre algumas ciladas no dia-a-dia. Constantemente nos deparamos com pessoas que gostam de ostentar, com orgulho, sua humildade. “Eu sou só um reles x....”. Costumam se contrapor aos outros “bem, quem sou eu pra dizer diferente”; “ah, vou expor minha visão mas eu não sou como vocês...”; “olha, quem está querendo aparecer, aquele que se acha....”. É um tipo de armadilha retórica sórdida. Porque revela na verdade, o que a pessoa pensa em termos das relações sociais: uma concepção hierárquica esnobe. Pois o que ela se refere a si ela, fingidamente, ela aplica aos outros que enxerga como “de baixo”. Pois quem realmente não tem uma visão mesquinha ressalta a dignidade das pessoas vistas como “hierarquicamente inferiores”, sem precisar fazê-las de coitadas ou fazer-se de coitado. Os trabalhadores que realmente são democratas lutam pela sua dignidade, e não exploram uma falsa humildade. Não usam um “auto-rebaixamento” como constante em sua retórica, para constranger os outros a não retrucarem-no ou questionarem-no, ou para esconder suas posturas atrás dela.

Como nessa parábola. O servo insistia ao rei: tenha paciência... por quê?

Porque “oh, sou só um servo, quem sou eu? Perdoa esse servo coitado”... pra depois mostrar o que pensa dos servos: “você, seu ninguém, sua ralé, seu inferior, me pague”, e descarregava nele sua amargura por não ser um rei e ser subordinado.

Constantemente nos deparamos com pessoas assim. Em nossos lares, trabalhos, comunidades, país. Que se fazem de coitadas, revelando na verdade a forma como vêem o mundo. E é nos relacionamentos com pessoas em condições mais humildes que elas revelam isso. Como o servo da parábola.

Houvera um tempo no Brasil em que era “chique”, “sofisticado”, pregar a igualdade social e distribuição de renda. Se dizer de uma ideologia radical. Servia para muitos como pretexto para esnobar o povão, que não era “conscientizado”, não enxergava isso; era chique, a pessoa podia ser esnobe e se sentir superior. Era romântico e sofisticado condenar a desigualdade social em companhia de sarcásticos debochadores. Tal qual G.K.Chesterton ironizava os esnobes de seu tempo que se recusavam a comer carne, só porque o homem comum apreciava um bife; que abriam mão de tudo os que ligavam aos homens comuns, para se sentirem superiores, alegando justamente "idealismo".

Depois, que se começou a levar a sério isso de "distribuir renda", o que foi mais propiciado ao longo da evolução a partir da abertura política e democrática do país, parou de ser "cult", ficaram ressentidos de isso ter “caído na boca do povo”, do “povão” estar agora concordando, de isso os estar “nivelando”, e mostraram o que sempre foram por dentro: aqueles que defendem que os em posição socialmente em maior escala hierárquica são moralmente e essencialmente superiores e o poder deve concentrar-se em suas mãos.


Assim também, no cotidiano, vemos os “servos iníquos” mostrarem verdadeira agressividade quando se imaginam num cenário de equivalência com aqueles que vêem como debaixo de si. Na maioria das vezes, por parte daqueles que mais investem em uma máscara, fantasia, insistindo em toda oportunidade para demonstrar efusivamente de forma a mais afetada, que são o contrário.




E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia.