29 de março de 2011

Coral Anglicano de King's College - Salmo 50



Salmo 50:

  • Para o culto em Espírito
Fala Yawhe, o Deus dos deuses,
convocando a Terra, do nascente ao poente,
de Sião, beleza perfeita, Deus resplandesce,
o nosso Deus vem, e não se calará.

à Sua frente um fogo devora,
e ao Seu redor tempestade violenta;
do alto Ele convoca o céu
e a terra, para julgar o Seu povo.

"Reuni junto a mim os meus fiéis,
que selaram minha aliança com sacrifício!"
O céu anuncia a Sua justiça,
pois o próprio Deus julgará.

"Ouve, meu povo, eu falarei,
Israel, testemunharei contra ti.
Eu sou Deus, o teu Deus!

Não te acuso pelos teus sacrifícios,
tuas imolações estão sempre à minha frente;
não tomarei um novilho de tua casa,
nem um bode de seus apriscos;

pois são minhas todas as feras da selva,
e os animais nas montanhas, aos milhares;
conheço as aves todas do céu,
e o rebanho dos campos me pertence.

Se eu tivesse fome não o diria a ti,
pois o mundo é meu, e o que nele existe.
Acaso comeria eu carne de touros,
e beberia sangue de bodes?

Oferece a Deus um sacrifício de confissão,
e cumpre teus votos ao Altíssimo;
invoca-me no dia da angústia:
e eu te livrarei, e tu me glorificarás".

Ao ímpio, contudo, Deus declara:

"Que adianta divulgar meus mandamentos
e ter minha aliança na boca,
uma vez que detestas a disciplina
e rejeitas as minhas palavras?

Se vês um ladrão, corres com ele,
e junto aos adúlteros tens a tua parte;
abres a tua boca para o mal,
e teus lábios tramam a fraude.

Sentas-te para falar contra teu irmão
e desonras o filho de tua mãe.
Assim te comportas, e Eu me calaria?
Imaginas que Eu seja como tu?
Eu te acuso e exponho tudo aos teus olhos.

Considerai isto, vós que esqueceis a Deus,
senão Eu vos dilacero, e ninguém vos libertará!
Quem oferece uma confissão me glorifica,
e ao ser humano íntegro mostrarei a salvação de Deus".

20 de março de 2011

Com Nicodemos

Heli Menegale (1903 - 1982)

Como a serpente ao cimo de uma vara
com que Moisés ao povo israelita
salvou do seu castigo, quando, em grita,
em caminho de Edom se rebelara,
de bondade insondável e infinita,


Jeová nos deu Jesus, seu Filho, para
nos resgatar da maldição amara
em que o mundo entre dúvidas se agita.
Amor inimitável e profundo!


Sacrifício de Pai, bênção paterna!
Pois Deus amou de tal maneira o mundo,
que o seu Filho lhe deu, para que aquele
que nele crê e que confia nele,
não pereça, mas tenha a vida eterna.

...

de Alphonsus de Guimarães

Ora José de Arimatéia viera
Tomar o Corpo de Jesus. Mais cedo
Nicodemos no Gólgota estivera,
E com mirra voltara. E tinham medo.


Pois cada um destes homens puros era
Do bom Senhor discípulo em segredo,
Por temor aos judeus. Logo o soubera
O Sinedrim judaico, injusto e tredo.


Junto ao lugar do Sacrifício, um horto
Havia, e nele um monumento aberto
Onde nunca pousara nenhum morto.


Sepultaram-nO, e a lápide fechou-se.
Viu-se depois o túmulo deserto:
Voara ao Céu Quem o Céu consigo trouxe.

13 de março de 2011

Meditação para a Quaresma: Alma Tentada

Como já comentamos aqui no “Cristianismo, meramente”, nas narrativas das origens em Gênesis, se busca situar a experiência de fé e o decorrente vislumbre de mundo experimentado com as experiências com Deus, relacionando-a com a condição humana e daí, com como se chegou à atual condição das coisas a partir do panorama descortinado pela fé. Todo um caldo cultural circundante, de tradições de origens, sobre criação do mundo pela batalha dos deuses, capricho dos deuses, necessidade do apetite ou xiste dos deuses, e assim também com a criação da humanidade, e a amizade/inimizade com certos deuses, foi reinterpretado a partir da visão de mundo completamente reorientada pelas experiências com o Deus Supremo de caráter distinto, e o relacionamento especial com Ele, e o maravilhar-se com um cenário ofuscante de que Ele tinha um plano para a História.

E assim é com a narrativa hoje conhecida como a “narrativa da Queda”. Um ser humano colocado para ser quase que co-regente de Deus em Seu mundo, plasmando interativamente com ele- o mundo - uma experiência de jardim, para crescer em sabedoria, aprendizado, acaba tendo uma nova orientação, uma desorientação, por ceder a pior das depravações, que é o ápice da idolatria - transformar Deus em ídolo. Pois foi este o retrato que fizeram de Deus, a imagem que fundiram dEle, equivocadamente, quando pensaram em “ser como Ele”. Pois da forma que os personagens imaginaram que seriam “como Deus”, fica nítido que não era a forma que Deus se apresentava. Vindo, em Sua grandeza, humildemente passear com eles e ter prosas coloquiais, um relacionamento carregado de singeleza e ternura. Deus não era o Dominador Tirânico e sedento de poder a que eles buscaram se tornar.

Foi por aí que na verdade o tiro saiu pela culatra. Ao invés de ser como Deus, se alienaram dEle, de si mesmos, da criação.

Na experiência visionária de Jesus no deserto, podemos ver como seria Ele quem reverteria esta Queda, tendo sido tentado no mesmo sentido: transformar Deus em ídolo.

Jesus vulnerabilizado, com fome, no deserto. Não saciado, num jardim de delícias.

Se ele era o Filho de Deus, então esse relacionamento especial tinha de se mostrar real com as necessidades satisfeitas, atendidas, uma relação instrumental; tinha que haver a demonstração de poder submetedor. Como é hoje em grande parte das buscas de Deus que vemos, nas igrejas e fora delas.

Outro dia uma pessoa veio me falar sobre ela não crer em Deus. Me disse algo assim: “se você está desempregado, procurando emprego, é você que tem que se virar; você tem que conseguir emprego. Não tem Deus lá não, é você! Não é Deus que vai criar empregos.”

A questão aí é que é como se fosse um reflexo especular da fé imatura; a descrença imatura. Pois ambas vêem a mesma coisa: pra se ter relação com Deus, todas as necessidades teriam de ter imediata satisfação, e nossas responsabilidades, dramas, lutas, sumiriam; uns acreditam que é isso a fé, e relacionam-se com a fé assim, se auto-iludindo, e ao invés de Deus, possuem um ídolo do lar pra suas barganhas mágicas. Outros não acreditam que tal possa ser feito, e assim se despem da fé.

Ambos querem um ídolo. Uns acreditam na possibilidade de tal relação, outros não. E nenhum quer Deus. Experimentar arrebatadoramente e se acercar totalmente das energias de Deus.
Saltar do Templo. Fazer seus caprichos, que Deus correrá atrás. Ele terá que dar ordens aos anjos, porque você é Deus também, os anjos têm que te servir. Você não poderá tropeçar em nenhuma pedra. Hoje, podemos gozar e usufruir de bens e consumos que para gerações passadas eram inimagináveis. Queremos e sentimos que temos todo o direito, e todo o cosmos tem o dever de nos servir para aproveitarmos ao máximo. Se houver algum espaço para relacionarmos com Deus, tem que ser nestes termos e condições. Nada de atrapalhar esta realização de caprichos, antes, deve ser um instrumento de mais; deus de auto-ajuda, de mimo.

Depois, a tentação máxima da idolatria. Romper todos os escrúpulos em prol do sucesso, do que se imagina a plena conquista do sucesso e realização do ego. Poder sem limites. Estar no topo. Ser um astro. E que tudo se curve, e que todos os escrúpulos se curvem. E não percebe-se que na verdade, é a pessoa a se curvar, e dar o que não é seu. E perder tudo. E não aproveitar nada, na realidade, porque nem ela é mais de si mesma. Outro está a se esbaldar nela. Ela se alienou por completo.

Ao Senhor teu Deus adorarás,
e a Ele só prestarás culto.

Como se diz na oração comunal anglicana, Deus, a quem servir é a verdadeira liberdade. Com a vitória de Jesus sobre a tentação, se diz que o demônio foi embora, e aí os anjos de Deus puderam se aproximar e cuidar dele.

Como na paráfrase da poesia “Operário em Construção”, de Vinícius de Moraes:

Sentindo que a violência
Nao dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Sera' teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


- Loucura! - gritou o patrão
Nao ves o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Nao podes dar-me o que é meu.

27 de fevereiro de 2011

O desenvolvimento antigo da compreensão da Trindade

Nos meados do século II, o teólogo Santo Irineu de Lyon, sacerdote e escritor, cujo pensamento era totalmente focado na preocupação em ser fiel ao ensino e continuidade do ministério dos apóstolos, já expressava, na obra "Demonstração da pregação apostólica":

Deus Pai, que não foi criado, que é indivisível, o único Deus, criador do universo; esse é o primeiro artigo de nossa fé... E o Verbo de Deus, o Filho de Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo...que, na plenitude do tempo, para reunir todas as coisas em si mesmo, tornou-se um ser humano entre os seres humanos, capaz de ser visto e tocado, de destruir a morte, de trazer vida e de restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade. E o Espírito Santo...que na plenitude do tempo, foi derramado de forma inédita sobre a natureza humana para renovar a humanidade, em todo o mundo, aos olhos de Deus.

O próprio termo “Trindade”, do latim Trinitas, foi cunhado, juntamente com todo um edifício correspondente de terminologia, por Tertuliano de Cartago no século II., para a sistematização do pensamento, especialmente no escrito "Contra Praxeas", quanto às três pessoas de Deus fundamentadas em uma existência em comum numa substância única.

Orígenes escreveu em "Primeiros Princípios, Livro 1, Prefácio 2-8:"

As espécies de doutrina que foram claramente transmitidas no ensinamento dos apóstolos são as seguintes: Primeiro, que há um Deus...Segundo que o próprio Jesus Cristo [...]nasceu do Pai antes de todas as criaturas...Terceiro, que o Espírito Santo era associado em honra e dignidade com o Pai e o Filho...

Atenágoras de Atenas dizia que o Espírito era tal como "uma efluência [aporroiam] de Deus, fluindo dEle e voltando para Ele como um raio de sol".

"Súplica em favor dos cristãos", 10.1

Chega a comentar também que "os homens reconhecem a Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo e declaram tanto o Seu poder em união quanto a Sua distinção na ordem" (tën en të taxei diairesin).

SFC 10.3

Teófilo de Antioquia identificava o Espírito com a Sabedoria, tal como no Salmo 33, Sabedoria de Salomão, Provérbios 8, etc. Em "A Autólico", 1.7;2.15;18

Sobre o Lógos, coloca que
Ele não é seu Filho na acepção em que os poetas e romancistas descrevem o nascimento dos filhos dos deuses, mas sim, no sentido de que a verdade fala do Verbo considerando-o eternamente imanente [ endiatheton ] no seio do Pai
"A.A." 2.10

Justino argui
nós adoramos e amamos, além de Deus, o Logos derivado do Deus não criado e inefável, vendo que por amor de nós Ele se tornou homem.
2ª Apologia, 13,4

No princípio, antes de todas as criaturas, Deus gerou um poder racional a partir de Si mesmo" (...) esse Poder é indivisível e inseparável do Pai.

Diálogo com Trifo, 61.1-2

Irineu de forma diferente considera que
O Pai é Deus, o Filho é Deus, pois tudo o que é gerado de Deus é Deus
- "Demonstração da pregação católica" 47

Hipólito de Roma mais tarde também ecoa
Embora só um, Ele era múltiplo [ monos ön polys ën], pois não estava sem Sua Palavra e sem Sua Sabedoria, Seu Poder e Seu Conselho.
"Contra Noetum" 10

Tertuliano

"Eu e o Pai somos um indica que os Três são 'uma só realidade' unum] não 'uma só Pessoa' unus] (...); o Filho é unius substantiae com o Pai, e o Filho e o Espírito são consortes substantae patris."

"Contra Praxeas", 2-3

De Inácio temos citações mais quanto à divindade de Jesus, em termos que precediam os da Fórmula Calcedoniana.

Afirma que "Cristo" é
Deus encarnado [ en sarki genomenos theos], "Deus manifestado como homem" [theou anthrõpiños phaneroumenou]. Afirma que foi "incriado" [agenñetos].
Epístola aos Efésios, 7.2; 19.3;

Empregava expressões como "o sangue de Deus", "o sofrimento de meu Deus" e "Deus {...]foi concebido de Maria".

Epístola aos Romanos, 1.1;18.2

Existe um só médico, constituído de carne e espírito, gerado e não-gerado, Deus no homem, vida autêntica na morte, procedente de Maria e procedente de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor.
Romanos 6.3

21 de fevereiro de 2011

Fé: iluminação para os momentos de pura sombra

Romanos 8:15 –
Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos Abba! Pai!

Marcos 14.36:
E dizia: ‘Abba! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres’.

Neste grito dilacerante, neste momento de tormenta e pavor, Jesus não se achega a Deus com amargura, antes relança um grito que ecoará e será um marco na devoção da igreja cristã nascente, como se atesta na passagem de Romanos e em Gálatas 4.6 ("E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: 'Aba, Pai'").

O cálice evocava a imagem do julgamento de Deus, representado como Rei. Em Marcos 10.39 Jesus aplica-o para tratar do martírio cristão. Ele sabe então ali que o aguarda o martírio, e mais do que somente a crucificação, mas o recair do julgamento pelos pecados da humanidade. Ele expõe o sincero desejo do coração para não passar por isso; porém, sua disposição de espírito é a de cumprir o que sabe ser o querer de Deus.

Na passagem citada em Romanos, o sentido de urgência na expressão de Paulo no emprego da palavra "clamar" bem se adéqua à descrição de Jesus no jardim como estando "angustiado" e "agitado".

Advém como ápice para a linha da argumentação que faz com a igreja de Roma. Ele joga neste trecho com a idéia da libertação de Israel no Êxodo e as constantes recaídas destes devido à inconstância para com Deus. Destaca que é a ação de Deus a partir da Sua boa-vontade em redimir um povo para se relacionar especialmente com ele é que desencadeou seu ato de libertação da escravidão, sempre algo para adiante, não um retrocesso:

Êxodo 13.21: Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade.
Êxodo 15.13: Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade.
Reinvocado em Neemias 9.12: E guiaste-os de dia por uma coluna de nuvem, e de noite por uma coluna de fogo, para lhes iluminar o caminho por onde haviam de ir.
Salmo 78.14: De dia os guiou por uma nuvem, e toda a noite por uma luz de fogo.

A força da imagem da “luz” de Deus guiando adiante sem dúvida brilhara na retórica de Paulo na contraposição a “recair no temor”.

Também aí Paulo, como pensador brilhante, combina com temas da cultura romana, em que quando ocorria uma adoção legal, o filho adotivo passava a ser considerado herdeiro, e todas as pendências antigas com o novo pai eram canceladas.

14 de fevereiro de 2011

Oração de São Basílio de Cesaréia

Ó Deus e Senhor dos Poderes, e Criador de toda a criação, Aquele que, por causa da Sua clemência e misericórdia incomparável, enviaste Teu Filho Unigênito e nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação da humanidade, e com a Sua venerável cruz Tu dilaceraste o registro de nossos pecados, e assim Tu sobrepujaste os governantes e os poderes das trevas, receba de nós, um povo pecador, ó Senhor Misericordioso, estas orações de gratidão e de súplica, e livrai-nos de toda transgressão destrutiva e sombria, e de todos os inimigos visíveis e os invisíveis que querem nos ferir. Pregue abaixo a nossa carne com o temor de Ti, e não deixe nossos corações inclinar-se a palavras ou pensamentos do mal, mas trespasse nossa alma com o Vosso amor, que já contemplando a Ti, sendo iluminada por Ti e Te discernindo, a luz inacessível e eterna, podemos render incessantemente confissão e gratidão a Ti: O Pai eterno, com Teu Filho Unigênito, e com o Teu Santíssimo, Clemente, e Vivificante Espírito, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

4 de fevereiro de 2011

Um vislumbre do chamado de Natanael

É fascinante como a riqueza de significados das narrativas bíblicas se apresenta de forma mais ampla quando temos a oportunidade de mergulhar no pano de fundo das imagens na própria Bíblia e do contexto contemporâneo ao escrito.

Já falamos a respeito algumas vezes no “Cristianismo, meramente”. Podemos visitar uma outra passagem cujos significados são pouco explorados e muitas vezes é atrofiada apenas pela idéia de alguns cristãos de querer ressaltar “o sobrenatural” em detrimento das idéias humanamente construídas, forçando a dicotomia.

Em João 1. 46-51, o chamado do discípulo Natanael, que possivelmente é o Bartolomeu nas listas dos Doze nos evangelhos sinópticos. Natanael se admira com a possibilidade de que alguém sumamente importante para o destino da nação, juntamente com os eventos que se relacionariam, adviesse de um pequeno povoado de menos de 2000 habitantes sem nenhuma importância histórica, Nazaré. Mas o contexto ressalta que ele nutria uma grande expectativa pela vinda da redenção de Israel. Na Galiléia, explodiam as tradições das expectativas populares por novos profetas que anunciariam a libertação do povo do jugo dos tiranos ímpios e opressores, sendo muito exaltada a figura de Elias, enquanto na Judéia era mais Davi.

Jesus, galileu, ressalta a fé e integridade de outro galileu, como “verdadeiro israelita”. Ele faz um jogo de palavras com o patriarca de Israel – Jacó, que significa “enganador”, e aparece em Gênesis como alguém dissimulado – confira Gn. 27.35 e 31.26.

Então Natanael indaga como Jesus poderia o conhecer. E Jesus, já lidando com as expectativas messiânicas de Natanael que o cenário da narrativa mostra, vai ao fundo as esperanças e anseios do mesmo. Normalmente ao se comentar sobre a fala de Jesus, costuma-se priorizar uma interpretação de “advinhação”. Mas a figueira é um símbolo marcante para a piedade daquelas pessoas. Sob a sombra da figueira mestres ensinavam a seus discípulos, e também era um local considerado especial para a meditação e oração.

Também a tradição bíblica utiliza-se da figueira para formar a imagem dos tempos da redenção, de liberdade e descanso, em que cada israelita se sentaria em paz sob uma figueira.

Judá e Israel habitavam confiados, cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, desde Dã até Berseba, todos os dias de Salomão.                                                                     I Reis 4.25

Cada qual se sentará debaixo de sua vinha e debaixo de sua figueira, e ninguém o inquietará, porque a boca do Senhor dos Exércitos falou!                                                              Miquéias 4.4

Podia ficar cada um sentado debaixo de sua figueira, e não havia quem medo lhes causasse.       I Macabeus 14.12

Naquele dia, diz o Senhor dos Exércitos, cada um de vós convidará ao seu próximo para debaixo da vide e para debaixo da figueira.                                                                            Zc. 3.10

Jesus prossegue evocando em Natanael a recordação da tradição sobre a escada de Jacó. Os anjos subindo e descendo apresentaram a Jacó a providência de Deus atuando na Terra, e foi a ocasião da promessa de Deus de estar com ele e cumprir através dele as promessas aos seus ancestrais. O abrir dos céus retoma também a abertura do livro de Ezequiel, sinalizando o momento especial da revelação divina. E falando do Filho do Homem, neste contexto, Jesus expressa a fortíssima imagem de Daniel 7, com a figura celestial representante de Deus para julgar o mundo e estabelecer Seu reinado.

Parte daí deste cenário um momento sem dúvida chocante para o discípulo Natanael, que o leva a mudar sua vida para sempre.