31 de dezembro de 2009

Maria, Simeão ou Ana? Quem primeiro reconheceu Jesus como Messias?

traduzido de artigo publicado em Biblical Archaeology Review

por Ben Witherington III

Ser o primeiro a saber nem sempre significa ser o primeiro a compreender. Na narrativa de nascimento de Lucas, Maria é a primeira a ser informada de que Jesus será o Messias. Lucas acrescenta que ela "entesourava as palavras" que o anjo Gabriel fala para ela. Mas Maria também está intrigada com a mensagem divina; está "perplexa" quando o anjo a saúda e precisa "ponderar" o significado de suas palavras (Lucas 1.29, ver também 2:19). Nisto, Maria contrasta com Simeão e Ana, dois idosos que acontece de estarem no Templo, quando José e Maria trazem o menino Jesus a Jerusalém pela primeira vez.

Segundo Lucas 2.22-24: "[José e Maria] levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor (conforme está escrito na lei do Senhor: 'Todo macho primogênito será designado consagrado ao Senhor'[citando o Êxodo 13.2,12]) e ofereceram um sacrifício de acordo com o que está previsto na lei do Senhor, 'um par de rolas ou dois pombinhos' [com base em Levítico 12.2-8]".

No Templo, a família é abordada por um homem chamado Simeão, a quem tem sido dito pelo Espírito Santo que não vai morrer até que ele tenha visto o Messias. (O mesmo Espírito disse-lhe para ir ao Templo naquele dia, também.) Simeão toma Jesus nos braços e louva a Deus: "Mestre, agora você está adespedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra, porque meus olhos viram a sua salvação, que preparaste na presença de todos os povos, luz para revelação aos gentios, e para glória para o teu povo Israel"(Lc 2.28-32). Tendo visto o Messias, Simeão está agora preparado para morrer.

Ana, então, aproxima-se da Sagrada Família. Ela também reconhece Jesus como Messias, mas ela tem uma reação muito diferente: "Naquele momento, ela veio e começou a falar sobre a criança para todos os que esperavam a redenção de Jerusalém" (Lucas 2.38). Ela tem 84 anos, segundo Lucas, e ela não quer morrer: Ela quer fazer proselitismo. Tal como os discípulos que irão segui-la, ela é orientada para testemunhar o que viu. Maria foi a primeira a ter a boa notícia anunciada para ela, mas Ana é a primeira mulher a compreender plenamente e proclamar a boa notícia.

Isso ocorre porque, além de ser uma pregadora, Anna é uma “profetisa" (Lucas 2.36). Na verdade, ela é a única mulher no Novo Testamento explicitamente descrita como uma “profetisa". Ela, então está na linha de figuras como a juiza, chefe militar e profetisa Débora e a profetisa de Jerusalém Huldá, que, nos dias do Rei Josias, foi solicitada a verificar se um rolo antigo (uma forma de Deuteronômio) descoberto durante a reforma do Templo era realmente a palavra de Deus (2 Reis 22).

Ao contrário de Simeão, Ana não só está na visita ao Templo para o dia; ela está ali o tempo todo. Segundo Lucas, Ana "nunca deixava o Templo, mas adorava lá com jejum e oração, noite e dia" (Lucas 2.37). Talvez ela fazia parte de algum tipo de ordem de viúvas (Lucas nos diz que seu marido morreu depois de apenas sete anos de casamento) que tinham funções religiosas específicas no Templo. Ela pode ter sido capaz de assumir esse papel no Templo, porque ela já não estava em periódicos estados de impureza ritual causados pela menstruação.

Lucas também pode ter visto Ana como a segunda testemunha no ou em torno do Templo necessária para validar o significado de Jesus. Deuteronômio 19.15 salienta a importância de ter duas testemunhas para validar um evento.

O emparelhamento de Simeão e Ana reflete a propensão de Lucas para o paralelismo macho-fêmea quando ele escreve sobre os destinatários da bênção divina e da salvação. A história do nascimento de Jesus é emoldurada por duas histórias assim - de Isabel e Zacarias, em Lucas 1 e Ana e Simeão, em Lucas 2. Curiosamente, em ambas, a mulher é retratada como o exemplo mais positivo do discipulado. As mulheres não só estão mais receptivas à mensagem, elas estão mais dispostos a agir sobre ela, com Elizabeth percebendo que seu primo está carregando o Messias e louvando a Deus por essa bênção e Ana espalhando a boa notícia.

Alfred Plummer, em seu comentário clássico sobre Lucas, sugeriu que a diferença entre Ana e Simeão fornece uma pista para Lucas como um historiador da salvação, um cronista dos atos poderosos de Deus para o seu povo através dos tempos. Sim, um messias chegou, como Simeão reconhece, mas, como a profetisa Ana sugere, uma nova era, com uma nova e viva voz da profecia, tem ao mesmo tempo raiado.[1] Nesta nova era, a voz viva de Deus vai continuar a falar sobre o messiânico. Ana é a primeira de uma linha de discípulos proféticos que irão falar sobre Jesus a todos os que esperavam a redenção de Israel.

Nem todo mundo pode ser um profeta, no entanto. Maria, por exemplo, não entende completamente o que Ana imediatamente reconhece. E ela não o irá por vários anos.

Doze anos após a apresentação de Jesus no Templo, a Sagrada Família retorna a Jerusalém e Jesus retorna ao Templo, desta vez sozinho. Maria e José procuram por ele freneticamente por três dias. Quando finalmente encontram-no ouvindo e fazendo perguntas aos professores no Templo, Maria pergunta: "Filho, por que fizeste assim conosco? Olha, seu pai e eu fomos procurá-lo em grande ansiedade." Jesus responde:" Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai?" Porém, relata Lucas, "eles não entenderam o que ele disse a eles... [mas] a sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração" (Lc 2.48-51). O falecido estudioso do Novo Testamento Raymond Brown escreveu: "A idéia de Lucas é que a aceitação completa da palavra de Deus, o entendimento completo de quem é Jesus, e o discipulado completo não é ainda possível. Este objetivo será concretizado através do ministério de Jesus e, em particular, através da cruz e ressurreição."

Claramente, Lucas não está pintando um retrato idealizado da Maria ou José. Ao contrário, ele pinta um quadro muito humano e realista de Maria e José como bons pais, ansiosos, preocupados, se esforçando para serem obedientes e compreender, mas ainda não compreendendo. Brown acrescenta, porém, que "Lucas não deixa Maria na nota negativa do mal-entendido. Ao invés, em 2251 [ "sua mãe guardava todas estas coisas ..."] ele enfatiza sua retenção de que ela ainda não entendia e ... sua busca contínua de compreender."[2]

Claro que, no final, Lucas descreve Maria como bem sucedida fazendo a viagem espiritual à família da fé; em Atos 1.14, quando os apóstolos se reúnem no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, Maria está com eles. Mas a história de Simeão e Ana sugere que Maria tinha muito a aprender antes que ela pudesse entrar no Reinado, e à família espiritual de fé, a qual eles já pertenciam, e a qual é a principal família de Jesus na era escatológica.

A história de Natal de Lucas é cheia de reversões surpreendente de fortunas e papéis, em que pessoas de fora tornam-se colaboradores mais íntimos do que membros da família, e na qual as mulheres desempenham um papel mais ativo do que os homens. Desta forma, Lucas também se prepara para os sinais de um de seus temas principais, no Evangelho de Lucas e em Atos- pelo menos, os últimos e os perdidos estão tornando-se os maiores, os primeiros e os encontrados com a vinda de Jesus. Lucas retrata a ascensão de uma forma de judaísmo que invoca o testemunho de mulheres assim como os homens, e que iria permitir-lhes mais uma vez preencher papéis de anciãos como Miriam.

O primeiro Natal e o menino Jesus vieram em um determinado ponto no tempo, mas para muitos, como Maria e José, a importância do evento somente poderá ser entendida de forma incremental e ao longo de muitos anos. Mas a intuição profética para com intenções de Deus é um dom o qual se mantém a prover e renovar o povo de Deus. E no início de uma longa cadeia de tais visões proféticas permanecem Simeão e Ana, uma certeza de que a profecia foi cumprida e a outra apontando para o futuro, um futuro tão brilhante quanto as promessas de Deus.

1. Veja Alfred Plummer, Luke, International Critical Commentary (Edinburgh: T & T Clark, 1905), p. 71.
2. Raymond E. Brown e Karl P. Donfried, eds., Mary in the New Testament (Philadelphia: Fortress, 1978), pp. 161–162.

26 de dezembro de 2009

Santo Estêvão,arquidiácono, e mártir

Santo Estêvão, consagrado diácono pelos apóstolos [Atos 6.5-6],é apresentado no livro de Atos [6.8-7.60] martirizado após um discurso aos judeus, com uma denúncia profética a respeito da queda espiritual do culto ligado ao serviço oficial do Templo, e o discurso legitimador deste serviço e instituições relacionadas. Ele atesta desde cedo o caráter multiforme do movimento cristão, com pessoas oriundas de diversos segmentos no ideário do Judaísmo do Segundo Templo e relacionados a ele. Seu sermão parece trabalhar em cima da Torá Samaritana. Vemos isso quanto à idade de Terak apontada como 145, não 205 anos. Abraão sepultado em Siquém. Filo de Alexandria, em “De Migratione Abrahami”, coloca que Abraão deixou Harran depois da morte de Terak; também no destaque dado a José podemos perceber ecos da leitura samaritana, como também a oposição à centralização do culto no templo de Jerusalém.

Após o martírio de Estêvão, assistido por nada mais nada menos o apóstolo Paulo - então anti-cristão - desencadeou-se uma severa perseguição aos cristãos, havendo uma dispersão destes, e os "judeus helenistas" encontrando acolhida em Samaria.

Coleta para o dia de Santo Estêvão, no Livro de Oração Comum da Igreja Anglicana:

Damos-te graças, ó Senhor da glória, pelo exemplo de
Estevão, o primeiro mártir da tua Igreja, que, olhando para
o céu no momento do seu martírio, intercedeu pelos seus
perseguidores junto a Jesus Cristo, teu Filho, que está à tua
direita no céu, onde vive e reina contigo, ó Pai, e com o
Espírito Santo, um só Deus agora e sempre.
Amém.


Hino da Igreja Ortodoxa dedicado a Santo Estêvão:
Rumo a Estêvão, iluminado pelo Espírito,
Os assassinos judeus acorreram.
O ensangüentado Estêvão ajoelhou-se
E em alta voz clamou a Deus:
"Ó Senhor, Que da Cruz perdoaste
O maior pecado que jamais abalou a terra,
O maior pecado que o céu jamais contemplou:
Perdoaste Teus assassinos.
E agora, ó Graciosíssimo, perdoa-me a mim também!
Este crime – que é comparado àquele?
E eu, que sou, comparado ao meu Senhor?"
Dizendo isso, entregou seu espírito a Deus.
Os anciões furiosos, covardes feios,
Dispersaram-se depois de o matarem.
Então do céu desceram anjos
Ao redor do corpo do Protomártir.
Cantaram em coro um hino a ele
E levaram ao Paraíso a sua alma paradisíaca.

20 de dezembro de 2009

A Natividade Segundo Lucas

Tradução de texto publicado na Biblical Archaeology Review

por Ben Witherington

As porções de Natal do Evangelho são, talvez, as mais amadas, e os mais elaborados textos do Novo Testamento. Como obras de arte que foram lacadas com revestimento após a camada de verniz, as histórias originais são dificilmente visíveis ainda. Hoje, é difícil imaginar o Natal sem boi e um burro, por exemplo, embora nem Mateus nem Lucas mencionem animais. (Ao invés, São Francisco, o amante medieval grande de animais, é creditado com a construção do primeiro presépio completo com animais vivos.) Os três Reis Magos também são dispositivos elétricos permanentes em nossa imagem da Natividade, embora eles não cheguem, segundo Mateus 2, até vários dias após o nascimento de Jesus (a epifania para os pastores, no entanto, tem lugar no mesmo dia).

Talvez revisitando a história de um ponto de vista do historiador pode remover algumas dessas impressões equivocadas, estas camadas de verniz, e vamos ver a obra-prima nas suas brilhantes cores originais.

Parte do problema hoje é que nós tendemos a confundir os relatos de Mateus e de Lucas em uma história de Natividade. Para contrariar esta situação, nesta coluna vamos nos limitar a alguns versículos de Lucas.

No momento do nascimento, José e Maria estão em Belém, na casa dos ancestrais de José, onde o casal viajara, segundo Lucas 2:1-5 , para participar de um censo.[1]

Como Lucas 2:5 diz claramente, José e Maria estão envolvidos, e Maria está grávida. Casamento no judaísmo antigo era tão obrigatório como o casamento moderno é hoje. Era necessária a dissolução formal para anular tal compromisso. Mulheres judias estavam geralmente entre 11 e 13 anos, quando noiva, e os homens eram, em geral um pouco mais velhos. Casamento no judaísmo envolvia um pacto entre um homem e uma mulher, e o compromisso era para ser uma aliança de vida, embora aos homens eram permitidos alguns motivos para o divórcio. O que é importante a lembrar é que em uma cultura de honra e vergonha, como o judaísmo, era um escândalo engravidar fora do casamento ou antes do casamento. Das noivas era absolutamente esperadas serem virgens quando se casassem.

Se Belém foi a cidade onde viviam os parentes de José, então é natural esperar que José e Maria tivessem procurado primeiro acomodações com a família. Este parece ser o que eles fizeram. Não é o caso de Maria e José terem sido forçados a parar em algum lugar ao lado da estrada, porque de repente, Maria entrou em trabalho de parto. Ao contrário, Lucas 2:6 nos diz que "enquanto eles estavam lá", isto é, em Belém, "chegou o momento para ela dar à luz ao seu filho."

Onde ficaram hospedados em Belém? Lucas diz-nos que, após o nascimento, Maria colocou o bebê em uma “manjedoura", ou pequeno paiol, porque "não havia lugar para eles na kataluma "(Lucas 2:7)-um termo grego que outrora se usava para significar “sala de hóspedes" (ver Lucas 22:11). Quando Lucas quer falar de uma pousada, que ele chama de pandocheion (cf. Lc 10:34). Assim, Lucas não diz nada sobre o Santo casal sendo expulso de uma pousada e de Maria ter de abrigar a criança em um celeiro. Historicamente, é muito mais provável que Maria e José tiveram seus filhos na parte de trás da humilde casa ancestral onde os animais mais valorizados eram alimentados e, no inverno, alojados, porque o quarto na casa da família já estava ocupado. Em qualquer caso, Belém era uma pequena aldeia, em uma estrada secundária, na qual não é ainda claro que tivesse uma pousada. É certo que, os inícios de Jesus eram humildes, mas não temos necessidade de mitificá-los em alguma história sobre um bebê que está sendo expulso pelo mundo.

Lucas sugere que este nascimento nunca foi de alguma forma milagrosa ou incomum. (O milagre é dito ter acontecido antes, na concepção de Jesus.) Mas, em um pasto nas proximidades, havia muita folia celestial.

Em Lucas 2:9, "um anjo do Senhor" aparece antes de alguns pastores, que estão "mantendo a vigília do seu rebanho durante a noite."

O episódio sobre os pastores, que ocupa mais espaço do que a discussão sobre o parto em si, tem uma certa plausibilidade histórica, uma vez que Belém foi uma das principais áreas próximas de Jerusalém, onde os ovinos eram levantados para o sacrifício no Templo. Devido à sua profissão, os pastores eram vistos como camponeses impuros por alguns judeus antigos, mas Lucas vê-los como exemplos dos marginalizados, para quem o nascimento de um salvador seria visto como uma boa notícia na verdade (cf. Lc 1:52, 4:18 ).

Através da Bíblia, os anjos são arautos da atividade divina e mensageiros de Deus, e o anjo de Lucas 2 não é exceção. Lucas 2:9 fala da glória do Senhor brilhando em torno do anjo e dos pastores, uma referência para a brilhante e luminosa presença, ou Shekinah, de Deus. Naturalmente, os pastores estão assustados com a visão.

“Não tenham medo", o anjo tranqüiliza os homens, “vejam - eu estou trazendo boas novas de grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Messias "( Lucas 2:10-11). O anjo enfatiza que o Salvador nasceu "para vocês"- os pastores, isto é, aos menores, os últimos e os perdidos.

O anjo diz aos pastores que eles encontrarão o bebê envolto em panos e deitado em um pequeno paiol. Isso ele oferece como um "sinal" ou prova de que ele está dizendo a verdade sobre o nascimento do Salvador.

A linguagem sobre “salvador” utilizada pelo anjo aos pastores na abordagem baseia-se na retórica do culto imperial, nos dias de Lucas. Durante todo o império, inscrições prepotentes comemoravam o nascimento do imperador que havia "pacificado" toda a região em torno do Mediterrâneo. César é descrito como um deus caminhando na Terra em carne e osso. Em seu Evangelho, Lucas está usando essa mesma linguagem, retratando a criança judia de origem humilde, Jesus, como o salvador real, o verdadeiro Senhor, cuja vinda vai trazer a paz na terra em comparação com o imperador Augusto, que é apenas um pretendentee falsificação.

Quando os pastores ouvem as notícias "que o Senhor deu a conhecer a nós" (Lucas 2:15)- para tomarem o anjo como sendo porta-voz do próprio Deus, eles vão para o paiolzinho com pressa para ver com seus próprios olhos o sinal de confirmação . Eles então saem como os primeiros evangelistas ou anunciadores da Boa Nova. As boa novas não são apenas sobre se ver Jesus, também envolve o encontro com o anjo.

É afinal a palavra angelical que ajuda a interpretar corretamente o público do evento: Esta criança é alguém especial, humana, mas divina. É por isso que todos os que ouvem a prodigiosa proclamação dos pastores, incluindo a própria Maria. A tradução de John Nolland aqui capta o espírito do texto: Após os pastores "fazerem conhecer" o que lhes tinha sido dito sobre essa criança, "Maria guardava todas estas coisas, tentando em seu coração penetrar o seu significado" (Lucas 2:17, 19) .[2] Maria é assim retratada como mansa e, portanto, a caminho de se tornar uma verdadeira crente.

Assim, a história está cheia de momento histórico, e igualmente, cheia do miraculoso. Ela realmente não precisa de toda a campanha publicitária extra de Natal. Os historiadores antigos, ao contrário dos modernos, raramente tinham preconceitos com relatar coisas sobrenaturais assim como naturais. (Podemos refletir sobre quem é mais esclarecido, nós ou eles?) .

Tudo o que nós fizemos desta história, tem claramente gerado um enorme legado de graça, bênção e dom através de dois milênios. Na sua forma original, é um lembrete de que os caminhos de Deus raramente são os nossos caminhos. Como o poeta escocês George MacDonald disse certa vez: "Eles todos estavam à procura de um rei, para matar seus inimigos e exaltá-los: não esperavam, uma coisa bebezinha, que fez uma mulher chorar".


NOTAS


[1]Muita tinta foi gasta em Lucas 2:1-2, em relação ao aparente erro de sugestão de Lucas que Maria e José viajaram para Belém para participar de um amplo censo mundial realizado por Quirino, governador da província da Síria (que incluía a Judéia nesse ponto). Basta dizer aqui que é perfeitamente viável traduzir "este primeiro recenseamento aconteceu (antes de que) Quirino fosse governador da Síria." Embora possa haver algum exagero retórico na referência a todo o "(conhecido)" mundo a ser registrado no censo de Quirino, Augusto perseguiu uma política de direta tributação em toda a província imperial do império; Judéia era parte de uma província imperial, então um recenseamento é perfeitamente viável. Veja a discussão detalhada de John Nolland, Luke 1-9:20 (Waco, TX: Word, 1993), pp. 9-103 e toda a bibliografia lá.

[2] NOLLAND, Lucas 1-9:20, p. 97. O grego aqui se refere não apenas a acumular idéias, mas valorizando e avaliando-as, ruminando sobre elas, porque o seu significado não é imediatamente aparente. Isso seria o oposto de alguém que é duro de coração e imediatamente rejeita a mensagem. Veja a discussão em Ben Witherington III, Mulheres no ministério de Jesus (Cambridge: Cambridge University Press., 1987).



Ben Witherington é professor Amos de Novo Testamento para estudos de doutorado no Seminário Teológico Asbury e na faculdade de doutorado na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Com uma graduação da UNC, Chapel Hill, ele recebeu a M. Div. grau de Gordon-Conwell Theological Seminary e Ph.D. da Universidade de Durham, na Inglaterra. Ele agora é considerado um dos estudiosos evangélicos top no mundo, e é um membro eleito do prestigioso SNTS, uma sociedade dedicada aos estudos do Novo Testamento. Dr. Witherington apresentou seminários para igrejas, colégios e eventos bíblicos nos EUA, Inglaterra, Estônia, Rússia, Europa, África do Sul, Zimbábue e na Austrália. Ele já escreveu mais de trinta livros, incluindo The Quest Jesus: The Third Search for the Jew of Nazareh e The Paul Quest, ambos os quais foram selecionados como top de obras de estudos bíblicos por Christianity Today. Além de suas muitas entrevistas em redes de rádio de todo o país, o professor Witherington foi destaque no History Channel, NBC, ABC, CBS, CNN, Discovery Channel, A & E, e na Rede PAX

13 de dezembro de 2009

Vamos ver a Estrela

O Cristianismo nasceu e começou a ser pregado em civilizações onde festas e celebrações constituíam uma parte orgânica e essencial da geral concepção do mundo e estilo de vida...E, acreditemos ou não, o Cristianismo aceitou e fez seu esse fenômeno humano de festa, como também aceitou e fez seu o homem todo com todas as suas necessidades.
Alexander Schmemann, Sacramentos e Ortodoxia.

Augusto Frederico Schmidt(1906 – 1965)

Poemas em Louvor de Jesus Cristo - O Nascimento
Vamos ver a Estrela!
Sairemos pelas estradas, cantando,
Sairemos de mãos dadas,
E acordaremos as brancas e tímidas ovelhas.
Iremos surpreendê-Lo, Pequenino e Simples,
Sua Inocência Iluminará os caminhos felizes, dormindo.
Vamos ver a Estrela!
photo



8 de dezembro de 2009

Reverência ao Criador, responsabilidade com a criação

De 07 a 18 de dezembro acontece a 15ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas - COP 15, em Copenhague, Dinamarca, mobilizando delegações do mundo inteiro, chefes de estado, representações diplomáticas, institutos de pesquisa, organizações não-governamentais.

Links recomendados:
Cop 15 - Copenhague 2009: Especial da BBC Brasil
Observatório do Clima

Confira também as organizações e espaços de reflexão/mobilização cristã na seção Ecumenismo no nosso blog "Cristianismo, meramente".



Oração

Deus Criador, a Terra é miraculosa e linda. Perdoe nossa confusão e inação ao nos confrontar com os desafios que as mudanças climáticas nos apresentam. Na luz de Sua verdade, ilustrada tão nitidamente através da vida e dos ensinamentos de Jesus, ajude-nos à reexaminar a nós mesmos e as escolhas relacionadas aos nossos estilos de vida. Ajude-nos à perceber as implicações que nosso modo de viver tem nas outras formas de vida na Terra. Que nós possamos seguir Sua liderança e cuidar de todo aspecto desse precioso mundo, que Tu fizeste e que Tu amas.

Nós oramos pelos líderes mundiais, que eles possam concordar num tratado novo, justo e radical em Copenhague que possa proteger e conservar nosso mundo frágil para as futuras gerações. Através da história o Senhor tem movido pessoas à realizar coisas incríveis pelo amor de seus próximos. Inspire-nos a trabalharmos juntos, como Seu povo, para mudar as prioridades na maneira em que vivemos, para que nós possamos construir um mundo justo e seguro para toda a Sua criação; um mundo aonde Sua vontade seja feita como nos céus. 
Amém.

Viver bem com baixas emissões de carbono

Essa Oração pelo Clima foi escrita pela organização Climate Stewards (Zeladores do Clima), um programa da organização A Rocha,  com o objetivo de ajudar as pessoas a reagirem às mudanças climáticas. Para saber mais sobre ‘viver bem com baixas emissões de carbono’ em Inglês, acesse o site http://www.climatestewards.net/

Atualizações diárias de orações

Dê uma olhada no twitter.com/climateprayer. Com mais de 1900 seguidores, está entre os 2% dos sites mais visitado do Twitter. Você pode expor esse material no seu próprio site, Facebook, Myspace usando o código do www.climatestewards.net/cs-int-en/resources/getprayers.html



*Imagem: Rio São Francisco - Velho Chico
Fotografia nossa - nascer do sol em Januária/MG.

5 de dezembro de 2009

Belém - Ele veio pequeno, dos pequenos, entre os pequenos, para coisas grandes...

Canta o clássico hino natalino que o Senhor “nasceu em Belém”. Belém, Bayt Laḥm, que significa “Casa do Pão”.

Atualmente, podemos ver um crescente descrédito em relação aos apontamentos dos evangelistas sobre o nascimento em Belém. Destaco que tal ceticismo é partilhado por estudiosos de diversas vertentes e posições, sérios, sóbrios, centrados. Eu penso que essa é uma polêmica difícil. De certa forma, o raciocínio que levaria ao nascimento ter acontecido em Nazaré seria levado mais pela via negativa do que positiva. Ademais, há pouco tempo muitos não teriam aceitado essa tese (talvez até muitos dos estudiosos mais velhos hoje que defendem-na) porque acreditavam que Nazaré não existia...

Quanto ao período em relação a Quirino, temos algumas controvérsias. Há uma ênfase comum nos evangelistas situarem o nascimento de Jesus à época de Herodes, o Grande, rei da Judéia, que morrera em 4 a.C. Mas tendo provas de que Quirino fora empossado no governo da Síria em 6 d.C., havendo a aí registro de um inventário humano feito por Arquelau [ mencionado por Flávio Josefo]; haveria uma grande discrepância irreconciliável. Também se questiona a existência de recenseamentos do gênero.

Porém, o arqueólogo John McRay, autor de “Archaeology and the New Testament”, apresenta um exemplo de recenceamentos semelhantes:
Gaio Víbio Máximo, prefeito do Egito (declara): Tendo chegado o momento de realizar a censo de casa em casa, é necessário que se requeira a todos os que, por algum motivo, residam fora de suas províncias, que retornem às suas casas, para que cumpram o que requer integralmente a ordem do censo, e possam também atender diligentemente ao cultivo da parte que lhes cabe.
Ele aponta também que há um papiro, de 48 d.C, dando a entender que o censo era algo que envolvia a família toda. Ocorria a cada 14 anos, segundo esse arqueólogo. Houveram censos de Herodes em agosto de 7 a.C. em Belém, 3 anos antes de sua morte, num período compreendido dentre 3 anos (8 a 6) em que houveram recenseamentos gerais.

Considerando isso, refletimos sobre os possíveis períodos. Considerando a moeda descoberta pelo arqueólogo Jerry Vardaman –citado por McRay - com o nome de Quirino em letras "micrográficas", fazendo dele procônsul da Síria e da Cilícia de 11 a.C. até depois da morte de Herodes, 4 a.C.; tendo documentado que ele fora governar a Síria em 6 d.C., pode-se inferir dois governos, de caráter diferente, de Quirino. Quirino realizara uma missão militar entre 12 - 6 a.C., havendo registros em escritos sírios de censos realizados na Judéia a partir de 12 a.C. (que não fora o inventário de Arquelau no ano 6 d.C.). Até a chegada do recenseamento à Judéia, que poderia ter levado um bom tempo, teria dado tempo de José e Maria terem chegado à Belém para o nascimento.

Outro cenário também pode ser delineado:

Uma aferição alternativa da passagem do evangelho de Lucas, no original em grego " "auth apografh prwth egeneto hgemoneuontoV thV suriaV kurhniou" poderia apontar que o censo se dera antes de Quirino ser o governador da Síria, sendo ele incumbido pelo imperador responsável pelo recenseamento, Augustos, sem ser o governador; a tradução em Lucas ficaria "Este censo aconteceu antes de Quirino se tornar governador da Síria", conforme propõe John Nolland em seu comentário sobre os dois primeiros capítulos de Lucas. John McRay aponta que o termo hégemoneuontos , que Lucas emprega, era usado também para o exercício de "procurador", e legatus era mais comum para "governador". De fato, o teólogo patrístico Tertuliano de Cartargo considerava que o censo foi feito quando o legado na Síria era Sentio Saturnino, em 9-6 a.C., unindo à Síria os territórios de Arquelau; época que ocorrera a revolta farisaica e a insurreição de Judas, o Galileu.

Tal quadro seria coerente com o reconhecimento do período de Quirino como procônsul da Síria e Cilícia, como mencionado acima.

Isto, ponderando que José e Maria tivessem chegado lá antes, e não na noite do nascimento como se costuma dizer. É coerente com Lucas: "E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz", sugerindo que esperaram dias. Nesse caso, poderíamos imaginar que na verdade Maria teria chegado uns bons dias antes de dar à luz. Teríamos que pensar numa hipótese alternativa à da gruta. A palavra empregada kataluma, concordando com Marcos 14.14-15, poderia indicar um quarto de hóspedes. Para os dois relatos - considerando que são narrativas de episódios sui generis, que buscam repassar um significado especial e não descrições dissertativas frias - poderem ter um relativo grau de coerência, se consideraria que o episódio da matança dos inocentes, e a chegada dos magos, teria se passado um bom tempo, entre um a dois anos, após a natividade de Lucas.
No mais, caso a tradição fosse mesmo lendária, teríamos que admitir que o nascimento em Belém seria uma lenda bem precoce pelos critérios que examinam ambas as tradições, de Mateus e Lucas, e compartilhada com grande repercussão e crédito entre as comunidades cristãs, mesmo as não provenientes de adeptos do judaísmo, pois temos indícios de que desde os primórdios do cristianismo primitivo esta cidade era local de devoção. Registra-se que em 135, o imperador Adriano mandou construir, sobre a gruta de Efrata, um templo dedicado ao deus Adone, para contrapor à devoção cristã ao no lugar e abafá-la. Justino de Roma, nascido na Palestina, já o menciona o nascimento numa gruta em Belém, décadas após os evangelhos serem escritos, no Diálogo contra Trifão. e menciona, uns cinqüenta anos mais tarde, que Jesus nasceu em uma cova de Belém. Podemos vê-lo também nesta época em alguns textos apócrifos, como o Proto-evangelho de Tiago (+/- 150 d.C.), 17. Orígenes pouco mais tarde, também (Contra Celso I, 51). Também o “Pseudo-Mateus”, 13.

De fato, Belém poderia ser uma projeção apologética dos discípulos, de defesa da fé messiânica em Jesus como Aquele em quem Deus visitava Israel e os seres humanos; contudo, seria insuficiente como tal, pois eles apresentam que muitos o consideravam de Nazaré, debochando (detalhe que não passaria despercebido nesse caso, merecendo um comentário dos evangelistas como “contudo não sabiam que era de Belém”). Então tal tese não convence.


Alguns mencionam que o fato do extermínio das crianças por parte de Herodes não teria passado despercebido de historiadores como Flávio Josefo. Contudo, devemos considerar o porte do evento, alguma coisa relacionada a “Casus Belli”,e a trajetória geral de Herodes. Neste último fator, diante dos precedentes de chacinas de Herodes ante sua família e várias pessoas próximas a si, e outras tantas atrocidades, não seria algo excepcional. Dada também a magnitude de Belém, sendo que Raymond Brown no livro “O Nascimento do Messias” estima que a vila tinha cerca de mil habitantes na época, e o fato não se relacionar a alguma insurreição coletiva ou guiada por líderes carismáticos, afastamos o “casus belli”; e, considerando que Brown e outros estimam que o infanticídio atingiria cerca de 20 crianças, que se enquadravam na ordem dada, fora um evento então que poderia sim não ter chamado a atenção de Josefo e outros. Flávio Josefo, um fariseu versado nas discussões rabínicas, nada comenta em sua obra, nem menciona, um dos mais importantes deles que foi um divisor de águas, o rabino Hillel. Fílon de Alexandria e demais escritos rabínicos não mencionam João Batista. Simão Bar Kochba, o líder da insurreição dos judeus em 132-135 d.C., não é mencionado por Díon Cássio, historiador contemporâneo que escrevera sobre a revolta. Então, não é de se assustar com certas ausências de questões importantes em obras da época.


Vivia-se tempos tensos para com Herodes; ele era um governante déspota e sanguinário, obcecado em matar rivais; mas pouco antes houveram revoltas populares importantes, maciças, e não poderia mostrar fraqueza a ponto de ir pessoalmente conferir uma história contada por estrangeiros de que numa vilazinha nascera seu futuro rival, e que ressoaria profecias messiânicas; isso repercutiria em toda sua província e além, o que além de ser politicamente ruim para sua imagem com outros representantes romanos como procuradores, prefeitos, etc. (podendo chegar ao imperador), interpretariam essa exibição de fraqueza como sinal para uma nova revolta e surgimento de novos líderes.

Onde então podemos ver que não há cenário para uma investigação generalizada, em outras localidades como Nazaré, se por acaso alguém escapou de Belém com uma criança (até porque esse alguém não faria estardalhaço com isso). No seu testamento, Herodes confiara a seu filho Herodes Antipas a herança de seu trono, mas mudara de idéia e designara Arquelau, seu outro filho, mencionado nas narrativas. Poucos anos depois, na sua morte, os dois filhos se apresentaram ao imperador Augusto que repartiu metade do território judaico entre eles, ficando Antipas com a Galiléia e o outro filho, Herodes Filipe, com o extremo norte, e Arquelau com a Judéia e Samaria. É de se esperar Antipas com essa preocupação em suas prioridades?

Reforçando ainda a antiguidade da tradição de Belém, remontando aos períodos iniciais do movimento cristão, adquire assim um peso maior. Dadas estas considerações, considero que Belém ainda se sustenta. Além da força simbólica, a plausibilidade histórica. Pode-se cantar com os pulmões e consciência leve.

BROWN, Raymond E. O Nascimento do Messias: comentário das narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas. trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulinas, 2005

GONZÁLEZ, J. Echegaray. “Arqueología y evangelios”, Verbo Divino, Estella 1994

HORSLEY, Richard A.; HANSON, John S. Bandidos, Profetas e Messias. Movimentos Populares no Tempo de Jesus. São Paulo, Paulus, 1995.

JOSEFO, Flávio. Antiguidades dos Judeus contra Apion.  Rio de Janeiro, Editora Juruá, 2001.

McRAY,John. Archeology and the New Testament. Grand Rapids, Baker, 1991.

NOLLAND, John. Luke 1:9-20. Waco, TX: Word, 1993



29 de novembro de 2009

O Messias vem ao Mundo - parte III

Estamos chegando ao Natal, uma ocasião importantíssima para remetermos os simbolismos religiosos à suas raízes bíblicas, de forma a buscarmos, numa luta árdua, buscar manter indivisos as cores, simbologias, e as raízes cristãs, a partir do significado delas, o tema e contexto desenvolvido, na era de banalização, individualismo e consumismo pela qual passamos.
Aqui antes já tratamos da visão cristã da vinda do Messias, a partir de um tratamento mais focado em Mateus. Vamos aqui lidar agora com a genealogia do Evangelho Segundo São Lucas.

A princípio, tal genealogia causa alguns problemas internos, e vamos tratar dos principais. Porque ela é tão diferente da de Mateus?

Já tratamos, no texto anterior, da ligação ao rei Davi [cuja presença no imaginário judaico era muito forte, na expectativa de haver alguém como ele para libertar os judeus do jugo das nações] feita por Mateus através da adoção e imposição do nome por parte de José. Aqui, em Lucas, o evangelista remonta a ligação através da mãe de sangue, Maria.

Mas, faria sentido isso? Traçar a partir da mãe, e não do pai, em uma cultura patriarcal?

No livro “Assim viviam os contemporâneos de Jesus – cotidiano e religiosidade no judaísmo antigo”, de Michael Tilly, me veio uma reflexão sobre um aspecto a respeito da genealogia em Lucas.

O estoicismo, de Zenão de Chipre, estava sendo a filosofia preponderante no mundo greco-romano, e mesmo dentre os escribas mais ortodoxos, em reação a esse ambiente se via a necessidade de realçar o fundamento lógico das leis da Torah, apresentando a sua sensatez diante de desafios colocados por questões racionais. E nesse aspecto, haviam interações com elementos do direito romano, e os métodos de exposição dos retóricos. Havia então uma regra de Halakhá que versava que o fator determinante para se considerar um judeu de nascença seria o filho de mãe judia e não o de pai judeu (b Jevamot 44-45a), algo relacionado ao princípio romano de pater semper incertus, “pai sempre incerto".

Desta forma inferimos que, no ambiente lucano, mais helenizado, uma interação semelhante poderia ter influenciado a preocupação de traçar uma genealogia a partir da mãe. De fato, o Evangelho Segundo São Lucas nutre um carinho especial para com as mulheres.

Mas, como ela seria da linhagem davídica, se sua parenta, Isabel, era da tribo de Arão?
Neste caso, as duas teriam que ser aparentadas através de casamentos. O casamento entre tribos era permitido, ainda que desincentivado, exceto no caso de um herdeiro. O precedente vinha do próprio Arão, que casara com alguém da tribo de Judá. (Ex. 6.23; I Cr. 2.10).

Outra marca importante do ambiente mais helenizado de Lucas, é que ele trabalha com algo não usual nos ambientes menos helenizados e mais judaizados, a citação de mulheres em genealogias. No caso, a partir do tratamento que ele deu ressaltando Maria, ele continua sob esse padrão quanto às “portadoras dos enviados de Deus” e/ou “agentes da libertação do povo por parte de Deus”. Na Bíblia observamo-las, como por exemplo, Sifrá e Puá, as parteiras em Êxodo 1; Débora a juíza e Jael, que matou Sísera(Juizes 4-5); Ana (1 Sm. 1,2). Tal tema é ainda mais ressaltado no cântico de Maria e Isabel.

O fabuloso cântico tradicionalmente chamado “Magnificat”, de Maria, remete ao Cântico de Ana, na passagem citada do livro de Juizes. Possivelmente deveria existir e ser conhecido nos tempos do nascimento de Jesus no ambiente das sinagogas, ou músicas piedosas especiais. Poderia ressoar nas comunidades populares, que cultivavam tradições israelitas que evocavam libertação contra os poderosos, como as de Elias. Lucas também menciona Ana, da tribo de Aser, Esta não era uma tribo destacada na literatura hebraica/judaica. Mais uma vez vemos o padrão de notar atentamente para as coisas que passam despercebidos, que os padrões mundanos consideram insignificantes; e assim Lucas inclui, o alcance universal da obra de Deus em Cristo novamente é destacado, alcançando os “ignorados”, desta vez, podemos inferir de Lucas que Deus estava reconstruindo Israel, incluindo os antigos exilados e dispersos.

Lucas ressalta a subversão que significa a chegada do Messias: a vitória contra todos os poderes despóticos e opressores, e a mentalidade da vitória da força nua característica da história do mundo.


Richard Bauckham, um dos maiores peritos em Novo Testamento do mundo, sugere, e eu concordo com ele, que diferenças de foco à parte, ambas as genealogias visam "exprimir o sentido universal do propósito de Deus, nomeadamente, que Jesus é o Messias judeu para os gentios", e que veio redimir a humanidade, os "sãos" e os doentes.

24 de novembro de 2009

Clive Staples Lewis

Este domingo, dia 22 de novembro, completaram 46 anos da morte de um dos grandes personagens cristãos do século XX , já bem citado aqui no “Cristianismo, Meramente”. Falecera, coincidentemente, no mesmo dia do escritor Aldous Huxley, e do presidente estadunidense John F. Kennedy.

Dizem, inclusive, que estão prontos os bastidores para a filmagem de "Cartas de um Diabo a seu aprendiz".

Ao meu ver Lewis encarna em sua postura, ou no mínimo é um bom exemplo, da via média da tradição cristã a qual pertencemos, ele e eu, o anglicanismo.Não se entretinha com fileiras das "guerras civis" denominacionais; era ecumênico mesmo sem falar de ecumenismo ou discutir o mesmo: seu cristianismo era ecumênico, inclusivo.

Podemos ver no seu pensamento uma grande valorização da tradição, dos patrísticos e dos mestres medievais (aahhh, como ele contribuiu para desconstruir os preconceitos e a mera associação conotativa negativa com o termo "pensamento medieval"!!!!) e liturgia. Suas concepções doutrinárias frisavam os consensos da Igreja ecumênica. E em questões mais particulares, tranquilamente ele combinava elementos dos reformadores protestantes com o de ortodoxos orientais (especialmente a deificação) com o de católicos-romanos.

Ele tinha a convicção de que se encontra elementos de verdade, beleza e virtude em outras religiões, que Deus podia agir nelas e em/para seus adeptos, sem relativizar a centralidade de Cristo para o cristão. Apelava para a unidade de testemunho e diálogo dos cristãos. E enfatizava a importância fundamental do uso da razão (era convicto e militante da "fé em busca de compreensão").

Destacam-se também suas explorações quanto à arte e a imaginação, valorizando-as como elementos para uma vida humana integral e para se viver uma vida plena em Deus e vitais para explorar toda a potencialidade do cristianismo.

No livro de Lewis, “Além do Planeta Silencioso”, um habitante de Marte, Hyoi, um Hrossa, ensinava ao visitante humano que encontramos significado na vida nas lembranças. Que os momentos importantes ganham vida mesmo, até vontade própria, quando os recordamos, e então brincamos com eles, sentimos o seu real valor, e por mais paradoxal que seja, não se perdem, tal qual se perdem no instante em que são vividos. Assim, os Hrossa lidavam melhor com as limitações na vida e com o problema da morte. Hyoi dizia: "E como poderíamos suportar viver e ver o tempo passar se estivéssemos sempre desejando que um determinado dia ou um determinado ano voltassem, se não soubéssemos que cada dia de uma vida enche toda aquela vida com esperanças e recordações e que estas é que são aquele dia?"

Penso que uma das coisas mais relevantes para o nosso momento seria o proveito que ele traz para se promover o senso artístico, estético e estilístico dentre os cristãos. Mesmo que o campo artístico dele fora a literatura, ele teceu bases para subsidiar toda uma reflexão sobre a fé cristã e a arte, a imaginação, a apreciação dos símbolos para além do âmbito psicológico, que infelizmente o pensamento moderno tentou (ainda que incoerentemente) os reduzir. E sempre enfatizando o esforço pela qualidade, porque o que tem de "artistas" fazendo coisas chinfrins usando como subterfúgio o discurso de que (se é pra Deus não importa). Bem, a questão não é de não serem "graandes" obras ou chinfrins, mas de que nem ao menos vemos preocupações ou cobranças quanto a qualidade. E não só para com os artistas, mas também ele proporciona elementos para a apreciação da arte, por parte do público cristão.

Há algo que queria, de coração compartilhar. Está no livro de C.S.Lewis, “Cristianismo Puro e Simples”. É um livro ótimo, com palavras claras, coerência, com idéias amplas e conexas, exigindo concentração e proporcionando edificação e deleite. E essa é uma mensagem que ele nos deixa, apontando de forma perspicaz algo bem negligenciado:

Quando alguém faz uma escolha moral, duas coisas estão envolvidas. Uma é o ato da escolha. A outra, são os vários sentimentos, impulsos, e tudo o mais, que o seu equipamento psicológico lhe fornece, e que são a matéria-prima da escolha. Bem, essa matéria-prima pode ser de dois tipos. Tanto pode ser o que chamaríamos de normal, consistindo dos sentimentos que são comuns a todos os homens, ou então são sentimentos inteiramente anormais, decorrentes de coisas erradas do subconsciente. Assim, o medo de coisas que são de fato perigosas é um exemplo do primeiro tipo, e o medo irracional de ratos ou aranhas é um exemplo do segundo. (...)Podemos ainda expor a mesma coisa de outro modo.

Muita gente, que parece ser muito amável, na verdade pode ter feito tão pouco uso da sua boa hereditariedade e da sua boa educação, que talvez seja bem pior do que alguém que seja tido como um demônio. Poderíamos ter certeza de como seria o nosso comportamento, se tivéssemos tido de suportar a carga psicológica, e ainda a má educação, e ainda o poder de alguém como Himmler (líder Nazista da Gestapo, que suicidou em 1945)?

Eis as razões porque se diz aos cristãos que não devem julgar. Só vemos os resultados das escolhas feitas com a matéria-prima de cada um. Mas Deus não julga ninguém com base nessa matéria-prima, mas sim segundo o uso que faz dela. A maior parte da configuração psicológica do homem é provavelmente devida a seu corpo; quando este morrer tudo desaparecerá com ele, e a parte central real do homem, aquilo que escolhia e que fazia o melhor ou pior uso do seu material, aparecerá em sua nudez. As belas coisas que supúnhamos serem nossas, mas que eram na verdade devidas a uma boa digestão, cairão de alguns de nós; as coisas torpes que eram devidas a complexos ou má saúde, cairão de outros. Pela primeira vez, então, veremos cada um como realmente é. Haverá surpresas.


16 de novembro de 2009

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte III

Não, não faço aqui um discurso-fácil sobre martírio, sobre procurar o sofrimento per se. Não tenho dúvidas. Acredito sim, que a fé, a existência em fé pode sim, melhorar a vida da pessoa aqui e agora. Pode e deve melhorar a sociedade. As “virtudes cardeais” da temperança (aproveitamento comedido/conveniente das coisas, evitando se perder no uso de algo, evitando vícios), prudência ( considerar as conseqüências do que está fazendo, ter bom senso, ser consciente de suas ações e das responsabilidades), justiça ( honestidade, equidade, veracidade, fidelidade), fortaleza ( ter fibra, força de vontade) ajudam a pessoa a administrar melhor seus ganhos e posses, dar valor ao que é mais significativo, não se perder em excessos, honrar compromissos e evitar vergonhas, educar filhos, superar dificuldades, conviver entre si, melhorar o trânsito, a vida social de sua cidade. Ajudam e muito; mas não evitam os contratempos e os acasos ruins.

E o sentido do chamado de Jesus é que com o seu ministério O Criador estava confirmando Seu desejo de um relacionamento íntegro com as pessoas, uma aliança com todas, e que já pôs sob julgamento todo o mal e tudo o que desvirtua a justiça e bondade, que inaugurará uma Nova Criação, e nos chama a viver orientados a essa perspectiva agora, a do Seu Reinado inaugurado com a obra de Cristo, confirmado com Sua ressurreição, pelo poder de Seu Espírito. Isso supõe desde o confronto com as estruturas injustas do mundo, a deslegitimação de todo o despotismo e exploração, o socorro aos necessitados, até a busca e apoio para melhores soluções técnicas para os problemas na área médica, planejamento urbano, políticas educacionais, manejo agroambiental, tecnologias socializadas de tal forma a não provocar injustiça social e ambiental.

Mas nada disso nos dá garantia para o aqui e agora. Fora inaugurado na obra de Jesus, mas será concretizado finalmente quando da Nova Criação divina. Não nos iludamos que um dia estabeleceremos a sociedade perfeita ou quase-perfeita aqui. Todos os nossos projetos podem ser corrompidos. E tudo isto passa, sempre passará. E sempre teremos de conviver aqui com tristezas e sofrimentos.

Em grande parte deriva da própria natureza da realidade: Deus criou um mundo em desenvolvimento, evolução, dotado de potenciais para explorar o conjunto de possibilidades e vias de configuração; o padrão intencional do Eterno está no plano mais amplo, e não em cada detalhe deste processo evolutivo; isto para possibilitar que venham à tona seres com livre-arbítrio, ainda que em meio a condicionantes, e dotados de criatividade, espontaneidade, moralidade e responsabilidade. E não um mundo tal qual um dominó, com todos os movimentos pré-fixados e habitado apenas por fantoches. Tal opção possibilita o amor, a liberdade, mas também o sofrimento. Ainda por cima, houveram eventos nesta criação que corromperam a ordem criada, agravando e aprofundando as experiências de sofrimento pessoal, desvirtuando o plano evolutivo destes seres morais - nos afastando do alvo que havia para nós. Por isto os atos especiais revelatórios e sobrenaturais dEle, para poder redimir um mundo que não é uma cascata-dominó.

Assim, em meio a este drama, experimentamos a vida em sua crueza, com a mesma abertura que possibilita sofrer e desfrutá-la. Não há garantias. Não há estabilidade garantida; não há fórmulas para a felicidade; não há um jogo de barganha cósmica ou espiritual para garantir que as coisas darão certo para nós aqui.

Como a oração atribuída a Reinhold Niebuhr diz,
"Senhor, conceda-me a serenidade
para aceitar aquilo que não posso mudar,
a coragem para mudar o que me for possível
e a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
apreciando um momento de cada vez,
recebendo as dificuldades como um caminho para paz,
aceitando este mundo cheio de pecados como ele é
assim como fez Jesus, e não como gostaria que ele fosse;
confiando que o Senhor fará tudo dar certo
se eu me entregar à Sua vontade.
Pois assim poderei ser razoavelmente feliz
nesta vida e supremamente feliz na outra.”


A história, nua e crua, mostra que pessoas de todos os credos e sem crer em nenhum morreram de fome, nas guerras, assassinadas, injustiçadas, de acidentes. Existem cristãos passando fome e sede na África, na América Latina, cristãos (inclusive igrejas) faliram e perderam todos os bens nos EUA recentemente na crise, cristãos em depressão na Europa, cristãos morrem em catástrofes ambientais na Ásia (e sofrem em todo mundo as consequências do que outros cristãos fazem com a natureza)...não é “castigo de Deus”, embora em grande parte das vezes a responsabilidade humana está envolvida; muitas vezes, pessoas sofrem conseqüências da irresponsabilidade ou maldade dos outros.


Temos que aceitar nossa vulnerabilidade; daí, a transitoriedade das coisas; daí, a nossa finitude. Isto não gera acomodação; pelo contrário, qualquer ideologia ou religiosidade que nos ofereça “garantias” gera acomodação, pois pra quê ser atento e ter coragem, iniciativa, virtude, paciência, gana de dar a volta por cima, se tudo é garantido? Por isso, quem passa por alguma aflição, não se culpe. Não está completamente nas mãos de ninguém poder garantir que alguém dá família não se meta em confusão; não está nas mãos de ninguém garantir que nunca passará por tragédias financeiras; podemos só fazer nossa parte. Mas não se implica que é a realidade definitiva da vida. A crença na ressurreição entre os judeus, surgiu diante do martírio pela sua fé.

A crença cristã não é a de que devamos nos isolar “deste mundo tenebroso” esperando ir para o Céu. O Céu não é o limite. O “Céu” é uma linguagem metafórica, na linguagem do Novo Testamento, para evitar pronunciar o nome de Deus em vão. A realidade após a morte na fé cristã, é a de encontrar acolhida com Deus, até que Ele restaure todas as coisas, e consuma Seu Reinado, na Sua Nova Criação; Ele não descartará essa criação como um lixo para vivermos num “mundo etéreo”, mas nos dará uma nova vida, um novo corpo, libertos da condição pecaminosa, espiritualmente orientados. Não seremos fantasmas. Teremos uma vida após a vida após a morte.

Vida após Vida após a Morte
http://www.youtube.com/watch?v=sRdShhnd_Zc
O Céu não é a questão:
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1078%3Ao-ceu-nao-e-a-questao&catid=123%3An-t-wright&Itemid=28


C.S. Lewis , em resposta a uma pergunta de um entrevistador, proferira algo que abalaria os alicerces de diversos templos hoje:
Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor.

Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso
.”



Tenhamos uma alma pronta a simpatizar e um coração que saiba sentir-se com outros em suas aflições: nenhum temperamento descaridoso, nenhuma desumanidade. Embora você não possa proporcionar alívio, pode, porém, lamentar, entristecer, preocupar-se pelo que ocorreu.
São João Crisóstomo. Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte II


Muito invocada é a história de Jó, na Bíblia. Ele realmente comeu o pão que o diabo amassou. Foi reduzido a uma existência miserável, sem tudo o que construíra com muito trabalho e virtude. Aí todos lembram que ele mantivera uma fé inabalável, e no final teve muito mais do que tinha antes (me deixa irrequieto neste conto – as pessoas, no caso os filhos, são substituíveis assim?).

Vamos olhar mais de perto. Fala-se no livro, aos interlocutores de Jó que debateram com ele sobre sua condição e a relação com a vontade de Deus: “ É unicamente em consideração a ele [Jó] que não vos tratarei como merece vossa insensatez, por não terdes falado de mim com retidão, como fez meu servo Jó” – 42.8.

Sim. E o que eles falaram durante este tempo?

Recorda: qual o inocente que pereceu? Onde se viu homens retos desaparecerem? Já percebi: os que forjam delitos, os que semeiam miséria colhem-na. Ao sopro de Deus perecem; ao sopro de sua narina se consomem.

Pois sim; já se viu, muitas vezes, é até freqüente, que justamente os homens retos e os inocentes perecem e desaparecem; e muitos dos que forjam delitos e semeiam miséria gozam uma vida relativamente feliz.

Outro amigo de Jó - Sofar:

Tu, quando firmares teu juízo, elevando a ele tuas palmas abertas, afasta a iniqüidade que há em tuas mãos e não habite injustiça em tua tenda.
Elifaz:

Ao Poderoso interessa a tua justiça?
Que ganha, se aperfeiçoas teu caminho?
Ele vai se defender por medo de ti, contigo entrar em julgamento?
É mesmo muito grande tua [a de Jó] maldade e não há limites para seus crimes.
Sem razão tomavas penhor de teus irmãos, tu os despojavas de suas roupas, deixando-os nus.
E assim, continuam. Na ótica deles, há uma relação linear, de causa-efeito, entre virtude religiosa e segurança e bem-estar. Logo, aqueles de “bem com Deus” se dão bem, e os que se dão mal era porque não estavam “de bem com Deus”. Assim, finge-se que não se vê que há, indubitavelmente, injustiças e absurdos na vida. Ou, por tabela, Deus passa a ser a justificativa para os absurdos e injustiças da vida. O responsável.

E Jó? O que Jó havia dito?

Realmente, dá até medo de se por no lugar dele. Alguém tão justo e virtuoso, tão temente a Deus, amigo mesmo de Deus, passando por uma experiência tão avassaladora!
Porque concede Ele a luz ao sofredor,
E a vida aos ulcerosos?
Esperam uma morte que não chega,
Buscam-na com mais ânsia que um tesouro.
Ou seja: por que Deus? Por que permitir tamanhas aflições? Porque aqueles que sofrem alem de suas medidas, sem ter como evitar ou desfazer a situação, permanecem ainda assim?
Porque pessoas morrem de fome, sede...morrem com doenças que as vão definhando? Porque não cessa a dor delas logo, mas vão se arrastando?

Muitos hoje, respondem: “é porque não são crentes. Venham pra Jesus”...aham... os amigos de Jó...

Continua:

O Poderoso cravou em mim suas flechas e o meu sopro aspira o seu veneno. Os terrores de Deus se alinham contra mim.
E ainda:

Restar-me-á ao menos um consolo,
Um quê de alegria em meio à tortura implacável: de nenhuma sentença do Santo descuidei.
O homem abalado tem direito à piedade do seu próximo; senão, abandonará o temor do Poderoso!

Ele apela:
Ah, se houvesse entre nós algum juiz, para pôr sua mão sobre nós dois! Apartaria de mim o chicote de Deus, e seu terror não me assolaria mais.
O homem justo vai mais além:

Ele priva de juízo os líderes do povo fazendo-os vaguear num caos, sem rumo. Privados da luz, vão apalpando as trevas; Deus os extravia como a bêbados.
Por que então, por que, as pessoas que fazem chantagem emocional com os problemas dos outros para que eles fiquem em suas organizações religiosas, fazem vistas grossas a isto? Vemos aí que Jó não fora o homem paciente, estóico, além de toda dor, que suportou tudo como se fosse um super-homem espiritual...

Está certo que mais a frente, aparece Deus o interpelando, pessoalmente:

Quem está a denegrir a providência com discursos sem sentido?
Onde estavas quando eu fundei a terra? Dize-me isso, sábio que és.
Pretendes mesmo anular meu julgamento, condenar-me, para te justificar?

Vemos na resposta divina não uma assertiva do gênero “eu sou grande, você pequenino, eu brinco com você, meu fantoche, como quiser”. Mas sim que Deus não se prende a racionalizações. Que ninguém pode querer enclausurar Deus num esquema mental partindo do próprio raciocínio através das coisas; mas que Deus está além de tudo, e antes de tudo, Ele é um ser pessoal, volitivo; se nem uma pessoa se esgota através das estereotipações que fazemos dela, imagine o Ser que é Mais-que-pessoal, que está além da nossa capacidade de racionalização? Podemos prendê-lo num esquema linear, de causa-efeito? Preserve o Mistério no Deus que se revela.

Ainda assim, o juízo de Deus sobre as palavras de Jó é muito menos severo do que dos amigos do homem. Jó caira nos laços da retórica deles, e acabou considerando que realmente Deus estava sendo arbitrário e estava sendo castigado sem razão. Mas O Eterno preferiu ser contestado, do que ver uma pessoa racionalizar a religião para justificar a injustiça e crueldade para falsear a realidade. Ele corrigiu Jó, mas não confirmou o veredito dos “religiosos”, de que “aqui se faz, aqui se paga”, de que tudo o que acontece pode se apoiar no caráter de Deus. Ele respondeu à interpelação sincera. A resposta de Jó que Lhe aprouve não foi “sim, eu fiz por merecer, e os outros gozam da vida boa porque são mais amigos de Deus”, mas “Pois é, eu abordei sem sabê-lo, maravilhas além de mim, que não entendia.” Ele viu que Deus está além de qualquer iniciativa de enclausurá-Lo num esquema que explica e justifica tudo o que acontece. E o encontro legítimo com O Absoluto é esse: o que reconhece a Sua santidade e Transcedência.

Qual é o pano de fundo do livro de Jó?

Israel sofrera devastações, fora assolada, por grandes impérios, e o povo deportado, os reis humilhados. Eles foram advertidos muitas vezes pelos profetas sobre seu comportamento, os pecados individuais, familiares e sociais; a busca de estarem satisfeitos consigo mesmos, achando que barganharam com os deuses, esquecendo-se e negligenciando a aliança com o Senhor absoluto, buscaram a “paz” a despeito da justiça. Foram cavando sua sepultura. E atacando os profetas que Deus enviava para evitar as tragédias e transformar a realidade.

Quando do retorno do povo à terra-natal, houvera sim contrição e uma busca de ler na história do povo como ele foi se afastando da Lei do Altíssimo. Buscaram atentar para o que os profetas falaram, e evitar fazerem o mesmo que antes. Mas depois de um tempo, foi-se longe demais. Começaram a estruturar um esquema religioso extremamente legalista, com um grande poder para os “retóricos oficiais da palavra religiosa”, e buscando aplicar uma visão religiosa a qual justificava tudo o de ruim como se fosse resultado dos pecados; começou-se com um “aqui se faz-aqui se paga” extremamente rígido, e o sol de Deus passou a nascer para poucos - em suas retóricas. O livro de Jó é um poema redigido como parte das reações que se fizera a essa teologia, hoje convencionalmente chamada “teologia da retribuição”. Esse é o quadro geral de sua leitura.

No livro, Jó ainda teve sua vida restaurada, e tudo o que perdeu ele recuperou ainda mais. Mas é este o padrão? E Jeremias, o profeta, que viveu visceral e integralmente para Deus e com Deus, a despeito de toda a oposição? Sofreu, foi também abandonado, perdeu bens, apanhou, foi humilhado, deportado para uma terra estrangeira (Egito), onde também buscava ser um agente do Senhor. Ele não teve a sorte de Jó. E os mártires do período de dominação Greco-macedônica, após Alexandre o grande, que recusavam a apostatar da fé judaica e eram torturados e massacrados?

O livro de Hebreus apresenta no capítulo 11 uma série de exemplos de pessoas virtuosas que se destacaram no mundo e realizaram prodígios. Mas depois, ele vem -vs 34:
Mas outros sofreram o esquartejamento, rejeitando a libertação para conseguir uma ressurreição melhor; outros ainda sofreram a provação dos escárnios e do chicote e das correntes e da prisão; foram apedrejados, serrados; morreram assassinados à espada; levaram uma vida errante, vestidos de peles de carneiro e pêlos de cabra; foram sujeitos às privações , oprimidos, maltratados(...)”.

E então: pessoas destacadas pela sua fé, sofreram ao extremo e morreram sofrendo. Pedro? Crucificado de cabeça pra baixo. Paulo, cortada a cabeça. O cristianismo floresceu não com apelos de que quem cresse teria todos os dramas resolvidos. Não, muitos passaram a encarar a estigmatização, zombaria, perda do status social, marginalização, perseguição, tortura, morte violenta. Não, não estavam atrás de auto-ajuda, de varinhas de condão divinas. Mas antes, eles tinham uma luz para além dos absurdos da existência. Podiam crer que a virtude é real, não uma ilusão, e com isso, muitos até abdicaram da “auto-satisfação” em nome da fé. Por isso podemos entender que na mensagem de Jesus, servi-lo é encontrar a verdadeira liberdade. Porque hoje os bonitões podem dizer que quem tem fé vai ter todas as soluções para os dramas da vida? Ah, porque se não falarem assim, “ a igreja ‘não cresce’ ”...

Não ousando pôr o pé fora da soleira da porta, suportei extremo sofrimento, vômitos constantes seguidos de dor de cabeça, inapetência e contínua insônia.
São João Crisóstomo. Letters of St. Chrysostom to Olympias.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte I

E aquelas dezoito pessoas sobre as quais caiu a torre de Siloé e as
matou, pensais que eram mais culpadas do que qualquer outro habitante de Jerusalém?
Evangelho segundo São Lucas, 13.4.

O livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, deixou uma marca irremovível em mim, e vira e mexe ela se faz sentir, seja ardendo, coçando, fazendo cócegas.

Nele, as pessoas cansaram de tantas aflições. Doenças, guerra, solidão, fome, insegurança... valia a pena abrir mão de qualquer coisa, pois já experimentamos disso demais na história. Dói muito. Chega!..

Criou-se um mundo, a Fordlândia, em que cada indivíduo delegou tudo a cargo de sua vida para um sistema impessoal, que se encarregava de administrar tudo meticulosamente: projetava-se pessoas, com sua genética e psicologia condicionada de modo a ser feliz e útil em um trabalho necessário à sociedade; pessoas não envelheciam, não tinham medo da morte, não adoeciam, não fecundavam, davam à luz e criavam filhos, não se casavam e logo não se divorciavam, não ficavam sós, transavam sem culpa, sem aids, sem complexos, com quem quisesse e o quanto mais melhor; o abastecimento alimentar impecável. Admirável Mundo Novo. Sem guerras, fome, violência.

Mas eu disse errado: não se podia falar em “indivíduo”; de fato, cada um era um naco da massa de bolo; não havia mais personalidade, logo liberdade, individualidade, não só não existiam como não faziam sentido. Havia até uma substância, o SOMA, que aliviava qualquer recaída em tristeza ou angústia, dava ânimo, e até experiências transcedentais. Religião, álcool e auto-ajuda em um comprimido.

Não cabe aqui fazer uma resenha. Recomendo a todos a leitura. Vou transcrever uns trechos de um diálogo com um dos grandes Administradores da Fordlândia, explicando sua lógica – de fato, se mostra o quão relevantes e atuais são as reflexões a que o livro propõe, pois vai de encontro às aspirações de muita gente que se julga “esclarecida”:

'Só se pode ser independente de Deus enquanto se tem juventude e prosperidade; a independência não nos levará até o fim em segurança'. Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim: o que resulta daí? Evidentemente, que podemos prescindir de Deus. (...) não há para nós perdas a serem compensadas; o sentimento religioso é supérfluo.

Uma réplica, mais adiante, de um interlocutor: Se os senhores se permitissem pensar em Deus, não se deixariam agradar por vícios amáveis. Teriam uma razão para suportar as coisas com paciência, para fazer as coisas com coragem! (...) E o desprendimento, então? Se tivessem um Deus, teriam um motivo para o desprendimento.

O Administrador: Meu jovem amigo, a civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou de heroísmo. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se.

O interlocutor: Ainda assim – insistiu o Selvagem – é natural crer em Deus quando se está só, completamente só, à noite, pensando na morte...

O Administrador : Mas agora nunca se está só – disse Mustafá Mond – Fazemos com que todos detestem a solidão, e organizamos a vida de tal forma que seja quase impossível conhecê-la.

A grande sacada de hoje é ser mercador de felicidade. Qualquer empreendimento e produto, no fundo ,possui na sua propaganda, embutida tal questão: “estamos lhe oferecendo a felicidade”; e assim crescem empresas, programas de TV, empreendimentos religiosos...

Sim, empreendimentos religiosos. Me tem parecido que hoje, se inverteram os papéis do livro, e os líderes e organizações religiosas fazem o papel do Administrador.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade.

Versar sobre estes três termos pode me render incompreensão, impopularidade. Mas devemos seguir a consciência e ter a ousadia de falar as coisas críticas nos momentos críticos. São três temas que dificilmente alguém ouve muito em igreja. Vai de encontro a maior estratégia de crescimento e de manutenção de templos cheios atualmente:, seja em versões mais exageradas e de má-fé, ou manifestações de boa-fé e sinceridade. Vou tentar dizer o que precisarei dizer aqui, ainda que categoricamente, com muita humildade. Pois sei que os problemas concretos que nos angustiam na vida são sérios, dolorosos, e realmente queremos que passem. Às vezes lidamos com situações que nos esgotam, emocional, fisicamente, e a gente chega a desesperar da vida. Deixo claro que de forma alguma quero ser leviano com aquela dona de casa, aquele jovem, aquele idoso, aquele casal, etc., etc., que dizem amém com todo o fervor ao escutar na Igreja ou na música que logo Deus solucionará todos seus mais graves problemas. Até porque eu também passo por situações assim, e só eu sei o quão eu gostaria de que passassem logo....

Pois é isso o que direi e fundamentarei, e que não é nenhuma novidade (pois Jesus disse: “no mundo tereis aflições, mas tenham ânimo, eu venci o mundo” – S.João, 16.33, e não “tenham ânimo, vou dar uma resposta ou uma solução mágica para todos”).

Filhos com grandes problemas, seja com drogas, crimes, rebeldia aguda, promiscuidade vulgar e constante...dívidas que se avolumam, assolam, em condições que estão fora de nosso controle, e podemos perder tudo...catástrofes naturais que roubam a vida de entes queridos, levam nossa saúde, aptidão para nossa profissão, todos os bens...doenças dolorosas e definhadoras...acidentes graves...desemprego...

Sim. Seria muito bom se eu pudesse dizer “tenham fé que é garantido que Deus vai resolver”. Realmente, pode ser. Não irei ao sentido oposto: “Não adianta, Deus não resolve”. Mas é importante frisar: _pode ser que o pior aconteça. Não se iluda; acontece em todo o mundo, em todos os tempos, e pode acontecer, seja você de qual religião, igreja, ou o que for.



Elias vive como fugitivo e errante. Davi sofre nas mãos de Saul e mais tarde é atacado por seu próprio filho. João Batista é degolado por Herodes.
(...)
Pois resta-nos ou beneficiarmo-nos ou sermos injuriados pela aflição. Não depende da natureza da aflição, mas da disposição de nossa própria mente. São João Crisóstomo. Homillies on Galatians, Ephesians, Philippians, Colossians, Timothy, titus and Philemon.

12 de novembro de 2009

Epitáfio

O poeta John Donne perguntara: “e se a presente for a última noite do mundo?”
E então? E se fosse?
Eu me pego a pensar na cruz de Cristo. Minha mente me leva até o episódio dos dois ladrões. Se eu estivesse ali, em qual posição estaria? Qual deles eu seria?

Referimo-nos a um como o “Bom Ladrão” (assim se popularizou; mas o termo para "bandido" ali é, contextualmente, melhor empregado para "violentos" rebeldes políticos salteadores). O "ladrão" que creu e confiou em Jesus, e recebeu assim a promessa de estar com Ele para sempre. [Evangelho Segundo São Lucas, 23.39-43].

Algo me chama a atenção na passagem...como o homem pôde ver além do que se passava ali e dizer a Jesus: “lembra-te de mim quando vieres como rei”? Poxa-vida, eles estavam dependurados numa cruz! Ali era um misto de maldição e humilhação extrema... de onde Ele retirara tanta fé para ver além daquilo? Ver Jesus vindo como rei? E como ele concebera tal? Teria tido oportunidade de ouvir Jesus falando sobre sua ressurreição? Mas geralmente Ele o fazia secretamente com os discípulos. Como o “Bom Ladrão” teria imaginado que Jesus voltaria? Não necessariamente implica ali a crença na ressurreição imediata. Mas podia ser que imaginasse que Deus vindicasse Jesus na ressurreição coletiva do final dos tempos, que era expectativa judaica, e nela imaginasse um homem santo como Jesus em papel de destaque, como o rei das aspirações do povo, o “novo Davi” no imaginário popular, não para aquele tempo, mas para o tempo final. Hum, ele ali ainda não tinha um "credo correto"...

Possivelmente, o desespero e o encarar de frente a morte teria dado ao homem a perspectiva de firmar sua esperança não para essa vida, mas para o futuro; nisso, vemos sua confiança depositada em Deus. Um bandido pregado na cruz... costumamos ver assim mesmo, pessoas que tiveram uma vida loonge de ser piedosa, mas que deparando-se com o “sem-saída”, apreendem a dimensão do eterno, do Sagrado, a qual elas fizeram pouco caso durante a vida. Alguns o fazem a sério, outros se esquivam, zombam, revoltam-se...

E eu?..
E, eu? Hmmmm....

Interessante que a resposta de Jesus ali foi de que eles estariam junto desde já. O “Gan-Éden”, transliterado como "Paraíso", era uma visão para um período intermediário, vida após a morte, de estar junto a Deus aguardando a Sua Grande Intervenção na Terra e a ressurreição dos mortos. “Você, verdadeiramente, já será lembrado, melhor, contado comigo HOJE ainda.”

Sempre vi como uma grande falácia ingênua, a que disparam contra a fé no porvir. De que atrofia o espírito humano por postergar suas expectativas para um tempo diferente do nosso; que se acomodaria e se tornaria passivo. Eu vejo que ela pode ter um efeito contrário, expandir o horizonte do espírito humano, para além das situações em que o desespero parece ter dado a resposta final. Pode mudar a pessoa, transformá-la, e enobrecê-la.

Como seria ter a consciência de que “é o fim”? Algumas pessoas acabam sabendo. Os que recebem diagnósticos de estados terminais, por exemplo. É o fim. E daí? Qual a palavra final? Quem o tem? Para onde aponta meu último estado de espírito?

É por refletir neste episódio, sobre o que ele me traz como resposta na visão, no caminho cristão, que vejo que é possível neste momento ter paz com Deus, e daí, enfrentar o absurdo com uma afirmação de fé.

Ainda resta o próximo... Em paz com Deus, podemos ficar com o próximo. O Ladrão ali pagou pelo que fez, pelo crime. Barbaramente, cruelmente como era esse método romano, sim. Inconcebível. Mas ao seu lado havia um verdadeiramente justo.

Sim, podemos ficar em paz com o próximo. Mas podemos também não ficar. Deus não fará isso para nós, é nossa responsabilidade, não podemos pedir a Deus que nos retire nossa responsabilidade pessoal. Nos importamos com isso? Pensamos, às vezes, em como isso deve afetar nossa vida ?

Essa música Just Breathe, do novo álbum do Pearl Jam - Backspace, me faz pensar nisso: meu epitáfio. Passamos tanto tempo na vida buscando marcar as outras pessoas, e pouco espaço às vezes deixamos para aqueles que marcam e deixam a vida mais significativa. Como disse Path Adams na sua entrevista no Roda Viva, “rir não é o melhor remédio, a amizade o é”.

APENAS RESPIRE

Sim, eu entendo que toda vida deve ter um fim
Enquanto sentamo-nos sozinhos, eu sei que um dia devemos partir
Oh, eu sou um homem de sorte por contar em ambas as mãos aqueles que amo
Algumas pessoas têm só uma, outras, não têm nenhuma

Fique comigo...
Vamos apenas respirar...

Cometi todos meus pecados, nunca irão me deixar vencer
Sob tudo, apenas um ser humano
Ah eu não quero mais dor, há tantas coisas nesse mundo para me fazer sangrar

Fique comigo...
Você é tudo o que vejo...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco

Reflito todo dia, enquanto contemplo o seu rosto
Tudo você deu
E nada você poupou

Nada você levou
Tudo você doou...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, Se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco...

Nada você levou
Tudo você doou
Abrace-me até eu morrer
Te encontro do outro lado...


video