29 de novembro de 2009

O Messias vem ao Mundo - parte III

Estamos chegando ao Natal, uma ocasião importantíssima para remetermos os simbolismos religiosos à suas raízes bíblicas, de forma a buscarmos, numa luta árdua, buscar manter indivisos as cores, simbologias, e as raízes cristãs, a partir do significado delas, o tema e contexto desenvolvido, na era de banalização, individualismo e consumismo pela qual passamos.
Aqui antes já tratamos da visão cristã da vinda do Messias, a partir de um tratamento mais focado em Mateus. Vamos aqui lidar agora com a genealogia do Evangelho Segundo São Lucas.

A princípio, tal genealogia causa alguns problemas internos, e vamos tratar dos principais. Porque ela é tão diferente da de Mateus?

Já tratamos, no texto anterior, da ligação ao rei Davi [cuja presença no imaginário judaico era muito forte, na expectativa de haver alguém como ele para libertar os judeus do jugo das nações] feita por Mateus através da adoção e imposição do nome por parte de José. Aqui, em Lucas, o evangelista remonta a ligação através da mãe de sangue, Maria.

Mas, faria sentido isso? Traçar a partir da mãe, e não do pai, em uma cultura patriarcal?

No livro “Assim viviam os contemporâneos de Jesus – cotidiano e religiosidade no judaísmo antigo”, de Michael Tilly, me veio uma reflexão sobre um aspecto a respeito da genealogia em Lucas.

O estoicismo, de Zenão de Chipre, estava sendo a filosofia preponderante no mundo greco-romano, e mesmo dentre os escribas mais ortodoxos, em reação a esse ambiente se via a necessidade de realçar o fundamento lógico das leis da Torah, apresentando a sua sensatez diante de desafios colocados por questões racionais. E nesse aspecto, haviam interações com elementos do direito romano, e os métodos de exposição dos retóricos. Havia então uma regra de Halakhá que versava que o fator determinante para se considerar um judeu de nascença seria o filho de mãe judia e não o de pai judeu (b Jevamot 44-45a), algo relacionado ao princípio romano de pater semper incertus, “pai sempre incerto".

Desta forma inferimos que, no ambiente lucano, mais helenizado, uma interação semelhante poderia ter influenciado a preocupação de traçar uma genealogia a partir da mãe. De fato, o Evangelho Segundo São Lucas nutre um carinho especial para com as mulheres.

Mas, como ela seria da linhagem davídica, se sua parenta, Isabel, era da tribo de Arão?
Neste caso, as duas teriam que ser aparentadas através de casamentos. O casamento entre tribos era permitido, ainda que desincentivado, exceto no caso de um herdeiro. O precedente vinha do próprio Arão, que casara com alguém da tribo de Judá. (Ex. 6.23; I Cr. 2.10).

Outra marca importante do ambiente mais helenizado de Lucas, é que ele trabalha com algo não usual nos ambientes menos helenizados e mais judaizados, a citação de mulheres em genealogias. No caso, a partir do tratamento que ele deu ressaltando Maria, ele continua sob esse padrão quanto às “portadoras dos enviados de Deus” e/ou “agentes da libertação do povo por parte de Deus”. Na Bíblia observamo-las, como por exemplo, Sifrá e Puá, as parteiras em Êxodo 1; Débora a juíza e Jael, que matou Sísera(Juizes 4-5); Ana (1 Sm. 1,2). Tal tema é ainda mais ressaltado no cântico de Maria e Isabel.

O fabuloso cântico tradicionalmente chamado “Magnificat”, de Maria, remete ao Cântico de Ana, na passagem citada do livro de Juizes. Possivelmente deveria existir e ser conhecido nos tempos do nascimento de Jesus no ambiente das sinagogas, ou músicas piedosas especiais. Poderia ressoar nas comunidades populares, que cultivavam tradições israelitas que evocavam libertação contra os poderosos, como as de Elias. Lucas também menciona Ana, da tribo de Aser, Esta não era uma tribo destacada na literatura hebraica/judaica. Mais uma vez vemos o padrão de notar atentamente para as coisas que passam despercebidos, que os padrões mundanos consideram insignificantes; e assim Lucas inclui, o alcance universal da obra de Deus em Cristo novamente é destacado, alcançando os “ignorados”, desta vez, podemos inferir de Lucas que Deus estava reconstruindo Israel, incluindo os antigos exilados e dispersos.

Lucas ressalta a subversão que significa a chegada do Messias: a vitória contra todos os poderes despóticos e opressores, e a mentalidade da vitória da força nua característica da história do mundo.


Richard Bauckham, um dos maiores peritos em Novo Testamento do mundo, sugere, e eu concordo com ele, que diferenças de foco à parte, ambas as genealogias visam "exprimir o sentido universal do propósito de Deus, nomeadamente, que Jesus é o Messias judeu para os gentios", e que veio redimir a humanidade, os "sãos" e os doentes.

24 de novembro de 2009

Clive Staples Lewis

Este domingo, dia 22 de novembro, completaram 46 anos da morte de um dos grandes personagens cristãos do século XX , já bem citado aqui no “Cristianismo, Meramente”. Falecera, coincidentemente, no mesmo dia do escritor Aldous Huxley, e do presidente estadunidense John F. Kennedy.

Dizem, inclusive, que estão prontos os bastidores para a filmagem de "Cartas de um Diabo a seu aprendiz".

Ao meu ver Lewis encarna em sua postura, ou no mínimo é um bom exemplo, da via média da tradição cristã a qual pertencemos, ele e eu, o anglicanismo.Não se entretinha com fileiras das "guerras civis" denominacionais; era ecumênico mesmo sem falar de ecumenismo ou discutir o mesmo: seu cristianismo era ecumênico, inclusivo.

Podemos ver no seu pensamento uma grande valorização da tradição, dos patrísticos e dos mestres medievais (aahhh, como ele contribuiu para desconstruir os preconceitos e a mera associação conotativa negativa com o termo "pensamento medieval"!!!!) e liturgia. Suas concepções doutrinárias frisavam os consensos da Igreja ecumênica. E em questões mais particulares, tranquilamente ele combinava elementos dos reformadores protestantes com o de ortodoxos orientais (especialmente a deificação) com o de católicos-romanos.

Ele tinha a convicção de que se encontra elementos de verdade, beleza e virtude em outras religiões, que Deus podia agir nelas e em/para seus adeptos, sem relativizar a centralidade de Cristo para o cristão. Apelava para a unidade de testemunho e diálogo dos cristãos. E enfatizava a importância fundamental do uso da razão (era convicto e militante da "fé em busca de compreensão").

Destacam-se também suas explorações quanto à arte e a imaginação, valorizando-as como elementos para uma vida humana integral e para se viver uma vida plena em Deus e vitais para explorar toda a potencialidade do cristianismo.

No livro de Lewis, “Além do Planeta Silencioso”, um habitante de Marte, Hyoi, um Hrossa, ensinava ao visitante humano que encontramos significado na vida nas lembranças. Que os momentos importantes ganham vida mesmo, até vontade própria, quando os recordamos, e então brincamos com eles, sentimos o seu real valor, e por mais paradoxal que seja, não se perdem, tal qual se perdem no instante em que são vividos. Assim, os Hrossa lidavam melhor com as limitações na vida e com o problema da morte. Hyoi dizia: "E como poderíamos suportar viver e ver o tempo passar se estivéssemos sempre desejando que um determinado dia ou um determinado ano voltassem, se não soubéssemos que cada dia de uma vida enche toda aquela vida com esperanças e recordações e que estas é que são aquele dia?"

Penso que uma das coisas mais relevantes para o nosso momento seria o proveito que ele traz para se promover o senso artístico, estético e estilístico dentre os cristãos. Mesmo que o campo artístico dele fora a literatura, ele teceu bases para subsidiar toda uma reflexão sobre a fé cristã e a arte, a imaginação, a apreciação dos símbolos para além do âmbito psicológico, que infelizmente o pensamento moderno tentou (ainda que incoerentemente) os reduzir. E sempre enfatizando o esforço pela qualidade, porque o que tem de "artistas" fazendo coisas chinfrins usando como subterfúgio o discurso de que (se é pra Deus não importa). Bem, a questão não é de não serem "graandes" obras ou chinfrins, mas de que nem ao menos vemos preocupações ou cobranças quanto a qualidade. E não só para com os artistas, mas também ele proporciona elementos para a apreciação da arte, por parte do público cristão.

Há algo que queria, de coração compartilhar. Está no livro de C.S.Lewis, “Cristianismo Puro e Simples”. É um livro ótimo, com palavras claras, coerência, com idéias amplas e conexas, exigindo concentração e proporcionando edificação e deleite. E essa é uma mensagem que ele nos deixa, apontando de forma perspicaz algo bem negligenciado:

Quando alguém faz uma escolha moral, duas coisas estão envolvidas. Uma é o ato da escolha. A outra, são os vários sentimentos, impulsos, e tudo o mais, que o seu equipamento psicológico lhe fornece, e que são a matéria-prima da escolha. Bem, essa matéria-prima pode ser de dois tipos. Tanto pode ser o que chamaríamos de normal, consistindo dos sentimentos que são comuns a todos os homens, ou então são sentimentos inteiramente anormais, decorrentes de coisas erradas do subconsciente. Assim, o medo de coisas que são de fato perigosas é um exemplo do primeiro tipo, e o medo irracional de ratos ou aranhas é um exemplo do segundo. (...)Podemos ainda expor a mesma coisa de outro modo.

Muita gente, que parece ser muito amável, na verdade pode ter feito tão pouco uso da sua boa hereditariedade e da sua boa educação, que talvez seja bem pior do que alguém que seja tido como um demônio. Poderíamos ter certeza de como seria o nosso comportamento, se tivéssemos tido de suportar a carga psicológica, e ainda a má educação, e ainda o poder de alguém como Himmler (líder Nazista da Gestapo, que suicidou em 1945)?

Eis as razões porque se diz aos cristãos que não devem julgar. Só vemos os resultados das escolhas feitas com a matéria-prima de cada um. Mas Deus não julga ninguém com base nessa matéria-prima, mas sim segundo o uso que faz dela. A maior parte da configuração psicológica do homem é provavelmente devida a seu corpo; quando este morrer tudo desaparecerá com ele, e a parte central real do homem, aquilo que escolhia e que fazia o melhor ou pior uso do seu material, aparecerá em sua nudez. As belas coisas que supúnhamos serem nossas, mas que eram na verdade devidas a uma boa digestão, cairão de alguns de nós; as coisas torpes que eram devidas a complexos ou má saúde, cairão de outros. Pela primeira vez, então, veremos cada um como realmente é. Haverá surpresas.


16 de novembro de 2009

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte III

Não, não faço aqui um discurso-fácil sobre martírio, sobre procurar o sofrimento per se. Não tenho dúvidas. Acredito sim, que a fé, a existência em fé pode sim, melhorar a vida da pessoa aqui e agora. Pode e deve melhorar a sociedade. As “virtudes cardeais” da temperança (aproveitamento comedido/conveniente das coisas, evitando se perder no uso de algo, evitando vícios), prudência ( considerar as conseqüências do que está fazendo, ter bom senso, ser consciente de suas ações e das responsabilidades), justiça ( honestidade, equidade, veracidade, fidelidade), fortaleza ( ter fibra, força de vontade) ajudam a pessoa a administrar melhor seus ganhos e posses, dar valor ao que é mais significativo, não se perder em excessos, honrar compromissos e evitar vergonhas, educar filhos, superar dificuldades, conviver entre si, melhorar o trânsito, a vida social de sua cidade. Ajudam e muito; mas não evitam os contratempos e os acasos ruins.

E o sentido do chamado de Jesus é que com o seu ministério O Criador estava confirmando Seu desejo de um relacionamento íntegro com as pessoas, uma aliança com todas, e que já pôs sob julgamento todo o mal e tudo o que desvirtua a justiça e bondade, que inaugurará uma Nova Criação, e nos chama a viver orientados a essa perspectiva agora, a do Seu Reinado inaugurado com a obra de Cristo, confirmado com Sua ressurreição, pelo poder de Seu Espírito. Isso supõe desde o confronto com as estruturas injustas do mundo, a deslegitimação de todo o despotismo e exploração, o socorro aos necessitados, até a busca e apoio para melhores soluções técnicas para os problemas na área médica, planejamento urbano, políticas educacionais, manejo agroambiental, tecnologias socializadas de tal forma a não provocar injustiça social e ambiental.

Mas nada disso nos dá garantia para o aqui e agora. Fora inaugurado na obra de Jesus, mas será concretizado finalmente quando da Nova Criação divina. Não nos iludamos que um dia estabeleceremos a sociedade perfeita ou quase-perfeita aqui. Todos os nossos projetos podem ser corrompidos. E tudo isto passa, sempre passará. E sempre teremos de conviver aqui com tristezas e sofrimentos.

Em grande parte deriva da própria natureza da realidade: Deus criou um mundo em desenvolvimento, evolução, dotado de potenciais para explorar o conjunto de possibilidades e vias de configuração; o padrão intencional do Eterno está no plano mais amplo, e não em cada detalhe deste processo evolutivo; isto para possibilitar que venham à tona seres com livre-arbítrio, ainda que em meio a condicionantes, e dotados de criatividade, espontaneidade, moralidade e responsabilidade. E não um mundo tal qual um dominó, com todos os movimentos pré-fixados e habitado apenas por fantoches. Tal opção possibilita o amor, a liberdade, mas também o sofrimento. Ainda por cima, houveram eventos nesta criação que corromperam a ordem criada, agravando e aprofundando as experiências de sofrimento pessoal, desvirtuando o plano evolutivo destes seres morais - nos afastando do alvo que havia para nós. Por isto os atos especiais revelatórios e sobrenaturais dEle, para poder redimir um mundo que não é uma cascata-dominó.

Assim, em meio a este drama, experimentamos a vida em sua crueza, com a mesma abertura que possibilita sofrer e desfrutá-la. Não há garantias. Não há estabilidade garantida; não há fórmulas para a felicidade; não há um jogo de barganha cósmica ou espiritual para garantir que as coisas darão certo para nós aqui.

Como a oração atribuída a Reinhold Niebuhr diz,
"Senhor, conceda-me a serenidade
para aceitar aquilo que não posso mudar,
a coragem para mudar o que me for possível
e a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
apreciando um momento de cada vez,
recebendo as dificuldades como um caminho para paz,
aceitando este mundo cheio de pecados como ele é
assim como fez Jesus, e não como gostaria que ele fosse;
confiando que o Senhor fará tudo dar certo
se eu me entregar à Sua vontade.
Pois assim poderei ser razoavelmente feliz
nesta vida e supremamente feliz na outra.”


A história, nua e crua, mostra que pessoas de todos os credos e sem crer em nenhum morreram de fome, nas guerras, assassinadas, injustiçadas, de acidentes. Existem cristãos passando fome e sede na África, na América Latina, cristãos (inclusive igrejas) faliram e perderam todos os bens nos EUA recentemente na crise, cristãos em depressão na Europa, cristãos morrem em catástrofes ambientais na Ásia (e sofrem em todo mundo as consequências do que outros cristãos fazem com a natureza)...não é “castigo de Deus”, embora em grande parte das vezes a responsabilidade humana está envolvida; muitas vezes, pessoas sofrem conseqüências da irresponsabilidade ou maldade dos outros.


Temos que aceitar nossa vulnerabilidade; daí, a transitoriedade das coisas; daí, a nossa finitude. Isto não gera acomodação; pelo contrário, qualquer ideologia ou religiosidade que nos ofereça “garantias” gera acomodação, pois pra quê ser atento e ter coragem, iniciativa, virtude, paciência, gana de dar a volta por cima, se tudo é garantido? Por isso, quem passa por alguma aflição, não se culpe. Não está completamente nas mãos de ninguém poder garantir que alguém dá família não se meta em confusão; não está nas mãos de ninguém garantir que nunca passará por tragédias financeiras; podemos só fazer nossa parte. Mas não se implica que é a realidade definitiva da vida. A crença na ressurreição entre os judeus, surgiu diante do martírio pela sua fé.

A crença cristã não é a de que devamos nos isolar “deste mundo tenebroso” esperando ir para o Céu. O Céu não é o limite. O “Céu” é uma linguagem metafórica, na linguagem do Novo Testamento, para evitar pronunciar o nome de Deus em vão. A realidade após a morte na fé cristã, é a de encontrar acolhida com Deus, até que Ele restaure todas as coisas, e consuma Seu Reinado, na Sua Nova Criação; Ele não descartará essa criação como um lixo para vivermos num “mundo etéreo”, mas nos dará uma nova vida, um novo corpo, libertos da condição pecaminosa, espiritualmente orientados. Não seremos fantasmas. Teremos uma vida após a vida após a morte.

Vida após Vida após a Morte
http://www.youtube.com/watch?v=sRdShhnd_Zc
O Céu não é a questão:
http://www.arminianismo.com/index.php?option=com_content&view=article&id=1078%3Ao-ceu-nao-e-a-questao&catid=123%3An-t-wright&Itemid=28


C.S. Lewis , em resposta a uma pergunta de um entrevistador, proferira algo que abalaria os alicerces de diversos templos hoje:
Qual das religiões do mundo confere a seus seguidores maior felicidade? Enquanto dura, a religião da auto-adoração é a melhor.

Tenho um velho conhecido já com seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou abordando o assunto segundo esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me tornei religioso em busca da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de vinho do Porto me daria isso. Se você quiser uma religião que te faça feliz, eu não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum produto americano no mercado que lhe será de maior utilidade, mas não tenho como lhe ajudar nisso
.”



Tenhamos uma alma pronta a simpatizar e um coração que saiba sentir-se com outros em suas aflições: nenhum temperamento descaridoso, nenhuma desumanidade. Embora você não possa proporcionar alívio, pode, porém, lamentar, entristecer, preocupar-se pelo que ocorreu.
São João Crisóstomo. Homilies on the Acts of the Apostles and the Epistle to the Romans.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte II


Muito invocada é a história de Jó, na Bíblia. Ele realmente comeu o pão que o diabo amassou. Foi reduzido a uma existência miserável, sem tudo o que construíra com muito trabalho e virtude. Aí todos lembram que ele mantivera uma fé inabalável, e no final teve muito mais do que tinha antes (me deixa irrequieto neste conto – as pessoas, no caso os filhos, são substituíveis assim?).

Vamos olhar mais de perto. Fala-se no livro, aos interlocutores de Jó que debateram com ele sobre sua condição e a relação com a vontade de Deus: “ É unicamente em consideração a ele [Jó] que não vos tratarei como merece vossa insensatez, por não terdes falado de mim com retidão, como fez meu servo Jó” – 42.8.

Sim. E o que eles falaram durante este tempo?

Recorda: qual o inocente que pereceu? Onde se viu homens retos desaparecerem? Já percebi: os que forjam delitos, os que semeiam miséria colhem-na. Ao sopro de Deus perecem; ao sopro de sua narina se consomem.

Pois sim; já se viu, muitas vezes, é até freqüente, que justamente os homens retos e os inocentes perecem e desaparecem; e muitos dos que forjam delitos e semeiam miséria gozam uma vida relativamente feliz.

Outro amigo de Jó - Sofar:

Tu, quando firmares teu juízo, elevando a ele tuas palmas abertas, afasta a iniqüidade que há em tuas mãos e não habite injustiça em tua tenda.
Elifaz:

Ao Poderoso interessa a tua justiça?
Que ganha, se aperfeiçoas teu caminho?
Ele vai se defender por medo de ti, contigo entrar em julgamento?
É mesmo muito grande tua [a de Jó] maldade e não há limites para seus crimes.
Sem razão tomavas penhor de teus irmãos, tu os despojavas de suas roupas, deixando-os nus.
E assim, continuam. Na ótica deles, há uma relação linear, de causa-efeito, entre virtude religiosa e segurança e bem-estar. Logo, aqueles de “bem com Deus” se dão bem, e os que se dão mal era porque não estavam “de bem com Deus”. Assim, finge-se que não se vê que há, indubitavelmente, injustiças e absurdos na vida. Ou, por tabela, Deus passa a ser a justificativa para os absurdos e injustiças da vida. O responsável.

E Jó? O que Jó havia dito?

Realmente, dá até medo de se por no lugar dele. Alguém tão justo e virtuoso, tão temente a Deus, amigo mesmo de Deus, passando por uma experiência tão avassaladora!
Porque concede Ele a luz ao sofredor,
E a vida aos ulcerosos?
Esperam uma morte que não chega,
Buscam-na com mais ânsia que um tesouro.
Ou seja: por que Deus? Por que permitir tamanhas aflições? Porque aqueles que sofrem alem de suas medidas, sem ter como evitar ou desfazer a situação, permanecem ainda assim?
Porque pessoas morrem de fome, sede...morrem com doenças que as vão definhando? Porque não cessa a dor delas logo, mas vão se arrastando?

Muitos hoje, respondem: “é porque não são crentes. Venham pra Jesus”...aham... os amigos de Jó...

Continua:

O Poderoso cravou em mim suas flechas e o meu sopro aspira o seu veneno. Os terrores de Deus se alinham contra mim.
E ainda:

Restar-me-á ao menos um consolo,
Um quê de alegria em meio à tortura implacável: de nenhuma sentença do Santo descuidei.
O homem abalado tem direito à piedade do seu próximo; senão, abandonará o temor do Poderoso!

Ele apela:
Ah, se houvesse entre nós algum juiz, para pôr sua mão sobre nós dois! Apartaria de mim o chicote de Deus, e seu terror não me assolaria mais.
O homem justo vai mais além:

Ele priva de juízo os líderes do povo fazendo-os vaguear num caos, sem rumo. Privados da luz, vão apalpando as trevas; Deus os extravia como a bêbados.
Por que então, por que, as pessoas que fazem chantagem emocional com os problemas dos outros para que eles fiquem em suas organizações religiosas, fazem vistas grossas a isto? Vemos aí que Jó não fora o homem paciente, estóico, além de toda dor, que suportou tudo como se fosse um super-homem espiritual...

Está certo que mais a frente, aparece Deus o interpelando, pessoalmente:

Quem está a denegrir a providência com discursos sem sentido?
Onde estavas quando eu fundei a terra? Dize-me isso, sábio que és.
Pretendes mesmo anular meu julgamento, condenar-me, para te justificar?

Vemos na resposta divina não uma assertiva do gênero “eu sou grande, você pequenino, eu brinco com você, meu fantoche, como quiser”. Mas sim que Deus não se prende a racionalizações. Que ninguém pode querer enclausurar Deus num esquema mental partindo do próprio raciocínio através das coisas; mas que Deus está além de tudo, e antes de tudo, Ele é um ser pessoal, volitivo; se nem uma pessoa se esgota através das estereotipações que fazemos dela, imagine o Ser que é Mais-que-pessoal, que está além da nossa capacidade de racionalização? Podemos prendê-lo num esquema linear, de causa-efeito? Preserve o Mistério no Deus que se revela.

Ainda assim, o juízo de Deus sobre as palavras de Jó é muito menos severo do que dos amigos do homem. Jó caira nos laços da retórica deles, e acabou considerando que realmente Deus estava sendo arbitrário e estava sendo castigado sem razão. Mas O Eterno preferiu ser contestado, do que ver uma pessoa racionalizar a religião para justificar a injustiça e crueldade para falsear a realidade. Ele corrigiu Jó, mas não confirmou o veredito dos “religiosos”, de que “aqui se faz, aqui se paga”, de que tudo o que acontece pode se apoiar no caráter de Deus. Ele respondeu à interpelação sincera. A resposta de Jó que Lhe aprouve não foi “sim, eu fiz por merecer, e os outros gozam da vida boa porque são mais amigos de Deus”, mas “Pois é, eu abordei sem sabê-lo, maravilhas além de mim, que não entendia.” Ele viu que Deus está além de qualquer iniciativa de enclausurá-Lo num esquema que explica e justifica tudo o que acontece. E o encontro legítimo com O Absoluto é esse: o que reconhece a Sua santidade e Transcedência.

Qual é o pano de fundo do livro de Jó?

Israel sofrera devastações, fora assolada, por grandes impérios, e o povo deportado, os reis humilhados. Eles foram advertidos muitas vezes pelos profetas sobre seu comportamento, os pecados individuais, familiares e sociais; a busca de estarem satisfeitos consigo mesmos, achando que barganharam com os deuses, esquecendo-se e negligenciando a aliança com o Senhor absoluto, buscaram a “paz” a despeito da justiça. Foram cavando sua sepultura. E atacando os profetas que Deus enviava para evitar as tragédias e transformar a realidade.

Quando do retorno do povo à terra-natal, houvera sim contrição e uma busca de ler na história do povo como ele foi se afastando da Lei do Altíssimo. Buscaram atentar para o que os profetas falaram, e evitar fazerem o mesmo que antes. Mas depois de um tempo, foi-se longe demais. Começaram a estruturar um esquema religioso extremamente legalista, com um grande poder para os “retóricos oficiais da palavra religiosa”, e buscando aplicar uma visão religiosa a qual justificava tudo o de ruim como se fosse resultado dos pecados; começou-se com um “aqui se faz-aqui se paga” extremamente rígido, e o sol de Deus passou a nascer para poucos - em suas retóricas. O livro de Jó é um poema redigido como parte das reações que se fizera a essa teologia, hoje convencionalmente chamada “teologia da retribuição”. Esse é o quadro geral de sua leitura.

No livro, Jó ainda teve sua vida restaurada, e tudo o que perdeu ele recuperou ainda mais. Mas é este o padrão? E Jeremias, o profeta, que viveu visceral e integralmente para Deus e com Deus, a despeito de toda a oposição? Sofreu, foi também abandonado, perdeu bens, apanhou, foi humilhado, deportado para uma terra estrangeira (Egito), onde também buscava ser um agente do Senhor. Ele não teve a sorte de Jó. E os mártires do período de dominação Greco-macedônica, após Alexandre o grande, que recusavam a apostatar da fé judaica e eram torturados e massacrados?

O livro de Hebreus apresenta no capítulo 11 uma série de exemplos de pessoas virtuosas que se destacaram no mundo e realizaram prodígios. Mas depois, ele vem -vs 34:
Mas outros sofreram o esquartejamento, rejeitando a libertação para conseguir uma ressurreição melhor; outros ainda sofreram a provação dos escárnios e do chicote e das correntes e da prisão; foram apedrejados, serrados; morreram assassinados à espada; levaram uma vida errante, vestidos de peles de carneiro e pêlos de cabra; foram sujeitos às privações , oprimidos, maltratados(...)”.

E então: pessoas destacadas pela sua fé, sofreram ao extremo e morreram sofrendo. Pedro? Crucificado de cabeça pra baixo. Paulo, cortada a cabeça. O cristianismo floresceu não com apelos de que quem cresse teria todos os dramas resolvidos. Não, muitos passaram a encarar a estigmatização, zombaria, perda do status social, marginalização, perseguição, tortura, morte violenta. Não, não estavam atrás de auto-ajuda, de varinhas de condão divinas. Mas antes, eles tinham uma luz para além dos absurdos da existência. Podiam crer que a virtude é real, não uma ilusão, e com isso, muitos até abdicaram da “auto-satisfação” em nome da fé. Por isso podemos entender que na mensagem de Jesus, servi-lo é encontrar a verdadeira liberdade. Porque hoje os bonitões podem dizer que quem tem fé vai ter todas as soluções para os dramas da vida? Ah, porque se não falarem assim, “ a igreja ‘não cresce’ ”...

Não ousando pôr o pé fora da soleira da porta, suportei extremo sofrimento, vômitos constantes seguidos de dor de cabeça, inapetência e contínua insônia.
São João Crisóstomo. Letters of St. Chrysostom to Olympias.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade - parte I

E aquelas dezoito pessoas sobre as quais caiu a torre de Siloé e as
matou, pensais que eram mais culpadas do que qualquer outro habitante de Jerusalém?
Evangelho segundo São Lucas, 13.4.

O livro “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, deixou uma marca irremovível em mim, e vira e mexe ela se faz sentir, seja ardendo, coçando, fazendo cócegas.

Nele, as pessoas cansaram de tantas aflições. Doenças, guerra, solidão, fome, insegurança... valia a pena abrir mão de qualquer coisa, pois já experimentamos disso demais na história. Dói muito. Chega!..

Criou-se um mundo, a Fordlândia, em que cada indivíduo delegou tudo a cargo de sua vida para um sistema impessoal, que se encarregava de administrar tudo meticulosamente: projetava-se pessoas, com sua genética e psicologia condicionada de modo a ser feliz e útil em um trabalho necessário à sociedade; pessoas não envelheciam, não tinham medo da morte, não adoeciam, não fecundavam, davam à luz e criavam filhos, não se casavam e logo não se divorciavam, não ficavam sós, transavam sem culpa, sem aids, sem complexos, com quem quisesse e o quanto mais melhor; o abastecimento alimentar impecável. Admirável Mundo Novo. Sem guerras, fome, violência.

Mas eu disse errado: não se podia falar em “indivíduo”; de fato, cada um era um naco da massa de bolo; não havia mais personalidade, logo liberdade, individualidade, não só não existiam como não faziam sentido. Havia até uma substância, o SOMA, que aliviava qualquer recaída em tristeza ou angústia, dava ânimo, e até experiências transcedentais. Religião, álcool e auto-ajuda em um comprimido.

Não cabe aqui fazer uma resenha. Recomendo a todos a leitura. Vou transcrever uns trechos de um diálogo com um dos grandes Administradores da Fordlândia, explicando sua lógica – de fato, se mostra o quão relevantes e atuais são as reflexões a que o livro propõe, pois vai de encontro às aspirações de muita gente que se julga “esclarecida”:

'Só se pode ser independente de Deus enquanto se tem juventude e prosperidade; a independência não nos levará até o fim em segurança'. Pois bem, agora nós temos juventude e prosperidade até o fim: o que resulta daí? Evidentemente, que podemos prescindir de Deus. (...) não há para nós perdas a serem compensadas; o sentimento religioso é supérfluo.

Uma réplica, mais adiante, de um interlocutor: Se os senhores se permitissem pensar em Deus, não se deixariam agradar por vícios amáveis. Teriam uma razão para suportar as coisas com paciência, para fazer as coisas com coragem! (...) E o desprendimento, então? Se tivessem um Deus, teriam um motivo para o desprendimento.

O Administrador: Meu jovem amigo, a civilização não tem nenhuma necessidade de nobreza ou de heroísmo. Numa sociedade convenientemente organizada como a nossa, ninguém tem oportunidade para ser nobre ou heróico. É preciso que as coisas se tornem profundamente instáveis para que tal oportunidade possa apresentar-se.

O interlocutor: Ainda assim – insistiu o Selvagem – é natural crer em Deus quando se está só, completamente só, à noite, pensando na morte...

O Administrador : Mas agora nunca se está só – disse Mustafá Mond – Fazemos com que todos detestem a solidão, e organizamos a vida de tal forma que seja quase impossível conhecê-la.

A grande sacada de hoje é ser mercador de felicidade. Qualquer empreendimento e produto, no fundo ,possui na sua propaganda, embutida tal questão: “estamos lhe oferecendo a felicidade”; e assim crescem empresas, programas de TV, empreendimentos religiosos...

Sim, empreendimentos religiosos. Me tem parecido que hoje, se inverteram os papéis do livro, e os líderes e organizações religiosas fazem o papel do Administrador.

Finitude, Transitoriedade, Vulnerabilidade.

Versar sobre estes três termos pode me render incompreensão, impopularidade. Mas devemos seguir a consciência e ter a ousadia de falar as coisas críticas nos momentos críticos. São três temas que dificilmente alguém ouve muito em igreja. Vai de encontro a maior estratégia de crescimento e de manutenção de templos cheios atualmente:, seja em versões mais exageradas e de má-fé, ou manifestações de boa-fé e sinceridade. Vou tentar dizer o que precisarei dizer aqui, ainda que categoricamente, com muita humildade. Pois sei que os problemas concretos que nos angustiam na vida são sérios, dolorosos, e realmente queremos que passem. Às vezes lidamos com situações que nos esgotam, emocional, fisicamente, e a gente chega a desesperar da vida. Deixo claro que de forma alguma quero ser leviano com aquela dona de casa, aquele jovem, aquele idoso, aquele casal, etc., etc., que dizem amém com todo o fervor ao escutar na Igreja ou na música que logo Deus solucionará todos seus mais graves problemas. Até porque eu também passo por situações assim, e só eu sei o quão eu gostaria de que passassem logo....

Pois é isso o que direi e fundamentarei, e que não é nenhuma novidade (pois Jesus disse: “no mundo tereis aflições, mas tenham ânimo, eu venci o mundo” – S.João, 16.33, e não “tenham ânimo, vou dar uma resposta ou uma solução mágica para todos”).

Filhos com grandes problemas, seja com drogas, crimes, rebeldia aguda, promiscuidade vulgar e constante...dívidas que se avolumam, assolam, em condições que estão fora de nosso controle, e podemos perder tudo...catástrofes naturais que roubam a vida de entes queridos, levam nossa saúde, aptidão para nossa profissão, todos os bens...doenças dolorosas e definhadoras...acidentes graves...desemprego...

Sim. Seria muito bom se eu pudesse dizer “tenham fé que é garantido que Deus vai resolver”. Realmente, pode ser. Não irei ao sentido oposto: “Não adianta, Deus não resolve”. Mas é importante frisar: _pode ser que o pior aconteça. Não se iluda; acontece em todo o mundo, em todos os tempos, e pode acontecer, seja você de qual religião, igreja, ou o que for.



Elias vive como fugitivo e errante. Davi sofre nas mãos de Saul e mais tarde é atacado por seu próprio filho. João Batista é degolado por Herodes.
(...)
Pois resta-nos ou beneficiarmo-nos ou sermos injuriados pela aflição. Não depende da natureza da aflição, mas da disposição de nossa própria mente. São João Crisóstomo. Homillies on Galatians, Ephesians, Philippians, Colossians, Timothy, titus and Philemon.

12 de novembro de 2009

Epitáfio

O poeta John Donne perguntara: “e se a presente for a última noite do mundo?”
E então? E se fosse?
Eu me pego a pensar na cruz de Cristo. Minha mente me leva até o episódio dos dois ladrões. Se eu estivesse ali, em qual posição estaria? Qual deles eu seria?

Referimo-nos a um como o “Bom Ladrão” (assim se popularizou; mas o termo para "bandido" ali é, contextualmente, melhor empregado para "violentos" rebeldes políticos salteadores). O "ladrão" que creu e confiou em Jesus, e recebeu assim a promessa de estar com Ele para sempre. [Evangelho Segundo São Lucas, 23.39-43].

Algo me chama a atenção na passagem...como o homem pôde ver além do que se passava ali e dizer a Jesus: “lembra-te de mim quando vieres como rei”? Poxa-vida, eles estavam dependurados numa cruz! Ali era um misto de maldição e humilhação extrema... de onde Ele retirara tanta fé para ver além daquilo? Ver Jesus vindo como rei? E como ele concebera tal? Teria tido oportunidade de ouvir Jesus falando sobre sua ressurreição? Mas geralmente Ele o fazia secretamente com os discípulos. Como o “Bom Ladrão” teria imaginado que Jesus voltaria? Não necessariamente implica ali a crença na ressurreição imediata. Mas podia ser que imaginasse que Deus vindicasse Jesus na ressurreição coletiva do final dos tempos, que era expectativa judaica, e nela imaginasse um homem santo como Jesus em papel de destaque, como o rei das aspirações do povo, o “novo Davi” no imaginário popular, não para aquele tempo, mas para o tempo final. Hum, ele ali ainda não tinha um "credo correto"...

Possivelmente, o desespero e o encarar de frente a morte teria dado ao homem a perspectiva de firmar sua esperança não para essa vida, mas para o futuro; nisso, vemos sua confiança depositada em Deus. Um bandido pregado na cruz... costumamos ver assim mesmo, pessoas que tiveram uma vida loonge de ser piedosa, mas que deparando-se com o “sem-saída”, apreendem a dimensão do eterno, do Sagrado, a qual elas fizeram pouco caso durante a vida. Alguns o fazem a sério, outros se esquivam, zombam, revoltam-se...

E eu?..
E, eu? Hmmmm....

Interessante que a resposta de Jesus ali foi de que eles estariam junto desde já. O “Gan-Éden”, transliterado como "Paraíso", era uma visão para um período intermediário, vida após a morte, de estar junto a Deus aguardando a Sua Grande Intervenção na Terra e a ressurreição dos mortos. “Você, verdadeiramente, já será lembrado, melhor, contado comigo HOJE ainda.”

Sempre vi como uma grande falácia ingênua, a que disparam contra a fé no porvir. De que atrofia o espírito humano por postergar suas expectativas para um tempo diferente do nosso; que se acomodaria e se tornaria passivo. Eu vejo que ela pode ter um efeito contrário, expandir o horizonte do espírito humano, para além das situações em que o desespero parece ter dado a resposta final. Pode mudar a pessoa, transformá-la, e enobrecê-la.

Como seria ter a consciência de que “é o fim”? Algumas pessoas acabam sabendo. Os que recebem diagnósticos de estados terminais, por exemplo. É o fim. E daí? Qual a palavra final? Quem o tem? Para onde aponta meu último estado de espírito?

É por refletir neste episódio, sobre o que ele me traz como resposta na visão, no caminho cristão, que vejo que é possível neste momento ter paz com Deus, e daí, enfrentar o absurdo com uma afirmação de fé.

Ainda resta o próximo... Em paz com Deus, podemos ficar com o próximo. O Ladrão ali pagou pelo que fez, pelo crime. Barbaramente, cruelmente como era esse método romano, sim. Inconcebível. Mas ao seu lado havia um verdadeiramente justo.

Sim, podemos ficar em paz com o próximo. Mas podemos também não ficar. Deus não fará isso para nós, é nossa responsabilidade, não podemos pedir a Deus que nos retire nossa responsabilidade pessoal. Nos importamos com isso? Pensamos, às vezes, em como isso deve afetar nossa vida ?

Essa música Just Breathe, do novo álbum do Pearl Jam - Backspace, me faz pensar nisso: meu epitáfio. Passamos tanto tempo na vida buscando marcar as outras pessoas, e pouco espaço às vezes deixamos para aqueles que marcam e deixam a vida mais significativa. Como disse Path Adams na sua entrevista no Roda Viva, “rir não é o melhor remédio, a amizade o é”.

APENAS RESPIRE

Sim, eu entendo que toda vida deve ter um fim
Enquanto sentamo-nos sozinhos, eu sei que um dia devemos partir
Oh, eu sou um homem de sorte por contar em ambas as mãos aqueles que amo
Algumas pessoas têm só uma, outras, não têm nenhuma

Fique comigo...
Vamos apenas respirar...

Cometi todos meus pecados, nunca irão me deixar vencer
Sob tudo, apenas um ser humano
Ah eu não quero mais dor, há tantas coisas nesse mundo para me fazer sangrar

Fique comigo...
Você é tudo o que vejo...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco

Reflito todo dia, enquanto contemplo o seu rosto
Tudo você deu
E nada você poupou

Nada você levou
Tudo você doou...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, Se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco...

Nada você levou
Tudo você doou
Abrace-me até eu morrer
Te encontro do outro lado...


video

5 de novembro de 2009

Os idiomas de Jesus


No ambiente palestino de Jesus, o idioma corriqueiro e de uso geral para o povo era o aramaico, do grupo dos idiomas semíticos tal como o hebraico e o árabe. Haviam sete dialetos, sendo um próprio da região da Galileia. O mais difundido era o Velho Judaico, de Jerusalém e Judéia, o mais indicativo pela análise do grego neotestamentário - o Koiné, de ter sido empregado nas palavras de Jesus, pois a maioria dos termos se traduzem ou transliteram por ele, ao invés de ser o aramaico galileu.

O hebraico não era de uso corriqueiro, era usado especialmente nas cerimônias litúrgicas da Tanak, como é conhecida a Bíblia Hebraica; apesar de que haviam textos especiais em que se era decorado no hebraico, provavelmente Jesus, como alguém que se prontificava a comentar, versar e explicar as Escrituras, deveria conhecer o idioma. Lia em hebraico e explicava em aramaico. É importante lembrar que o hebraico de então recebera seu alfabeto do aramaico.

Observa-se que os discípulos se referiam a Jesus como Rabi, discípulos não se dirigiam a qualquer um como Rabi, apenas Mestres que estudavam a Torah e que ensinavam nas sinagogas, como Jesus ensinava. Era costume levar as crianças para os rabinos abençoarem, como foram apresentadas a Jesus.

Jesus se envolvera em diversos debates religiosos-com os fariseus, embora não fosse anti-farisaico em si; contrapôs, em destaque, os mais vinculados à escola Shamai ( com excessão da questão sobre o repúdio ao cônjuge e quanto pobreza e distribuição). Ele empregava expressões como “eu porém vos digo”, etc., mas não invalidando a Torah, e nem necessariamente deslegitimando os Midrashs Halacás, que eram comentários dos rabinos e doutores da lei, com explicações ou busca de conseqüências aplicativas em âmbitos maiores da Torah (e menos usualmente, os outros escritos) em forma jurídica-religiosa. O que ele se contrapunha eram certas tendências que julgava distorcedoras e/ou contradições- “acautelai-vos do fermento dos fariseus”. “Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem”. Ele faz um elogio de quem era “doutor da lei” e se abre às boas novas, "(...)Assim, pois, todo escriba instruído acerca do Reino dos Céus é comparável a um dono de casa que tira do seu tesouro coisas novas e antigas" - Mt 13.52. Mais do que fazer uma antítese à Torá, o que se infere das polêmicas de Jesus com ela e com os intérpretes se orienta no sentido de que "embora ele não se opusesse à lei. ele indicava, sim, que o mais importante era aceitá-lo e seguilo" ( E.P.Sanders, "Historical Figure of Jesus, Penguin, 1993, p.154). A Judéia o principal centro de formação dos fariseus tanaítas, havendo linhas rabínicas de outras regiões, como p.ex. os chasidim, na Galiléia.

Mais a respeito da relação entre Jesus e os fariseus:

Jesus e os Fariseus: inimigos mortais?

parte II


Não se é precipitado em conceber que Jesus conhecia o grego. Na passagem de João 7:35, também da interpelação aos mestres judaicos, em que referia-se à sua obra vicária, eles comentaram : “"Disseram, pois, os judeus uns aos outros: Para onde irá ele, que não o acharemos? Irá, porventura, à Dispersão entre os gregos, e ensinará aos gregos?" o que também é um forte fator indutivo. Complementado com suas passagens em regiões em que o grego era normalmente empregado, como a Decápole e Fenícia. Outrossim, comerciantes judeus conheciam o grego, e outros prestadores de serviço, dentre os quais, os de ofício de Jesus, o que era importante para a atividade econômica. A profissão de carpinteiro na época não estava perto do mais baixo nível social, propiciava uma educação para além do rudimentar; na hipótese de que fosse um serralheiro, o que alguns exegetas dizem ser melhor identificado com termo tékton, ainda assim, uma prestação de serviços compatível.

A região da Galiléia havia séculos continha um grande contingente de estrangeiros de diversas regiões. Mateus mesmo se refere à Galiléia “dos gentios”. Judéia, Decápolis, Tiberíades, a região de Tiro e Sidom, importantes no ministério de Jesus, eram lugares em que o grego era empregado. Mesmo em Jerusalém havia uma porcentagem significativa de pessoas que falavam o grego. Na cura da mulher nessa região de Tiro e Sidom na Fenícia, acima da Galiléia, a mulher Siro-fenícia (Mc 7.24-30; Mt 15.21-28)se diz que era grega, o que pode (não obrigatoriamente) indicar que a conversa entre os dois teria se dado em grego.

Logo, podemos inferir que além do aramaico, Jesus conhecia hebraico e provavelmente o básico do grego.