26 de dezembro de 2011

Nascer novamente...

Convido os leitores de Cristianismo, meramente a um passeio sobre um recorte em uma passagem importantíssima no Evangelho de Jesus, com grande impacto e significado para a fé e para a compreensão do chamado cristão: o diálogo com Nicodemos, no Evangelho de João. Nosso comentário aqui delimita-se no recorte, no capítulo 3, entre os versos 1 a 11.

Nicodemos chega falando em nome de algum círculo próximo de pessoas que destoavam das proeminentes lideranças de Jerusalém. Comentavam entre si que as virtudes de Jesus apontavam para ter sido alguém realmente comissionado da parte de Deus. Não compartilhava o veredito de muitos de que Jesus seria da parte do Maligno, ou um carismático charlatão arrastando o povo para a temeridade pura.

Nicodemos chegara à noite; horário propício para não chamar a atenção, e um horário mais comum para os estudos dos mestres religiosos judaicos, sendo que estariam “de folga” do serviço. Isto em si não o afetaria, pois é sinalizado que seria uma pessoa rica. João aproveita para trabalhar no seu característico simbolismo noite/dia luz/trevas.

Ele chega, na autoridade destas pessoas proeminentes, repassando seu reconhecimento a Jesus, implicando que lhe imputava apreço. Nada muito elevado aí. Nenhuma confissão de se estar disposto a ser um seguidor. Seria algo como um “homem justo”, que tinha um bom relacionamento com Deus e a aprovação deste. A partir daí, “passa a bola” para Jesus poder se explicar ou retribuir a cortesia.

Contudo, não é por aí a atitude e resposta de Jesus. Jesus responde com um desafio à Nicodemos. Decerto, podemos ver aí um padrão, compartilhado com os evangelhos sinóticos.

Como em Lucas 18, 18-30, no encontro com o Jovem Rico ( se ele tão piedoso como se apresentou, porque não rendeu um louvor a Deus por Jesus ao invés de lhe atribuir a bondade?) O escandaloso dito “deixai os mortos enterrarem seus próprios mortos”, em Mateus, 8.22 ; o dito sobre as raposas, aves e o Filho do Homem, em Lucas 9, 58; a passagem sobre a mão no arado, em Lucas 9, 61-62. O encontro com a mulher siro-fenícia, em Mateus 15,21-28 ( o chamado “Filho de Davi” não era alguém esperado a expulsar os estrangeiros da terra?) . Em todos estes, o padrão é delineado e atestado: alguém chega a Jesus de forma lisonjeira, aparentemente (mas não necessariamente) bajulando; ele desafia ou põe a teste a pessoa, até mesmo repelindo-a de forma a parecer que quer ser evitado, nos termos com que ela o busca.

Então, um grande choque é dado em Nicodemos. Jesus responde com uma declaração desafiadora. Os sinais que realizava não eram meramente para mostrar que Deus estava com ele, como a um mestre virtuoso. Mas demonstravam a chegada do próprio Reinado de Deus!!!

Eram os tempos da promessa, o culminar da expectativa da esperança de Israel, irrompendo nos sinais de Jesus. “O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o Seu nome” - expectativa gerada à luz da passagem do livro profeta Zacarias 14,9.

Mas para o ver, era necessário nascer de novo! Isto claramente dizendo que se aplica a Nicodemos e seu círculo; não o viam porque necessitavam de um novo nascimento. Costumavam dizer que os gentios que aderiam à fé judaica e se incluíam na família dessa fé eram novos nascidos, como crianças a ingressar numa nova família. João pode estar fazendo um jogo de palavras, num artifício literário que gosta muito de empregar, explorando a ambigüidade do termo grego anothen. Pode significar “de novo” e “do alto”, assim servindo para apontar diretamente como “da parte de Deus”. Mas é quase improvável que este diálogo se desse neste idioma. De fato em Jerusalém não era incomum pessoas serem bilíngües, no aramaico e grego, ou mesmo trilingues com o hebraico. Isso é seguro para alguém com o status social de Nicodemos. Jesus, sendo um marceneiro ou pedreiro, proveniente de Nazaré que distanciava relativamente muito próximo ao efeverscente centro urbano cosmopolita em construção de Séforis, na Galiléia, com muita demanda para seus serviços, devia sim conseguir se comunicar, pelo menos basicamente, em grego. Seu interesse no estudo profundo das Escrituras o habilitara no hebraico. Mas não fazia sentido ali dois judeus conversarem assuntos religiosos em grego. O normal é conversarem em aramaico, e é o mais provável. E neste idioma, não há termo passivo deste duplo sentido. Como no desenrolar do diálogo então, podemos concluir que Jesus realmente disse “nascer de novo”.

Nicodemos precisava de conversão? Nãao, não seria possível que este pregador, Jesus, estivesse agora tendo realmente alcance de suas palavras, não estava sabendo o que dizia... era um homem da sociedade, de ambientes dos mais respeitados e afamados, reconhecido piedoso, de posição e reputação ilibados. Sua resposta foi irônica, como se explicitando que o que Jesus falou não poderia ser sério; de forma irônica, “fez-se de desentendido” como que apontando que o que Jesus falou era tão absurdo que a insensatez do sentido de sua pergunta ainda teria um sentido mais óbvio. Aquilo não podia ter sido para ele.

Jesus então reforça ainda mais o poder surpreendente de suas palavras anteriores, evocando tons mais potentes. Estava sim, falando do cumprimento das promessas de Deus, e interpelando Nicodemos. Nascer da água e do Espírito... para um Novo Tempo, Deus estaria preparando uma Nova Geração, gerando novos filhos e inaugurando uma Nova Aliança. Cumpriam-se as Escrituras e ali vicejava o Plano Redentor de Deus.

Assim diz Yahweh, Aquele que te fez,
Que te modelou desde o ventre materno e que te sustenta.
Não temas, Jacó, meu servo,
O Reerguido, a quem escolhi,
Porque derramarei água sobre o solo sedento
E torrentes sobre a terra seca.
Derramarei o meu Espírito sobre a tua descendência
E a minha bênção sobre os teus rebentos.
Do livro do Profeta Isaías, 44, 2-3.

Farei sobre vós uma aspersão de água pura e ficareis puros; sim, eu vos purificarei de todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos. Eu vos darei um coração novo e porei no vosso íntimo um Espírito novo, tirarei do vosso peito um coração de pedra e vos darei um coração de carne. Infundirei em vós o meu Espírito e farei com que andeis segundo meus estatutos, guardar minhas normas e as pratiqueis. 
Do livro do Profeta Ezequiel, 36, 25-27.

Jesus é representando em João se expressando de maneira diferente do que predomina nos evangelhos sinóticos. Mas há um ponto de contato marcante: como trabalha em cima das imagens fortes do que é circundante e cotidiano dos seus ouvintes. Nos sinóticos predomina o ambiente rural da Galiléia. Em João, muito diferentemente o ambiente de Jerusalém e adjacências, com outro cenário, paisagem, geografia humana, perfil da audiência, e no contexto de seu ministério é forçado a se entender que o que lhe instigava nas interações, discursos e discussões seria bem diferente dos motivos na Galiléia. E um exemplo crasso é o apelo constante às imagens da água e pureza.

Por ser a sede do Templo e referência cultual judaica, em Jerusalém havia uma notória preocupação com arranjos para propiciar práticas de purificação ritual, em hebraico, a tohara. Haviam diversas estruturas para abrigar água conhecidas genericamente como miqwa'ot ( do singular miqweh). Eram visados sobretudo pessoas impedidas de entrar na parte interna do Templo devido a defeitos físicos. Outra grande preocupação era conseguir que a água pudesse fluir dado o decorrente acúmulo de sujeiras e assim, pudesse a manter "pura" (havendo também pequenas estruturas para lavagens de partes do corpo como pés e mão, não incluindo aí as pequenas instalações que eram costumeiras para unção ritual dos pés com óleo).

Passa Jesus então a dizer que era para Nicodemos não ficar admirado dele ter dito aquilo antes. Porque o dom de discernir o fenômeno que estava se processando na história não era um dom que se adquire com esforço humano, não é resultado das circunstâncias terrenas dadas, mas deve advir de Deus; isto com o nascimento do Espírito. As convenções sociais não podem domar esta ação do Espírito, e ela se manifesta entre as pessoas rompendo com os com as grandes destes status quo. Esta ação do divino no humano não é acrisolada pelos mecanismos culturais de controle. Faz lembrar a feliz afirmação de Rubem Alves: Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar...
em "Sobre deuses e caquis", prefácio a "Da esperança", editora Papirus.

Nicodemos agora foi desarmado; sua pergunta demonstra o quanto ficou atônito. Não era isto o que esperava ao visitar Jesus. Tudo aquilo era um espanto para ele! Como tudo isto pode se suceder ????

Então Jesus reporta que ele, como mestre religioso reconhecido em Israel, deveria saber do que Jesus estava falando, se de fato ele estava a altura do posto ao qual era atribuído, deveria então estar compreendendo. O que mostra que o reluzir deste ensino então tem que advir da própria realidade de Deus, em contraste com as limitações das proveniências meramente culturais do círculo em nome do qual Nicodemos viera. Em contraste com tal, era este o círculo e o ambiente de Jesus: a esfera de Deus.


26 de novembro de 2011

A Fraqueza - de Paulo e nossa

por Richard Bauckham

A carta de 2 Coríntios por muito tempo pareceu-me um dos documentos mais impressionantes do cristianismo primitivo. Quando eu preciso me lembrar que a mensagem cristã é convincente - ainda convincente hoje, apesar de nossas grandes distância cultural e cronológica de suas cronológica no primeiro século- dirijo-me tão prontamente a 2 Coríntios como eu faço com os evangelhos, e não lembro de não ficar impressionado. A chave para isto tão impressivo que eu encontro em 2 Coríntios nos dá uma visão sobre a maneira como Paulo integrou sua mensagem e sua vida.

Notável como as exposições de Paulo de sua mensagem são, em Romanos e Gálatas, encontro-me a necessidade também de ver, em 2 Coríntios, como Paulo viveu essa mensagem. Um leitor crítico de Paulo pode se perguntar se uma mensagem como exclusivamente concentrada na morte e ressurreição de Jesus tal qual o evangelho de Paulo foi, realmente pode ter o poder de interpretar e dirigir experiência de um homem real em uma forma de vida em crescimento. 2 Coríntios mostra como no exemplo do próprio Paulo o fez.

Notável como as exposições de Paulo de sua mensagem são, em Romanos e Gálatas, encontro-me a necessidade também de ver, em 2 Coríntios, como Paulo viveu essa mensagem. Um leitor crítico de Paulo pode se perguntar se uma mensagem como exclusivamente concentrada na morte e ressurreição de Jesus tal qual o evangelho de Paulo foi, realmente pode ter o poder de interpretar e dirigir experiência de um homem real em uma forma de vida em crescimento. 2 Coríntios mostra como no exemplo do próprio Paulo o fez.
Dizer que a reflexão autobiográfica de Paulo em 2 Coríntios é impressionante pode ser um pouco paradoxal, porque a obsessão de Paulo nesta carta é com a forma como ele é inexpressivo, ou pelo menos com o fato de que a única coisa impressionante sobre ele é a sua fraqueza. Nesta apologia divagadora para sua vida e obra como um apóstolo, a fraqueza de Paulo é o tema recorrente. No capítulo 4, por exemplo, Paulo escreve sobre a glória de Deus revelada no evangelho e de sua própria chamada para ser ministro desse evangelho, quando a glória de Deus em Cristo brilhou em seu coração (4, 6). Mas o pensamento da glória e do poder do Evangelho que lhe foi confiado imediatamente, ao contrário, sugere o pensamento de sua própria fragilidade: "Temos este tesouro em vasos de barro» (4, 7).

A panela de barro é tanto uma forma muito comum e um recipiente muito frágil para o tesouro. O que torna esse tema de fraqueza do apóstolo tão envolvente e intrigante é que Paulo está pelo menos pedindo desculpas para ele ou mencionando-o apenas por uma questão de honestidade. Nos capítulos 11-12 (com ironia deliberada, é claro) Paul se orgulha de que, como precisamente a qualificação que valida a sua pretensão de ser um apóstolo de Cristo. Ele cataloga seus sofrimentos (11: 23-33), não como provações heróicas, mas como evidência de como o seu ministério foi marcado pela fragilidade física e psicológica de um ser humano comum, terminando o catálogo com uma memória vívida da ocasião ignominiosa quando ele teve que fugir para salvar sua vida a partir de Damasco, a ser baixado em uma cesta da muralha da cidade (11: 32-33).

Esta fraqueza de Paulo foi a ocasião para o poder de Deus para ser ativo e evidente em seu ministério: "Temos este tesouro em vasos de barro, para mostrar que o poder transcendente pertence a Deus e não para nós» (4, 7); Eu estarei ainda mais contente de me orgulhar de minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim "(12: 9). O poder de Deus evidente no ministério de Paulo, sobretudo no efeito transformador do Evangelho que ele pregava, podia ser visto não haver realização meramente humana de Paulo, mas o poder divino que encontrou sua oportunidade na fraqueza de Paulo. Em sua fraqueza Paulo foi obrigado a confiar em Deus e seus convertidos a reconhecer Deus.

Alguns leitores modernos podem começar a se sentir desconfortáveis com esse tema paulino de fraqueza do apóstolo e do poder de Deus. Alguém pode lembrar famosa passagem de Bonhoeffer sobre a religião que explora a fraqueza humana

Pessoas religiosas falam de Deus, quando o conhecimento humano ... Chegou ao fim, ou quando os recursos humanos falham - na verdade é sempre o deus ex machina que eles trazem para a cena, seja para a solução aparente de problemas insolúveis, ou como força em falha humana - sempre, isto é, dizer, explorando a fraqueza humana ou limites humanos .... Gostaria de falar de Deus não nos limites, mas no centro, e não nas fraquezas, mas em força. [1]

Que pode, à primeira vista, parecer uma rejeição direta da idéia de Paulo. É o Deus de Paulo para ser encontrado apenas no final ose recursos humanos, quando a força humana se esgota?

Ou pode-se pensar que Paulo é vítima da crítica incisiva de Dorothee Soelle do masoquismo (como ela chama), a atitude que exige disposição de sofrer porque o sofrimento demonstra a impotência humana em contraste com a onipotência de Deus.

"O sofrimento está lá para quebrar o nosso orgulho, demonstrar a nossa impotência, explorar a nossa dependência. Aflição tem a intenção de nos trazer de volta a um Deus que só se torna grande quando ele nos faz pequenos."[2]

O Deus de Paulo é o Deus que só pode ser exaltado em detrimento do homem?

Tais questões devem ser tidas em mente e podem nos ajudar a evitar mal-entendidos sobre Paulo, mas como críticas de Paulo elas perdem o seu ponto. Em primeiro lugar, quando Paulo reflete sobre sua fraqueza, ele está sendo sobriamente realista. Em sua dedicação à sua tarefa missionária, Paulo dirigiu-se constantemente aos limites da sua resistência física e psicológica. Como ele teria colocado, o amor de Cristo impelindo-lhe (5: 14), levou-lhe a esses limites. Seu trabalho missionário fora, literalmente, o matando (4: 10-12).
Recursos humanos têm seus limites e Paul descobriu-lhes, não porque ele buscou a Deus somente lá ou porque ele abraçou sofrimento masoquista para demonstrar sua impotência, mas simplesmente porque as exigências de sua missão apostólica levaram-no a esses limites. Dos perigos da viagem antiga, os perigos da perseguição, a ansiedade e a depressão incorridos por suas responsabilidades pastorais, Paulo aprendeu que, quando Deus equipou-o para o seu ministério apostólico ele não transformou-lhe em algum tipo de super-homem ou anjo, imune ao perigo, intocado pelo cansaço ou stress.

Pelo contrário, precisamente o seu ministério apostólico fez as suas normais, limitadas capacidades humanas manifestas para que todos possam ver. No entanto, Paulo descobriu que tal fraqueza não era afinal um impedimento para o seu ministério: de alguma forma (e pode muito bem ter parecido estranho para ele em primeiro lugar) o poder do evangelho se tornou ainda mais evidente e eficaz. Não há nada de vergonhoso quanto a Paulo reconhecer isto. Ele não tem que fingir ser um verme miserável, a fim de deixar Deus ser Deus. Ele simplesmente vê que ele é humano, e não sobre-humano, e não precisa sair de sua fraqueza humana, a fim de ser apóstolo de Cristo.

O avanço teológico de Paulo em 2 Coríntios era entender essa fraqueza do portador do evangelho em relação ao conteúdo do evangelho. Se a ação salvífica definitiva de Deus ocorreu através da fraqueza do Jesus crucificado, então não deve ser nenhuma surpresa que o evangelho salvador de Jesus crucificado deve alcançar os gentios por causa da fraqueza de seu apóstolo. E assim como o Jesus crucificado provou, através de sua ressurreição, ser o poder de Deus para a salvação, então a fraqueza do apóstolo é, como o seu reverso, o poder eficaz de Deus para a salvação através de seu ministério.

Paulo encontrou o padrão da cruz e ressurreição de Jesus - a vida e a morte, fraqueza e poder -refletido no seu próprio ministério e é usado como chave para a sua própria experiência. Se ele experimentou a morte de Jesus na sua fragilidade e sofrimentos (1: 5, 4: 10-12), ele também encontrou em cada escapar da morte, todo o encorajamento após a ansiedade e a depressão, a cada conversões feitas no meio da perseguição, uma participação na ressurreição de Cristo, a habilidade de Deus para trazer vida da morte (cf. 1: 5, 9-10; 4: 10-12).

Tais experiências não foram livramentos necessariamente dramáticos ou milagrosos, como a fuga da morte para a qual 1: 9-10 refere-se, mas eram frequentemente eventos relativamente comuns. Um exemplo que Paulo dá é a chegada de Tito, após um atraso preocupante, com a boa notícia de forma inesperada sobre assuntos da igreja em Corinto (7: 5-7; nota os ecos da língua de 1: 3-7). Em 4: 8-9 Paulo dá uma lista retórica de aspectos de 'crus' e 'ressurreição' de sua experiência:

Nós somos afligidos de toda forma, mas não esmagados;

Perplexados, mas não entregues à desesperança

Perseguidos, mas não abandonados;
Assaltados, mas não destruídos.



O segundo membro de cada par aqui parece notavelmente suavizado: basta apontar o negativo que a fraqueza de Paulo ainda não tinha posto um fim ao seu ministério. As exigências que seu ministério tinham quase foram demais para ele, mas, pela graça de Deus, não é bem assim.

Assim, a experiência de Paulo pode muitas vezes parecer exteriormente normal. Mas porque ele vê a morte e ressurreição de Jesus como a chave para sua vida, como a tudo mais, ele pode encontrar lá um padrão que faz todo o sentido cristão da sua experiência. Para com a forma que todo mundo precisa dar a sua experiência, a fim de entendê-la, Paulo encontrou na cruz e na ressurreição de Jesus. Este padrão, no entanto,era mais do que uma interpretação da experiência: ela também fez a experiência que era para Paulo.

Todos os altos e baixos de seu ministério foram para as experiências de Paulo de Deus, eventos em que ele vivenciou uma identificação com Jesus em sua morte e ressurreição: "sempre carregando no corpo a morte de Jesus, para que a vida de Jesus também possa ser manifestada em nossos corpos "(4, 10).

Para se identificar com a experiência de Paulo, não se precisa ser náufrago ou preso ou abaixado em uma cesta de um muro da cidade. Mesmo sem os perigos físicos da carreira de Paulo, quem se lança a obra do ministério cristão de qualquer tipo com metade da dedicação de Paulo vai experimentar a fraqueza da qual Paulo fala: os tempos em que os problemas parecem insolúveis, os tempos de cansaço do pura excesso de trabalho, os tempos de depressão quando parece haver nenhum resultado, a depressão quando parece haver nenhum resultado, a exaustão emocional, que a preocupação pastoral pode trazer - em suma,todos os momentos em que o ministro cristão ou trabalhador sabe que tem esticado até os limites de suas capacidades para uma tarefaque é quase, mas pela graça de Deus não é bem assim, demais para ele.

Qualquer pessoa que conhece apenas a sua força, não sua fraqueza, nunca se entregou a uma tarefa que exige tudo o que ele pode dar. Não há como evitar essa fraqueza, e devemos aprender a suspeitar desses modelos da vida humana que tentar evitá-la. Nós não devemos ser tomados pelo ideal do super-homem carismático para quem o Espírito Santo é uma fonte constante de força sobre-humana.

Nem devemos cair para o ideal do super-homem moderno secular: o homem que organiza toda a sua vida com o objetivo de manter sua própria integridade física e bem-estar mental, que mantém a impressão de força, porque ele mantém a sua vida bem dentro dos limites do que ele pode facilmente lidar. Um tal homem nunca é fraco, porque ele nunca é afetado, posto em causa, envolvidos ou comprometidos além de um limite seguro com cautela. Que não era o ideal, nem Jesus, nem da vida de Paulo. Ser controlado pelo amor de Cristo significa, inevitavelmente, atingir o limite de habilidades e uma fraqueza experiência.

Claro, eu não estou sugerindo que o ministro cristão não deva tomar precauções sensatas contra excesso de trabalho ou as medidas razoáveis para manter sua saúde física e mental. Nem estou sugerindo que ele não deve fazer o seu melhor para ser eficiente em seu trabalho. Ele deve isso ao seu Senhor a fazê-lo. Mas uma perspectiva paulina sobre serviço cristão leva-nos ainda mais do que isso. O ministro cristão deve ser sensível, mas acima de tudo ele deve ser sincero. Ele deve tentar ser eficiente, mas mesmo quando sua eficiência se esgota a eficácia do seu ministério não precisa fazê-lo. Sua eficiência pode realmente, por vezes, precisar esgotar-se por necessidade, não por negligência - se o poder de Cristo é para provar eficaz em seu ministério.

Que a vida do ministro cristão deve corresponder a sua mensagem é um pensamento bastante comum. Mas o conteúdo que Paulo dá a ele não é tão comum. Para Paulo a fraqueza do ministro cristão não é o ponto em que ele está falhando, mas o ponto onde a integração mais profunda de sua vida e sua mensagem é possível. Se ele pode responder a Deus naquele momento em sua experiência como Paulo fez, então ele vai ser para ele uma experiência de Jesus Cristo, e para o seu ministério uma oportunidade para o poder de Deus para ser o mais evidente e, caracteristicamente, no trabalho. A impressividade do seu ministério não será a sua imponência própria, mas a de que sua mensagem que corresponde à experiência da fraqueza humana e torna o veículo do poder de Deus.


Referencias
1 D. Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison, enlarged edition (London: SCM Press, 1971), pp. 281-282.
2 D. Soelle, Suffering (London: Darton, Longman and Todd, 1975), p. 19.

30 de outubro de 2011

Compra-se fé

Assim fala o SENHOR
contra os profetas que seduzem
meu povo:
àqueles que, se têm algo para eles morderem em seus dentes,
proclamam a paz.
Mas a quem não lhes põe nada na boca,
declaram a guerra!
Por isso a noite será para vós sem visão,
e as trevas para vós sem oráculo.
Por-se-á o sol para os profetas
e o dia obscurecer-se-á para eles.
Os videntes se envergonharão,
os adivinhos serão confundidos
e cobrirão toda barba,
porque não há resposta de Deus.
Eu contudo estou cheio de força, graças ao Espírito de YWHW
de senso de direito e coragem,
para denunciar a Jacó o seu crime
e a Israel seu pecado.
Escutai, portanto,
chefes da casa de Jacó,
magistrados da casa de Israel,
vós que execrais toda justiça,
que torceis o que é direito,
edificando Sião no sangue
e Jerusalém, com injustiça!
Seus chefes proferem sentenças por suborno,
e sacerdotes ensinam por lucro,
os profetas praticam adivinhação por dinheiro.
E se apóiam no Senhor, dizendo:
“Não está YWHW em nosso meio?
Não virá sobre nós a desgraça!”
Por isto, por culpa vossa,
Sião será arada como um campo,
Jerusalém se tornará um monte de ruínas.
E a montanha do Templo,
uma altura coberta de espinhos.
Do livro de Miquéias, 3.5-12.

Compartilho o sentimento desta mensagem profética, causticamente válida para nosso tempo, embalada por esta linda canção da Sinéad O'Connor, inspirada no Salmo 130, "De Profundis, Domini"



Das profundezas eu clamo por Ti
Oh Senhor
Não deixe meu grito de misericórdia ser ignorado
Se Tu mantiveres a conta dos pecados, oh
quem permaneceria de pé?
Mas Tu tens o perdão em suas mãos
E eu tenho ouvido a religião dizer que é para Lhe ter medo
Mas eu não me fio em tudo o que eu ouço
E parece-me que Tu estás refém de tais regras
Que foram feitas pela religião e não por Ti
E eu estou questionando se Tu nunca vai Se libertar
É mau pensar que Tu podes gostar de socorrer-me?
Há alguma coisa o meu pequeno coração pode fazer
Para ajudar a religião a compartilharmo-nos conTigo?
Pois oh
Tu estás como um fantasma em Tua própria casa
Ninguém Te ouve chorar sozinho
Oh Tu és O Único Verdadeiro, realmente O sem voz
Eles têm virado as costas a Ti para o culto de ouro e pedras
E vê-Lo prisioneiro oh me faz chorar
Ninguém te ouve gritando nas ruas
E é triste, mas é verdade como o velho ditado
"Se Deus vivesse na terra pessoas iriam quebrar suas janelas"

Anseio por Ti tanto quanto o vigilante pelo fim da noite

17 de outubro de 2011

06 de novembro - Dia de Oração : Mudanças Climáticas


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Esperança para a Criação, Dia Global de Oração e Ação para enfrentamento das Mudanças Climáticas: 06 de novembro de 2011.

Hope for Creation ou Esperança para a Criação, é um movimento global de cristãos que se colocarão de joelhos no domingo (06 de novembro) para orar por uma ação urgente para proteger a boa criação de Deus e aqueles que estão sendo mais atingidos pelas consequências das mudanças climáticas no mundo.

"N'A Rocha acreditamos que Deus fez o mundo, o ama e nos chamou para cuidar dele. É por isso que cremos serem essenciais para o enfrentamento das mudanças climáticas a oração e ação, como parte da 'Esperança para a Criação'. Em todo o mundo, do Reino Unido à África do Sul e dos Países Baixos ao Brasil, A Rocha está trabalhando com a Tearfund e as igrejas locais para as pessoas se envolverem e orarem durante o dia 06/novembro. Algumas A Rocha também estão organizando atividades práticas, permitindo que as pessoas experimentem a natureza. Esperamos incentivar uma apreciação mais profunda da natureza e uma compreensão do impacto que nossas ações podem ter tanto localmente como globalmente." Sarah Young, A Rocha Internacional.

Junte-se a nós.
Coloque-se de joelho no dia 06 de novembro.
Mobilize sua igreja para orar também neste dia.

Esta é uma iniciativa da Tearfund e você pode confirmar sua presença nesta rede de oração pelo site:hopeforcreation.org e/ou pelo Facebook d'A Rocha Brasil: 
Dia de oração e ação.

12 de outubro de 2011

Fé Mesquinha

Foi grande a minha alegria no Senhor, porque finalmente vi florescer vosso interesse por mim; verdade é que estáveis sempre alerta; mas não tínheis oportunidade. Falo assim não por causa das privações, pois aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer situação: viver saciado e passar fome; ter abundância e sofrer necessidade. Tudo posso nAquele que me fortalece. Entretanto, fizestes bem em participar da minha aflição.
Carta aos Filipenses, 4.10-13.

Paulo mostra-se feliz com a solicitude dos filipenses, mas menos pelo que esta lhe supriu e proporcionou, e mais pela edificação e crescimento espiritual que proporcionou aos mesmos, o que operou em termos de virtude e aprofundamento na vivência da fé.

Depois, ele se mostra consciente de que em Cristo, ele basta-se a si mesmo, menos do que posses ou falta de posses. Elas são acessórios, para um fim maior, e não a meta para a qual ele mira.

Importante mostrar todo o contexto desta passagem, porque uma imagem de fé porca, deturpada e tacanha tem isolado a passagem “tudo posso naquele que me fortalece” para pregar uma ética bem acoplada ao espírito consumista de nosso tempo, em que nossa meta está em mostrar nosso valor, para os outros e para nós mesmos, nos bens que conquistamos. Assim, podemos conseguir qualquer coisa, porque temos o direito pelo fato de puxarmos-saco de Deus. Barganhamos com Ele. E é pra isso que serve a fé e comportar-se de acordo com o “padrão da igreja”, para obtermos as coisas. “Tudo o que eu quiser, o cara lá de cima vai me dar”.

Assim, com consciência tranqüila, pomos no carro um adesivo “presente de Deus”, sem refletir como veríamos Deus então caso este carro se perca? Deus estaria então no seguro? E caso um grande revés na vida nos faça perder o carro ou outros bens, “presentes de Deus”, acabou-se o encanto? Deus deixa de existir?

Tudo é muito fugaz na vida. E vulnerável. A felicidade é o que há de mais vulnerável e fugaz então. Logo, não é ruim termos acesso a coisas úteis, mas é perder a alma se fiar nelas, e mais direcionar a fé para elas.

Nesta entrevista, Zygmunt Bauman põe o dedo na ferida e de forma profética, coloca a espiral de consumismo e materialismo utilitarista em que estamos imersos. Diagnostica como ninguém os males da vida contemporânea ao refletir sobre as revoltas ocorridas em Londres recentemente.

(...)”Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas.” (...)”Enquanto não repensarmos a maneira como medimos o bem-estar, sim. A busca da felicidade não deve ser atrelada a indicadores de riqueza, pois isso apenas resulta numa erosão do espírito comunitário em prol de competição e egoísmo. A prosperidade hoje em dia está sendo medida em termos de produção material e isso só tende a criar mais problemas em sociedades em que a desigualdade está em crescimento.

Esta é a religião de Mamon em nosso tempo, e ela tem conquistado e dominado linguajares cristãos de forma ampla, e na verdade, muitos têm se aproveitado ao perceber que é uma receita verdadeiramente “milagrosa” para fazer “igrejas” crescerem e ter poder sobre a mente de pessoas, desde que dê a elas o analgésico motivacional necessário.

E nos transformamos em nacos de carne ambulante que repetimos chavões religiosos que os macacos-chefe mandam...

31 de agosto de 2011

Não viemos ao mundo a passeio - parte II


As comunidades cristãs continuaram essa tradição ministerial de Jesus, mesmo em regiões muito diferentes, distantes e urbanizadas. Na carta aos Romanos, na passagem citada, vemos as recomendações de Paulo para a Igreja circular em torno do acolhimento mútuo, a vida digna ainda que simples, orientada pela racionalidade da proteção mútua, da não-violência, e de não dar vazão a que se construa nenhuma estrutura social opressora.

Que o amor fraterno vos uma com mútua afeição; rivalizai na mútua estima”. “Abençoai os que vos perseguem; abençoai e não amaldiçoeis. Alegrai-vos com os que estão na alegria, chorai com os que choram”.

Numa cultura como a nossa marcada pela lei do “levar vantagem a qualquer custo”, do “ser bem-sucedido passando por cima de tudo e todos”, do “estabelecer-se no status quo”, ali havia a auto-doação, a paciência, o amar ao próximo como a si mesmo. O não passar adiante a irradiação do mal. O dar impulso e abastecer uma roda motriz de virtude, humildade e solidariedade. “Não te deixes vencer pelo mal, mas sê vencedor do mal por meio do bem”.

É difícil a escolha. São avassaladoras as tentações e medos...

Evoco aqui um trecho de uma de minhas obras preferidas, o livro “A Peste” do escritor Albert Camus, um dos escritores e pensadores ateus que mais me inspira.

Uma cidade vivia seu cotidiano de normalidade. Cada um cuidando de sua vida como pode e o cotidiano acontecendo, indo pra lá e pra cá e vivendo. Até que um dia perde-se a paz, a estabilidade. Chega uma peste adoecendo e matando sem que se não possa fazer nada. Sem escolher. As reações variam, cinismo, terror...Há aqueles que afirmam que vem de Deus. Um castigo pelos pecados. Um chamado ao arrependimento e contrição. Até que uma criança, inocente, é flagelada, e morta gradual e dolorosamente em seus braços...foi Deus?

Algumas pessoas buscam enfrentar a situação simplesmente tratando dos doentes no hospital da cidade. A cidade está em quarentena. Entre elas o dr. Rieux. Um repórter, Rambert, que estava de passagem na cidade, busca em grande parte da trama uma forma de driblar a quarentena e conseguir escapar para encontrar sua amada. Oh, como iria acabar seus dias ali? Para quê? O que no mundo compensaria?

- Mas, afinal - dissera Rambert -, eu sou um estranho nesta cidade.
- Sem dúvida, .mas, apesar de tudo, esperemos que a epidemia não dure muito.
Para concluir, tinha tentado consolar Rambert, observando que podia encontrar em Oran matéria para uma reportagem interessante e que todo acontecimento tinha o seu lado bom. Rambert encolhia os ombros. Chegavam ao centro da cidade.
- É uma estupidez, doutor, compreenda. Eu não vim ao mundo para fazer reportagens. Mas talvez tenha vindo ao mundo para viver com uma mulher. Não é a ordem natural das coisas?

Mas suas tentativas são sempre frustradas. Entrementes ele chega a colaborar com os voluntários no hospital, para suportar melhor a espera angustiante.

Na realidade, teve de esperar duas semanas, pois os turnos de guarda foram prolongados para quinze dias a fim de reduzir o número de equipes. E durante esses quinze dias, Rambert trabalhou sem se poupar, de maneira ininterrupta, com os olhos de certo modo fechados, desde a aurora até a noite. Tarde da noite, deítava-se e dormia um sono profundo. A passagem brusca da ociosidade a esse trabalho esgotante deixava-o quase sem sonhos e sem forças. Falava pouco de sua próxima fuga. Um único fato notável: ao fim de uma semana confessou ao doutor que, pela primeira vez, na noite anterior, se embriagara. Ao sair do bar, teve de repente a impressão de que suas virilhas se inchavam e seus braços se moviam com dificuldade em torno da axila. Pensou que era a peste. E a única reação que pôde ter então, e que concordou com Rieux não ser racional, foi correr ao alto da cidade e lá, de uma pequena praça, de onde ainda não se divisava o mar, mas de onde se via um pouco mais de céu, chamar sua mulher com um grande grito, por cima dos muros da cidade.

Até que um dia... irrompe a grande oportunidade! A felicidade bate à porta! O lampejo de escape rumo à realização.

Uma vez ele ouve:

- Tem razão, é preciso ir ao encontro dela. Senão, o que lhe restaria?”.

Tudo estava preparado. Chegara o momento da partida.
Rieux voltou-se. Por cima da máscara, seus olhos se franziam ao ver o jornalista.
- Que faz aqui? - perguntou. - Devia estar longe. Tarrou disse que era para a meia-noite e Rambert acrescentou: ”Em princípio”.
Um momento depois, Rieux e Rambert instalavam-se no banco traseiro do carro do médico. Tarrou dirigia.
- Acabou a gasolina - disse, ao arrancar. - Amanhã, teremos de andar a pé.
- Doutor - disse Rambert -, não vou embora, fico com o senhor.
Tarrou nem pestanejou. Continuava a dirigir. Rieux parecia incapaz de sair de seu cansaço.
- E ela? - perguntou, com uma voz surda. Rambert disse que tinha refletido, que continuava a acreditar no que acreditava, mas que se partisse teria vergonha. Isso perturbaria seu amor por aquela que tinha deixado. Mas Rieux endireitou-se e disse, com uma voz firme, que aquilo era tolice e que não era vergonha preferir a felicidade.
- Sim - disse Rambert -, mas pode haver vergonha em ser feliz sozinho.
….
Tarrou, que nada dissera até então, observou, sem voltar a cabeça, que, se Rambert queria compartilhar da desgraça dos homens, jamais teria tempo para ser feliz. Era preciso escolher.
- Não é isso - disse Rambert. _Pensei sempre que era estranho a esta cidade e que nada tinha a ver com vocês. Mas agora que vi o que vi, sei que sou daqui, quer queira, quer não. A história diz respeito a todos nós.
…..


Todo dia decisões, atitudes assim são tomadas, feitas. Por pessoas anônimas, em eventos anônimos, e muitos momentos que não têm uma pompa espetacular. Sem ter tempo de se encaixar as ações num pensamento sistemático, numa visão de mundo... era o que devia ser feito. E é isto que mantêm a sanidade humana na história. Hoje, sobretudo através da TV, se ensina a não se comprometer se não tiver afetando seu bem-estar pessoal. Não se envolver em lutas se comprometerem seu conforto, privilégio, status quo... ensina-se que se mais pessoas tiverem usufruindo, você é menos especial. 


É a anomia. Vencemo-la com o bem...


Amém. 

Não viemos ao mundo a passeio - parte I

Reflexões sobre:

II Samuel 2,17-27
Salmo 24
Mateus 25, 14-30
Romanos 12, 9-21

Para poder acompanhar a reflexão com vividez, pedimos que façam uma leitura prévia destas passagens que, para não alongar demais, evitamos reproduzi-las aqui.


É fascinante podermos viajar no patrimônio cultural comum entre a humanidade, ou mais, quando podemos viajar nas atitudes coletivas comuns na humanidade para com elementos e pulsões internas, para com o transcendente, no que compartilhamos quanto ao que ultrapassam o tempo ainda que varie de forma e em diversos aspectos.

Neste Salmo, se prestarmos atenção numa leitura atenta e detalhada, veremos que é um cântico de procissão. Um cântico de procissão do povo, emanando dele sua devoção, fascínio, aspirações coletivas, sua identidade como povo, sua força interior canalizada e direcionada, força para enfrentar os poderes do “não-ser” que podem ameaçá-lo. Podemos formar uma imagem do povo judeu seguindo os sacerdotes em procissão ao Templo, com danças, expressões devotas, olhos cerrados, bocas abertas pra cima, mãos à frente...um povo em procissão sem imagem, pois não forjavam imagens do divino. Haviam outras imagens de adorno e de formação de uma aura de devoção e temor, de expressão do numinoso do local de culto, como as de Querubins, leões alados com rosto humano... mas não do alvo de sua devoção.

Assim podemos também nos aproximar melhor da angústia que o canto fúnebre ante a morte do rei Saul carrega. Ali não era apenas a morte do rei. Era uma profunda adaga cravada no orgulho nacional e no sentimento agregador, na expressão de ser do povo. O símbolo do seu projeto de nação. O rei, seu descendente imediato, os maiores guerreiros.... e quê adiantava isto agora? O que eles, realmente foram e apresentaram por si mesmos? O filho do rei morto em combate, o rei ante à iminente captura, se atira numa espada após ordenar ao servo que o matasse e este lhe desobedecesse.

Não devemos estranhar demais o quanto a Bíblia está entremeada de noções e lida tão naturalmente com guerras. Guerras e guerras. Era a realidade crua do povo que ali é retratado. Israel era um país pequeno cercado de nações, numa rota estratégica para, principalmente,  passagens de exércitos de impérios em guerras uns com os outros. Seria algo completa e dissimuladamente antinatural e dissimulado, plenamente falso, se ali não contivesse a guerra no imaginário e linguagem normal dos escritos. Podemos ter uma noção ao pensarmos nas letras de rappers, carregadas de violência ou agressividade que advém da realidade que eles nos jogam na cara, que seria desonesto se não falasse delas.

"Não publiqueis em Gat, não o anuncieis nas ruas de Ascalon, que não se alegrem as filhas dos filisteus, que não exultem as filhas dos incircuncisos." Temiam que se juntasse o escárnio para levar a profundezas ainda mais lúgubres seu augúrio e humilhação.

Pereceu o esplendor de Israel nas tuas alturas! (...) Tombaram heróis em pleno combate!

E quais os frutos das decisões existenciais que eles tomaram? Daquilo que fizeram com suas oportunidades e responsabilidades?

A parábola de Jesus em Mateus é conhecida como “Parábola dos Talentos”. Alguns associam equivocadamente o “talento” que aí se fala com o termo “talento”, o que limita seu sentido. Talento era o nome do dinheiro, que alguns estudiosos presumem que na época do ministério de Jesus aquela quantia do proprietária deveria equivaler a 5000 dias de trabalho, 2000 dias e 1000 dias. Pouco? Nãao, hehe. Aquele tempo era uma cena comum, homens ricos e de prestígio muitas vezes eram mercadores, e empreendiam longas viagens, encarregando a empregados, sejam livres ou servos, o cuidado da administração de suas finanças, devendo ser zelosos e buscar fazê-las prosperar. Engraçado que hoje se encontrara em achados arqueológicos, exemplos de dinheiro enterrado, para o qual os donos não puderam voltar... Importante nos acercarmos destes dados para vermos que Jesus não proferia ensinamentos como abstrações, ou aforismas pretensamente “caídos do céu”, mas arraigados na experiência vivencial das pessoas. Até porque costumava ir ensinar nas sinagogas, que funcionavam como centros comunitários onde as pessoas discutiam as questões de sua comunidade, além dos momentos religiosos, aquelas questões também carregadas de temática religiosa.

Podemos então compreender que os “Talentos” significavam os recursos – incluindo, mas ultrapassando os dons - oportunidades e responsabilidades na vida. Cada pessoa possui os seus.  Cada um tem sua vivência, e a mescla da interação entre seus genes, corpo, mente, ambiente, experiências. Nenhum vive a pessoa do outro. Ninguém responderá pelas escolhas do outro, mas pelas escolhas que teve quanto ao que fazer com o produto destas interações.

Lembro-me do filme “O Resgate do Soldado Ryan”. Uma viúva sozinha recebe uma carta comunicando as mortes dos filhos na Segunda Guerra Mundial, lhe restando mais um que está no front de batalha. O exército decide empreender um resgate dele para diminuir o sofrimento da mulher. E uma equipe consegue lhe achar. Ele a princípio fica incrédulo, depois se recusa a ir, argumentando que é um soldado como qualquer outro e não merece tratamento especial. Por fim, após fortes combates, ele consente em ir e escapa, tendo vários companheiros e membros da equipe sido mortos. Seu superior lhe fala: “faça valer a pena”.

Assim também na parábola. Um servo usou de pretexto leviano. Se ele tinha tal conceito do senhor, então aí que era para ele se motivar mais ainda a não deixar o dinheiro se desvalorizar e buscar fazê-lo render, imaginando que seria cobrado. Foi negligente e irresponsável.

Na vida, muitas pessoas não terão nunca oportunidade, nem um senso de chamado, para empreenderem atos famosos que consagrarão grande destaque. A maioria é encarregada de lidar com suas oportunidades e deveres diários e imediatos. Nem por isso sua missão é menor.

É com essa vivência diária que está o grande empreendimento e a grande responsabilidade. Algumas pessoas poderão se deparar com um grande encargo especial que lhe suscita abrir mão do que lhe está diante na vida. Isto é com ela. É consigo. Cada um com seu encargo.

Jesus vivia e pregava predominantemente entre e para pessoas comuns. Num mundo em que havia círculos viciosos de violência, exploração, e disseminação disto, ele buscou fortalecer os laços de proteção espontâneos nas comunidades e entre os indivíduos. Passou por regiões onde as pessoas estavam tendo que usar para seu sustento água que passava por canais advindos de banhos públicos da elite, sujas pela elite. Pessoas que para cuidar de seus sistemas agrícolas, seus ofícios diversos, com todas as redes de segurança comunitárias esfaceladas, vulneráveis perdiam tudo em dívidas, e buscavam em quem era mais fraco extrair também para compensação. A espiral das dívidas. A noção de imposição do prestígio e autoridade social era marcada com bofetadas que os da escala mais alta impunham no rosto dos de mais baixa, dos seus devedores, servos, dos “menores”, para evidenciar tal hierarquia. Soldados passavam violentando mulheres, surrando homens, tomando seus agasalhos, obrigando-lhes transportar suas tralhas por longas distâncias...tudo era passado pra frente. Às vezes pior. Algumas pessoas introjetavam a lógica e a força da violência. Visualização soturna é a do “endemoniado Gadareno” imaginando, impotente, incorporar a tropa romana, assumindo em sua psique toda a humilhação e a pondo pra fora encarnando toda a monstruosidade insana... e Jesus confrontando seus demônios.

Jesus estava dando um basta e movendo as pessoas a uma lógica oposta a da replicação da opressão. Visava matar o círculo vicioso de fome, ao invés de prosseguir alimentando-o, em atos ou na disposição interior. E com atos e com disposição interior renovada, conclamava as pessoas a iniciarem um ciclo vicioso de acolhimento, proteção mútua, de um projeto de vida chamado Reinado de Deus. E limpava-lhes a existência para usufruir da própria oportunidade de viver. Não um viver descompromissado, mas compromissado, em que assim a pessoa, sem buscar viver apenas para si mesma, encontrar-se à a si mesma.



Continua....