31 de março de 2010

Lava-pés

(...)sabendo que o Pai lhe entregou todas as coisas entre as mãos, que ele saiu de Deus e volta para Deus, Jesus se levanta da mesa, depõe o seu manto e toma um pano com o qual se cinge. Depois, derrama água em uma bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com o pano com que havia se cingido.
                                 Evangelho Segundo São João , 13,3-5.

Lava Pés - (Jaci Correa Maraschin)

Jesus, tu reuniste os teus amigos
e lhes lavaste os pés humildemente,
e enviaste-os, logo após, entre os perigos
de um mundo desumano e incoerente.

Também pediste que este teu exemplo
se repetisse em nós e que, ao invés
de nos fecharmos em teu santo templo,
saíssemos lavando ainda outros pés.

Na poeira das estradas desta vida,
vem nossos pés lavar, tão doloridos;
vem dar-nos mãos que acalmem a ferida,
dos que ainda longe estão de ti, perdidos.
Senhor, que os nossos pés assim lavados
nas águas transparentes de tuas fontes,
indiquem sempre a cura dos pecados
e resplandeçam belos sobre os montes.

Bênção de Mesa - (Jaci Correa Maraschin)

Senhor, te damos graças porque em volta desta Mesa,
Renova-nos a força de lutar contra a pobreza,
Transforma nossa gula, a nossa sede de abastança,
Num novo sentimento de justiça e de esperança.

Senhor, que os nossos pratos numa terra dividida,
Um dia se dividam numa terra reunida,
Perdoa-nos agora, nesta injusta refeição,
Até que a terra inteira se alimente do teu pão.

28 de março de 2010

Meditação para Domingo de Ramos

A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos.” citado em Mateus 21:42.

Na imagem de apresentação de nosso blog, temos se destacando no horizonte uma cruz celta.

A cruz celta possui em sua raiz na associação com a divindade Lug; o anel representa a "Totalidade", também os ciclos de sustentação da natureza, e também ao sol; a cruz remete aos quatro elementos ( água, fogo, ar, terra) e os quatro sentidos (leste, oeste, norte sul). Com o cristianismo, passou a simbolizar a abrangência de toda a criação tomando parte na vitória de Cristo na Cruz.

Temos um exemplo emblemático de uma das várias e multifacetadas inculturações promovidas de forma rica ao longo da história da evangelização e desenvolvimento da tradição cristã.

Esses processos costumam ser duramente criticados e atacados tanto por alguns cristãos quanto por céticos. Os primeiros dizem que é uma contaminação, deturpação da fé e uma capitulação. Os segundos que isso indica que a religião é falsa e se apropria de outras para mascarar sua falsidade e construir suas narrativas.

São duas críticas que demonstram uma enorme estreiteza de visão e falta de conhecimento de princípios básicos da antropologia. Tomemos o exemplo concreto, o caso da cruz celta, para apontar o quanto o processo de inculturação é legítimo, pois não deturpa a fé e nem se dá sobre bases arbitrárias, mas se enraíza em crenças já estabelecidas antes na comunidade de fé cristã. O simbolismo desta cruz é ambientado e enraizado em doutrinas fundantes do cristianismo?

O Templo ocupava um lugar primordial na fé do judaísmo contemporâneo dos tempos de Jesus. Lá se eram comemoradas festas que remontavam às crenças fundamentais do judaísmo e da identidade do povo judeu. Inclusive a Judéia poderia ser considerada uma cidade-estado do Templo. Lá havia a aristocracia religiosa, de onde procediam regimentos da vida pública. Lá eram realizados diariamente cultos e sacrifícios, e suas cerimônias principais eram concorridas e para as quais afluíam um imenso número de peregrinos dentre judeus da diáspora e gentios conversos.

Um elemento poderosamente significativo para ilustrar a elevadíssima imagem de Jesus na fé cristã nascente é a associação da obra e da própria pessoa de Jesus, com os ofícios e com o próprio Templo, identificando em Jesus o papel que cabia ao Templo. Isso transparece na primeira carta de Paulo aos Coríntios, na literatura joanina e no livro de Hebreus, principalmente. Hoje, a imagem mais lembrada e retomada é a do sacrifício. No Templo, ocorriam os sacrifícios de ação de graças a Deus e sendo veículo da concessão graciosa de Deus do perdão dos pecados para aqueles que viviam em fé confiante na Torá. Os cristãos enxergaram em Jesus o Templo definitivo, a morada plena de Deus entre os homens, e na sua obra, viam o veículo para a concessão graciosa de Deus do perdão dos pecados para aqueles que viviam em fé confiante em Jesus Cristo. Importante assinalar que era uma relação comunitária; muitas vezes no cristianismo, e sobretudo hoje especialmente nos segmentos evangelicais, se acentua a dimensão da “salvação individual”, em dissemelhança com o significado dela naquele tempo.

Mas há outra igualmente atribuição e importância do ofício do Templo no judaísmo daquele período. Algo que compartilhava em um núcleo comum com diversas visões religiosas da história (com a importantíssima dissemelhança de se remeter ao Deus único). O ofício do Templo expressava o ambiente e esfera de ligação da vida e do mundo com a ordem última das coisas, na esfera dos Céus. Assim, a ordem e a obediência aos preceitos, no ofício do Templo, influenciava a estabilidade cósmica e os processos de renovação da vida; a agregação pessoal, social e natural. A conservação e o destino cósmico e social estava ligado ao culto correto no Templo, que remetia às realidades fundamentais da realidade.

E tal função, fora também remetida à obra e pessoa de Jesus, igualmente? Sem dúvida é algo que passa despercebido hoje. Mas sim, havia esse acento, igualmente importante à dimensão expiatória, enfatizando o destino da criação ligado à obra e pessoa de Cristo.

Tomemos Hebreus -
1.3: “Este Filho é o esplendor de sua glória e a expressão de seu ser, e sustenta o universo inteiro pelo poder da sua palavra”.
9.23: “Se, pois, as imagens do que está nos céus são purificadas mediante estes ritos, é mister que as próprias realidades celestes o sejam por sacrifícios bem melhores”.

Colossenses -
1.19 “Pois aprouve a Deus fazer habitar nele [Cristo] toda a plenitude e tudo reconciliar por meio dele e para ele, na terra e nos céus(...)”
2.9 “Pois neste [Cristo] habita corporalmente toda a plenitude da divindade(...)”

II Coríntios 5.19 "Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação".

Não vemos aí o que o simbolismo da Cruz Celta passa a retratar no cristianismo?

21 de março de 2010

Sobre ritos e sacralidade

Acordando, pois, Jacó do seu sono, disse: Na verdade o SENHOR está neste lugar; e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por seu travesseiro, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela. E chamou o nome daquele lugar Betel; o nome porém daquela cidade antes era Luz.
E Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; e eu em paz tornar à casa de meu pai, o SENHOR me será por Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo. Gênesis 28.16-19

Em toda a história, em todo o mundo, é universal dentre os povos alguma visão ou visões de esferas e hierarquias de sacralidade no microcosmo e macrocosmo abrangido por suas culturas. O Sagrado se apresenta por lógicas próprias, que transcendem os mecanismos e processos regulares da vida. Na hierarquia, há os contrastes, com diversas nuances, entre o sagrado e o profano. Em graus variáveis, diferentes âmbitos dão maior acesso ou maior distância para com o sagrado, manifestando-se por mediações destes lugares, ritos, sendo assim, níveis diferentes de pureza. Constatamos bosques sagrados, mananciais, montanhas, locais de cultos construídos, etc., etc. Objetos ou materiais purificadores, especialmente água e fogo. A impureza podia ser transmitida por contato físico, e expurgada por contato físico.

No recorte bíblico da religião hebraica, temos estes exemplos, destacando os Montes Sinai, Horeb, o Santo dos Santos no Templo. Locais em que a presença de Deus é mais imediata. Também impureza, ou seja, o afastamento da presença mais direta do sagrado, é expressa no consumo de determinados animais (Lv. 11), contato com animais mortos(Lv 11.24-28), secreções dos órgãos genitais ( Lv. 12.1-8; 15.1-32). No judaísmo do Segundo Templo, podemos ver a extensão dessa dinâmica pureza-impureza para esferas e atitudes comuns da vida privada e social em detalhes. A temática dominante para essas práticas era a discussão quanto a levar uma vida mais próxima de Deus, mais harmônica com o Senhor. Sobretudo quando se tinha uma auto-imagem de pessoa, comunidades e povo sacerdotal, ou seja, aqueles que intercedem pelo mundo a Deus e por intermédio de quem Deus busca se manifestar no mundo. E assim se constituía as tradições da vida religiosa cotidiana.

Uma leitura pouco cuidadosa leva à impressão de que Jesus se opunha em si a essa preocupação, encarando-a cinicamente como fútil e para bobocas hipócritas. Às vezes chega-se a projetar uma figura de Jesus como desconectada e em oposição a todo judaísmo de seu tempo. Nada mais falso. Jesus participava do culto nas sinagogas, ia às festas, valorizava as ceias comunais, usava vestes típicas dos homens piedosos e dedicados à reflexão teológica, como o tzit-tzit – algo que passa batido pelas traduções da passagem da mulher curada de hemorragia em Marcos 5.25-31, como “franjas” ou “bordas”.

O que Jesus criticava era a racionalização, ou o uso como desculpa, desses costumes, para a pessoa ter uma atitude de desamor e conveniência com a injustiça, ou ser chauvinista e demófoba com arrogância para com as pessoas simples, ou os desamparados e segregados dentre o povo, com os “menores”, os estigmatizados. Ele conclamava que a busca da pureza era boa, o zelo para com viver em harmonia com Deus. Porém, devia começar por uma novidade de vida, por misericórdia e empatia; a pureza advinha de uma busca de relacionamento pessoal íntimo com Deus que se manifestava numa disposição interior, e não se fiava em ritos e atitudes exteriores habituais que serviam para criar um coração fechado e amargo; pois com isto, na verdade se abdicava e se perdia do ser sacerdotal, pois Deus não está aí, Deus é “indomável”, “indomesticável”. Uma “religião do coração”, não no sentido sentimental apenas, pois o “coração” para os judeus na Antiguidade era o centro da vontade e determinação da pessoa; ser “o coração de algo” era ser o âmbito vital, norteador. “Cabeça”, por sua vez, costumava significar “fonte”, ou até mesmo o que hoje às vezes se emprega – fulano é o coração do time – ou seja, o núcleo referencial.

Por isso hoje, os cristãos não devem perder a grande riqueza da tradição histórica na liturgia, nos símbolos, rituais, rezas, cores, sabores, vestes, estética, hinos, arquitetura, arte sacra. O quanto está ficando insípida muita área da igreja que deu de ombros pra isso tudo! O quão raso e feio fica quando isto acontece! O foco é não deixar que estas coisas esteja, por si, em dessintonia com a disposição interior. A ordem é começar de dentro e exteriorizar, e estes símbolos e riquezas da tradição são repletos de significado a respeito da atitude interna do membro do cristianismo; não se pode é deixar que tomem o lugar desta atitude.

7 de março de 2010

Lendo a Bíblia com Jesus? Parte II - revelação progressiva

A pregação profética tinha um duplo sentido; de um lado, denunciava uma queda em auto-suficiência, em que os princípios e o espírito da Aliança eram obnublados por uma confiança cega em serem “o povo”, falhando em cumprir a missão e as prerrogativas dela, em uma interpretação triunfalista; de outro, eles retomaram e ampliaram o alcance da questão sacerdotal, levando a últimas conseqüências sua implicação do caráter universalista do propósito desse ser divino para todo o mundo, e Israel e Judá como instrumento que estava falhando.

Por isso, ora vinham pesados juízos contra as nações pela violência, idolatria, perversão, agressão ao “povo escolhido”, ora vinham oráculos anunciando bênçãos a elas, e elas sendo legitimadas em subjugar um povo que abandonava e perdia sua razão de ser .

Com o exílio, estes temas proféticos foram retomados, sobretudo o da Aliança, e sob o ângulo dos caminhos abertos para a Bênção e Maldição, do vislumbre do que poderia ter sido caso Israel se mantivesse fiel à Aliança, e da constatação da quebra desta, da maldição decorrente e da falência humana em caminhar com Deus em harmonia, já visto aí como o único Deus verdadeiro, e não o maior; com um propósito universal de redimir o mundo, reforçando o caráter sacerdotal e necessidade de “santificação” do povo, e alguns (como o autor de Jonas) reforçando o tom universalista ante um provincianismo que ameaçava recrudescer.

Houve a justaposição dos textos da criação. Ali fora feita uma "projeção" de sua leitura da história de Israel e do povo hebreu, sobre a história da humanidade, enxergando que a primeira recapitulara a segunda. Como se a Aliança fosse, na verdade, uma Segunda Aliança, após a Primeira feita com a humanidade, quebrada e cujas consequências desta quebra todos sofrem.
No tempo de Jesus, com tudo o que decorreu posteriormente do domínio helênico, a resistência, os mártires, a revolta dos Macabeus e divisões religiosas, o domínio romano, haviam multiplicidade de respostas.

Mas num cerne abrangente, tinha uma noção, mais atenuada até mais apocalíptica, de que estavam ainda num “exílio” e que aguardavam Deus visitar novamente Israel, e a forma como isso se daria variava. Daí o cenário para uma “revelação progressiva”, um conhecimento progressivo dos caminhos de Deus.

Jesus parece ter adotado um amálgama de várias visões messiânicas, absorvendo elementos de cada e rejeitando outros. Compartilhou com João Batista a noção de que chegara o tempo da visita de YHWH. Que os “mais fracos”, os estigmatizados e precarizados, estariam no centro do plano de Deus para redimir. E que era necessário se cumprir os sinais esperados para a mediação do povo para estar pronto para isso. Ampliou a perspectiva com a noção mais universalista de que essa mediação era para com o mundo, e que estaria inaugurando-se com seu ministério.

Daí o panorama para um cristão se aproximar, ou tentar, com as lentes para uma linha norteadora da Bíblia Hebraica que era a Bíblia que Jesus adotava.

Ler a Bíblia com Jesus?

Ler com Jesus? É isso?

Com certeza seria mmmuuuuita megalomania pretender que se pode colocar no lugar de Jesus e querer ler a Bíblia Hebraica como se fosse ele próprio.

Mas podemos sim, aproveitar tooodo o cabedal dos estudos hoje que se valem da arqueologia, exame da literatura de então, geografia humana, estudos culturais, etc., para empreendermos uma jornada, cautelosa e sem buscar muita precisão, em busca de pistas da chave interpretativa da leitura de Jesus.

Primeiro, é vital considerar que é patente que a Bíblia não é um ditado de Deus, nem é, por si só, um acesso direto e inequívoco a Ele. Isso frisando, ainda na perspectiva cristã de sua sacralidade e inspiração divina.

Comecemos reforçando que há postulados básicos que interligam uma visão de mundo e a maneira de estar nele e se guiar, em especial filosoficamente ou religiosamente. Quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução?Assim, teremos essas guias para refletir sobre um sentido construído historicamente, de como os judeus que se viam como “o povo de Deus” e retomavam seu memorial.

No geral, a religião hebraica em sua contingência histórica tinha como crença básica que eram um “povo sacerdotal”. Eles se constituíram como um povo que tinha uma missão especial e existia em decorrência dela, em relação aos outros povos. Retomavam em sua narrativa de fundação a imagem de que uma divindade poderosa entre os deuses, insondável, santo (consagrado e separado), oculta e moralmente volitiva, tinha feito uma aliança com eles para lhes constituir uma nação, visando consagrar toda a Terra, se revelar e lidar com a aparente maldade do mundo. Indo mais além nas narrativas das odisséias patriarcais (os patriarcas do Gênesis), as tradições foram socializadas e compiladas para mostrar como estavam ligados umbilicamelmente à divindade e tendo existência própria enquanto povo, dependente dessa divindade, uma nação em meio a povos hostis ou perigosos, em meio a uma rota importante de empreendimentos bélicos e entreposto para impérios (considerando também ser um povo com baixo domínio tecnológico). O termo sacerdotal remete a intercessão espiritual e mediação. Por isso se viam como tendo que se diferenciar de maneira muito forte para ter sua identidade própria, relativamente a procedimentos de outros povos.

Então não tinham sua existência dependentes só de si, nem por seus próprios méritos e forças, o que implica também o risco de falhar na missão.

21 de fevereiro de 2010

Tudo se Perfaz

por Carlos Nejar

trecho:

IV
Devo eu dividir o amor em partes
ou dividir-me nele, compungido
nos dias que me cabe não retê-lo.
Desterra-lo de mim como um gemido
nas cordas de teus olhos, teus sentidos.

Depois ruir a dor, ruir a espera,
no que de espera, as coisas se entreabriram,
viram adultas esta deferência
de tudo andar na dor e no sigilo.

E Deus aparecer e se ocultar
quando o chamei de súbito.
Deus lutar comigo – nós ferozes,
amigos, inimigos. Nós, as vozes
que podem ecoar, se vibram juntas,
na lona de outras vozes, no manejo
de sombras e marujos.

Devo eu admitir com a volúpia,
a vintena, o disfarce dos deveres.
Mas o amor me reconhece, me fareja,
persegue o foragido.

Devo eu dividir. E que metade
saberá de sua outra? Que metade
será a corruptível, obstinada,
enquanto a seu revel, a parte pura
irá pôr-se de armas.

Devo eu dividir o amor em partes,
que o todo me refuta: vilipêndio
de augúrios e vínculos.
Solvida a ventania, designamos
o amor resistente, renitente.
Solvida a ventania, somos mares.
Solvido o mar, a praia em toda parte.
V
Não sei até onde enterrar
o amor, enterrar-me
no amor, desenterrar-me
dele e refazer depois
as noites sem revê-lo.

Não sei. Forças acodem
ou por elas perpassa
o seu tropel. O dia
é necessário. E somos
resistentes, solidários.

Tudo se perfaz, doendo,
com o mais raro apelo.
Tudo age mudando, indo
a outro amor que insiste
em ser eterno.

VI
Sei que amo
antes das coisas existirem.

A vida me define
e eu decido, existindo.

Não sei o que me fica
ou ficando, sobrepõe-se
ao desígnio.

Muito antes
de me escolher, banindo.

Sei que amo
e tudo acontecendo,
indo, vindo.

17 de fevereiro de 2010

QUARTA-FEIRA DE CINZAS

De T. S. Eliot

I

Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?


Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma


Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa edificar
De que me possa depois rejubilar


E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós


Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.


Rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte
Rogai por nós agora e na hora de nossa morte.


II


Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos. E eu que estou aqui
dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:


Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
Onde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.


Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios, reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.


III


Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.


Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.


Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.


Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno


mas dizei somente uma palavra.


IV


Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras


Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos


Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta


Nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos,
resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.


A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma


Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa


Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio


V


Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.


Ó meu povo, que te fiz eu.


Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido


Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder, por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam


Ó meu povo, que te fiz eu.


Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.


Ó meu povo.


VI


Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar


Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o nascimento e a
morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao largo
Invioladas asas


E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias


Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.


Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
E espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.






Tradução de "Collected Poems - 1909/1962", Ivan Junqueira, para publicação pela Editora Nova Fronteira em 1981.