12 de novembro de 2009

Epitáfio

O poeta John Donne perguntara: “e se a presente for a última noite do mundo?”
E então? E se fosse?
Eu me pego a pensar na cruz de Cristo. Minha mente me leva até o episódio dos dois ladrões. Se eu estivesse ali, em qual posição estaria? Qual deles eu seria?

Referimo-nos a um como o “Bom Ladrão” (assim se popularizou; mas o termo para "bandido" ali é, contextualmente, melhor empregado para "violentos" rebeldes políticos salteadores). O "ladrão" que creu e confiou em Jesus, e recebeu assim a promessa de estar com Ele para sempre. [Evangelho Segundo São Lucas, 23.39-43].

Algo me chama a atenção na passagem...como o homem pôde ver além do que se passava ali e dizer a Jesus: “lembra-te de mim quando vieres como rei”? Poxa-vida, eles estavam dependurados numa cruz! Ali era um misto de maldição e humilhação extrema... de onde Ele retirara tanta fé para ver além daquilo? Ver Jesus vindo como rei? E como ele concebera tal? Teria tido oportunidade de ouvir Jesus falando sobre sua ressurreição? Mas geralmente Ele o fazia secretamente com os discípulos. Como o “Bom Ladrão” teria imaginado que Jesus voltaria? Não necessariamente implica ali a crença na ressurreição imediata. Mas podia ser que imaginasse que Deus vindicasse Jesus na ressurreição coletiva do final dos tempos, que era expectativa judaica, e nela imaginasse um homem santo como Jesus em papel de destaque, como o rei das aspirações do povo, o “novo Davi” no imaginário popular, não para aquele tempo, mas para o tempo final. Hum, ele ali ainda não tinha um "credo correto"...

Possivelmente, o desespero e o encarar de frente a morte teria dado ao homem a perspectiva de firmar sua esperança não para essa vida, mas para o futuro; nisso, vemos sua confiança depositada em Deus. Um bandido pregado na cruz... costumamos ver assim mesmo, pessoas que tiveram uma vida loonge de ser piedosa, mas que deparando-se com o “sem-saída”, apreendem a dimensão do eterno, do Sagrado, a qual elas fizeram pouco caso durante a vida. Alguns o fazem a sério, outros se esquivam, zombam, revoltam-se...

E eu?..
E, eu? Hmmmm....

Interessante que a resposta de Jesus ali foi de que eles estariam junto desde já. O “Gan-Éden”, transliterado como "Paraíso", era uma visão para um período intermediário, vida após a morte, de estar junto a Deus aguardando a Sua Grande Intervenção na Terra e a ressurreição dos mortos. “Você, verdadeiramente, já será lembrado, melhor, contado comigo HOJE ainda.”

Sempre vi como uma grande falácia ingênua, a que disparam contra a fé no porvir. De que atrofia o espírito humano por postergar suas expectativas para um tempo diferente do nosso; que se acomodaria e se tornaria passivo. Eu vejo que ela pode ter um efeito contrário, expandir o horizonte do espírito humano, para além das situações em que o desespero parece ter dado a resposta final. Pode mudar a pessoa, transformá-la, e enobrecê-la.

Como seria ter a consciência de que “é o fim”? Algumas pessoas acabam sabendo. Os que recebem diagnósticos de estados terminais, por exemplo. É o fim. E daí? Qual a palavra final? Quem o tem? Para onde aponta meu último estado de espírito?

É por refletir neste episódio, sobre o que ele me traz como resposta na visão, no caminho cristão, que vejo que é possível neste momento ter paz com Deus, e daí, enfrentar o absurdo com uma afirmação de fé.

Ainda resta o próximo... Em paz com Deus, podemos ficar com o próximo. O Ladrão ali pagou pelo que fez, pelo crime. Barbaramente, cruelmente como era esse método romano, sim. Inconcebível. Mas ao seu lado havia um verdadeiramente justo.

Sim, podemos ficar em paz com o próximo. Mas podemos também não ficar. Deus não fará isso para nós, é nossa responsabilidade, não podemos pedir a Deus que nos retire nossa responsabilidade pessoal. Nos importamos com isso? Pensamos, às vezes, em como isso deve afetar nossa vida ?

Essa música Just Breathe, do novo álbum do Pearl Jam - Backspace, me faz pensar nisso: meu epitáfio. Passamos tanto tempo na vida buscando marcar as outras pessoas, e pouco espaço às vezes deixamos para aqueles que marcam e deixam a vida mais significativa. Como disse Path Adams na sua entrevista no Roda Viva, “rir não é o melhor remédio, a amizade o é”.

APENAS RESPIRE

Sim, eu entendo que toda vida deve ter um fim
Enquanto sentamo-nos sozinhos, eu sei que um dia devemos partir
Oh, eu sou um homem de sorte por contar em ambas as mãos aqueles que amo
Algumas pessoas têm só uma, outras, não têm nenhuma

Fique comigo...
Vamos apenas respirar...

Cometi todos meus pecados, nunca irão me deixar vencer
Sob tudo, apenas um ser humano
Ah eu não quero mais dor, há tantas coisas nesse mundo para me fazer sangrar

Fique comigo...
Você é tudo o que vejo...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco

Reflito todo dia, enquanto contemplo o seu rosto
Tudo você deu
E nada você poupou

Nada você levou
Tudo você doou...

Já te disse que eu preciso de você?
Já te disse que eu te quero?
Oh, Se eu não disse agora, eu sou um idiota, você vê
Ninguém sabe disso mais do que eu
Enquanto estou sendo franco...

Nada você levou
Tudo você doou
Abrace-me até eu morrer
Te encontro do outro lado...


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