30 de setembro de 2012

A Visão, O Chamado

No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi também ao Senhor assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo.
Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas; com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam.
E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória.
E os umbrais das portas se moveram à voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça.
Então disse eu: Ai de mim! Pois estou perdido; porque sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios; os meus olhos viram o Rei, o SENHOR dos Exércitos.
Porém um dos serafins voou para mim, trazendo na sua mão uma brasa viva, que tirara do altar com uma tenaz;
E com a brasa tocou a minha boca, e disse: Eis que isto tocou os teus lábios; e a tua iniqüidade foi tirada, e expiado o teu pecado.
Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim. 
Isaías 6:1-8
O Chamado de Isaías - Giovan Battista

Aleksandr Pushkin – poeta e teatralista russo (1799 – 1837)


O Profeta

Tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher


Num ermo, eu de âmago sedento
já me arrastava e, frente a mim,
surgiu com seis asas ao vento,
na encruzilhada, um serafim;
ele me abriu, com dedos vagos
qual sono, os olhos que, pressagos,
tudo abarcaram com presteza
que nem olhar de águia surpresa;
ele tocou-me cada ouvido
e ambos se encheram de alarido:
ouvi mover-se o firmamento,
anjos cruzando o céu, rasteiras
criaturas sob o mar e o lento
crescer, no vale, das videiras.
Junto a meus lábios, rasgou minha
língua arrogante, que não tinha,
salvo enganar, qualquer intuito,
da boca fria onde, depois,
com mão sangrenta ele me pôs
um aguilhão de ofídio arguto.
Vibrando o gládio com porfia,
tirou-me o coração do peito
e colocou carvão que ardia
dentro do meu tórax desfeito.
Jazendo eu hirto no deserto,
o Senhor disse-me: "Olho aberto,
de pé, profeta e, com teu verbo,
cruzando as terras, os oceanos,
cheio do meu afã soberbo,
inflama os corações humanos!"

17 de setembro de 2012

Arvo Part - Magnificat

Belíssima composição tendo como tema o "Magnificat" de Maria, apresentado no Evangelho Segundo São Lucas. Para um profundo mergulho espiritual...

2 de setembro de 2012

Escapismo, Batalha e as Trevas do Ar

Finalmente, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti a armadura de Deus para poder resistires às insídias do diabo. Pois não lutais contra carne e sangue, mas contra as Autoridades, contra os Soberanos, contra os Dominadores das trevas deste mundo, contra os espíritos do mal que povoam o ar. Portanto, tomai as armaduras de Deus, para poderem resistir no dia mau e saírem firmes de todo o combate. Cingi os rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça, calçai as sandálias com o zelo para com o evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual se apagarão as lanças inflamadas do Mal. Tomai o capacete da salvação e espada do Espírito, que é a palavra de Deus.

Permanentes na oração e súplica, orai constantemente no Espírito; para isso, vigiai com toda a perseverança, rezando por todos os consagrados.
Efésios, 6,10-20

Há um tempo em que a maioria dos especialistas técnicos considera que o autor do livro “Aos Efésios”, do Novo Testamento, não é o apóstolo Paulo. Não temos uma explicação de consenso ainda a respeito desta autoria. Minha posição é de que seus discípulos, seja ainda com o apóstolo em vida, autorizando, seja após sua morte, retrabalharam a Epístola aos Colossenses, para aplicá-la, da especificidade desta comunidade, para a Ásia Menor em geral considerando a pertinência da sua pauta para as igrejas da região. Daí o enfoque dela, menos cristológico, ou seja, uma ênfase menor sobre a natureza universal de Cristo, para mudar as ênfases eclesiológicas, de igrejas locais para a natureza universal da Igreja de Cristo.

Ele é profundamente marcado por traços do imaginário intelectual apocalíptico judaico, depositário de heranças como constante no Livro de Ezequiel, Joel, Daniel, etc. Nesta tradição, se ressaltava as Forças do Mal como figuras e poderes cósmicos, atuando nos sistemas sociais humanos, disputando o controle e destino final da História.

Mais cedo neste livro neotestamentário, no primeiro capítulo, versículos 19-20, fala-se do Poder de Deus operando na história, através de Cristo, suplantando as forças diabólicas através da sua Ressurreição, completando o desfecho da história com a consumação de Seu Reinado em uma Terra transformada.

O psicólogo social Eric Fromm cunhou o conceito de “caráter social” para assinalar a energia psícossomática canalizada nos contornos dos padrões que um sistema social requer para funcionar. Nosso sistema histórico hoje tem como eixo a acumulação autorreplicante de capital... “acumulai, acumulai, assim dizem a Lei e os Profetas” (Karl Marx)... O lucro efetivamente capitalista é o lucro extraordinário, situado num patamar acima da média do mercado. Rompe com qualquer limite ou constrangimento. O indivíduo, para o sistema, existe em função do quanto contribui para maximizar, para a regularidade e inexorabilidade disto, os que falham são deixados para trás e existe uma rede de artifícios para fazê-lo se sentir inferiorizado e descartável. Este dínamo impulsona as pessoas e gera cargas simbólicas e psicológicas que influenciam o comportamento, tendendo a aumentar o egoísmo implacável, a ardilosidade, trapaça, desconfiança e falta de amor; “naturaliza” isto. Está por traz de todos os processos que sustentam este sistema. Por vezes, parece ter vontade própria, consciência, sabendo aprender, recuar, contra-atacar... Sua fome é insaciável.

Sem disciplina espiritual, oração e silêncio, silêncio e escuta, sem uma certa “ritualidade do Sagrado” - não mecânica – de forma a nos organizar na integralidade do nosso ser, para abrirmo-nos e entregarmo-nos, sermos preenchidos e impulsionados pela e para ação da Força do Bem Maior, que provém da vontade de Deus, nossa luta no mundo é um “bater-cabeças”. E o mal pode até este nosso pugnar contra nós mesmos, pois por fora nos faremos de idealistas, “pessoas boas”, virtuosas, porque cumprimos os códigos, proferimo-los; os jargões de quem contende pelo bem, mascarando e cuidando das maldades que brotam em nosso interior. Escapando de enfrentá-las.

Escapismo...que palavra galhofeira!

"Não derrame lágrimas", por Denis Peterson

Dizem que devemos deixar de lado fantasias e imaginação, porque são coisas escapistas, e costumamos ler ou ouvir que as artes, as artes devem nos “trazer para” a vida real, ou “falar da vida real”, ou “re-tratar a" vida real; se chega a estabelecer como parâmetro de qualidade o quão “fiel à vida real” se consegue ser... “Vida real”...o que que é isto? Nossas funções orgânicas, o que se processa entre os glúons, quarks e léptons? Como tudo isso se encadeia no conjunto total?

A discussão política, ou da “vida”, nossos temas “concretos”, às vezes servem de escapismo pra conta que tem de se pagar, pro perdão que se deixou de pedir, de dar...pros defeitos que apontamos nos outros para escapar dos nossos. Nossas manifestações humanitárias não servem de escapismo para os modos como agimos de forma rude com aquela pessoa?.. Nossos motes e jargões religiosos e antirreligiosos, ideológicos, nossas “compaixões”, não são escapismos das vergonhas que sentimos de muitas nossas ações, nossas frustrações, para as quais buscamos esses escapismos pra nos convencer que no fundo somos “pessoas boas” e nos darmos todas as licenças ao sabor de nossos caprichos?



Influenciado pelo mestre Paulo, o (s) discípulo (s) autor (es) emprega o estilo retórico dos filósofos de moral; costumavam explanar sobre os conflitos para se viver uma vida de virtude como uma competição esportiva ou uma guerra. As imagens: o preparo dos soldados e a formação das brigadas do exército romano. Cinturão: protegia o ventre. Couraça: protegia o peito. Capacete, obviamente a cabeça. Sandálias: proteção dos pés para poder marchar firme e compassado. Escudo: protegia contra os dardos.

Para a eficácia verdadeira, se formava um bloco fechado de soldados. A espada era empregada na luga frontal com o inimigo. Assim, a mensagem e o espírito do Evangelho é o que o cristão tem para manejar quando confrontado frente a frente com os poderes do caos, absurdo, exploração, crueldade... agindo sobre as pessoas e pelo sistema. Alude-se ao “Evangelium de César”, as “boas-novas” que eram proclamadas à frente da procissão pomposa que vinha do Imperador saudando uma conquista bélica de um território. Aqui, é o Evangelho da Paz, de Jesus Cristo, em desafio franco e aberto.

A oração de uns pelos outros... Um soldado só, é vulnerável. Ele abre a guarda do grupamento. O exército coeso não se conseguia deter. As portas do inferno não prevalecem sobre ele. Cada assessório mencionado, maneado em conjunto, cobria o pelotão e o permitia avançar. Os cristãos se unem e se cobrem orando uns pelos outros, porque não se deixa assim a união espiritual ante os ataques do cotidiano que pode fazer os momentos mais vívidos de fé íntima esvanecerem. Persistir.

Um dos meus maiores constrangimentos em orar costuma ser em não me achar bom o suficiente, vindo à tona que encontro em mim sentimentos de que o momento de oração logo se torna desagradável, vem a mim todas minhas motivações diversas que são harmoniosas com os valores e propagandas deste sistema que o Evangelho condena. Mas o escritor de Efésios pede que o próprio Espírito de Deus seja o Suscitador da oração. “Pois, embora a consciência nos acuse, Deus é maior que a nossa consciência e tudo conhece”. Não se manifestar em mim ainda aquilo a que Deus sonhou para mim, e ousar dobrar meus joelhos para Cristo, não é escapismo. E encontro. Destes encontros vêm a vitória de Deus contra o mal em mim, e no meu mundo. O mistério do Evangelho.

17 de agosto de 2012

Quem é o vencedor? Quem é o vencido? "Cristianismo" x Cristianismo

Certo dia, quando íamos para o lugar de oração, veio ao nosso encontro uma jovem escrava que tinha um “espírito de Píton”; ela dava para seus patrões muito lucro, emitindo oráculos. Começou a seguir-nos, a Paulo e a nós, clamando: 'estes homens são servos do Deus Altíssmo, vos anunciam um caminho de salvação'. Isto ela o fez por vários dias. Fatigado com aquilo, Paulo voltou-se para o espírito, dizendo: 'Em nome de Jesus Cristo, ordeno que te retires dela!' E na mesma hora o espírito saiu.
Vendo seus patrões desaparecer a esperança de seus lucros, agarraram Paulo e Silas e os arrastaram até a praça pública – a Ágora -, à presença dos magistrados. Apresentando-os aos estrategos, disseram: ' Estes homens estão perturbando nossa cidade; são judeus e anunciam costumes que não nos é lícito acolher nem praticar, nós que somos romanos”. Amotinando a multidão contra eles, os estrategos depois de mandarem arrancar-lhes as vestes, ordenaram que fossem espancados com varas. Depois de lhes infligirem muitos golpes, lançaram-nos à prisão, recomendando ao carcereiro que os vigiasse com cuidado.
Atos 16, 16-23




Tem ficado cada vez mais escancarado o quanto muitos manipulam a fé cristã, não se contentando em apenas tratá-a como simples mercadoria, mas como uma ferramenta de dominação psico-econômica. Pisa-se e ataca-se os sofrimentos, angústias, aspirações das pessoas, enquanto lhes transformam em nacos de uma massa de um bolo de estelionato. “Apóstolos” e congêneres arrogam ter um poder especial sobre forças espirituais que os atendem e podem produzir milagres em massa para solucionar os problemas, em troca requerem poder na engrenagem econômica de um sistema de lógica exploradora. Por outro lado, as pessoas se submetem a esquemas mesquinhos, justificam-lhes, caçam jargões para os justificar. Em nome de serem “bem-estabelecidas” no mesmo sistema. E o cristianismo é instrumentalizado pelas forças as quais nasceu se opondo.

Tomemos um episódio especial dos registros das origens cristãs que iluminam como a lógica essencial da fé cristã é diametralmente oposta a estes apelos estelionatários, como na verdade nasceu com um norte subversivo e julgado extremamente perigoso para o “caldo religioso” do sistema.

O cenário para essa narrativa é cuidadosamente preparado por Lucas para apresentar o contexto maior na aproximação e primeiros contatos com a fé cristã emergente e o sistema religioso do Império ( que seja mais apropriado focar o sistema religioso do Império, ao invés de ser as religiões em si, veremos adiante como se justifica).

Nessa narrativa, o escritor não nomeia a mulher, como o faz com as mulheres de suas narrativas habituais. Pois ela não fala por si mesma. Ela tinha um “espírito de Píton”, a serpente mitológica que nas tradições em torno do Oráculo de Delfos, fora derrotada pelo deus Apolo (conforme transmitido pelos escritores Ésquilo e Plutarco). Píton e todo o seu sistema cultual a controla para dar lucro aos seus senhores. Ela é um canal do mecanismo de acumulação deles, um instrumento e objeto de tal. E isto lhe roubara a identidade.

A tradição remontada ao Oráculo de Delfos o aponta como um centro religioso em que se buscava respostas e soluções práticas para as vicissitudes da vida com augúrios. Se contava com o bom agouro da profecia, palavras garantindo que tudo vai dar certo; cumprindo-se protocolos para agradar ao deus, esperava-se que fosse garantida mais estabilidade, previsibilidade e segurança para a existência. “Ora Apolo intervém sob a forma corporal do próprio deus, ora concede ao espírito de algumas criaturas humanas conhecer a sua própria vontade” (Plutarco, “Sobre o desaparecimento dos oráculos”, IX, 26). O oráculo interpretava a ordem do mundo e o sistema religioso ofertava uma relação em que a pessoa trabalhava em cima de supostos mecanismos de regência da “ordem” do mundo. E utilizava-o às suas conveniências.

A escrava “vende” o produto de seus patrões aos seus clientes, e aqueles ficam com os frutos. A questão monetária é mencionada cedo com sutil ênfase por Lucas. Primeiramente o mercadológico, enfatizando que a dimensão religiosa é eminentemente funcional para aquele.

A primeira vista pareceria que os missionários poderiam se servir deste sistema econômicorreligioso. Parece que ela estava sendo arauto deles. Mas não. Os proclamando como servidores do “Deus Altíssimo”, seria naquele ambiente como dizer que eram também alguém parte deste sistema, em nome de “Zeus-Hyposistos”, o Deus Altíssimo cultuado em diversos lugares, e seria uma evocação de uma fórmula mágica; soaria como “são dos nossos”. A ação deles que ela designa, como anunciando caminho de salvação, estaria embebida perfeitamente nas apresentações de iniciações de cultos esotéricos. Eles poderiam ter tirado proveito, de maneira utilitária, de um sistema bem firmado e sucedido.

Mas não; rejeitam a lógica. Peremptoriamente deslegitimam que sua missão se utilize desta forma de exploração religiosa. A divindade que anunciam não é inofensiva. O caminho até ela não é inofensivo para o sistema. Toleram por dias a repetição e dão a compreender que não chegam a priori com uma guerra aberta. Mas não dão corda. Não têm parte.

Paulo confrontara não a escrava, a parte mais frágil do elo, mas a própria força da cadeia de dominação. E sua espiritualidade se manifesta gratuitamente, diretamente em propiciar, primeiro como consequência, que a escrava seja ela mesma. E a “fraqueza” vencera a “força”. Não se conta que ela seguira os cristãos. Mas ela não era mais dominada, nem pelo sistema, nem pelos patrões. Teria sua liberdade interior. Mostraram o que para eles era seria “salvação”. O poder espiritual deles sobre ela não tinha mais eficácia. O sistema havia sido confrontado por uma contra-cultura.

E o que era “estes homens são servidores do Deus Altíssimo” na boca da “propriedade” dos patrões, passa a ser “ estes homens estão perturbando”; o que era “eles vos anunciam um caminho de salvação” passa a ser “anunciam costumes [ ethos – modo de ser e viver] que não são lícitos a nós”. Ameaçou-se seu “orgulho nacional”. Os senhores viram que findara a “esperança de seus lucros”. A vida da escrava não contava. Nem mesmo a divindade e a religião em si não era o centro. Eram apenas o que lhes propiciavam lucros.

E o grande sinal: apresentaram os missionários aos magistrados, acusando-lhes do ponto mais nevrálgico do que tinha se passado: desestabilizar a ordem. Poderiam ter frisado a questão econômica, dentro do que as leis versavam. A “Lei Aquileia” versava sobre danos à atividade econômica, pedindo contas à justiça; a “Lei das Doze Tábuas” falava do emprego de forças sobrenaturais para causar prejuízo à propriedade de alguém (o que um escravo era naquele regime). Mas vão além, ao mais básico, ao mais radical, ao mais profundo: a subversão. E o perigo do “proselitismo” era que isso pudesse contaminar a população e se espalhar. O status quo da organização econômica estaria em perigo. Não era apenas um caso de relações privadas, mas um fato político. As estruturas estavam em perigo. Este era o poder do nome de Cristo.

O que poderia ser uma exposição para alimentar um chauvinismo religioso aqui, muda de figura quando se convoca à reflexão: o “rosto” predominante da apresentação dos discursos dotados de símbolos cristãos hoje, na sociedade, incorporam que lado? As mega-igrejas e as instituições econômicas de cobertura religiosa cristã têm hoje tomado o papel do sistema aí representado envolvendo o Oráculo e o Espírito de Píton, com seus senhores, escravos, clientes querendo garantias contra os riscos da vida. E reproduzem o caráter social, a canalização de nossa energia e vontade para uma lógica dada, bem como o apelo simbólico fetichista, do nosso sistema econômico. As pessoas sacrificam sua integridade, sua auto-expressão, e os “manipuladores do discurso divino” se alimentam de suas carências e medos. Mudaram apenas os nomes dos símbolos, mas os códigos subjacentes permanecem. Irônica e tragicamente. E sempre a mesma prontidão contra os mesmos que ousarem fazer o que os missionários fizeram, deixando os “escravos” emancipados do controle de sua alma. Deve-se ter cuidado com estes.

Lembrando o poeta Horácio, “os vencidos conquistaram os vencedores” ?

1 de agosto de 2012

Acontece em Goiânia


25 de julho de 2012

Em honra de São Tiago, o Menor, Apóstolo de Jesus Cristo

Naqueles dias, alguns profetas desceram de Jerusalém a Antioquia. Apresentou-se um deles, chamado Ágabo, o qual começou a anunciar, por meio do Espírito, que estava pra vir uma grande fome sobre toda a terra. E ela de fato veio, no reinado de Cláudio. Decidiram então os discípulos, cada um segundo suas posses, enviar contribuições em ajuda aos irmãos que moravam na Judeia. Eles de fato o fizeram, enviando-as aos anciãos por intermédio de Barnabé e de Saulo. Nessa mesma ocasião o rei Herodes começou a tomar medidas visando a maltratar alguns membros da Igreja. Assim, mandou matar a espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isto agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Era no dia dos Pães Sem Fermento.
Atos 11,27-12,3.


Vinte e cinco de Julho é no calendário litúrgico da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil data de celebração à honra e memória de São Tiago, o apóstolo. Ele fora um dos Doze dos círculo de discípulos de maior incumbência por parte de Jesus, simbolizando a restauração da nação israelita. Irmão do apóstolo João, filhos de Zebedeu, ganharam de Jesus o apelido de “Boanerges”, “Filhos do Trovão”.

Efetivamente no período relatado no trecho de Atos, houvera uma grande fome; o território da Judeia foi especialmente afetado. Vimos aí uma das primeiras características da continuidade do movimento idealizado por Jesus, quando pessoas de outras nações, povos, países, promovem coletas para ajudar os mais vulneráveis. E os líderes, os Anciãos/Presbíteros, cumprindo a função de servirem na organização dos suprimentos recebidos.

Chegamos à morte de Tiago; o Herodes mencionado ali, Antipas I, era o filho e cunhado de Herodes Magno, meio-irmão do Herodes Antipas, personagem importante nos evangelhos. Ele se unira ao partido do maníaco Gaio Calígula em Roma, se tornando quando da entronização deste como imperador, oficialmente “rei dos judeus” em cerca de 37 d.C. Era uma figura carismática muito influente na população, frequentava o Templo.

Nas mãos deste, o primeiro grande martírio cristão. Vemos aí uma figura recorrente na história e no período contemporâneo: uma liderança despótica com poder de sedução nas massas, que apela para e explora seus símbolos e elementos de aglutinação cultural (frequentemente religioso), e que assim se julga acima do bem e do mal. Insaciável.

Então, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e, prostrando-se, fez-lhe um pedido.
"O que você quer? ", perguntou ele. Ela respondeu: "Declara que no teu Reino estes meus dois filhos se assentarão um à tua direita e o outro à tua esquerda".
Disse-lhes Jesus: "Vocês não sabem o que estão pedindo. Podem vocês beber o cálice que eu vou beber? " "Podemos", responderam eles.
Jesus lhes disse: "Certamente vocês beberão do meu cálice; mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim conceder. Esses lugares pertencem àqueles para quem foram preparados por meu Pai".
Quando os outros dez ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos.
Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas.
Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;
como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos".
 Mateus 20:20-28


No trecho do Evangelho segundo a tradição de São Mateus, vemos algo nada honroso por parte dos irmãos; na vergonha do que estavam fazendo, tentaram usar sua mãe para “amolecer” Jesus e fazê-lo considerar seus pedidos de lhes conferir o domínio ao seu lado. Possivelmente entenderam o “cálice” a que Jesus se referia como o símbolo de glória dos cálices dos reis; mas Jesus empregava um recurso de linguagem próprio dos profetas, como em Isaiás 51,17, que era cálice de um sofrimento que se recai. E ele antevera que recairia sobre eles também...

Adviera grande celeuma entre os discípulos; com razão, os outros dez se sentiram ultrajados com a atitude de Tiago e João. Jesus então agiu como Mestre, chamando a todos e subvertendo completamente suas noções de poder, o que tornaria a discussão vã. Redefine o poder como capacidade e possibilidade de servir. E a honradez como a disposição e préstimo em servir. Evoca mesmo a figura do Filho do Homem para si, que era uma lenda entre os judeus sobre alguém que viria julgar o mundo, fazer justiça aos fiéis de Deus e restabelecer a nação israelita. Observe sua raiz:

Eu continuava contemplando, em minhas visões noturnas, quando notei, vindo sobre as nuvens do céu, um como Filho do Homem. Ele adiantou-se até ao Ancião de Dias e foi introduzido em sua presença. A ele foi outorgado o poder, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram.
Daniel 7,13-14

Jesus então empregou uma frase de forte altissonância para impactar seus seguidores, evertendo suas compreensões tradicionais. A lição ficara marcada no início de seu movimento, ficara marcada no apóstolo Tiago.


Oração para o dia de São Tiago, o Menor, Apóstolo de Jesus Cristo, no Livro de Oração Comum:
Senhor Deus, o teu apóstolo Tiago consentiu em deixar seu pai e tudo o que possuía e ainda em sofrer pelo nome do teu Filho; ajuda-nos misericordioso para que nenhuns laços terrenos nos afastem do teu serviço. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

11 de julho de 2012

Nem alforje, nem dinheiro ao cinto

E ele percorria os povoados circunvizinhos, ensinando. Chamou a si os Doze e começou a enviá-los dois a dois. E deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. Recomendou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado apenas; nem pão, nem alforje, nem dinheiro ao cinto. Mas que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E dizia-lhes: “Onde quer que entreis numa casa, nela permanecei até vos retirardes do lugar. E se algum lugar não vos receber nem vos quiser ouvir ao partirdes de lá, sacudi o pó de debaixo dos vossos pés em testemunho contra eles”. Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo.


Diferente de muitos líderes carismáticos e formadores de grupos religiosos, Jesus não parecia ter um ministério marcado por um apelo a se apartar da sociedade e da vida do povo; parecia se envolver e adentrar nas comunidades e relacionar sua mensagem com a vida delas.

O cenário retratado pelo evangelista Marcos acentua isto bastante. Ele situa essa passagem logo após narrar a rejeição do Mestre em sua região. Ainda assim, não sucumbe à tendência de dar, a partir disso, um direcionamento à sua proclamação para um sentido de apartamento do mundo social dos aldeões... antes ele permanece percorrendo e ministrando nos povoados, e a atribuição aos seus discípulos para fazer o mesmo, no mesmo caráter.

Os Doze. Jesus não selecionou doze discípulos priores à toa; sem dúvida passava o entendimento de remontar ao povo de Israel unido; ao Israel idealizado; remetiam às doze tribos das origens do povo de seu Deus. Mas a ênfase de Jesus não seria a nostalgia do passado; mas à perspectiva do futuro, à restauração do povo, restauração com a terra, restauração consigo mesmos, restauração com Deus.

E muito importante quando Marcos coloca que a estes Doze ele lhes outorgou poder. A questão passa a ser como ele lhes incumbira de exercer este poder...

Primeiramente, são chamados a associarem sua missão com a vida as comunidades, e não se apartarem num tipo de “esnobismo espiritual” delas. Também, são chamados a se despojarem e dependerem totalmente de Deus.

Não tinham reservas de sustento: não levavam suprimentos, não podiam usa a comum túnica sobre-capa, a qual era cusual como cobertor, colcha de cama, na falta de pousada para a noite. Apenas uma túnca. Tinham que contar que Deus iria providenciar. Não poderiam mendigar, não usando as bolsas que os mendigos usavam. Aceitar o pouso que lhes oferecessem, a comida que lhes dessem, sem ter a opção de migrarem para as casas mais confortáveis nos povoados caso lhes oferecessem no decorrer da estadia. E em caso de rejeição, deixarem a causa por conta de Deus, para ele acertar as contas com as pessoas, não levando consigo a mágoa e rancor...sacudir a poeira e deixar as pessoas com suas responsabilidades.

Marcos, diferente de Mateus 10.9, diz que os discípulos poderiam usar um bordão. Talvez porque a combinação deste com as sandálias remetesse à imagem do êxodo do Egito – Ex. 12.11 – ou porque Mateus os quis diferenciar de outros grupos de pregadores itinerantes.

Marcos chama a nossa atenção para a associação entre a mensagem de arrependimento com a expulsão dos demônios e cura. É como se quisesse mostrar que para o caráter da missão de Jesus, estavam mesmo interligados. O arrependimento, a restauração, a derrota do mal e o sanar. Realmente, causamos muitos males a nós mesmos, de cunho psicológico e físico, com nossas culpas que carregamos; também com as ações más, que reverte-se em nós, ou que deformam nossa imagem e semelhança de Deus. Quebramos nossas resistências e tendemos a entrar numa espiral viciosa de degradação interior ou exterior, que não se retrai; apenas pode ser quebrada; este é o papel da confissão e do arrependimento.

Marcos continua nos conduzindo a esta apresentação do comissionamento de Cristo. Nos transporta a seguir para um cenário contrastante, com o fausto e perversão da corte herodiana, e dela para a morte de João Batista, como que indicar realmente que este discipulado tem um preço, e que não é algo, digamos, “romântico”, mas um embate mortífero com as forças contrárias...