29 de março de 2013

3 de março de 2013

Ciência, Metafísica e Estética


A Scientific American Brasil publicou em seu portal este formidável texto de George Musser, onde ele versa sobre os “Einstein Papers Project” que contêm mostras das posições de Einstein dentro do panorama geral do clássico debate com Niehls Bohr a respeito da física quântica. 

Este debate famoso (de Einstein: "se sem perturbar de modo algum um sistema, pode-se prever, com certeza, o valor duma quantidade física, existe um elemento de realidade física relativo a este sistema, que corresponde a esta quantidade física") abriu as cancelas para uma das controvérsias mais acirradas da ciência básica, a do instrumentalismo do Bohr, em que a probabilidade quântica é uma propriedade intrínseca e a indeterminação está no real ( para ele, as teorias científicas sendo apenas instrumentos convenientes para permitir predizer fenômenos e serem úteis para correlacionar o que se observa com o controle técnico, e o debate quanto ao rigor e acurácia delas não é no nível do que a realidade realmente é - pois em si mesma é inapreensível - , mas no nível da linguagem mais apurada e consistente sobre ela) e o determinismo ontológico de David Bohm em que a incerteza é oriunda da inevitável ignorância devido a não se ter o instrumental necessário para acessar experimentalmente as "variáveis escondidas" (para ele, as teorias científicas realmente descrevem a realidade, que embora tenha manifestações locais indeterministas, no todo é determinista, fechada na cadeia de causa-efeito, só que descobre-se que ela possui variáveis intrinsecamente ocultas).

É o debate do positivismo (Borh) contra a epistemologia (Bohm). 

"siga-me", fotografia por Wang Qingsong
Para Bohr, "não existe mundo quântico. Existe apenas uma descrição filosófico-quântica abstrata. É errado pensar que a tarefa da física seja descobrir como é a natureza. A física se preocupa com o que podemos dizer sobre a natureza", em "The Philosophy of Quantum Mechanics", de M. Jammer.

Tal debate nunca foi resolvido em termos de julgamento das evidências, comprovação, corroboração, contra-exemplos. Os julgamentos entre os cientistas entre a controvérsia evoca critérios metafísicos e mesmo estéticos. Decidem em termos de qual postulado é mais elegante, ou que possui maior poder explicativo para um número maior de fenômenos, etc.

Eu me identifico com uma posição recente, que integra alguns pontos de cada, ( como o faz também o Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica - ICRA); adoto a visão de que emergem na realidade diversos níveis de eventos, processos e componentes com princípios de organização próprios e que se influenciam mutuamente no todo maior. A abertura caótica criativa ao meu ver está na própria realidade, mas a realidade não pode ser decifrada manifestamente direta. Sou Realista Crítico, caindo mais para o crítico, porém: pode-se ter acesso à escopos da realidade (mesmo que a galera Copenhague diga que não), ainda que não seja representada de forma diretamente objetiva, mas pode ser conhecida parcialmente e representada ainda que imperfeitamente. Ocorrerá sempre uma "distorção". 

Assim, está mal-direcionada a busca para um modelo e consequente linguagem universal para todos os fenômenos, que muitos cientistas acreditam ser uma "missão", autônomo ante as peculiaridades do processo abordado. 

 Disto decorre que o Real é muito mais rico e fecundo do que cabe no claustro positivista. Não podemos pautar o que "É” com um "Só Pode Ser Assim" derivado do que achamos "Normal". Nosso questionamento tem de ser no sentido de "o que lhe faz pensar que seja assim?".
  
Vez ou outra retomo leituras de "Uma Incertaine Réalidaté", de Bernard d'Espagnat, que de certa forma acompanha uma avaliação balanceada da controvérsia, de linha realista critica, embora esteja inclinado de foma mais matizada para Copenhague. Foi uma das leituras mais apaixonadas que fiz de um livro sobre divulgação popular de física teórica e cosmologia, e considero uma obra que nos conduz a encaramos o Universo com o assombro do "Numinoso", sobre o qual Rudolf Von Otto escreveu tão poderosamente. 

As traduções do francês aqui são livres, com ajuda indispensável do dicionário (imagine-se o que é ler e reler sob estas condições =P):

Ao contrário do caso com a física clássica, com sua divisão em campos e parcelas que são consideradas um reflexo da realidade, os 'objetos' de referência da física quântica são insólitos. Partículas quânticas agem de forma imprevisível e indeterminada e muitas vezes não possuem propriedades palpáveis ou detectáveis que permitam estabelecer sua localização espacial, nem sobre margens de energia limitada, nem seu sentido de rotação. Eu me atreveria inclusive a dizer que essas formas misteriosas não são outra coisa do que noções que nós temos elaborado para representar o nosso mundo empírico.

Ele conclui em termos gerais que, conquanto as implicações físicas da teoria quântica sugerem que o conhecimento científico nunca verdadeiramente descreve a realidade de maneira puramente objetiva, independente dos meios de mentalização, a necessidade conceitual é de redefinir a realidade definitiva por uma "realidade velada”'. "_A única resposta que eu sou capaz de fornecer é que subjacente a esta realidade empírica está uma misteriosa e não-conceituável 'realidade última', não incorporada no espaço e (provavelmente) não no tempo também."

Então, nenhum dos seguimentos do saber humano hoje é suficiente para nos endereçar na "caça" ao real, reivindicando serem as vias cognitivas únicas de acesso ao Ser. "Teoria do Tudo"? Um sonho vago e distante. Talvez com necessidade de ser "re-focado". A melhor tarefa da explicação científica é impedir fantasia descuidada e a especulação desenfreada, suscitando coerência para os cenários ontológicos.