17 de agosto de 2012

Quem é o vencedor? Quem é o vencido? "Cristianismo" x Cristianismo

Certo dia, quando íamos para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem escrava que tinha um “espírito de Píton”; ela dava para seus patrões muito lucro, emitindo oráculos. Começou a seguir-nos, a Paulo e a nós, clamando: 'estes homens são servos do Deus Altíssmo, vos anunciam um caminho de salvação'. Isto ela o fez por vários dias. Fatigado com aquilo, Paulo voltou-se para o espírito, dizendo: 'Em nome de Jesus Cristo, ordeno que te retires dela!' E na mesma hora o espírito saiu.
Vendo seus patrões desaparecer a esperança de seus lucros, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram até a praça pública – a Ágora -, à presença dos magistrados. Apresentando-os aos estrategos, disseram: ' Estes homens estão perturbando nossa cidade; são judeus e anunciam costumes que não nos é lícito acolher nem praticar, nós que somos romanos”. Amotinando a multidão contra eles, os estrategos depois de mandarem arrancar-lhes as vestes, ordenaram que fossem espancados com varas. Depois de lhes infligirem muitos golpes, lançaram-nos à prisão, recomendando ao carcereiro que os vigiasse com cuidado.
Atos 16, 16-23




Tem ficado cada vez mais escancarado o quanto muitos manipulam a fé cristã, não se contentando em apenas tratá-a como simples mercadoria, mas como uma ferramenta de dominação psico-econômica. Pisa-se e ataca-se os sofrimentos, angústias, aspirações das pessoas, enquanto lhes transformam em nacos de uma massa de um bolo de estelionato. “Apóstolos” e congêneres arrogam ter um poder especial sobre forças espirituais que os atendem e podem produzir milagres em massa para solucionar os problemas, em troca requerem poder na engrenagem econômica de um sistema de lógica exploradora. Por outro lado, as pessoas se submetem a esquemas mesquinhos, justificam-lhes, caçam jargões para os justificar. Em nome de serem “bem-estabelecidas” no mesmo sistema. E o cristianismo é instrumentalizado pelas forças as quais nasceu se opondo.

Tomemos um episódio especial dos registros das origens cristãs que iluminam como a lógica essencial da fé cristã é diametralmente oposta a estes apelos estelionatários, como na verdade nasceu com um norte subversivo e julgado extremamente perigoso para o “caldo religioso” do sistema.

O cenário para essa narrativa é cuidadosamente preparado por Lucas para apresentar o contexto maior na aproximação e primeiros contatos com a fé cristã emergente e o sistema religioso do Império ( que seja mais apropriado focar o sistema religioso do Império, ao invés de ser as religiões em si, veremos adiante como se justifica).

Nessa narrativa, o escritor não nomeia a mulher, como o faz com as mulheres de suas narrativas habituais. Pois ela não fala por si mesma. Ela tinha um “espírito de Píton”, a serpente mitológica que nas tradições em torno do Oráculo de Delfos, fora derrotada pelo deus Apolo (conforme transmitido pelos escritores Ésquilo e Plutarco). Píton e todo o seu sistema cultual a controla para dar lucro aos seus senhores. Ela é um canal do mecanismo de acumulação deles, um instrumento e objeto de tal. E isto lhe roubara a identidade.

A tradição remontada ao Oráculo de Delfos o aponta como um centro religioso em que se buscava respostas e soluções práticas para as vicissitudes da vida com augúrios. Se contava com o bom agouro da profecia, palavras garantindo que tudo vai dar certo; cumprindo-se protocolos para agradar ao deus, esperava-se que fosse garantida mais estabilidade, previsibilidade e segurança para a existência. “Ora Apolo intervém sob a forma corporal do próprio deus, ora concede ao espírito de algumas criaturas humanas conhecer a sua própria vontade” (Plutarco, “Sobre o desaparecimento dos oráculos”, IX, 26). O oráculo interpretava a ordem do mundo e o sistema religioso ofertava uma relação em que a pessoa trabalhava em cima de supostos mecanismos de regência da “ordem” do mundo. E utilizava-o às suas conveniências.

A escrava “vende” o produto de seus patrões aos seus clientes, e aqueles ficam com os frutos. A questão monetária é mencionada cedo com sutil ênfase por Lucas. Primeiramente o mercadológico, enfatizando que a dimensão religiosa é eminentemente funcional para aquele.

A primeira vista pareceria que os missionários poderiam se servir deste sistema econômicorreligioso. Parece que ela estava sendo arauto deles. Mas não. Os proclamando como servidores do “Deus Altíssimo”, seria naquele ambiente como dizer que eram também alguém parte deste sistema, em nome de “Zeus-Hyposistos”, o Deus Altíssimo cultuado em diversos lugares, e seria uma evocação de uma fórmula mágica; soaria como “são dos nossos”. A ação deles que ela designa, como anunciando caminho de salvação, estaria embebida perfeitamente nas apresentações de iniciações de cultos esotéricos. Eles poderiam ter tirado proveito, de maneira utilitária, de um sistema bem firmado e sucedido.

Mas não; rejeitam a lógica. Peremptoriamente deslegitimam que sua missão se utilize desta forma de exploração religiosa. A divindade que anunciam não é inofensiva. O caminho até ela não é inofensivo para o sistema. Toleram por dias a repetição e dão a compreender que não chegam a priori com uma guerra aberta. Mas não dão corda. Não têm parte.

Paulo confrontara não a escrava, a parte mais frágil do elo, mas a própria força da cadeia de dominação. E sua espiritualidade se manifesta gratuitamente, diretamente em propiciar, primeiro como consequência, que a escrava seja ela mesma. E a “fraqueza” vencera a “força”. Não se conta que ela seguira os cristãos. Mas ela não era mais dominada, nem pelo sistema, nem pelos patrões. Teria sua liberdade interior. Mostraram o que para eles era seria “salvação”. O poder espiritual deles sobre ela não tinha mais eficácia. O sistema havia sido confrontado por uma contra-cultura.

E o que era “estes homens são servidores do Deus Altíssimo” na boca da “propriedade” dos patrões, passa a ser “ estes homens estão perturbando”; o que era “eles vos anunciam um caminho de salvação” passa a ser “anunciam costumes [ ethos – modo de ser e viver] que não são lícitos a nós”. Ameaçou-se seu “orgulho nacional”. Os senhores viram que findara a “esperança de seus lucros”. A vida da escrava não contava. Nem mesmo a divindade e a religião em si não era o centro. Eram apenas o que lhes propiciavam lucros.

E o grande sinal: apresentaram os missionários aos magistrados, acusando-lhes do ponto mais nevrálgico do que tinha se passado: desestabilizar a ordem. Poderiam ter frisado a questão econômica, dentro do que as leis versavam. A “Lei Aquileia” versava sobre danos à atividade econômica, pedindo contas à justiça; a “Lei das Doze Tábuas” falava do emprego de forças sobrenaturais para causar prejuízo à propriedade de alguém (o que um escravo era naquele regime). Mas vão além, ao mais básico, ao mais radical, ao mais profundo: a subversão. E o perigo do “proselitismo” era que isso pudesse contaminar a população e se espalhar. O status quo da organização econômica estaria em perigo. Não era apenas um caso de relações privadas, mas um fato político. As estruturas estavam em perigo. Este era o poder do nome de Cristo.

O que poderia ser uma exposição para alimentar um chauvinismo religioso aqui, muda de figura quando se convoca à reflexão: o “rosto” predominante da apresentação dos discursos dotados de símbolos cristãos hoje, na sociedade, incorporam que lado? As mega-igrejas e as instituições econômicas de cobertura religiosa cristã têm hoje tomado o papel do sistema aí representado envolvendo o Oráculo e o Espírito de Píton, com seus senhores, escravos, clientes querendo garantias contra os riscos da vida. E reproduzem o caráter social, a canalização de nossa energia e vontade para uma lógica dada, bem como o apelo simbólico fetichista, do nosso sistema econômico. As pessoas sacrificam sua integridade, sua auto-expressão, e os “manipuladores do discurso divino” se alimentam de suas carências e medos. Mudaram apenas os nomes dos símbolos, mas os códigos subjacentes permanecem. Irônica e tragicamente. E sempre a mesma prontidão contra os mesmos que ousarem fazer o que os missionários fizeram, deixando os “escravos” emancipados do controle de sua alma. Deve-se ter cuidado com estes.

Lembrando o poeta Horácio, “os vencidos conquistaram os vencedores” ?

4 comentários:

  1. Tudo bem cara? Sei que vc é bem informado nos assuntos de teologia e estudo do cristianismo, como da pra perceber a qualidade dos posts que vc dispõe aqui. Queria saber o que vc pensa sobre algumas passagens bíblicas em que Jesus aparenta não mostrar a "paciência" ou "amor" que ele tanto falou. Como na vez em que ele manda os discípulos adquirirem uma espada, ou até msm a clássica expulsão dos religiosos do templo, chegando até mesmo (como alguns dizem) a usar a força física contra eles. Vi em algum lugar que estudiosos acreditam que Jesus mudou de opinião sobre a sua "pacificidade" no fim de sua vida. Se puder ajudar respondendo isso, ficaria grato. Abraços

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  2. Olá Pereira, seja bem vindo. É um assunto complexo e extenso. Uma questão é que "amor" naquele contexto não tem a ver com nossa concepção romântica, sentimental intimista. E Jesus se mostrou muitas vezes com frêmito impaciente ante a adversários. Quanto ao demais, minha visão é que chegando nos tópicos de que você falou, Jesus já estava muito consciente da ameaça à vida dele e dos seguidores. Não temos sinais de que ele instigara ações armadas. Abçs

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  3. Entendo, com certeza é algo complexo. Não imaginava que tinha uma certa diferença no significado de amor. Sobre a espada em que lhe disse, digo por causa deste versículo: "Disse-lhes pois: Mas agora, quem tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e quem não tiver espada, venda o seu manto e compre-a." Lucas 22:36

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  4. Oi. Bem, essa passagem ilustraria o que eu apontei...chegar num estágio no ministério de Jesus em que ele já tinha nítido que sua morte estava nos planos de gente poderosa. E que o discipulado agora envolveria diferenças significativas ao relacionado à comissão para as aldeias da Galileia. Nesta passagem, ele deixa claro que "a espada" que ele traria, viria como uma forma de calar sua mensagem e também como resultado da intolerância com as verdades que ela assinalava. Assim, não instigou seus discípulos a um levante armado, mas os preparou para que seu grupo de seguidores não findassem com a perseguição, para estarem preparados para o que viria.

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