30 de maio de 2011

Vagas para voluntariado

http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorAgronomo.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorCoordinador.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorGestiondeRiesgosyGenero.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorNutricionista.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorPedagogo.pdf

Acontece em Goiânia

O Grupo de Vivência Ecumênica promove dia 30 de Maio, segunda feira, às 19 horas, mais um encontro de reflexão sobre espiritualidade.

Na ocasião na qual estará presente e falará a Reverenda Tatiana, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Diocese de Brasília. Ela é a coordenadora regional do movimento ecumênico da juventude no Centro Oeste. Uma boa oportunidade.

Será também o último encontro antes da Semana da Unidade dos Cristãos (5-11 de junho) e servirá para os detalhes finais da preparação.

Que a Unidade almejada por Cristo nos anime e nos fortaleça!

24 de maio de 2011

Entre raposas e aves

Indo eles caminho afora,
alguém lhes disse:
“Seguir-te-ei
para onde quer que fores.”
Mas Jesus lhe respondeu:
“As raposas têm seus covis,
E as aves do céu, ninhos;
Mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” 
Lucas 9, 57-58

Parece que podemos ver um certo padrão em Jesus, ao ser abordado, muitas vezes se parece meio que “arisco”, ou pronto para desarmar a pessoa que o abordou. Ainda que no decorrer do trato com a pessoa, sua postura mude completamente. Podemos ver isso com o Jovem Rico, com a mulher siro-fenícia, e agora aqui com o voluntário impetuoso.

Tal passagem costuma ser enquadrada numa seção com o título “O preço do discipulado”. Poderemos ver que tal enunciado capta em parte o que se passa e o dizer de Jesus.

À primeira vista, realmente Jesus está colocando para a pessoa que o seu caminho passa por privações, e não pompa; requer abdicação, requer aceitar estar com um estilo de vida em que se abnegou de muita coisa para seguir o caminho. Até mesmo em relação à provisão que é feita para os seres da natureza, seu caminho exigiria aceitar privações.

De fato, o autor do evangelho já nos tinha trago antes um quadro em que apresenta que “é necessário que o Filho do Homem sofra”. Lc. 9,22.

Tal apelo encontraria, anos mais tarde, certo eco no testemunho de Paulo para os Filipenses: “Falo assim não por causa das privações, pois aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer situação: viver saciado e passar fome; ter abundância e sofrer necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” Carta aos Filipenses, 4.11-13.

Mas há algo mais, que superficialmente, passa despercebido para nós.

Lucas 13, 31-32: “na mesma hora, aproximaram-se alguns fariseus que lhe disseram: ‘Parte e vai-te daqui, porque Herodes quer te matar’. Ele respondeu ‘Ide dizer a essa raposa: “Eis que eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã e no terceiro dia terei consumado!”

Em Ezequiel, no capítulo 13, o profeta profere imprecações contra os falsos profetas de Israel que são considerados ardilosos, que iludem e manipulam: “Assim diz o Senhor Yahweh: ‘Ai dos profetas insensatos, que andam segundo o seu próprio espírito e nada vêem. Os teus profetas, ó Israel, são como raposas no meio de ruínas.” VS 3-4.

Costumava-se associar as nações gentias em torno de Israel com “as aves do céu”. Observem na parábola do Reino de Deus e o grão de mostarda, em Mateus 13, 31-32. Claramente há ali representações simbólicas. E evoca as expectativas proféticas das nações gentias vindo adorar e comungar no Novo Israel restaurado.

Podemos ver uma aplicação impactante neste interpelar de Jesus ao voluntário impetuoso então. Se as expectativas messiânicas dele fosse de um “filho de Davi”, glorioso, buscando poder e pompa, com toda a mesma lógica dos poderosos do mundo, era a companhia deles que a pessoa deveria buscar. A lógica do caminho de Jesus é oposta à lógica dos poderosos, à lógica do poder mundial.

Para subverter os poderosos e sua dominação e exploração, não basta assumir a racionalidade deles e tomar o poder deles; é necessário subverter essa racionalidade, para deslegitimá-la e apontar um novo caminho para os oprimidos.

16 de maio de 2011

Hino Pascal, pelos Monges de Valaam

Belíssimo Hino Pascal, entoado pelos aclamados Monges de Valaam





Seu Dia da Ressurreição,
Povos, irradiar alegria!
Sua Páscoa, a Páscoa do Senhor,
da morte à vida,
da terra ao céu,
Cristo, Deus tem nos levado,
Cantem o hino da vitória!


(...)

O Angelo gritou para a cheia de graça: Alegrai-vos! Também vos digo: Alegrai-vos, pois o teu Filho ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia... brilhai, brilhai nova Jerusalém, para a glória do Senhor!
Brilha e Alegra-te e esteja feliz, oh Sião! Alegrai-vos e exultai!
E tu, ó Pura, ó Mãe de Deus, Exaltai na ressurreição de seu Filho.

9 de maio de 2011

No caminho de Emaus

Uma passagem estritamente lucana, constando apenas neste evangelho; pergunta-se então sobre quais as fontes... Possivelmente, pelas referências explícitas a Cléofas na passagem, adviera de algum recolhimento de um testemunho deste na comunidade cristã nascente e apresenta-o então como alguém muito considerado e de papel importante na atividade proclamatória de Cristo, ou na exortação dentro desta.

Importante isto à luz do clima do quadro de suas caminhadas à Emaús. Era um clima lúgubre. Soturno. Talvez de frustração. O que mostra a melhor perspectiva que ficaria de Jesus caso sua história terminasse na cruz: no máximo, teria sido mais um profeta que indicaria o caminho e a vontade de Deus ao povo, levantara expectativas de redenção para Israel, e ficaria martirizado. Sobretudo, de forma alguma seria considerado mais como O Messias nem proclamado como tal.

Jesus vai ao encontro deles; os encontra e os busca na profunda situação de senso de falta de sentido, de vazio, de abismo escuro. E no encontro com eles, vai lhes dando sentido e nova perspectiva. Agora assim já vão abrindo seus corações para a Revelação dele... que vontade louca de saber como que Jesus expôs as Escrituras...

Então eles o acolhem. O convidam para entrar.

É digno de cuidado não deixar passar despercebido o momento em que é reconhecido: no partir do pão! É como recapitular neste momento fenomenal tudo o que a vida de Jesus representou, seu projeto, seu ensino, sua autoridade. A comunhão, partilha revestida com um senso de assim estar na atmosfera do Sagrado! E Jesus Ressuscitado vem à tona! A continuidade entre Jesus em seu ministério terreno e Jesus Ressurreto é plenamente frisada! E o detalhe de seu “sumiço” não é apenas um tipo de relato milagroso exaltador hagiográfico. Se assinala enfaticamente nas narrativas da ressurreição algo muito estranho: ao mesmo tempo a materialidade de sua natureza, a fisicalidade dela, no caso nosso aqui, caminhando, partindo o pão... onde faz sentido o aparentemente paradoxal tema paulino do “corpo espiritual”, não mais sujeito à deterioração, um corpo de natureza espiritual... e também há cenas de uma supra-materialidade, parece que a realização da expectativa da ressurreição material clássica dos judeus no tempo dos martírios do século II a.C. com a idéia da libertação dos limites e da decomposição material deste mundo. Uma nova natureza, e um atesto para a esperança para a Nova Criação.

Jesus some, num momento em que as testemunhas provavelmente iriam querer detalhes sobre o que ocorrera durante este tempo; iriam querer detê-lo, propô-lo muitos projetos... Mas ali Jesus parte como que dizendo que o que fez foi confirmar o sentido de sua missão, reafirmar o seu comissionamento, e enviá-los ao mundo para dividir com todos esse encontro com ele no partir do pão, na leitura profética das escrituras apontando para sua vitória sobre o mal...

Partilha, algo bem materno. Pois no geral, é um dom bastante materno, em que inclusive, na carência, mães costumam abdicar de si para seus filhos...

1 de maio de 2011

Perpassamos

Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar a luz, tem tristeza, porque a hora é chegada; mas depois de ter nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. Assim também agora vós tendes tristezas;mas outra vez vos verei; e o vosso coração se alegrará, e vossa alegria ninguém poderá tirar.
Evangelho Segundo São João,15:20-22

Por que buscar nessa passagem que remete a uma Esperança de Renascimento, de raios de sol que atravessarão a cortina sombria, se está numa época de chegada, nascimento?..

Pois este jogo Nascimento-Morte-Ressurreição é o princípio organizador que dá a tônica da narrativa da vida de Jesus.

Pois bem, o que veio a Ele ao nascer?..Alguns astrólogos árabes ou persas com símbolos de Poder (ouro), de Sagrado (incenso) e sinal de Morte, a Mirra (usada nas tradições funerários da Ásia Meridional e Nordeste da África para perfumar os corpos dos falecidos)... Aí vemos, no doador da Vida, um dos segredos desta, que como não poderia deixar de ser, é algo muito simples, mas profundo e inesgotável.

Temos a Vontade de Desfrutar. Para nos sentir e afirmar como vivos, queremos desfrutar a vida, dançar a vida, beber a vida, comer a vida, sorver a vida, nadar a vida, sorrir a vida, cantar a vida...e sempre, manter assim. E é bom sermos responsáveis o suficiente para tentarmos fazer isso tudo (pensaram que iria falar o quê?) “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele”. Pois é...o menino e o moleque. “Se você é jovem ainda”...

Mas, a questão é que este deleite não nos pertence. O desejo de viver é maior do que nós. Não podemos reter...e talvez seja por isso que precisamos de Ressurreições...Queremos saborear os momentos e experiências de brincar com a vida, gingando com ela, segurar forte para tê-lo à mão quando estivermos no momento do medo, e perguntarmos, teremos isto de novo (pois não é como argila que se molda, mas como areia que nos escapa entre os dedos ao fechar a mão)? E essa porta que abre, nos levará para um caminho seguro? Ou serei um fatigado que lembrará que a vida já foi inebriante?

Estamos sós...é um momento de morte...e o mundo lá fora se alegrando...eles lá longe estão festejando...

Soneto 64, Shakespeare :
“ A ruína me faz ruminar uma idéia,
que o tempo há de vir arrebatar-me o amor.
Para mim isto é morte e não posso senão
Tua perda temer, e chorar por te ter.
”

Tudo o que amamos morre um dia (mesmo nós próprios). Ainda mais os amores passageiros...e a criança de cada instante de plenitude de alegria, cada uma delas que sai de nós, rebelde e serelepe, sem-vergonha na hora, será sacrificada....

“Quem nos desviou assim, para que tivéssemos
um ar de despedida em tudo o que fazemos? Como aquele
que partindo se detém na última colina para contemplar
hesitante, e aguarda _assim vivemos nós,
numa incessante despedida
”. Raine Marie Rilke

Mas o ano, a vida, não acabou...sentir nessa hora de dor solitária, que a vela queima, os chutes da criança pedindo pra nascer... que podemos “dar à luz” se deixarmo-la “romper o ventre”.
Por isso, a necessidade da mensagem de Morte, antes da mensagem de Ressurreição. A mirra vem antes do cantar dos anjos.

“We can’t get known, satisfaction”: “ Na Terra, somos viajantes sempre prontos para partir. Significa que devemos continuar avançando. Portanto, esteja sempre insatisfeito onde estiver, se quiser ir além. Se estiver satisfeito com o que já é, então já parou. Se disser ‘basta’, está perdido”. Agostinho, Confissões.

Não se desesperem por algo que possa estar morrendo neste ritmo em que o tempo que vivemos se parece com uma esteira rolante sob nossos pés.... Mas desde que saibam cuidar das sementes no solo em que poderão germinar. Desde que não se convençam que, com o passar das circunstâncias mutáveis da vida (às vezes nem tanto), vocês ficaram estéreis e não possam mais deixar sair outros meninos., outros moleques.

24 de abril de 2011

A Vocação Pascal

um sermão na Eucaristia da manhã de Páscoa em Durham, 2006.

por N.T.Wright - bispo anglicano aposentado, conhecido como um dos maiores especialistas em origens cristãs e Novo Testamento no mundo.



Vá para meus irmãos e dize-lhes: "Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus." O comando notável de Jesus para Maria Madalena é o clímax da história de João da manhã de Páscoa. Os outros eventos até agora, não menos a aflitiva corrida de Pedro e João ao túmulo, estão enquadrados dentro da história de Maria. De agora em diante as coisas vão se ampliar para fora, com os onze no Cenáculo e depois a cena, uma semana depois, com Tomé; mas para a incomparável história da manhã de Páscoa de João o foco está em Maria.

Você nunca teria conhecido isto dos hinos, orações e liturgias habituais da Pásco. Se você reconstruiu a história da Páscoa a partir delas, você deveria supor que quando os evangelistas escreveram a manhã da Páscoa a sua principal mensagem era:_ Jesus ressuscitou, assim também nós devemos ser no final. Isso é verdade, e é o que Paulo e os outros dizem, mas uma das muitas características marcantes sobre as narrativas da ressurreição é o fato de que em nenhum momento qualquer Jesus ou qualquer outro menciona a esperança futura, quer para o céu, ou a salvação, ou mesmo para própria ressurreição. Tudo o que resta a ser trabalhado.


O que é muito mais urgente e importante que as questões de seu próprio destino final, é dizer, como todos os evangelistas fazem, quatro coisas. Primeiro, Jesus está realmente vivo novamente. Em segundo lugar então, ele realmente é o Messias, o verdadeiro Senhor do mundo. Em terceiro lugar, portanto, a nova criação de Deus já começou. E, em quarto lugar - e esta é a ponta afiada de tudo isso - então você tem um trabalho urgente e importante para fazer, e uma nova identidade para fazê-lo. A força desta longa história da manhã de Páscoa é levar-nos, através da pessoa e os olhos de Maria Madalena, no coração da primordial mensagem de Páscoa: Jesus ressuscitado, portanto o mundo é um lugar diferente, e nós somos chamados, como testemunhas da ressurreição, para anunciá-lo, para fazer que isso aconteça, e para nos encontrar refeitos no processo.


Olhe novamente para a história do ponto de vista de Maria. Ela ainda está na escuridão, desde que, naturalmente, pressupõe que uma tumba vazia é um túmulo roubado. João e Pedro vão correndo para lá e para cá, mas Maria ainda está de pé ali, e na verdade os olhos são pelo menos parcialmente cegos por lágrimas. Mas em meio às lágrimas ela vê - talvez você só pode vê-los quando você está chorando - dois anjos, um à cabeceira e outro aos pés do local onde o corpo de Jesus tinha sido sepultado. Rowan Williams sugeriu em um característico artigo há alguns anos que nós devemos ver isso como uma referência ao propiciatório no templo, com os querubins ofuscando-lhe em qualquer lado: esse lugar, essa borda em um túmulo, se tornou o lugar, o lugar final, onde Deus se encontrou com seu povo, e reuniu-se com eles em graça, trazendo ao seu próprio clímax o longo tema de João de Jesus ofuscando o Templo, da destruição e reconstrução do Templo de seu corpo. Voltaremos a este momento.


Mas, então, Maria se vira e vê o próprio Jesus e, em um daqueles momentos irônicos joaninos pensa que ele é o jardineiro - como é claro que ele é o novo Adão, na nova criação. E ele a chama pelo seu nome real, seu nome hebraico antigo, Miriam, nome da irmã de Moisés, que cantou sua canção selvagem de triunfo depois de assistir o Deus de Israel derrotar os egípcios no Mar Vermelho. Algo que deve estar ecoando nesta história também, com Jesus como o novo Moisés que liderou o caminho através das águas escuras da morte e agora está liderando o caminho de casa para a terra prometida.


Mas nesse ponto, e com todas as chocantes imagens bíblicas entrelaçando ao redor do texto e nas nossas cabeças, podemos ser tentados a ler a linha perfurada da maneira errada. "Não se apegue em mim", diz Jesus - não se trata de voltar à vida antiga, é sobre ir para a nova - porque eu ainda não subi ao Pai. Mas vai a meus irmãos e dize-lhes: "Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus." 'E ela vai fazer o que Jesus lhe disse. E todos nós muito facilmente supomos que a mensagem é: Jesus está indo para o céu para sempre, e um dia vamos ir e se juntar a ele. E isso seria perder todo o sentido da Ascensão do Senhor, aqui e alhures no Novo Testamento.


O ponto da Ascensão, tão contundentemente destacado aqui na narrativa joanina de ressurreição, nos lábios do próprio Jesus, não é que ele está indo para muito longe, mas que ele está sendo elevado para ser o verdadeiro Senhor do mundo. A ressurreição justificara sua pretensão de ser o Messias de Israel, e o Messias de Israel é verdadeiro Senhor do mundo, como qualquer leitura bíblico-judaica poderia ter lhe dito. 'Eu vi o Senhor ", diz Maria aos discípulos, e a palavra" Senhor" não é apenas uma cifra, uma forma polida de denotar Jesus, o que João quer que a gente ouça é: "Eu vi o rei do Universo"," Eu vi um diante do qual as nações vão tremer”, “eu vi aquele através de quem e para quem todas as coisas foram feitas”. É por isso que, no final do capítulo, a confissão paralela por Thomé é, “Meu Senhor e meu Deus". Como Jesus deixou bem claro nos discursos de despedida, quando ele vai embora, é para enviar o Espírito, aquele através do qual o mundo vai ser julgado, em termos de pecado, da justiça e do juízo - precisamente o ponto que se faz próximo da história de Páscoa de João. Ascensão não significa ausência, significa soberania, exercida através do Espírito.


E quem é que leva esta mensagem estupenda, este anúncio primordial da nova criação, esta proclamação heráldica do rei dos reis e sua entronização iminente? É Maria de Magdala. Considerando a reputação subseqüente que a história dera a ela, vem como uma surpresa saber que, além de uma referência em Lucas, as únicas vezes que Maria Madalena aparece nas histórias do evangelho são na cruz e na sepultura, e aqui na ressurreição. E na referência solitária em Lucas, ela não é uma prostituta, ela não se identifica com a mulher que limpa os pés de Jesus com seus cabelos, ela é alguém que foi curada da terrível possessão demoníaca múltipla. Mas o choque real não é o caráter de Maria. É o seu gênero. Esta é talvez a coisa mais surpreendente sobre as narrativas da ressurreição, concedera a crenças universais do tempo a inconfiabilidade de mulheres em uma corte marcial ou quase qualquer outro lugar. É uma das coisas que absolutamente garante que os primeiros cristãos não inventaram essas histórias.


Eles nunca, nunca, nunca teriam inventado a idéia de que era uma mulher - uma mulher com um passado conhecido de instabilidade emocional, mas o ponto principal é que ela era uma mulher - a quem tinha sido confiada a mensagem de abalar a terra que Jesus estava vivo novamente, que ele estava a caminho de ser entronizado como Senhor do Mundo, e que - este é o significado do enfático "meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus" - ele estava abrindo a seus seguidores, como resultado de sua vitória sobre a própria morte, a mesma intimidade com o Pai na totalidade que tinha desfrutado por toda sua vida terrena. É Maria: não Pedro, não João, e não Tiago, o irmão do Senhor, mas Maria, que passa a ser a apóstola dos apóstolos, a primeira testemunha cristã, a primeira evangelista cristã. Isso é tão marcante, tão inesperado, tão embaraçoso para alguns dos primeiros cristãos - ele tiveram de refutar zombaria pagã sobre esse ponto - que não pode ser acidental. Ele não pode ser acidental, por João e outros escritores. E me atrevo a dizer que não pode ser acidental nos propósitos de Deus.


Algo aconteceu na renovação da criação através da morte e ressurreição de Jesus, que tem o resultado, como uma de suas múltiplas segregações, que, enquanto antes Jesus só tinha enviado homens, agora - agora de todos os momentos! - ele envia uma mulher. E, embora a igreja tenha frequentemente dificuldade - para dizer o mínimo - com a idéia de mulheres sendo chamadas para o ministério apostólico genuíno, o registro é claro e inequívoco. E deixe-me apenas dizer que uma das grandes ironias do livro bobo “O Código Da Vinci” é que, na tentativa de elevar Maria Madalena, tudo que ele faz é diminui-la, para torná-la apêndice de Jesus, sua namorada ou mesmo a sua mulher, enquanto ela era sua apóstola escolhido em primeiro lugar. Aqui, como tantas vezes, as versões revisionistas do cristianismo só conseguiram domesticar a mensagem totalmente revolucionária do Novo Testamento -não, é claro, que a igreja não foi culpada de tê-lo feito tão bem.


Mas este destaque de Maria, embora muito importante para nós assimilarmos, não é a principal coisa que eu tenho no meu coração para dizer para você neste dia de Páscoa. Tendo estabelecido que a vocação apostólica - a chamada a ser testemunha da ressurreição de Jesus - não inclui apenas as mulheres, mas começou com elas, deixe-nos em simplicidade e em oração refletir sobre a sua própria vocação, a vocação cristã primordial para dar testemunho de Jesus Ressuscitado, para anunciar que ele é verdadeiro Senhor do mundo e ir como agente dessa nova criação que começou quando ele saiu do túmulo à primeira manhã de Páscoa. A Igreja* uma e outra vez foi um lugar de vocação, um lugar onde os homens e (graças a Deus) as mulheres também ouviram o chamado de Deus e descobriram no fundo do coração que nada é tão importante como dizer sim a esse chamado. Este é um lugar onde as vocações cristãs ao ministério em tempo integral têm sido detectadas, fomentadas, nutridas, celebradas e traduzidas em vidas de fiéis e profícuos trabalhos.


Rezo para que seja assim novamente. Estamos com falta de vocações agora, especialmente entre os candidatos mais jovens. Precisamos urgentemente de homens e mulheres na sua adolescência e juventude, bem como mais velhos, para dizer “Sim, creio no Evangelho da Páscoa, sim, eu acho que, como eu contemplo o mistério da Páscoa, eu descubro que estou na presença do Deus vivo que me encontra na graça naquele propiciatório entre os anjos, sim, como eu penso que eu ouvi Deus me chamando para ir e ser um agente de sua nova criação, sim, eu percebo como eu procuro meu coração que isso é mais importante do que qualquer outra coisa”.


Novamente e novamente este chamado vem como a voz de Jesus partira em meio a lágrimas de tristeza, como aconteceu com Maria, através da dúvida e desconfiança, como aconteceu com Tomé, através do fracasso anterior, com Pedro. Novamente, portanto, a chamada ao ministério cristão em tempo integral vem, como aconteceu com Maria, como renomeado, o dom de uma identidade nova, não apenas a chamada para fazer alguma coisa, mas para ser algo, alguém, em cuja dedicação total ao evangelho o poder da ressurreição tem o escopo completo para trabalho no mundo. Eu acredito que há pessoas na Catedral, esta manhã, a quem Deus está dizendo: “Você é a pessoa, e hoje é o dia”. E se você acha que poderia ser você, então quando você vem para receber a Eucaristia que faz de um momento de abertura, a abertura para a vida de Cristo Ressuscitado, a abertura para o propósito de Deus onde quer que leve você. Deus chama pessoas surpreendentes e ele dota-lhes para fazer coisas extraordinárias. 'Ide aos meus irmãos e dize-lhes: "Eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus." Através da obediência de Maria a esse comando, o Jesus ressuscitado lançou a mensagem de Páscoa. Quem sabe o que fará com o seu?



* No original, o autor escrevera "Durham", a diocese anglicana da qual era bispo na época. O tradutor aqui se reservou a liberdade de colocar de forma a abranger as igrejas em geral pensando nos leitores.