Henry David Thoreau, em "A Desobediência Civil e Outros Escritos".
Livro de valor inestimável é o Novo Testamento, conquanto eu admita ter desenvolvido um pouco de antipatia contra ele quando criança, devido a Igreja e as aulas de catecismo. Não foi fácil arrancar da cabeça os velhos conceitos e experimentar o verdadeiro paladar. Em verdade, aprecio muito sobremaneira esse livro, conquanto para mim ele seja algo como um castelo que me permito construir no ar. Não consegui chegar a crucificação, pois a toda hora começo a ler. Eu adoraria fazer uma leitura em voz alta dele para meus amigos, alguns dos quais são pessoas bem sérias. Mas instintivamente desisto de conseguir ouvintes.
Realmente, no Novo Testamento há coisas seriíssimas que nenhum homem deveria ler em voz alta mais de uma vez. “Busque acima de tudo o reino dos céus.” “Não acumulem riquezas pra si mesmos aqui na terra.” “Se você quer a perfeição, vá e venda tudo o que é seu e dê o dinheiro aos pobres, assim você ganhará o tesouro do céu.” Se lidar de maneira correta de qualquer tribuna desse país, uma frase dessas seria suficiente para não deixar pedra sobre pedra do prédio a igreja.
Semelhante a essa corrente, com seus gravetos e folhas a flutuar, tudo passava a frente de nossa negociação, enquanto a rotina de sempre se desenrola nas distantes cidades e vendas às margens desse mesmo rio.
22 de agosto de 2011
Afiado como navalha
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15 de agosto de 2011
Oh mulher, grande é tua fé!
E, partindo Jesus dali, foi para as partes de Tiro e de Sidom.E eis que uma mulher cananéia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: _Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada.Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: _Despede-a, que vem gritando atrás de nós.E ele, respondendo, disse: _Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.Então chegou ela, e prostrou-se diante dele, rogando: Senhor, socorre-me!Ele, porém, respondendo, disse: Não é fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos.E ela insistiu: _Verdade, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores.Então respondeu Jesus, e disse-lhe: _Oh mulher, grande é tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã.
Mateus 15, 21-28.
É uma passagem que produz agudo espanto, e emociona. É enternecedora, tocante... chocante e intrigante. É bela e estranha.
É impossível não se comover com a mulher, não se comprazer em como conseguira se mostrar moralmente superiora aos discípulos e alcançar “converter” Jesus. Porém diversos detalhes importantes, entremeados no enredo, passam despercebido em uma leitura superficial.
Vamos examinar. Jesus está passando por terras estrangeiras, e é buscado por uma estrangeira. Era necessário se atravessar a região sirofenícia para ir ao mar da Galiléia e também Cesaréia de Felipe, e Jesus mais seus discípulos estavam procurando um tempo à parte das multidões. Ali era um local de terra fértil, importante entreposto comercial das rotas marítimicas, sobretudo de tinta púrpura extraída de conchas. Em especial na região de Tiro, aquela terra era amplamente habitada por caananitas, povo do qual os judeus sentiam repulsa dada a herança das tradições da Bíblia Hebraica de suas inimizades. Sidom fora a casa de Jezabel ( 1 Rs 16.31), uma rainha defenestrada na tradição judaica. Contudo, contemporâneo à Jezabel, Elias proporcionou cura e alimentação para uma viúva e seu filho (2 Rs 17.8-24). Eliseu também teve um encontro marcante com uma sunamita ( 2 Rs 4.28). E estas duas figuras eram impactantes na memória popular da Galiléia no tempo de Jesus, contadas entre os núcleos comunitários e familiares, influente nas aspirações populares ante a opressão que sofriam dos poderosos considerados traidores e dos povos estrangeiros.
Temos na reação de Jesus algo que está bem pertencente a um padrão ampla e consistentemente fixado nas recordações a seu respeito. De ter uma reação inesperadamente ríspida e desafiadora ao ser abordado de forma enaltecedora, aparentemente “bajuladora” ou “interesseira” por pessoas. Seria este o caso daquela mulher? Jesus poderia ter ficado intrigado a respeito.
Este padrão é retratado no episódio do “Jovem Rico”, Mt 19,16-22; Mc 10,17-22, Lc.18.18-30. Também em Lucas 9.57-62, àqueles chegando entusiasmados, fala-se secamente sobre raposas e aves do céu tendo onde se abrigar em contraste com o Filho do Homem; mortos enterrando seus próprios mortos (respondendo ao pedido de enterrar os pais), pôr a mão no arado e não olhar pra trás. Em João 3 no diálogo com Nicodemos, um mestre, é-lhe dito para nascer de novo, sem nenhuma palavra de consideração. Vê-se que em algumas vezes, no decorrer do diálogo, Jesus ganha mais empatia com a pessoa.
A mulher aborda Jesus dirigindo-lhe súplica como “Filho de Davi”. Sem dúvida, ecoava uma atribuição a ele por parte de muitas pessoas, refletindo as concepções delas quanto ao Messias. De alguma forma relatos sobre Jesus chegaram até ela. Mas o que este “Filho de Davi” significava? Textos contemporâneos à época, muitos dos quais se tratando de aplicações a passagens antigas da Bíblia Hebraica, revelam bem. Dado o espaço e limite desta nossa reflexão, não caberia transcrever todos os mencionados.
Na Profecia de Natan, em 2 Samuel 7, a dinastia de Davi é referida efetuando a restauração de Israel, com ecos no livro do profeta Zacarias, capítulo 4 e Ageu 2,10-13. Em 17, 32 e 18,1.5.7 apresenta que sua missão seria afugentar os adversários e trazer paz a Judá.
A figura do “Filho de Davi” e mencionada explicitamente nos “Salmos de Salomão” (produzido provavelmente na década de 60 a.C. ou pouco antes), em 17.21, como uma figura belicosa. A passagem reverbera:
21. Veja, Senhor, e levanta-lhes o rei deles, filho de Davi, para reinar sobre Israel, seu servo, no tempo que escolheste, Deus. 22. Guarneceste-o com o poder para destruir os governantes injustos, para purificar Jerusalém dos gentios que a pisaram para destruir. 23. Para expulsar com sabedoria e justiça os pecadores da herança; para abater a arrogância dos pecadores como a jarra do oleiro.24. Para quebrar com vara de ferro toda a substância deles; para destruir as nações ímpias com a palavra de sua boca. 25. Para fazer as nações fugirem da sua face ameaçadora, e expor os pecadores pela palavra de seus corações.
Também tem-se uma ampla abordagem nos textos da biblioteca de Qumram [ um local onde se reunira uma comunidade religiosa que se apartara da sociedade religiosa judaica mais ampla, tendo ligações com os Essênios], por exemplo em IQM 5,1, 4 e Q 285, esta figura messiânica é líder militar atuante na consumação da história, investindo na guerra do fim dos tempos, em que desencadeará a vinda efetiva final de Deus. Renovará a aliança de Davi - 1Qb 5,20 ss, CD 7,18-21, traz à tona o cumprimento da promessa da “estrela e do cetro” de Nm 24,17. O rebento de Davi vence a figura demoníaca de Belial em 4Q174.
4Q252,1, V-1-4 apresenta uma reflexão sobre Gn 49,10, expondo que “Quando Israel tiver o domínio, não será exterminado aquele que se sentar no trono de Davi, pois o cetro é a aliança da soberania real, [e as tribos] de Israel são as bandeiras. Até a vinda do ungido da Justiça, do rebento de Davi, pois a ele e à sua semente é dada a aliança da soberania régia de seu povo até as gerações eternas”.
Em 4 Q161 temos uma interpretação de Isaías 11, 1-5: “O rebento de Davi se levantará no fim dos dias [...] Deus o apoiará[...] ele dominará todos os povos”.
Então, como se consegue imaginar aquela mulher estrangeira prestando deferência a um “Filho de Davi”, que representava sim uma ameaça, perigo, grande antagonismo? Que representaria sua expulsão daquela terra? Estaria ela sendo dúbia, ardilosa, bajuladora?
Os discípulos apresentam um coração bastante frio para com a mulher. Estava sendo um estorvo, tinha de se dar um jeito logo. O tempo dela e do povo dela estava para chegar....Jesus abrange ainda mais o panorama incorporando o peso de sua missão: aos cães domésticos, que eram os referidos no termo diminutivo da passagem, eram jogadas comidas sem valor ( confira Êxodo 4.22).
Importante ainda para reforçar a autenticidade desta memória é que o evangelho de Mateus, o mais “judaizado” de todos, tenha se alimentado e apresentado também a memória desta passagem.
E o decorrer dos acontecimentos mostra que não, a mulher não era dissimulada: realmente estava ali com coração aberto, vulnerável, e aceitava abrir mão de todo orgulho, toda abstração identitária, em prol de sua filha. Reconhecia que mesmo uma atenção desleixada de Jesus, o que sobrasse de seu tempo e dedicação, “as migalhas da mesa”, seriam suficientes para o quê, para ela, era realmente o que importava.
Esta fé conquistou Jesus.
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22 de julho de 2011
Dia de Santa Maria Madalena
Hoje é dia de Santa Maria Madalena, testemunha da Ressurreição e Apóstola - comissionada pessoalmente - de Nosso Senhor Jesus Cristo!
Meu nome é Maria Madalena
Eu venho da Palestina
Por favor, desculpe esses trapos em que estou
Pois eu tenho quedado em tempos difíceis, mas
Há muito tempo eu tinha o meu trabalho Quando eu estava na aurora
Mas eu entreguei-me e tudo por amor
Era a sua carreira ou a minha
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus eu nunca deixei-lhe
Ele sempre foi fiel
Ele foi sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Um amor como este vem mas, uma vez
Isso eu acredito
E eu não vou ver o dele novamente
Como eu vivo e respiro e
Sinto muito se eu posso ofender
Mas eu nunca vou ver
Como a ternura que eu compartilhei com ele
Tornou-se uma heresia?
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus eu nunca deixei-lhe
Ele sempre foi fiel
Ele era sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Lembro-me de noites que passamos sussurrando nosso credo
Nossos rituais nosso sacramento
As estrelas a copa, sob uma oliveira
Nós oferecemos o nosso apelo
A criação de Deus inocente
Seus braços ao meu redor
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus ele sempre tem que ir
Ele sempre foi fiel
Ele foi sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Ele sempre foi fiel, ele sempre foi gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Meu nome é Maria Madalena
Eu venho da Palestina
Por favor, desculpe esses trapos em que estou
Pois eu tenho quedado em tempos difíceis, mas
Há muito tempo eu tinha o meu trabalho Quando eu estava na aurora
Mas eu entreguei-me e tudo por amor
Era a sua carreira ou a minha
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus eu nunca deixei-lhe
Ele sempre foi fiel
Ele foi sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Um amor como este vem mas, uma vez
Isso eu acredito
E eu não vou ver o dele novamente
Como eu vivo e respiro e
Sinto muito se eu posso ofender
Mas eu nunca vou ver
Como a ternura que eu compartilhei com ele
Tornou-se uma heresia?
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus eu nunca deixei-lhe
Ele sempre foi fiel
Ele era sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Lembro-me de noites que passamos sussurrando nosso credo
Nossos rituais nosso sacramento
As estrelas a copa, sob uma oliveira
Nós oferecemos o nosso apelo
A criação de Deus inocente
Seus braços ao meu redor
Jesus amou-me isto eu sei
Por que oh céus ele sempre tem que ir
Ele sempre foi fiel
Ele foi sempre gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
Ele sempre foi fiel, ele sempre foi gentil
Mas ele saiu andando adiante com este meu coração
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18 de julho de 2011
O Amor de Cristo nos Constrange
A Carta de Paulo a Filêmon
Esta carta possui proximidade imediata a Filipenses, pois Paulo está em cativeiro: Fm 1.9.13. Timóteo e outros colaboradores estão com ele: Fm 1.23.24. São condições de prisão comparavelmente mais amenas do que em outras circunstâncias, pois Paulo reúne-os em torno de si: Fm1.23, realiza trabalho missionário: FM.10. Fm 9 aponta Roma como local bem provável da redação. Outra possibilidade é a prisão de Paulo em Éfeso – 52-54, dada a proximidade entre Éfeso e Colossas, sendo que os destinatários estão localizados possivelmente na Frígia - Cl.4,17. Colossas seria lugar de residência de Filêmon.
Neste caso, há duas possibilidades muito diferentes do período da carta. Pode ser após o ano de 61 d.C., considerando que a ironia em Fm 19, indica Paulo com melhor humor do que em Filipenses, então pode ser logo depois desta carta. Ou por diversas razões de sincronização no estudo biográfico do apóstolo, pode ser no verão de 53 d.C. Paulo estaria aí com cerca de pouco menos de 60 anos quando escreveu.
Eu mencionei “destinatários”?.. O destinatário imediato é Filêmon, embora Paulo inclua todo um círculo próximo; não é uma carta privada, é destinada à Filêmon e à comunidade. Há todo um proêmio para sintonizar ouvintes e leitores de modo benevolente, envolver Filêmon em seu ser cristão ao insinuar que ele deve fazer o bem que é capaz de fazer 6.7. Nos versos 2.5.6, temos empregado os termos “comunhão” ou “comunicação”, que eram usados frequentemente para sociedades empresariais ou compartilhamento de posses. Filêmon era então o patrono da igreja local.
Podemos ver que Paulo se dirige a Filêmon como “irmão” e “colaborador”, não ao acaso. Faz parte essencial de sua conversa. Desafia Filêmon a romper com a antiga estrutura social padrão do lar e reconhecer em Onésimo um novo status social como irmão amado a partir de serem cristãos, sob seu status legal igual. Identifica-se explicitamente com Onésimo 12.16.17-20.
Por natureza escravos eram considerados pessoas, mas economicamente eram propriedades. Tinham melhor situação do que camponeses livres; às vezes juntavam dinheiro para adquiri liberdade, embora legalmente seus bens pertencessem aos mestres. Costumavam partir incumbidos como agentes com as propriedades dos mestres. Às vezes aproveitavam pra escapar.
A lei romana obrigava a devolver um escravo fugido; Deuteronômio 23.16 proibia, provavelmente com ecos do sentimento de já terem sido escravos! Há um conflito, e a questão não era apenas em relação ao critério de decisão de Paulo, mas com qual que Filêmon naturalmente partilharia. Ele não era um judeu.
Com a aplicação da lei romana, o escravo seria duramente castigado e/ou morto.
No verso 13, se mostra Paulo querendo que Onésimo fique com ele, para servir a ele e à pregação do evangelho. Quer o consentimento de Filêmon 14, pressupondo esse consentimento 21.
Reparemos um possível desfecho: em Colossenses 4.9 Paulo diz que enviaria Onésimo fiel e amado a Colossas...
Paulo usa na carta de diversas estratégias retóricas e recursos argumentativos estilísticos do seu tempo. A preservação da carta sugere que Paulo teve sucesso, pois não circularia se Filêmon não tivesse sido libertado.
Dado o contexto que vivia, não podemos reivindicar de Paulo um tratado abolicionista. Mas dentro do que ele apresenta em seu pensamento geral como nova pulsão ética para quem “está em Cristo”, trabalha no sentido de que o amor e alteridade que são os nortes do viver de Jesus e para quem quer viver com Jesus gera constrangimentos internos que desafiam a tomar atitudes. Esta atitude muitas vezes pode ser dissimilar ao que é convencionalmente aceito na sociedade. Pode extrapolar a “boa moral e costumes”, pode ser extravagante e superar o bom comportamento social corriqueiro.
Os legalistas e os fundamentalistas quando se deparam com um dilema destes, buscam se esconder querendo uma citação explícita de uma atitude a tomar ou não tomar. Assim durante muito tempo justificaram a escravidão, o machismo, a desigualdade social, e hoje ainda o usam para justificar muitos preconceitos e estigmatizações. Atitude destoante com a de Jesus que quebrou tabus ao tocar leprosos, o tabu da mulher se isolar socialmente devido aos seus ciclos naturais de menstruação, discipular mulheres, e dizer que o Reino era dos pobres entre os pobres.
Esta carta possui proximidade imediata a Filipenses, pois Paulo está em cativeiro: Fm 1.9.13. Timóteo e outros colaboradores estão com ele: Fm 1.23.24. São condições de prisão comparavelmente mais amenas do que em outras circunstâncias, pois Paulo reúne-os em torno de si: Fm1.23, realiza trabalho missionário: FM.10. Fm 9 aponta Roma como local bem provável da redação. Outra possibilidade é a prisão de Paulo em Éfeso – 52-54, dada a proximidade entre Éfeso e Colossas, sendo que os destinatários estão localizados possivelmente na Frígia - Cl.4,17. Colossas seria lugar de residência de Filêmon.
Neste caso, há duas possibilidades muito diferentes do período da carta. Pode ser após o ano de 61 d.C., considerando que a ironia em Fm 19, indica Paulo com melhor humor do que em Filipenses, então pode ser logo depois desta carta. Ou por diversas razões de sincronização no estudo biográfico do apóstolo, pode ser no verão de 53 d.C. Paulo estaria aí com cerca de pouco menos de 60 anos quando escreveu.
Eu mencionei “destinatários”?.. O destinatário imediato é Filêmon, embora Paulo inclua todo um círculo próximo; não é uma carta privada, é destinada à Filêmon e à comunidade. Há todo um proêmio para sintonizar ouvintes e leitores de modo benevolente, envolver Filêmon em seu ser cristão ao insinuar que ele deve fazer o bem que é capaz de fazer 6.7. Nos versos 2.5.6, temos empregado os termos “comunhão” ou “comunicação”, que eram usados frequentemente para sociedades empresariais ou compartilhamento de posses. Filêmon era então o patrono da igreja local.
Podemos ver que Paulo se dirige a Filêmon como “irmão” e “colaborador”, não ao acaso. Faz parte essencial de sua conversa. Desafia Filêmon a romper com a antiga estrutura social padrão do lar e reconhecer em Onésimo um novo status social como irmão amado a partir de serem cristãos, sob seu status legal igual. Identifica-se explicitamente com Onésimo 12.16.17-20.
Por natureza escravos eram considerados pessoas, mas economicamente eram propriedades. Tinham melhor situação do que camponeses livres; às vezes juntavam dinheiro para adquiri liberdade, embora legalmente seus bens pertencessem aos mestres. Costumavam partir incumbidos como agentes com as propriedades dos mestres. Às vezes aproveitavam pra escapar.
A lei romana obrigava a devolver um escravo fugido; Deuteronômio 23.16 proibia, provavelmente com ecos do sentimento de já terem sido escravos! Há um conflito, e a questão não era apenas em relação ao critério de decisão de Paulo, mas com qual que Filêmon naturalmente partilharia. Ele não era um judeu.
Com a aplicação da lei romana, o escravo seria duramente castigado e/ou morto.
No verso 13, se mostra Paulo querendo que Onésimo fique com ele, para servir a ele e à pregação do evangelho. Quer o consentimento de Filêmon 14, pressupondo esse consentimento 21.
Reparemos um possível desfecho: em Colossenses 4.9 Paulo diz que enviaria Onésimo fiel e amado a Colossas...
Paulo usa na carta de diversas estratégias retóricas e recursos argumentativos estilísticos do seu tempo. A preservação da carta sugere que Paulo teve sucesso, pois não circularia se Filêmon não tivesse sido libertado.
Dado o contexto que vivia, não podemos reivindicar de Paulo um tratado abolicionista. Mas dentro do que ele apresenta em seu pensamento geral como nova pulsão ética para quem “está em Cristo”, trabalha no sentido de que o amor e alteridade que são os nortes do viver de Jesus e para quem quer viver com Jesus gera constrangimentos internos que desafiam a tomar atitudes. Esta atitude muitas vezes pode ser dissimilar ao que é convencionalmente aceito na sociedade. Pode extrapolar a “boa moral e costumes”, pode ser extravagante e superar o bom comportamento social corriqueiro.
Os legalistas e os fundamentalistas quando se deparam com um dilema destes, buscam se esconder querendo uma citação explícita de uma atitude a tomar ou não tomar. Assim durante muito tempo justificaram a escravidão, o machismo, a desigualdade social, e hoje ainda o usam para justificar muitos preconceitos e estigmatizações. Atitude destoante com a de Jesus que quebrou tabus ao tocar leprosos, o tabu da mulher se isolar socialmente devido aos seus ciclos naturais de menstruação, discipular mulheres, e dizer que o Reino era dos pobres entre os pobres.
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2 de julho de 2011
Jesus de Nazaré nos escritos de Paulo
Não temos materiais diretamente relacionados a Paulo sobre como se dava sua evangelização cristã em primeiro momento; também não temos como entrever o que seriam as catequizações cristãs, e como seriam homilias e pregações cotidianas do “apóstolo dos gentios”. Suas cartas também não foram escritas com o objetivo de serem teologias sistemáticas.
Eram movidas por motivos de circunstâncias e problemas que atingiam as comunidades, e necessidades imediatas do apóstolo ao passar por lá ou requerer algo ou uma atitude específica delas.
Neste ponto, podemos entender porque praticamente não aparecem narrativas sobre Jesus e seu ministério entre nós, mas na maioria das vezes, interpretações sobre o significado do “evento Jesus Cristo”. Contudo, ele nos dá umas pistas; confiramos:
Tradição da “Ceia do Senhor” – 1 Co. 11,23b-25
“(...) na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isto em memória de mim’. Do mesmo modo, após a ceia, também tomou o cálice, dizendo: ‘Este cálice é a nova Aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim’ “.
A Tradição do credo de 1Co. 15,3b-7:
“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituas. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, e enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago e depois a todos os apóstolos”.
“Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras. Foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituas. Apareceu a Cefas, e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, e enquanto alguns já adormeceram. Posteriormente, apareceu a Tiago e depois a todos os apóstolos”.
Quando se cumpriram os tempos determinados, Jesus de Nazaré nasceu – Gl 4,4; na “semelhança da carne pecaminosa” – Rm.1,3; oriundo da tribo de Davi – Rm. 15,3. Se fez pobre por nós - 2 Co. 8,9.
Temos um eco do clamor e angústia de Jesus no Getsêmani em Rm 8,15.
A mansidão e bondade que Jesus demonstrou ( 2 Co. 10,1; Rm. 15,5; Fl 1,8) norteia a ética social dentro das comunidades cristãs.
Tudo isto nos dá indícios de que Paulo pressupunha que as comunidades para as quais dirigia seus escritos conheciam narrativas sobre a pessoa história de Jesus e os cenários e personagens a ela relacionados.
13 de junho de 2011
Ubiquidade
por Manuel Bandeira
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino;
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das coisas,
Serás no fim do universo).
Estás na alma e nos sentidos
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino;
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das coisas,
Serás no fim do universo).
Estás na alma e nos sentidos
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.
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5 de junho de 2011
Significando o Reinado de Deus
Este sermão foi pregado alguns anos atrás, na ocasião de minha Confirmação (ou Crisma), pelo Reverendo John Kater, na Paróquia Anglicana de São João Batista, em Nova Lima - Minas Gerais. Ficou marcado para sempre, a força moral e o carinho da pregação.
Amém.
Que alegria estar com vocês neste Ofício quando nos reunimos com o bispo para celebrar uma vez mais a festa da SS. Trindade. Celebração especialmente festiva porque também temos a felicidade de testemunhar a confirmação de nossos irmãos e irmãs em Cristo. Que hoje afirmam a sua fé em Cristo e seu desejo de integrar-se profundamente à Igreja e a esta congregação do Corpo de Cristo. Espero que o meu português seja suficiente para comunicar-lhes minha alegria e também minhas reflexões sobre a leitura do Evangelho de hoje.
Este domingo do ano cristão e o evento da confirmação que celebramos tem algo em comum, pois ambos nos fazem pensar em questões de identidade. A identidade nossa e a identidade de Deus. Na história de Nicodemos, Jesus confronta um homem seguro na sua própria identidade, um mestre, um rabino, uma pessoa considerada pelos judeus como “expert” nas coisas de Deus, uma pessoa respeitada pelo que é, pelo que sabe, pelo posto que ocupa na sociedade; uma pessoa segura no conhecimento que tem de Deus. Ele supõe que a sua identidade fica clara. Ele pondera que sabe quem é. E Jesus lhe diz que a identidade em que confia não é a identidade que importa. A identidade que importa é outra: é a identidade que temos como filhos e filhas de Deus. Isso significa que no fundo, no coração, a identidade que mais importa não depende do que sabemos, nem o posto que ocupamos na sociedade, nem quem eram nosso pai ou nossa mãe. A identidade que mais importa não se compra, nem se ganha, porque é um presente, um presente gratuito da parte de Deus. Por pura graça, só por amor, Deus nos adota como parte da sua família. Isso é o que significa nosso batismo.
A água do batismo é o sinal e símbolo da vida. E como filhos e filhas de Deus temos herdado a promessa de Cristo que o nosso destino é a vida, e vida em abundância. Nossa identidade como cristãos, como filhos e filhas de Deus, nos faz membros de seu reino. Realmente é um nascimento, um nascimento novo como diz Jesus. Deus já nos conhece como seus filhos. A questão é, reconhecemos também nossa própria identidade como membros do seu reino? Vamos deixar que nossa vida seja dirigida pelos valores do reino ou pelo que nos dá o mundo? O mundo nos diz que devemos valorar mais que nada a nossa própria segurança, o nosso sucesso, os nossos interesses. O reino de Deus afirma que é mais importante viver em solidariedade com nossos vizinhos .
O mundo nos dia que a violência é a maneira de obter o que desejamos. O reino de Deus é um reino de paz, porque se sabe que a violência sempre conduz a violência. O mundo nos diz que só devemos preocupar-nos com nossas próprias necessidades. O reino de Deus nos recorda que quando uma criança passa fome, Deus mesmo sofre a mesma dor. O mundo nos diz que sempre há ricos e pobres, poderosos e débeis, gente importante e gente sem valor. O reino de Deus nos promete um mundo de abundância onde já não existe miséria e cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus. O mundo nos diz que há boa sorte e má sorte. No reino de Deus celebramos a vida como uma festa. O mundo nos diz que o que vemos na televisão, nos jornais, é inalterável. Que devemos aceitar o mundo como é. O reino de Deus é a promessa de Deus que tudo é possível, tudo pode mudar.
A confirmação é o momento quando aceitamos essa identidade que se tornou nossa no batismo. É o momento quando dizemos nosso próprio “sim” ao presente de Deus e ao seu reino. É o momento quando respondemos ao convite Dele e tomamos a decisão de caminhar como cidadãos do reino. E como Jesus explica a Nicodemos: Nossa participação no reino é assunto do Espírito Santo. Esse poder misterioso de Deus que fortaleceu Jesus para o seu ministério, que fortaleceu também os seus amigos na festa de Pentecostes e os transformou em ministros.
Na confirmação celebramos a presença do Espírito Santo que também nos fortalece e nos faz ministros a serviço do mundo e dos nossos vizinhos para que a oração de Jesus seja cumprida: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. A confirmação nos liga com esse sonho e essa oração. Realmente confirma a nossa identidade como filhos e filhas de Deus. Esta celebração também nos fala da identidade de Deus porque nós reconhecemos Deus como criador e como Palavra de amor e como Espírito de vida.
A doutrina da Trindade é um dos aspectos mais difíceis de ser entendido, de tudo aquilo que dizemos de Deus. Sempre devemos reconhecer que nunca vamos compreender por completo o ministério de Deus. Se não compreendemos as pessoas por completo, se nem compreendemos a nos mesmos por completo, como podemos supor que compreendemos quem é Deus? Não vou tentar explicá-lo, porque penso que é impossível “explicar” Deus. Porém se não o conhecemos por completo, de algum modo sabemos algo de Deus. Porque Deus mesmo quer que saibamos algo de como Ele é. Quer que saibamos que Ele é quem criou este mundo. A vida não é acidente, não é sem valor. Foi sonhada por Deus e portanto é sagrada, digna de nosso cuidado. E sabemos algo do amor de Deus, por conhecemos a história de Jesus Cristo, o amor divino feito carne para nós. Jesus é a palavra de Deus porque na sua vida e morte aprendemos algo de quem é Deus.
Apreendemos que não é um Deus ausente, nem um Deus desinteressado. Porém um Deus disposto a fazer tudo para dar-nos um “bem vindo” ao reino. A fazer tudo para que compreendamos com quanto amor Ele nos abraça e nos convida a sua festa de vida. Também temos aprendido do Espírito de Deus, a sua maneira atual de viver conosco. O Espírito que nos anima e nos dá força para confrontar qualquer ameaça, qualquer desafio, porque sabemos que nesses momentos não somos solitários, mas companheiros do Deus da vida e do amor.
Sim, a identidade de Deus fica misteriosa, mais profunda. Mas neste dia quando lembramos a SS. Trindade, o Deus criador, Palavra e Espírito, lembremos que é esse Deus a cujo reino pertencemos. Que é esse Deus em quem confiamos nossa fé. Que é esse Deus que hoje nos acompanha e que agora abraça essas pessoas confirmadas e cada um de nos. Que é este Deus, o Deus de Jesus Cristo, o Deus do Espírito Santo que agora nos convida à mesa para encontrarmo-nos com seu filho Jesus, como também filhos e filhas de Deus e, como irmãos e irmãs uma vez mais receber a sua vida no pão e vinho, símbolos de seu amor e da vida que nos une.
Amém.
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