29 de março de 2013

Sexta-feira da Paixão - Reflexões sobre Honra

3 de março de 2013

Ciência, Metafísica e Estética


A Scientific American Brasil publicou em seu portal este formidável texto de George Musser, onde ele versa sobre os “Einstein Papers Project” que contêm mostras das posições de Einstein dentro do panorama geral do clássico debate com Niehls Bohr a respeito da física quântica. 

Este debate famoso (de Einstein: "se sem perturbar de modo algum um sistema, pode-se prever, com certeza, o valor duma quantidade física, existe um elemento de realidade física relativo a este sistema, que corresponde a esta quantidade física") abriu as cancelas para uma das controvérsias mais acirradas da ciência básica, a do instrumentalismo do Bohr, em que a probabilidade quântica é uma propriedade intrínseca e a indeterminação está no real ( para ele, as teorias científicas sendo apenas instrumentos convenientes para permitir predizer fenômenos e serem úteis para correlacionar o que se observa com o controle técnico, e o debate quanto ao rigor e acurácia delas não é no nível do que a realidade realmente é - pois em si mesma é inapreensível - , mas no nível da linguagem mais apurada e consistente sobre ela) e o determinismo ontológico de David Bohm em que a incerteza é oriunda da inevitável ignorância devido a não se ter o instrumental necessário para acessar experimentalmente as "variáveis escondidas" (para ele, as teorias científicas realmente descrevem a realidade, que embora tenha manifestações locais indeterministas, no todo é determinista, fechada na cadeia de causa-efeito, só que descobre-se que ela possui variáveis intrinsecamente ocultas).

É o debate do positivismo (Borh) contra a epistemologia (Bohm). 

"siga-me", fotografia por Wang Qingsong
Para Bohr, "não existe mundo quântico. Existe apenas uma descrição filosófico-quântica abstrata. É errado pensar que a tarefa da física seja descobrir como é a natureza. A física se preocupa com o que podemos dizer sobre a natureza", em "The Philosophy of Quantum Mechanics", de M. Jammer.

Tal debate nunca foi resolvido em termos de julgamento das evidências, comprovação, corroboração, contra-exemplos. Os julgamentos entre os cientistas entre a controvérsia evoca critérios metafísicos e mesmo estéticos. Decidem em termos de qual postulado é mais elegante, ou que possui maior poder explicativo para um número maior de fenômenos, etc.

Eu me identifico com uma posição recente, que integra alguns pontos de cada, ( como o faz também o Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica - ICRA); adoto a visão de que emergem na realidade diversos níveis de eventos, processos e componentes com princípios de organização próprios e que se influenciam mutuamente no todo maior. A abertura caótica criativa ao meu ver está na própria realidade, mas a realidade não pode ser decifrada manifestamente direta. Sou Realista Crítico, caindo mais para o crítico, porém: pode-se ter acesso à escopos da realidade (mesmo que a galera Copenhague diga que não), ainda que não seja representada de forma diretamente objetiva, mas pode ser conhecida parcialmente e representada ainda que imperfeitamente. Ocorrerá sempre uma "distorção". 

Assim, está mal-direcionada a busca para um modelo e consequente linguagem universal para todos os fenômenos, que muitos cientistas acreditam ser uma "missão", autônomo ante as peculiaridades do processo abordado. 

 Disto decorre que o Real é muito mais rico e fecundo do que cabe no claustro positivista. Não podemos pautar o que "É” com um "Só Pode Ser Assim" derivado do que achamos "Normal". Nosso questionamento tem de ser no sentido de "o que lhe faz pensar que seja assim?".
  
Vez ou outra retomo leituras de "Uma Incertaine Réalidaté", de Bernard d'Espagnat, que de certa forma acompanha uma avaliação balanceada da controvérsia, de linha realista critica, embora esteja inclinado de foma mais matizada para Copenhague. Foi uma das leituras mais apaixonadas que fiz de um livro sobre divulgação popular de física teórica e cosmologia, e considero uma obra que nos conduz a encaramos o Universo com o assombro do "Numinoso", sobre o qual Rudolf Von Otto escreveu tão poderosamente. 

As traduções do francês aqui são livres, com ajuda indispensável do dicionário (imagine-se o que é ler e reler sob estas condições =P):

Ao contrário do caso com a física clássica, com sua divisão em campos e parcelas que são consideradas um reflexo da realidade, os 'objetos' de referência da física quântica são insólitos. Partículas quânticas agem de forma imprevisível e indeterminada e muitas vezes não possuem propriedades palpáveis ou detectáveis que permitam estabelecer sua localização espacial, nem sobre margens de energia limitada, nem seu sentido de rotação. Eu me atreveria inclusive a dizer que essas formas misteriosas não são outra coisa do que noções que nós temos elaborado para representar o nosso mundo empírico.

Ele conclui em termos gerais que, conquanto as implicações físicas da teoria quântica sugerem que o conhecimento científico nunca verdadeiramente descreve a realidade de maneira puramente objetiva, independente dos meios de mentalização, a necessidade conceitual é de redefinir a realidade definitiva por uma "realidade velada”'. "_A única resposta que eu sou capaz de fornecer é que subjacente a esta realidade empírica está uma misteriosa e não-conceituável 'realidade última', não incorporada no espaço e (provavelmente) não no tempo também."

Então, nenhum dos seguimentos do saber humano hoje é suficiente para nos endereçar na "caça" ao real, reivindicando serem as vias cognitivas únicas de acesso ao Ser. "Teoria do Tudo"? Um sonho vago e distante. Talvez com necessidade de ser "re-focado". A melhor tarefa da explicação científica é impedir fantasia descuidada e a especulação desenfreada, suscitando coerência para os cenários ontológicos.

6 de janeiro de 2013

O Desafio de Bonhoeffer: A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo (Parte II)

Ser cristão não significa ser religioso de certa maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano.                                              16.7.45



Um fenômeno é muito constatado em locais com situações: emergente ascensão de classes sociais em novas condições econômicas mais favoráveis, mantendo-se contudo uma estrutura desigual ou que marginaliza muitos outros componentes da sociedade circundante – onde se vê religiões ainda com um forte cumprimento de função de conferir coesão social mínima a este estado de coisas. Às camadas mais altas e/ou ascendentes, justificação, sendo favorecida pelos poderes espirituais que lhe dão pleno direito e se comprazem em estar na sua condição favorecida, lhes outorgando todos os méritos – desde que cumpridas algumas condições rituais e obrigações para com os líderes religiosos e sua instituição. Para as camadas mais baixas, a ideia de algo em si e na sua vida que fez com que não tenha mérito em ter seu quinhão no bolo – que é bom lembrar, não é para a todos mas, no discurso, é “para qualquer um” - e que expurgar-se na frequência dos rituais, as portas poderão ser abertas. Os que conseguiram seu lugar ao sol satisfizeram as forças espirituais. Há ainda meios, oportunidades, possibilidades, recursos, que o mundo produziu para proporcionar mais bem-estar e alívio, para pessoas das camadas mais baixas e também para aquelas de extratos médios ascendentes ou já tradicionais, que não estão ao seu alcance; diferente de outras épocas, é inadmissível aceitar que se tenha produzido condições no mundo hoje de superar a situação em que se encontra (ou atingir uma dada condição anelada), mas não esteja acessível para a pessoa.

As crenças prometem meios mágicos ou místicos diversos para se obter o que se anseia. Tais crenças e sistemas religiosos podem estar mais ou menos organizadas, centradas em templos, comunidades, ou podem ser menos sistematizadas e de adesão mais individualista e não associada, podem remeter-se mais a divindades, ou a conceitos mais etéreos; englobam versões adaptadas de religiões tradicionais, crenças exotéricas ligadas a autoajuda, misticismos com apropriação de termos e conceitos científicos, arengas mais vagas com empréstimos de filosofias zen, etc.


No caso cristão, a chamada Teologia da Prosperidade e semelhanças, em igrejas carismáticas em confissões tradicionais ou igrejas neopentecostais, constitui-se o exemplo do discurso religioso mais adaptado e sintonizado com o espírito e verniz do caráter social de nosso sistema e nosso tempo. Estimula desejos de se pautar existencialmente encontrando satisfação com as exigências culturais para o bom funcionamento da economia e estabilização política dela. É a mais bem adaptada, ajustada, consubstancial e integradora para os indivíduos na lógica, nos mecanismos de incentivos, recompensa, vergonha, autossatisfação e marginalização do sistema. Não se admira que assim, sejam as numericamente e materialmente mais bem-sucedidas. Propiciam meios para catarses individuais e coletivas ante as frustrações e stress do cotidiano na sociedade atual. Se norteiam e caracterizam-se pelas funcionalidades descritas mais logo acima. Exigem muito pouco em termos de constituição de racionalidades e corpos doutrinários que possam se chocar com o que é essencial na organização capitalista. Ao mesmo tempo criam uma certa agregação social sem confrontar o atomismo social da sociedade de consumo. O ideário religioso é adequado, apropriado e trabalhado para servir como ponte entre a a estrutura socioeconômica e os fetiches e ideias catalizadores para o comportamento que mantêm o funcionamento regular do sistema. Há um estímulo à aplicação intelectual pragmática no que é tocante ao sucesso material e sucesso nos padrões hierárquico-simbólicos do sistema social. Há um grande desestímulo intelectual, e mesmo o fomento a um obscurantismo subcultural pró-ativo, no engajamento ante a apreensão cognitiva analítica/sistematizadora das estruturas e processos naturais, sociais e culturais.

É onde reside um ponto a que remetemos a conjuntura de Bonhoeffer e sua provocação. Fazendo uma sintética recapitulação do contexto: Bonhoeffer fazia parte de um conjunto articulado de teólogos e lideranças pastorais que se insurgiram contra uma síntese religiosa cristã predominante em seu tempo que desembocou na adesão ao programa oficial do Partido Nacional Socialista, embora não fosse o horizonte definido dela. A chamada escola do “liberalismo teológico”, embora devamos tomar cuidado porque a experiência e tradição histórica do “liberalismo teológico” é muito mais ampla e rica do que essa delimitação.

"Epifania I :Adoração dos Magos" - de Gottfried Helnwein
Se constituía na “Religião do Sistema”: ao mesmo tempo que se propunha a uma “simplificação dogmática” que entendiam obstaculizar a mensagem principal da fé cristã, a “fraternidade universal”. Enfatizavam o caldeirão de potencialidades positivas que era o homem. Incorporaram a teologia a conceitos idiossincráticos da conjuntura moderna, como o Progresso Histórico Imanente e Inexorável. Seus conclames giravam em torno da concepção de uma “religiosidade inata” no ser humano, que seria ali configurada e canalizada para promover a unidade espiritual da nação. Serviria para dar suporte motivacional para o senso de dever dos cidadãos às instituições nacionais. Desta forma, a teologia ficava submissa à agenda dos aglutinadores ideológicos da conjuntura que, embora condicionada, era vista e propalada como universalista e realizadora da história.

Em reação a isto se constituiu a Igreja Confessante, que reafirmava princípios fundamentais do cristianismo e os contrapunham à pregação da Igreja Oficial de coadunar o cristianismo à ideologia do Estado, usando o Evangelho para se contrapor. Contudo, Bonhoeffer foi se contrariando por ela se afirmar em linguagem e conclames apolíticos especificamente religiosos internos à igreja.

As tentações dos cristãos que não se conformavam ao “liberalismo” a isto era o fundamentalismo, ou uma negação incondicional da modernidade em todos os pontos que se considere que a fé tradicional se sentisse constrangida; este é um aspecto. Outro aspecto é a religião buscar dimensões compartimentadas que estivessem “seguras” da autonomia do mundo. Também, que se buscasse usar de artifícios psicológicos para inculcar desespero interior, pânico ante a vida e fraqueza mental nas pessoas para elas terem como último recurso se escorar no discurso religioso. Podemos ver que são “tentações” frequentemente usadas como ferramentas estratégicas para diversas igrejas e pregadores.

Onde há saúde, força, segurança, simplicidade, eles farejam um fruto maduro para roer ou pôr seus ovos ruinosos. Seu objetivo inicial é levar o ser humano ao desespero interior, e então a parada está ganha. (…) Considero como o ataque da apologia cristã à maioridade do mundo primeiro como sem sentido, segundo como deselegante, terceiro como não cristão. Sem sentido, porque ele me parece como a tentativa de fazer retroceder à puberdade uma pessoa que se tornou adulta, ou seja, torná-la dependente de coisas das quais ela, de fato, não mais depende, lançá-la em problemas que para ela, de fato, não são mais problemas. Deselegante, porque aí se tenta explorar a fraqueza de uma pessoa para fins estranhos a ela, com os quais não concordou livremente. Não cristão, porque Cristo é confundido com um certo estágio da religiosidade do ser humano, ou seja, com uma lei humana                                                        - 8. 6. 44


Onde ele bradara o seu desafio profético que abre nossa reflexão. Uma chamado a um cristianismo “arreligioso” [diferente de irreligioso]. Sem Deus como tapa-lacunas do conhecimento, abstendo-se e prevenindo-se do obscurantismo; sem religiosidade como muleta, alienação escapista ou como em contraparte, argamassa social; sem usar do recurso de forçar alguém ao desespero eminentemente emocional [citar]; incitar à postura altera, responsável, consciente e madura no mundo. O engajamento em Cristo ser embebido e estar imanente no encarar e lidar da vida social, familiar, política, econômica, sabendo lidar com os termos a que estas esferas se propõem por si mesmas, não querendo acrisolar em particularidades da linguagem religiosa . Não promover nem a identificação, nem a clivagem, entre “espaço sagrado” e “espaço profano”. “(...) aprender a con-viver”: (…) não se postar como espectador, avaliador, juiz fora dos processos da vida; con-viver (…) a partir da plenitude dos motivos vitais” e “na plenitude das tarefas e dos processos concretos da vida com a sua infinita diversidade de motivos”. 
- De seu livro "Ética".

As disciplinas espirituais, sacramentos, oração, leitura e estudo da Bíblia, louvor, etc., são vistos não como um ponto de aparte do mundo, mas como para dar força pulsional para o serviço no mundo. A isto ele retomava o conceito de “disciplina arcana”, em que as disciplinas eram algo a se guardar com cuidado na comunidade de fé e ministrado àqueles que se compromissaram com o caminho cristão, para se alimentar de sua essência, e não ser profanada servindo como atração cultural para o mundo. Atentando para Deus como participando, sofrendo na história e compartilhando das lutas nela, não como apartado ou, por outro lado controlando tudo como um Titereiro Transcendente. “Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz. (…) A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [ i. e., “o deus que surge mecanicamente”]. A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar”. 16.7    “Pessoas buscam Deus na sua necessidade (…) cristãos ficam com Deus na Sua paixão” - do poema “Cristãos e pagãos”- constante em "Resistência e Submissão".

A igreja deve sair de sua estagnação. Devemos voltar ao ar livre do confronto espiritual com o mundo. Devemos correr o risco inclusive de dizer coisas contestáveis, se isso possibilita levantar questões de importância vital. Como 'teólogo moderno”, que entretanto leva ainda consigo a herança liberal, sou obrigado a tirar de debaixo do tapete tais questões. Entre os jovens, não haverá muitos que consigam reunir em si as duas coisas. Cartas do Cárcere, 3-8-1944.


O cristianismo está hoje aguda e profundamente re-confrontado com isto. De forma inapelável e impossível de escamotear e postergar. Como peitar de frente a instigação a esta responsabilidade, não tendendo à queda pragmática/utilitarista das práticas da Teologia da Prosperidade e Apelações de Manipulação Emotivista que tanto “sucesso” (por enquanto) fazem?

Encontramos tentações no caminho semelhantes: em um extremo, ser pautado pela busca de “relevância”; não há algo que fica ultrapassado mais rápido do que o “relevante”. Em outro extremo, se “refugiar” centrando-se novamente na dita “salvação individual”.

Redenção significa agora redenção das preocupações, das aflições, dos medos e anseios, do pecado e da morte em um além melhor. Mas seria isto de fato o essencial da proclamação de Cristo nos evangelhos e em Paulo? Discordo disso. A esperança cristã na ressurreição diferencia-se das mitológicas pelo fato de remeter o ser humano à sua existência sobre a terra de maneira inteiramente nova e radicalizada em relação ao Antigo Testamento. Diferentemente dos devotos dos mitos de redenção, a pessoa cristã não tem sempre ainda à disposição uma última escapatória das tarefas e dificuldades terrenas para dentro da eternidade, mas tem de degustar plenamente a vida terrena, assim como fez Cristo ('meu Deus, porque me abandonaste?') e somente ao fazer isto o Crucificado e Ressuscitado estará com ela e ela, por sua vez, estará crucificada e ressuscitada com Cristo. O aquém não pode ser abolido prematuramente. Neste ponto, o A.T. e o N. T. Permanecem unidos.                                       - 27.6.44

E como poderemos a delinear contornos para propostas? Creio que de forma primária, os primeiros passos devem ser dados analogamente ao que conhecemos como “via apodítica”: antes de sabermos “o que é”, sabermos “o que não é”. E para auxiliar nisto, tomarei como um brevíssimo estudo de caso iluminador, um “causo” pitoresco dos tempos dos juízes no povo hebreu, extraído do livro homônimo constante na Bíblia, “Juízes”. Elucida enormemente em que termos tem-se grande parte dos fenômenos de “conversão” e adesão religiosa no rosto majoritário das igrejas hoje.

Livro dos Juízes, capítulo 17:

Este homem, Micas, tinha uma casa de Deus; ele fez um 'efod' e 'terafim', e deu a investidura a um dos seus filhos, que veio a ser seu sacerdote.
(…)
Havia um jovem de Belém, em Judá, do clã de Judá, que era levita [ i. e. da tribo de Levi, dedicados a organizar e ministrar o culto e louvores] e residia ali como estrangeiro. Esse homem deixou a cidade de Belém, em Judá, para estabelecer-se como estrangeiro onde pudesse. No curso da sua viagem, chegou à montanha de Efraim, à casa de Micas, que lhe perguntou: 'De onde vens?' _ Eu sou levita de Belém de Judá – respondeu-lhe. _Ando em viagem a fim de me estabelecer como estrangeiro onde puder.
'Fica comigo', disse-lhe Micas. 'Sê para mim pai e sacerdote e te darei dez siclos de prata por ano, vestuário e sustento'. O levita foi. Concordou em ficar com este homem, e jovem foi para ele como um dos seus filhos. Micas deu a investidura ao levita, e o jovem se tornou seu sacerdote e ficou morando na casa dele. 'E agora', disse Micas, “eu sei que Yahweh me fará bem, porque tenho um levita como sacerdote'. ”


Veja-se bem. Com símbolos, amuletos, ritos e sacerdote profissional, a pessoa domestica Deus pactuando que ele sirva para lhe conferir boa sorte. Reduzira as incertezas inerentes da vida e se associara com poderes mágicos para ela adquirir uma lógica mais segura para se estabelecer nela. Está configurado o convênio, o contrato.

Adiante no livro, vemos um grupo de batedores de uma tribo à procura de uma terra para invadir, conquistar e se estabelecer. Eles se deparam com as terras e bens de Micas, e com o jovem sacerdote. Posteriormente, regressando do combate, os cinco batedores conduzem um contingente armígero do clã para as posses de Misã, mostrando-lhes os amuletos, símbolos e acessórios religiosos. Eles decidem se apropriar dos mesmos e acabam levando também o sacerdote, primeiramente constrangido por ameaça, e logo a seguir contente por persuasão de se tornar mais importante, trabalhando por toda uma tribo. Agora, Deus está amarrado a um contrato social em um jogo místico para conferir sucesso e chauvinismo.

"E enviaram os filhos de Dã, da sua tribo, cinco homens dentre eles, homens valorosos, de Zorá e de Estaol, a espiar e reconhecer a terra, e lhes disseram: "Ide, reconhecei a terra." E chegaram à montanha de Efraim, até à casa de Mica, e passaram ali a noite. E quando eles estavam junto da casa de Mica, reconheceram a voz do moço, do levita; e dirigindo-se para lá, lhe disseram: "Quem te trouxe aqui? Que fazes aqui? E que é que tens aqui?" E ele lhes disse: _ Assim e assim me tem feito Mica; pois me tem contratado, e eu lhe sirvo de sacerdote. Então lhe disseram: "Consulta a Deus, para que possamos saber se prosperará o caminho que seguimos." E disse-lhes o sacerdote: _Ide em paz; o caminho que seguis está perante Yahweh". Juízes 18:2-6

""'
Entrando eles, pois, em casa de Mica, e tomando a imagem de escultura, e o éfode, e os terafins, e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: _ Que estais fazendo? E eles lhe disseram: "Cala-te, põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. E melhor ser sacerdote da casa de um só homem, do que ser sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel?"
Então alegrou-se o coração do sacerdote, e tomou o éfode, e os terafins, e a imagem de escultura; e entrou no meio do povo.
Juízes 18:18-20

A “conversão” religiosa como disfarce para um contrato de conveniência. É assim que muitas pessoas têm se "convertido", transformando Deus em um ídolo. O quanto é necessário resguardar este tipo de religião?


Mas se não conseguir levar a pessoa a encarar e caracterizar sua felicidade como sua desgraça, sua saúde como sua doença, sua força vital como seu desespero, então o latim dos teólogos se esgota. Trata-se, então, de um pecador empedernido de natureza especialmente perversa ou de uma existência 'burguesa saturada', e o primeiro está tão distante da salvação quanto o segundo. Olha, esta é a postura contra a qual eu me defendo. (…) Jesus nunca questionou a saúde, a força, a felicidade de um ser humano como tais e as considerou uma fruta podre; do contrário, porque ele teria restabelecido a saúde dos doentes, devolvido a força aos fracos? Jesus reclama para si e para o reino de Deus toda a vida humana em todas as suas manifestações                                                                                                               - 30.6.44

O Desafio de Bonhoeffer - A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo ( Parte I)

O movimento em direção à autonomia humana (refiro-me à descoberta de leis segundo as quais o mundo vive e dá conta de si mesmo nas áreas da ciência, da sociedade e do Estado, da arte, da ética e da religião) que iniciou por volta do século XIII – não quero entrar na discussão sobre o momento exato – chegou a uma certa completeza na nossa época. O ser humano aprendeu a dar conta de si mesmo em todas as questões importantes sem apelar para a 'hipótese Deus'.
(…)
Assim como no campo científico, também na esfera humana em geral 'Deus' está sendo afastado cada vez mais da vida; ele está perdendo terreno. Ora as visões católica e protestante da história concordam que se deva ver nesse processo a grande apostasia de Deus, de Cristo, e quanto mais elas se valem de Deus e Cristo e os jogam contra esse desenvolvimento, tanto mais este se compreende como anticristão. O mundo que chegou à consciência de si mesmo e de suas leis vitais está a tal ponto seguro de si mesmo que ficamos inquietos com isso. Desvirtuamentos e insucessos não conseguem deixar o mundo inseguro quanto à necessidade de sua caminhada e seu desenvolvimento; (…).
Ora, a apologia cristã reagiu, das mais diversas formas, contra essa segurança de si próprio. Procura-se demonstrar ao mundo que atingiu a maioridade que ele não seria capaz de viver sem o tutor 'Deus'. - Cartas do Cárcere, 6.6.44 - em "Resistência e Submissão"


Essas provocações não são proferidas por um renegado religioso que entrou para a onda pentelha atualmente chamada de “neo-ateísmo”. Foram escritas por um dos grandes nomes da teologia do século XX, Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, que fora morto em campos de concentração nazistas devido à sua luta de desobediência civil contra o Reich, escritas na prisão em 1944 para seu amigo também teólogo Eberhard Bethge; sobre seu comportamento na prisão e sua morte temos não-poucas testemunhas de como se mantinha íntegro em sua fé, irradiando a paz de Cristo.

Desafios que pairaram sobre toda a teologia séria feita desde então. Figura em toda reflexão conscienciosa sobre o futuro da religião cristã no mundo. Muitos grandes nomes repensaram seu teologar a partir delas, e houveram várias tentativas de responder a esses vergalhões: Neo-ortodoxia, Teologia da Cultura, Teologia da Secularização, Teologia da Morte de Deus, Teologia da Esperança, Teologia da Libertação, etc., são algumas elencadas aqui que o espaço não permite destrinchar.

Mas ouso dizer que ainda não se conseguiu levar a cabo um tratamento que tenha dado conta efetivamente da tarefa, diante de todos os fenômenos socioculturais decorridos desde então. Todas tiveram seus condicionamentos momentâneos e tiveram como fraqueza circunscrever estes momentos como se fossem a configuração definitiva. E acabou que foi-se esquecendo... tenho ficado inquieto e busco aqui trazer alguns pontos importantes para justificar que, tanto como nunca, é preciso resgatar a preocupação atinente, sem respostas-prontas, para a ressonância das palavras de Bonhoeffer, sopradas pelo vento impetuoso, no período de transição caótica para o imprevisível que atravessamos.

O que pretendo com isso, portanto, é que Deus não seja introduzido clandestinamente em algum derradeiro lugar secreto, mas que simplesmente se reconheça a maioridade do mundo e do ser humano, que o ser humano não 'seja tornado ruim' na sua mundanalidade, mas que seja confrontado com Deus no seu ponto mais forte (...).
Mais uma vez ficou bem claro para mim que não devemos fazer com que Deus figure como o tapa-furos do nosso conhecimento imperfeito; quando então – e isto acontece forçosamente – os limites do conhecimento deslocam-se cada vez mais para fora, também Deus é deslocado junto com eles e encontra-se assim, num movimento de constante retirada.
(…)
Isso vale também para a relação entre Deus e o conhecimento científico. Mas vale também para as questões humanas gerais da morte, do sofrimento e da culpa. Atualmente, ocorre que também para essas questões há respostas humanas que podem prescindir totalmente de Deus. De fato, pessoas de todas as épocas conseguiram resolver essas questões também sem Deus, e simplesmente não é verdade que só o cristianismo tenha a solução para elas.
(…)
Também neste ponto Deus não é um tapa-furos; tem de ser conhecido não apenas nos limites de nossas possibilidades mas no centro da vida.

Tem sido comum nos depararmos na internet com pesquisas demográficas sobre confissões religiosas; o ponto mais destacado é a diminuição significativa nos últimos anos do número de fiéis religiosos em países com mais altos IDH's [Índice de Desenvolvimento Humano], também, a diminuição à medida em que um país ou região chega de forma mais ampla em índices elevados. A relação entre não-participação religiosa e não-crença não é equivalente nem linear, bem como a não-crença em uma religião sistematizada com a não-crença em alguma realidade transcendente, supranatural ou exotérica. Mas é correlacional e não-discrepante.

O clima de fanatismo aguerrido e de provocações pentelhas em diversos ambientes costuma esculhambar com a análise sóbria e ponderada. Raramente vemos comentários com mínima capacidade de abstração lógica e substancial para abrir caminhos ao pensamento com propriedade, predominando interesses apologéticos (religiosos e antirreligiosos) obtusos, e o embotamento faz brotar pirraças patéticas ao estilo de gritos de torcidas organizadas. O que dificulta o empreendimento de quem não se identifica com os coros.

É patente que não ocorrera um processo de primária e básica apostasia da(s) fé(s) tradicional do recorte (país, nacionalidade, região, etc.), em que se catalizou de uma vez uma explosão da barbárie ao topo de indicadores de desenvolvimento social, como se fosse uma causa-efeito para um “Big-Bang civilizatório”.

Decorre dos dados mensurados que a desvinculação confessional com a religiosidade tradicional se acentua após se chegar a níveis maiores nos índices de renda econômica. Não houvera uma “apostasia” para depois se começar a construir escolas, hospitais, se avultarem empreendimentos econômicos, redes de articulações sociais, inserção mais favorável na cadeia mercantil e divisão internacional do trabalho. É depois desses processos já estarem em maiores níveis que começa a cair, em destaque, o compromisso regular com instituições religiosas.


A religiosidade atua em comunidades e sociedades experimentando privações, de múltiplas maneiras nos pulsos motivacionais das pessoas. Algumas acentuam-se mais. Pode servir de um escape subjetivo para o íntimo diante de uma situação opressora ( opressão para muito além do sentido restrito de coerção política). Refrigério, ou força interior para suportar a pressão e não se entregar ao sentimento de absurdo ou desespero. Pode servir também de acomodação; embora se desconte que, em muitas situações, o indivíduo realmente não tem condições concretas de subverter seu contexto, restando a loucura ou o suicídio. Esperanças transcendentais não necessariamente “alienam”, a pessoa “esquecendo” suas condição e evitando mudar devido a ela; não, as pessoas podem enfrentar a realidade, apesar de algumas batalhas serem inglórias e desesperadoras, considerando que sua resistência não ficará inútil e desperdiçada em vão, mas “contará”. A situação de opróbrio não fica sendo como a condição última e realidade definitiva para dizer quem a pessoa é e a quê foi incondicionalmente destinada.

A partir daí, agentes institucionais de religiões criam condições de trabalhá-la como aglutinador e estabilizador comunitário, social, “nacional”. A religião expande seus papéis e atua como “cimento” para a coesão social e fator simbólico-estruturador para a diferenciação e identidade, mesmo de “sintonização” para o cosmos que é projetado, idealizado e no qual as mentalidades se concebem inseridas e condicionadas. Há efeitos adversos para pessoas e ideias que se considere fator de desagregação e geradores de “caos” quanto a isto.

Sem dúvida, há limites variados para se conseguir cumprir esta “função”. Quando a leitura da vida passa a ser plenamente negativa, o apelo espiritual começa a ser encarado como engodo. A impressão de futilidade e desperdício, de tudo ser estabelecido em um fundamento de maldade e vaidade, cego e surdo a qualquer apelo melhor, passa a criar sim uma revolta quanto a qualquer discurso ou ideia de Sagrado ou Transcendente. A “coesão” começa a ser encarada de fato como artificial e deslegitimada.

O prisioneiro leitor da Bíblia, sobre o qual igualmente contei que, num estado de demência, havia se atirado sobre o major com um tijolo, certamente estava entre os desesperados que perderam todo o resquício de esperança e, como não se pode viver sem esperança, acharam uma saída no martírio espontâneo, quase produzido artificialmente. (…) Quem sabe qual o processo psicológico se passou nele; nenhum ser humano pode existir sem alvo e sem buscar esse alvo. Um ser humano que não tem mais alvo nem esperança muitas vezes se transforma, em virtude do vazio, num monstro... Mas o alvo de todos os presidiários era a liberdade.
 - Do romance “Recordações da Casa dos Mortos”, de Fiódor Dostoiévski.

Podemos situar nisto a famosa e mal compreendida colocação de Marx quanto a religião ser o “ópio” do povo, numa época em que o ópio tinha consideração também de funções medicinais além da entorpecente. Colocação que também, de forma oportunista, costuma aparecer “surecada”:

O sofrimento religioso é, a um só e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.”


Nos lugares apontados nas pesquisas, as populações chegaram a uma condição de desenvolvimento material mais emancipada ante as precariedades em que viviam seus antepassados, mesmo em comparação com os menos distantes. Uma maior “liberdade” ante as “necessidades” duras de desprendimento de esforço físico e tempo para o mínimo necessário ao sustento material básico. Diversas atividades desgastantes cujos produtos gerados são necessários para manter seu padrão de vida são desenvolvidas e externalizadas em outras localidades e suas condições econômicas lhes permitem aproveitar disso. Muitos povos e países foram inseridos ou se inseriram de maneira mais oportuna nos ciclos e jogos de poder entre impérios, potências, hegemonias e grandes forças econômicas, por diversos fatores estratégicos nos locais e momentos certos.

Assim se permite mesmo às classes médias nestes países usufruírem de aproveitar gozos que, relativamente – ou mesmo não-relativamente – só se era usufruído pelos mais altos extratos das elites mais antigas, mesmo os reis da Antiguidade. E as classes mais baixas terem necessidades atendidas e oportunidades de usufrutos também inimagináveis em qualquer período da história. Mirando para adiante, vêem oportunidades antes inacessíveis, muito o que têm a ganhar; olhando para trás, vêem o quanto têm também a perder, que antes não se tinha. E ao redor, possibilidades de usufrutos e experiências.

Já em primeira instância, a religiosidade não é mais fundamental para conferir coesão social. Essa nova situação engendra outros mecanismos motivacionais de recompensa e fracasso, ambição e marginalização. Imprime-se nas consciências de que estão abertas no horizonte as fronteiras para ganho de status e mais bem-estar, poder e satisfação, usufrutos e conquistas, para a perícia e mérito. Ainda que não esteja aberto para todos, o argumento validador é que está aberto a “qualquer um”, mesmo com necessários ajustamentos periódicos, e sobre isto repousa o equilíbrio – estável ou instável – do sistema.

E neste ponto, encontra-se o fio da navalha das religiões. De força motivacional, passam a ser encaradas como entraves e constrangimentos para as pessoas aproveitarem a pleno alcance as possibilidades que a nova condição econômica, social e cultural lhes abre. Seu “descarte” é facilitado, no interior dos sujeitos, pela autonomia que o cosmos passa a ganhar no sistema simbólico também, que em grande parte, sua estrutura de produção está integrada aos mecanismos de funcionamento regular do sistema. Não significa que os sujeitos não busquem recursos simbólicos motivacionais e estabilizadores para seu ser e estar, buscam e se apegam a alguns, embora muitas vezes a alternativa optada seja cair sim na anomia social ou apatia. Quando não se encontra, o sentimento de desajustamento costuma ser não convivível. Contudo, tais recursos devem ter êxito em se amalgamar com o potencial aberto de demais recursos de vida, disponíveis nas condições em que ele está inserido (ou como ocorre por vezes, há aqueles e aquelas que acabam se encontrando com estímulos e significados em maneiras alternativas de viver que desafiam em pontos cruciais valores de sua sociedade, sendo opções contraculturais em escalas variadas, mas com baixo apelo em escala – e muitas vezes absorvidos e instrumentalizados pelo caráter social do sistema) e alimentem seu modo de vida de sentidos menos imediatos.

Em várias ocasiões, líderes e representantes das religiões tradicionais reagem a este cenário com apelos e discursos retrógrados, buscando formas de causar pânico e recorrer a medos em cenários que acarretem queda no status quo: “dissolução da família tradicional”, o temor de contatos, misturas e um “diluir” sociocultural com pessoas e respectivas culturas “alienígenas” à formação tradicional da sociedade a qual apela; além de apelos à identidade étnica e/ou nacional que pode estar se “dissolvendo”, à perda do reconhecimento mútuo e orgulho tradicional, etc. Nesse caso, o apelante aceita sacrificar o conteúdo último e ontológico do sistema religioso, quando ocorre de causar desconforto em conciliar com tais questões e se remeter a desafios mais profundos, impelindo a buscas de sentido último que não se ajustam ao status quo que se promete e para o qual aponta no apelo feito - em prol de sua função como amálgama e verniz social e legitimador identitário nacional ou étnico.

Vale lembrar que, obviamente, os cenários descritos não se aplicam igualmente em cada e todo os casos passíveis de observação; você verá casos de realidades com pessoas em condições mais pobres generalizadamente, com alto grau de evasão ou baixo grau de adesão religiosa, e realidades com pessoas em condições econômicas mais confortáveis generalizadamente, com alto grau de adesão e prática. Mas são cenários que se aplicam de maneira mais geral e difundida geograficamente.

22 de dezembro de 2012

Re-pousando no Magnificat

Lucas 1,46-55


Esta quem entoou este hino, é Maria. A Santa Maria...

Que Maria diferente nos é apresentada por Lucas, não é mesmo?

Maria valente, de pé no chão, Maria com sangue circulando nas veias, no rosto, com vento na voz... Maria valente, Maria de paixão, febril, Maria indignada com a condição do mundo... não aquela Maria apática, complacente, fria....

Infelizmente, a ideia de Maria está presa entre dois extremos. A Maria ignorada ou recusada, em grande parte dos protestantismos.... a Maria divinizada, pacata e condescendente do catolicismo popular...

E aqui vemos um pouco mais diretamente outra Santa Maria, vindo das páginas vivas das Escrituras.

Ela canta de forma vibrante e arrebatada um hino do seu povo, que tinha raízes em um antigo cântico tradicional, o cântico de Ana, em I Samuel 2,1-10. Que falava à alma da nação. Traduzia a esperança dos pobres e condenava a arrogância das nações, exaltando a libertação e advertindo que os opressores ainda seriam humilhados. No “Magnificat”, o hino fora retrabalhado, incorporando menções a passagens de salmos, profetas (como Habacuque, Sofonias, Isaías, Miqueias), passagens que ecoavam a expectativa do triunfo final da liberdade do povo, conquistado através de Deus, ante o jugo dos dominadores. Ana também comemorava, na antiga canção, quando o Senhor abrira seu útero estéril. Como acontecera com Izabel, prima de Maria.

Um hino judaico que logo em seus primórdios a Igreja Cristã incorpora para sua vida. Ali Maria vibra e traz as maravilhas fantásticas que estavam acontecendo consigo e em sua família – a prima Izabel, idosa, esperando um filho que já se anunciava ser alguém especial – para todo um cenário do drama, aflições e esperanças de seu povo.

Sem esquecer de si mesma, enxerga ainda assim muito além de si.

Hoje, é meio triste que as pessoas cultivem uma fé individualista e egocêntrica; e uma das formas em que isto se manifesta é canalizarem toda sua relação e expectativa em Deus para a salvação da sua alma, para “ir para o Céu”.... às vezes, pior, para ter sucesso individual na sociedade.

Ali, o regozijo não era de agradecer porque iria para o “Céu”, mas por participar do plano de Deus de curar o mundo de toda injustiça.

Às vezes ficamos intrigados com uma questão... qual teria sido o papel da mãe, Maria, na formação da personalidade e caráter de Jesus? Abre-se espaço para qualquer invenção sem base da imaginação...

Neste hino, temos as pistas... fortes!

Vejamos alguns recortes dele:

48-9: “gerações me considerarão bem-aventurada”...

O que lembra? As bem-aventuranças proclamadas por Jesus. Podemos ver como há uma sintonia fina, onde elas constam no evangelho de Lucas, de 6 a 26:
Maria disse: “contemplou na humildade de tua serva” ..."meu espírito se alegrou no Senhor...”... “misericórdia sobre os que o temem” - é bem o espírito das “Bem-aventuranças”, as quais Jesus proferia como motivação para a fé dos mais pobres e humildes.

Ainda temos mais pontos em comum: 52-"derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes”...        53 - "encheu de bens os famintos, despediu vazios os ricos”.

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reinado de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir” (…) “Mas ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas!”

Vemos que a espiritualidade de Jesus herdou de Maria o inconformismo com este mundo, e o anseio de transformação; a consciência de não usar o nome de Deus para legitimar o atual estado de coisas, mas apontar o dedo nas feridas mostrando que a injustiça não terá a palavra final, mas passará...

A VisitaçãoIl Guercino


Na tradição anglicana, os santos são honrados como peças-chave para a construção do Reinado de Deus na história, por sua importância para a vida e doutrina da Igreja, pelos seus testemunhos de vida especiais. Maria tem um lugar especial aí, em que lhe é direcionada grande honra. Que possamos fazê-lo, dando-lhe grande honra, aprendendo com ela, perseverando junto com ela, compartilhando dos anseios dela.

27 de novembro de 2012

Ruah





Emissário de para lá, estás
além do onde, do quando e do enquanto.
Sopro de trevas, se perfaz
em densidade absoluta, pavor sem alento.

É a cama de sua morada, assaz
sem fosco, luz que emudece o espanto.
Sombra, é tudo o que não és, veraz
tem seu corpo, no reflexo de seu vento.

É a pulsão, para o avanço e para o detrás
vem refluxo, o definir, o portanto.
Sótão do que não foi em vão, farás
quem rebrota do jardim, contento.

Eleva o repouso, desassossego mordaz
contém o vácuo, o Todo, o conquanto.
Sonda o inescrutável, quietude loquaz
bem no abismo, relega o abandono ao relento.

É a solicitude da boca do bebê, vivaz
neném que assim vai ao encontro do encanto.
Sorve a candura da ossada, na miragem fugaz
sustém de pé, és a angústia, és o unguento.



                              música: Adagio Ma Non Troppo, Dvorák

3 de novembro de 2012

Mensagem para o Domingo de Todos os Santos e Todas as Santas

Leituras Bíblicas

Sirácida 2,1-9
Efésios 1, 15-23
São Lucas 6,20-26.

"Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: Mas o charco do irmão mais novo se transformou em um oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa:'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Passado sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu filho sem juízo montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar as desgraças: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá' o pai o repetiu. Passado poucos dias, vieram os soldados o rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada, os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Assim termina a história, sem fim e com reticências (...) Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la, é como se contasse a estória de minha vida.

Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja a condenação final. As vitórias se desfazem como castelos atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. 'Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá'. "

em "As Melhores Crônicas de Rubem Alves", pg. 82

TEMA: O “Ainda Não” como motivo de viver o “Agora”

Incerteza inerente à vida. O risco do qual não se tem como fugir. Tentação de renegar a fé, de não suportar nenhuma dor ou mau em nome do bem, em “jogar o jogo” para ser bem estabelecido no mundo. Não temos garantias. Viver a virtude agora não oferece nenhum penhor de que aqui seremos bem-sucedidos ou estamos livre de quaisquer desgraças.

Então, pra quê perseverar? Pra quê arriscar? Nossas decepções e frustrações não nos dão as devidas desculpas para sermos condescendentes, e de consciência limpa, buscarmos “levar vantagem em tudo”, porque afinal, não faz sentido nos expormos a “fracassarmos” aqui?

Definitivamente, os padrões do chamado cristão, do sentido de viver chamado por Jesus, não são as chaves do sucesso aqui; a cruz, foi o exemplo de maior, fraqueza, humilhação e derrota para aquele mundo. Para um cidadão romano, só era utilizada caso fosse culpado de uma nojenta traição à pátria e servia para dizer que chegara ao extremo da vergonha. Era o castigo apropriado para escravos revoltosos, o serville suplicium.

Por isso o cristianismo tem sido alvo de ataques ao longo da história, como uma religião de fracos. Que usam a desculpa da esperança no porvir para aceitar fracassos do agora.

Essa acusação não esteve presente apenas no mundo moderno, embora tenha ganhado frequência nele com suas promessas de que o progresso da humanidade é inevitável.

Um grafite anti-cristão do segundo século de Roma, bem conhecido entre os historiadores que estudam o período, mostra um homem crucificado grosseiramente elaborado, com uma cabeça de burro, em que está uma figura humana, e sob este um escárnio rabiscado: "Alexamenos adora o seu Deus" [Alexamenos sebetai ton theon].

Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é insignificante e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é.  I Coríntios, 1, 27-28.

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No mundo dos inícios do cristianismo, a convicção geral das pessoas era de que toda a existência era regida e movida pela força do Destino. Se remetia sua expressão às estrelas, e ninguém escaparia dele. Nem os deuses estavam a altura do Destino. Muito da busca da sabedoria, seja mística, religiosa, filosófica, se dava em entender o destino saber aproveitá-lo o possível.

É estranho revisitarmos a história e pensar nestes termos. Muitas vezes parece que está certo. Coisas e situações costumam se repetir, com leves mudanças que só realçam os pontos em comum. Parece que não conseguimos escapar de certos padrões. Por outro lado, por diversas vezes se percebeu que o mundo estava seguindo uma tendência, todos julgavam tudo no mundo, as pessoas, ideias, crenças, comportamentos, enquanto utilidade ou obstáculo haveria de proporcionar para essa tendência. Achou-se ter captado a sintonia da realidade. Por diversas vezes na vida também é assim. Seja para o bem ou para o mal, enxergamos um horizonte como se fosse apenas uma linha de consequência em que desaguou o curso do rio que achamos estar a nado nele, derivado de uma leitura que fazemos da situação.

Até que vem o inesperado e sacode tudo. Aí, a história já começa a parecer um bêbado andando e trupicando, fazendo troça de tudo. Parece que tem alguém brincando com nossa vida.

Vamos continuar sempre ouvindo um caso sobre “progresso da humanidade”. E quanta coisa, quantas vidas já fora sacrificadas em nome disso? Seja para ajudar, acelerar o progresso, ou não atrapalhar. Contudo, por diversas vezes, as guerras mais monstruosas vieram depois de períodos de grande otimismo e louvor pelos tratados de paz, como a Guerra dos Trinta Anos, na Europa, depois do Tratado de Paz de Westfalia, quando todos achavam que finalmente o caos do mundo iria se consertar.

Reluta-se a admitir que a transitoriedade, que o fato de que vivemos uma realidade sempre transitória, passageira, faz com que não possamos dizer que em algum momento teremos um cenário para o qual apontaremos e diremos “é assim que as coisas são”. Não vivemos numa existência marcada pela estabilidade, embora ansiamos e buscamos trazê-la à força. Remédios, exercícios, livros, conselhos, buscas e fugas, fugindo da incerteza e querendo uma estabilidade para firmar os passos, deitarmos, estarmos seguros.

Mas qualquer segurança neste mundo é frágil. Como a imagem de uma areia que se querermos apertar as mãos, ela escorre. Por isto São Paulo escreveu, em I Coríntios 15, 19: Se pusermos nossa esperança em Cristo somente para esta vida, somos as pessoas mais dignas de piedade.

Por isto a crença na vida eterna. No caso da fé cristã, a crença na renovação do Universo, numa Nova Criação, em que tomaremos parte na sua nova realidade, não sujeita mais à decomposição, ressurretos. Nossa fé na ressurreição que participaremos juntos com toda a Criação de Deus.

Não é de forma alguma uma crença para alienar e tornar covarde as pessoas. Muito pelo contrário. É a única esperança de que podemos desafiar o absurdo, na vida, na história, e não ficaremos frustrados. Diversas pessoas lutaram contra atrocidades, males, injustiças, e não viram resultado algum. Diversas pessoas tentaram, em sua vida, não pagar o mal com o mal, abrir mão de um certo sucesso e prestígio não vendendo a alma para tal, não caindo em jogos sórdidos, e pelas aparências do mundo, ficaram frustradas enquanto outras chegaram ao topo. Diversas pessoas se pautaram pela justiça, amor, integridade, por servir ao próximo, por não buscar saciar o anseio de dominação sobre o outro, e o veredito que o mundo deu foi: fracasso. Fraqueza. Estupidez. Loucura. Não vale a pena! Não vale a pena!

Muito além então de ser um apelo alienante, para as pessoas se resignarem com os augúrios e males da vida e do mundo, esperando pelo “Céu” - a Redenção e Reconciliação da Existência com Deus no Renovar dos Tempos - serve de motivação para independente do que for, podermos não nos entregarmos a isto, não caracterizarmos nenhuma condição atual como definitiva, pois Deus não deixará nada perdido, esgotado, desperdiçado mas a coragem de não se entregar e se definir pela lógica do mundo, e todos os atos de amor machucados pelo desamor, serão matérias-primas para a construção da Verdadeira Realidade Eterna, por parte do próprio Deus. Nada será desperdiçado ou em vão.

Sem esse olhar da eternidade, essa é a realidade crua. É muita bobagem querer disfarçar dizendo que a luta dessas pessoas não se perdeu, continua viva em não sei onde. Não. Porque ninguém sabe se a qualquer momento, tudo vai se frustrar. Não se tem garantia de que tudo não será em vão. E a pessoa não está ciente de nada se está na memória de não sei quem. Não está vendo, sentindo, nada. E para tantas pessoas que são lembradas, muito mais caíram no limbo do esquecimento. Outras tantas foram traídas. E quem busca continuar o legado delas, pode também morrer a qualquer momento. Até mesmo a daqui a pouco.


Por que nos expomos continuamente ao perigo? Dia após dia estou morrendo. Juro, irmãos, pelo orgulho que sinto de vós diante de Cristo Jesus Senhor nosso. Se por motivos humanos lutei com as feras em Éfeso, de que me serviu? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. I Co. 15, 30-32.

Jesus, com as bem-aventuranças, está revertendo, pondo de cabeça-para-baixo os valores consagrados, “normais”, aqui na sociedade terrena. Em comparação ao projeto de Deus para seu Cosmo renovado, estamos numa era “torta”, em um mundo “torto”; e os valores norteadores deste projeto divino, atualmente, são “tortos” para este mundo. Bonitinhos e gostosinhos às vezes para se sentir no fundo do peito ou na ponta da colher, mas não para pautar a “vida real”. A esperança cristã manifestada em Jesus Cristo é que a vida, a existência, e estes valores finalmente se “ajustarão” na ressurreição, e então, não hão de cair no Nada, não estarão perdidos para sempre, todos os atos de desafio ao mundo feitos pela mais humilde e esquecida figura humana. Se converterão em fôlego de vida, um fôlego que não se acaba, alimentados por uma chama que não se apaga, a que criou a primeira fagulha do primeiro sol, a energia do Espírito de Deus.


Este Espírito vem com amor e graça entrar em comunhão com a gente, nos chamando a Si, já no agora. E cremos estar presentes aqui. É nessa comunhão com Ele que nos unimos hoje aos Santos e Santas de Deus na história, os de dentro da Igreja, e os de fora da Igreja, incluindo aqueles que só Deus conhece. Na compreensão da tradição anglicana, comemoramos e prestamos homenagem e deferência aos Santos e Santas, não como pessoas dotadas de um poder especial para intermediar entre nós e o Sagrado, nem para operar feitos miraculosos. Mas como exemplos de pessoas que foram pecadores e pecadoras como nós, imperfeitos, falhos, mas cuja vida teve um peso, significado ou papel edificador importante para a história da igreja ou para o testemunho cristão no mundo, glorificando Deus e servindo para fazer seu Reinado mais presente no mundo.

Que esta reflexão seja trabalhada pelo Espírito, para que em Cristo, nenhum feito ou testemunho destes irmãos e irmãs, seja em vão. Honremo-los.