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25 de dezembro de 2016

Refúgio - uma mensagem de Natal


E era tocante essa proteção de um ser disforme sobre um ser infeliz como essa condenada à morte salva por Quasímodo. Eram duas as misérias extremas da natureza e da sociedade que se tocavam e se ajudavam.
No entanto, após alguns minutos de triunfo, Quasímodo tinha entrado na igreja com seu fardo. O povo, apaixonado por qualquer proeza, procurava-o com os olhos na nave sombria, lamentando que se tivesse furtado tão rapidamente às suas exclamações. Ele reapareceu numa das extremidades da galeria dos reis da França, atravessou-a correndo como um louco, levantando sua façanha nos braços e bradando 'Refúgio!'.
A multidão novamente aplaudiu. Uma vez percorrida a galeria, ele voltou para o interior da igreja. Momentos depois ele reapareceu na plataforma superior, sempre com a cigana nos braços, correndo e gritando 'Refúgio!'. E a multidão aplaudia. Fez uma terceira aparição no topo da torre do sino; dali, pareceu mostrar com orgulho para toda a cidade aquela que tinha salvado, e sua voz estrondosa, essa voz raramente ouvida, que ele nunca ouvia, repetiu três vezes até as nuvens: 'Refúgio! Refúgio! Refúgio!'.
_Natal! Natal! - gritava o povo por seu lado, e essa imensa exclamação ia surpreender, na outra multidão da Grève e a reclusa que ainda esperava, o olhar fixo no patíbulo."

9 de junho de 2015

Um escândalo religioso

Obra escandalosa do Mestre Mathias Grünewald, dentre os anos de 1512-16. O Retábulo de Iseiheim.

Em relevo na foto anexa, o Cristo retratado no painel do altar, com um traço marcante:
Num período turbulento envolvendo a "Guerra dos Camponeses" em terras alemãs, quando a nobreza se empenhava em sufocá-la, esta figura de Jesus em um altar na Alsácia retrata um camponês portador da doença mortal conhecida como "Fogo de Antão", que ocasionava ulcerações, purulências, fedor e dores que enlouqueciam as pessoas.

Vistos como fustigados pelo "flagelo de Deus", os camponeses, já com o ostracismo social, eram normalmente abandonados à sorte.

Mas havia religiosos antonitas que se dedicavam a cuidar destes momentos tenebrosos vividos pelas pessoas, a despeito da ideia de que esta doença era como a "lepra".



À pintura do altar se apresentavam os doentes, que viam a encarnação de Deus na Terra se identificando com seus sofrimentos; depositados aos pés do altar, confrontando as ideias de que o que viviam era castigo, viam no crucificado a desfiguração que lhes acometia.

Grunewald sofreu por ter tomado partido da causa camponesa. Ia contra o status quo.



Morreu em 31 de agosto de Deus de 1528, fabricando sabonetes e construindo canalizações de água.

15 de abril de 2013

Uma brevíssima história do "Coisa Ruim"


Às vezes em algumas igrejas ele é quase tão mais falado do que o próprio Deus. Há aqueles que dizem ser seus seguidores ou admiradores. Pipocam por alguns fóruns teorias sobre a evolução até a configuração cristã clássica de sua imagem. Muitas delas são chutes. Vamos fazer uma brevíssima recapitulação da história da emergência do conceito da figura do Diabo. Vamos ver um pouco como se constituiu na matriz do cristianismo, o imaginário judaico polimorfo.

Até há um tempo atrás se jugava que foi algo nascido na interação com o Império Persa, sob influência da religião de Zoroastro, que advogava dois polos ontológicos fundamentais, duas forças volitivas em um conflito cósmico permanente. Hoje tal visão está superada, ainda que se tenha em mente a contribuição forte deste sistema religioso.

O povo hebreu iria constituindo seu ideário religioso a partir de experiências de visionários, da experiência e tradições coletivas do povo, em influência de interações complexas do seu meio circundante. Em grande parte queria contrastar com as noções e referenciais dos vizinhos, sobretudo rivais, contudo, retrabalhavam-nas. Decerto, era forte a pressão por assimilações de povos muitas vezes mais estruturados e organizados, de grandes nações e impérios com mitologias e religiões exuberantes e elaboradas dando sentido às organizações sociais.

Hoje temos meios extremamente mais férteis do que há anos atrás para compreendermos cenários primordiais deste processo, através de muitos documentos dos povos do Oriente Próximo, como
os textos de Ras Shamra, os manuscritos ugaríticos de Marzēah, os selos de Tell Asmar, o Tratado de Enuma Elish, etc.

Baal 
Diversos mitos versavam sobre o conflito da divindade mais saliente do imaginário vencendo forças mais antigas do caos.

Uma muito influente fora a vitória de Baal contra Leviatã, a serpente que aparece em alguns achados representada com sete cabeças; ou contra Yam (ou o "Juiz Nahar), o mar, o deus da destruição, ou contra "Mot", rei das profundezas da morte, em que Baal desta forma consegue escapar da sua morte como destino final e passa a ser doador da vida. Baal era um vistoso guerreiro, inferior no panteão à figura anciã sapiencial de El, que sob uma outra forma, era cultuada pelos hebreus, se mesclando com YWHW ( Yaweh), havendo ainda a controvérsia se o nome de YWHW chegara de regiões egípcias ou sírias. Baal desafiara a serpente do caos primordial e da morte, fulgurara aí aclamado como grande divindade, doadora da vida.

Em outras fontes, interagindo com outras figuras religiosas poderosas como Gilgamesh, uma imagem similar a Leviatã aparece como Tiamat ( caldeus – vencida por Marduk ), Rahab, etc. É impressionante o quão vasta é esta marca no inconsciente coletivo humano, espalhado por tradições em diversas regiões, como por exemplo milenarmente na Índia, com a vitória de Indra sobre a serpente Vishnu.

Contudo, pode-se conceber uma controvérsia na mentalidade hebreia, de onde se reformatou a ideia dos vizinhos: o fator mais constrangedor seria que sua divindade era anterior a qualquer outra, sendo assim, ficaria embaraçoso conceber que se revoltou contra seres malignos anteriormente mais poderosos. Desta forma, se inverteu, e estes seres, poderosos mais inferiores, ora aparecem como insurretos subjugados, ora como vencidos e dominados por El/Yaweh no ato de dar forma e ordem ao mundo criado [concomitante, na busca de estabelecer sua identidade própria por contraste com os rivais, a cultura israelita foi associando algumas das divindades principais rivais - também devido a práticas cultuais que era condenada pela ética israelita - com os próprios seres insurgentes].

Alguns exemplos:

Jó 26, 10- 13:
Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas. As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. Com a sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário. Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz.

Salmo 89, 9-10: 
Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. Calcaste a Rahab, como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos.

Isaías 51.9,10: 
Por acaso não és tu aquele que despedaçou Rahab, que trespassou o Dragão?

Salmo 74.13-17:
Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste as cabeças do Leviatã e o deste por alimento às alimárias do deserto. Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos. Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol, tu os formaste. Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste.

Se estabeleceu então na religião hebreia essas figuras poderosas mas inferiores à sua Divindade. Se temia, sobretudo pela associação com o mar, de onde provinham muitos impérios conquistadores. Mas a concepção de um estreito interesse com a vida humana era remota ainda. 

Como muitos imaginários de seu contexto geocultural, os israelitas concebiam o mundo habitado por espíritos não-humanos, seres sobrenaturais de caráter diversos. Alguns, como nosso caipora, caboclo d'água, curupira, armavam emboscadas em bosques, beiras de rios, etc.

Abstraindo sobre o que já foi abordado, as pessoas articulam seus sistemas simbólicos sobre as realidades espirituais, transcendentes, sobrenaturais, mediadas pelo impacto conotativo e carga semântica na representação de seres, fenômenos e ideias de nosso mundo, e pelas impressões que lhe são impingidas na vida, no mundo social, na própria natureza. Assim, muito popular entre os hebreus também era a ideia de “corte celestial”, sua divindade como Rei. Por exemplo, em expressões de “buscar a face” do Senhor, a ideia é tomada da busca de se ter audiência com os reis e serem atendidos por eles. O próprio termo “El” entre os hebreus às vezes era usado na acepção de uma mescla do Rei divino e a corte. Nesta corte atuaria um Promotor, um Acusador, que era um destes espíritos dos quais falamos acima; era inimigo declarado dos humanos. O nome com o qual mais se sagrou foi “Ha Satan”, O Adversário.

Sob influência persa, o que se incrementou, aí então já no judaísmo ( pois as tribos israelitas do norte foram deportadas pelo Império Assírio nas décadas finais do século VIII a.C. e perderam-se na história, permanecendo o reino do Sul, Judá (para o qual houvera uma migração maciça de refugiados do Reino do Norte no período imediatamente antecedente), que mesmo com a deportação pelo Império Babilônico nos inícios do século VI a.C.; a tribo de Judá e juntamente, em grande parte, a de Benjamim, permaneceu coesa em diversas partes do Oriente Próximo e muitos na sua terra, com um grande retorno sob o Império Persa a partir da antepenúltima década do século VI numa política de repovoamento sob vassalagem imperial), foi que as antigas formas monstruosas do caos passaram a ter um papel maior na vida humana, na história. Se tornaram as senhoras de um mundo sombrio, para onde iriam pessoas desertadas de Deus; e passaram a atuar também como adversárias do projeto de Deus para Israel.

Já de um processo anterior se desenvolveu a ideia de que povos tinham um Guardião, e o povo de Israel tinha o Anjo Miguel.

Belial, Baal, se tornaram os nomes mais populares e difundidos para a grande Força do Caos. Superior em hierarquia com Ha Satan, aos poucos foram se fundindo. Temos, dos tempos de Jesus, documentos mais antigos preservados entre a Seita do Mar Morto, cuja biblioteca em Qunrã fora uma das maiores descobertas da história da arqueologia, que nos legam textos em que interagem as crenças em Belial e Ha Satan, ambos por trás das forças das guerras dos impérios opressores odiados – em especial, “Manuscritos da Guerra”, da Biblioteca de Qunrã, capítulo 13.

Com a ideia de Belial e Ha Satan se fundindo, temos aí um grande ser do mal, com um caráter de trazer o caos na criação e no mundo, a opressão na geopolítica e inimigo de cada ser humano, atuando para destruir sua vida e lhe buscando afastar da comunhão com Deus, ideia já desenvolvida nos tempos da origem do cristianismo. Onde também veio ganhando corpo outra dimensão extra para o ser maligno.

Um assunto extenso seria traçar aqui a polêmica no judaísmo quanto a relação entre a divindade transcendente ao mundo com o próprio mundo. Deus seria tão “outro” em relação a este mundo, que como pensar sua atuação no mundo sem comprometer sua transcendência. De fato, o judaísmo caminhara para uma concepção monoteísta de caráter muito mais acentuado do que nos tempos mais antigos e mais ainda no período que o antecedeu, na religiosidade hebreia.

Uma das respostas (precisaríamos de um bom estudo só para apresentar várias destas respostas) foi salientar o papel dos anjos. Eram mensageiros e agentes com uma “procuração” divina, atuando para implementar a vontade de Deus no mundo e auxiliar os homens nos propósitos divinos. Mas, diante da constatação do caos e maldade no mundo, uma “ovelha negra” na família angelical se fez indispensável: o arquirrival de Miguel (ou Gabriel ou Rafael – que aparecem ou com menor destaque, ou com grande destaque mas em menos documentos), o anjo rebelde Samma'el. Um anjo que se rebelara contra Deus e arrastara muitos consigo, e se prepara para o grande combate final cósmico (como consta na literatura judaica do tempo das origens cristãs - Jubileus 23,29; Assunção de Moisés 10,1).

Assim, vemos alternando entre estes papéis o nome de Belial, Ha Satan, e posteriormente (com menos aparições em documentos cristãos) Samma'el, para o mesmo ser, fundidas sua características.

Como testemunho atestando as raizes antigas das quais brotaram este imaginário, podemos ver nas passagens que falam da queda espiritual, política e histórica de alguns grandes reis. Da onde proveio o termo “Lúcifer”, Filho da Luz. Filho da Luz era o nome dado a Vênus. E era comum os reis se associarem a astros, sendo Vênus um nome auspicioso. E o duplo sentido, o sentido cósmico e espiritual presente como alusão nesta epopeia de queda do rei soberbo, pode ser compreendido em que, literariamente, estas passagens são intimamente ligadas à literatura chamada “apocalíptica”; literatura na qual, como vemos ilustrado no livro “Apocalipse” do cânon do Novo Testamento (temos muitos “Apocalipses” no judaísmo contemporâneo de então, bem como presença marcante nos livros veterotestamentários de Ezequiel, Daniel, Joel, algumas passagens em Isaías, etc.), os traços das batalhas dos poderes cósmicos por trás do palco da história humana é marca característica.

De onde mestres cristãos dos primeiros séculos viram nesta passagem uma ilustração da queda do Demônio enquanto um Anjo especial que se revoltou contra Deus, crença já firmada independentemente delas.

Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônica, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.
Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti.
Ezequiel 28:12-17

Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, Filho da Aurora! Como foste atirado à terra, subjugador das nações!
E no entanto, dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e na montanha da Assembléia me assentarei, nos confins do norte.
Subirei sobre até o céu, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo foste precipitado ao Sheol, ao mais profundo do abismo.
Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: É este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os reinos?
Isaías 14:12-16

Entremeado a esta passagem de Isaías, vê-se o pano de fundo de antigas tradições, constando com uma antiga divindade de sistemas históricos caananitas: Shahar = Aurora, e disputas por poder na corte da divindade máxima do panteão, El, que culminou com o desdouro do desafiante sacrílego no mundo da morte. A memória destas sagas vem reproduzida aqui num poema profético que interpreta a vaidade e quebra do poder de um rei conquistador soberbo.




Bibliografia Consultada:

Flusser, David. Judaismo E As Origens Do Cristianismo, V.2. Capítulo 8, “O Magnificat, o Benedictus e o Manuscrito da Guerra”. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

Foster, Benjamin R. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature. Bethesda, CDL, 2005

Kelly, Henry Ansgar. Satan: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2008.

Mettinger, Tryggve. O Significado e a Mensagem dos Nomes de Deus na Bíblia. São Paulo: Ed. Academia Cristã, 2008.

Smith, Mark S. O Memorial de Deus: História, memória e experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.

Sparks, Kenton L. Ancient Texts for the Study of the Hebrew Bible: A Guide to the Background Literature. Peabody, Mass.: Hendrickson, 2005.

Wray, T. J., e Gregory Mobley. The Birth of Satan: Tracing the Devil’s Biblical Roots. New York: Palgrave Macmillan, 2005.


1 de abril de 2012

Tire seus sapatos

Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos; porém a árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má dar frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo aquele que me diz: "Senhor,Senhor", entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: "Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome que expulsamos demônios e em teu nome que fizemos muitos milagres?" Então eu lhes declararei: "Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade!"
Evangelho Segundo a tradição de São Mateus, 7.15-23



Eu sangro o sangue de Jesus sobre você
Eu sangro o sangue de Jesus sobre você
E sobre toda a merda das coisas que você faz
Sete vezes eu sangro o sangue de Jesus sobre você

Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Mesmo que você não possa mentir quando estou por perto
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado

Eis que, na última lamparina
No final de sua rua
Eu estou sussurrando algo
"Venha para perto de mim, venha para perto de mim."
Eu digo que você está fugindo de agressão
Você está correndo para fora da agressão
E eu não vejo nenhum coelho
Por aqui
Se você creu em tudo que está em seu breviário
Se você creu mesmo em apenas um fantasma de mim
Você não estaria agora tão surpreso a me ver
Na vaidade com que tomou o meu nome

Você me trouxe a infâmia
E agora você está tão surpreso em me ver
E agora você está tão surpreso em me ver
Eis que, na última lamparina
No final de sua rua
Eu estou sussurrando algo
"Venha para perto de mim,
Venha para perto de mim."
Eu digo que você está fugindo de agressão
Você está correndo para fora da agressão
E eu não vejo nenhum coelho
Por aqui

Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Mesmo que você não possa mentir quando estou por perto
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado
Mesmo que você não possa mentir quando estou por perto
Tire os sapatos - Você está em solo sagrado




Pois os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, disfarçando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porquanto o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. Não é muito, pois, que também os seus ministros se disfarcem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras.
2 Coríntios 11:13-15



O Ladrão só vem para roubar, matar e destruir.
Eu vim para que tenham vida em abundância.
Eu sou o Bom Pastor,
o bom pastor dá a sua vida pelas suas ovelhas.
O Mercenário, que não é pastor,
a quem não pertencem as ovelhas,
vê o lobo aproximar-se
abandona as ovelhas e foge,
e o lobo as arrebata e dispersa,
porque é Mercenário
e não se importa com as ovelhas

Evangelho Segundo a tradição de São João 10,10-13

12 de março de 2012

Paraíso

Por Richard Bauckham

Em outro de meus ensaios, escrevi sobre o declínio da crença na vida após a morte na sociedade ocidental contemporânea, e sugeri algumas razões para isso. Então, eu não dei muita atenção à questão: o que é que os cristãos esperam para depois da morte?

Para pensar sobre o Paraíso precisamos de quadros imaginativos. Não podemos esperar saber em termos literais o que o céu vai ser. As tentativas de descrevê-lo, literalmente, são geralmente banais, e facilmente provocam a resposta: por que eu deveria querer isso? Quem quer passar a eternidade sentado numa nuvem tocando harpa? O paraíso deve ser inconcebivelmente diferente da nossa experiência aqui e agora. Então precisamos de imagens que evocam uma sensação de algo que transcende em muito nesta vida.

A Bíblia e a tradição cristã nos oferecem três imagens principais acerca do Céu. Se colocarmos esses três símbolos juntos, teremos uma idéia muito boa do que é a compreensão cristã do destino humano.

O primeiro é a esperança da visão de Deus. "Bem-aventurados os puros de coração", disse Jesus, "porque eles verão a Deus”. Deus, a quem agora conhecemos tão imperfeitamente, iremos então experimentá-lO diretamente. Vamos desfrutá-lO como o cumprimento final de todos os desejos humanos. Vamos adorá-lo com o tipo de atenção arrebatadora que uma experiência poderosa de beleza ou amor pode evocar em nós nesta vida. Porque Deus é infinito e nós fomos feitos para usufruí-lO, as alegrias do Céu nunca serão esgotadas. Vamos encontrar satisfação eterna em Deus.

Mas o Paraíso não será só eu e Deus. Deus nos fez para encontrar satisfação no outro, bem como nele. Assim, a segunda imagem do Céu é a cidade de Deus, uma sociedade humana perfeita, em que todos os nossos sonhos de relações humanas realmente adequadas serão cumpridas.

Mas o Paraíso não será só eu e Deus. Deus nos fez para encontrar satisfação no outro, bem como nele. Assim, a segunda imagem do Céu é a cidade de Deus, uma sociedade humana perfeita, em que todos os nossos sonhos de relações humanas realmente adequadas serão cumpridas.

Mas os propósitos de Deus vão além até mesmo de uma sociedade humana encontrando sua verdadeira realização em Si. Eles se estendem a toda criação de Deus. Nossa terceira imagem do Paraíso, o reino de Deus, é a mais ampla. Ela olha para o momento em que o governo de Deus sobre toda a sua criação finalmente será aperfeiçoado. Todo o sofrimento, o mal e a morte serão superados. O mundo de Deus será como ele sempre pretendeu que fosse. E quando todos os males e imperfeições que obscurecem Deus no mundo como é agora forem superadas, em seguida toda a criação irá perfeitamente refletir a glória de Deus. Como o apóstolo Paulo disse, "Deus será tudo em todos".

Assim, a esperança cristã é que o todo da criação de Deus encontrará o seu destino eterno em Deus. Embora, até agora , eu tenha usado o termo "Céu" para me referir à esperança cristã de vida após a morte, porque isso geralmente é feito, agora podemos ver que este termo pode ser um pouco enganador. Isso pode sugerir que o nosso destino é deixar o mundo para trás e se juntar a Deus em algum Céu puramente espiritual. A esperança cristã é muito melhor do que isso. É a união do Céu e da Terra, pela presença transformadora de Deus ao longo de sua criação.

Tudo isso deve alargar os nossos horizontes para além dos termos estritamente individuais em que tantas vezes se pensa o Paraíso. Nossa esperança, como indivíduos, é compartilhar do grande triunfo de Deus sobre todo o mal e a morte, para ter um lugar no seu propósito cósmico para toda a criação, para encontrar a nossa própria realização em Deus, no contexto de um mundo centrado em Deus e transfigurado pela Sua glória. Mas, sendo por é isso que o Céu diz respeito a todos, é claro , não podemos esperar para compartilhar afinal o que o

destino nos coloca agora, como indivíduos, dentro propósito de Deus para o Seu mundo. Para desfrutar da visão de Deus, então, devemos começar a centrar nossas vidas em Deus agora. Para entrar na cidade de Deus, então, devemos procurar a Sua vontade para a sociedade humana agora. Para entrar no reino de Deus, então, devemos colocar-nos sob o domínio de Deus agora e buscar o Seu reino em toda a realidade.

26 de dezembro de 2011

Nascer novamente...

Convido os leitores de Cristianismo, meramente a um passeio sobre um recorte em uma passagem importantíssima no Evangelho de Jesus, com grande impacto e significado para a fé e para a compreensão do chamado cristão: o diálogo com Nicodemos, no Evangelho de João. Nosso comentário aqui delimita-se no recorte, no capítulo 3, entre os versos 1 a 11.

Nicodemos chega falando em nome de algum círculo próximo de pessoas que destoavam das proeminentes lideranças de Jerusalém. Comentavam entre si que as virtudes de Jesus apontavam para ter sido alguém realmente comissionado da parte de Deus. Não compartilhava o veredito de muitos de que Jesus seria da parte do Maligno, ou um carismático charlatão arrastando o povo para a temeridade pura.

Nicodemos chegara à noite; horário propício para não chamar a atenção, e um horário mais comum para os estudos dos mestres religiosos judaicos, sendo que estariam “de folga” do serviço. Isto em si não o afetaria, pois é sinalizado que seria uma pessoa rica. João aproveita para trabalhar no seu característico simbolismo noite/dia luz/trevas.

Ele chega, na autoridade destas pessoas proeminentes, repassando seu reconhecimento a Jesus, implicando que lhe imputava apreço. Nada muito elevado aí. Nenhuma confissão de se estar disposto a ser um seguidor. Seria algo como um “homem justo”, que tinha um bom relacionamento com Deus e a aprovação deste. A partir daí, “passa a bola” para Jesus poder se explicar ou retribuir a cortesia.

Contudo, não é por aí a atitude e resposta de Jesus. Jesus responde com um desafio à Nicodemos. Decerto, podemos ver aí um padrão, compartilhado com os evangelhos sinóticos.

Como em Lucas 18, 18-30, no encontro com o Jovem Rico ( se ele tão piedoso como se apresentou, porque não rendeu um louvor a Deus por Jesus ao invés de lhe atribuir a bondade?) O escandaloso dito “deixai os mortos enterrarem seus próprios mortos”, em Mateus, 8.22 ; o dito sobre as raposas, aves e o Filho do Homem, em Lucas 9, 58; a passagem sobre a mão no arado, em Lucas 9, 61-62. O encontro com a mulher siro-fenícia, em Mateus 15,21-28 ( o chamado “Filho de Davi” não era alguém esperado a expulsar os estrangeiros da terra?) . Em todos estes, o padrão é delineado e atestado: alguém chega a Jesus de forma lisonjeira, aparentemente (mas não necessariamente) bajulando; ele desafia ou põe a teste a pessoa, até mesmo repelindo-a de forma a parecer que quer ser evitado, nos termos com que ela o busca.

Então, um grande choque é dado em Nicodemos. Jesus responde com uma declaração desafiadora. Os sinais que realizava não eram meramente para mostrar que Deus estava com ele, como a um mestre virtuoso. Mas demonstravam a chegada do próprio Reinado de Deus!!!

Eram os tempos da promessa, o culminar da expectativa da esperança de Israel, irrompendo nos sinais de Jesus. “O Senhor será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o Senhor, e um só será o Seu nome” - expectativa gerada à luz da passagem do livro profeta Zacarias 14,9.

Mas para o ver, era necessário nascer de novo! Isto claramente dizendo que se aplica a Nicodemos e seu círculo; não o viam porque necessitavam de um novo nascimento. Costumavam dizer que os gentios que aderiam à fé judaica e se incluíam na família dessa fé eram novos nascidos, como crianças a ingressar numa nova família. João pode estar fazendo um jogo de palavras, num artifício literário que gosta muito de empregar, explorando a ambigüidade do termo grego anothen. Pode significar “de novo” e “do alto”, assim servindo para apontar diretamente como “da parte de Deus”. Mas é quase improvável que este diálogo se desse neste idioma. De fato em Jerusalém não era incomum pessoas serem bilíngües, no aramaico e grego, ou mesmo trilingues com o hebraico. Isso é seguro para alguém com o status social de Nicodemos. Jesus, sendo um marceneiro ou pedreiro, proveniente de Nazaré que distanciava relativamente muito próximo ao efeverscente centro urbano cosmopolita em construção de Séforis, na Galiléia, com muita demanda para seus serviços, devia sim conseguir se comunicar, pelo menos basicamente, em grego. Seu interesse no estudo profundo das Escrituras o habilitara no hebraico. Mas não fazia sentido ali dois judeus conversarem assuntos religiosos em grego. O normal é conversarem em aramaico, e é o mais provável. E neste idioma, não há termo passivo deste duplo sentido. Como no desenrolar do diálogo então, podemos concluir que Jesus realmente disse “nascer de novo”.

Nicodemos precisava de conversão? Nãao, não seria possível que este pregador, Jesus, estivesse agora tendo realmente alcance de suas palavras, não estava sabendo o que dizia... era um homem da sociedade, de ambientes dos mais respeitados e afamados, reconhecido piedoso, de posição e reputação ilibados. Sua resposta foi irônica, como se explicitando que o que Jesus falou não poderia ser sério; de forma irônica, “fez-se de desentendido” como que apontando que o que Jesus falou era tão absurdo que a insensatez do sentido de sua pergunta ainda teria um sentido mais óbvio. Aquilo não podia ter sido para ele.

Jesus então reforça ainda mais o poder surpreendente de suas palavras anteriores, evocando tons mais potentes. Estava sim, falando do cumprimento das promessas de Deus, e interpelando Nicodemos. Nascer da água e do Espírito... para um Novo Tempo, Deus estaria preparando uma Nova Geração, gerando novos filhos e inaugurando uma Nova Aliança. Cumpriam-se as Escrituras e ali vicejava o Plano Redentor de Deus.

Assim diz Yahweh, Aquele que te fez,
Que te modelou desde o ventre materno e que te sustenta.
Não temas, Jacó, meu servo,
O Reerguido, a quem escolhi,
Porque derramarei água sobre o solo sedento
E torrentes sobre a terra seca.
Derramarei o meu Espírito sobre a tua descendência
E a minha bênção sobre os teus rebentos.
Do livro do Profeta Isaías, 44, 2-3.

Farei sobre vós uma aspersão de água pura e ficareis puros; sim, eu vos purificarei de todas as vossas impurezas e de todos os vossos ídolos. Eu vos darei um coração novo e porei no vosso íntimo um Espírito novo, tirarei do vosso peito um coração de pedra e vos darei um coração de carne. Infundirei em vós o meu Espírito e farei com que andeis segundo meus estatutos, guardar minhas normas e as pratiqueis. 
Do livro do Profeta Ezequiel, 36, 25-27.

Jesus é representando em João se expressando de maneira diferente do que predomina nos evangelhos sinóticos. Mas há um ponto de contato marcante: como trabalha em cima das imagens fortes do que é circundante e cotidiano dos seus ouvintes. Nos sinóticos predomina o ambiente rural da Galiléia. Em João, muito diferentemente o ambiente de Jerusalém e adjacências, com outro cenário, paisagem, geografia humana, perfil da audiência, e no contexto de seu ministério é forçado a se entender que o que lhe instigava nas interações, discursos e discussões seria bem diferente dos motivos na Galiléia. E um exemplo crasso é o apelo constante às imagens da água e pureza.

Por ser a sede do Templo e referência cultual judaica, em Jerusalém havia uma notória preocupação com arranjos para propiciar práticas de purificação ritual, em hebraico, a tohara. Haviam diversas estruturas para abrigar água conhecidas genericamente como miqwa'ot ( do singular miqweh). Eram visados sobretudo pessoas impedidas de entrar na parte interna do Templo devido a defeitos físicos. Outra grande preocupação era conseguir que a água pudesse fluir dado o decorrente acúmulo de sujeiras e assim, pudesse a manter "pura" (havendo também pequenas estruturas para lavagens de partes do corpo como pés e mão, não incluindo aí as pequenas instalações que eram costumeiras para unção ritual dos pés com óleo).

Passa Jesus então a dizer que era para Nicodemos não ficar admirado dele ter dito aquilo antes. Porque o dom de discernir o fenômeno que estava se processando na história não era um dom que se adquire com esforço humano, não é resultado das circunstâncias terrenas dadas, mas deve advir de Deus; isto com o nascimento do Espírito. As convenções sociais não podem domar esta ação do Espírito, e ela se manifesta entre as pessoas rompendo com os com as grandes destes status quo. Esta ação do divino no humano não é acrisolada pelos mecanismos culturais de controle. Faz lembrar a feliz afirmação de Rubem Alves: Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar...
em "Sobre deuses e caquis", prefácio a "Da esperança", editora Papirus.

Nicodemos agora foi desarmado; sua pergunta demonstra o quanto ficou atônito. Não era isto o que esperava ao visitar Jesus. Tudo aquilo era um espanto para ele! Como tudo isto pode se suceder ????

Então Jesus reporta que ele, como mestre religioso reconhecido em Israel, deveria saber do que Jesus estava falando, se de fato ele estava a altura do posto ao qual era atribuído, deveria então estar compreendendo. O que mostra que o reluzir deste ensino então tem que advir da própria realidade de Deus, em contraste com as limitações das proveniências meramente culturais do círculo em nome do qual Nicodemos viera. Em contraste com tal, era este o círculo e o ambiente de Jesus: a esfera de Deus.


24 de maio de 2011

Entre raposas e aves

Indo eles caminho afora,
alguém lhes disse:
“Seguir-te-ei
para onde quer que fores.”
Mas Jesus lhe respondeu:
“As raposas têm seus covis,
E as aves do céu, ninhos;
Mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” 
Lucas 9, 57-58

Parece que podemos ver um certo padrão em Jesus, ao ser abordado, muitas vezes se parece meio que “arisco”, ou pronto para desarmar a pessoa que o abordou. Ainda que no decorrer do trato com a pessoa, sua postura mude completamente. Podemos ver isso com o Jovem Rico, com a mulher siro-fenícia, e agora aqui com o voluntário impetuoso.

Tal passagem costuma ser enquadrada numa seção com o título “O preço do discipulado”. Poderemos ver que tal enunciado capta em parte o que se passa e o dizer de Jesus.

À primeira vista, realmente Jesus está colocando para a pessoa que o seu caminho passa por privações, e não pompa; requer abdicação, requer aceitar estar com um estilo de vida em que se abnegou de muita coisa para seguir o caminho. Até mesmo em relação à provisão que é feita para os seres da natureza, seu caminho exigiria aceitar privações.

De fato, o autor do evangelho já nos tinha trago antes um quadro em que apresenta que “é necessário que o Filho do Homem sofra”. Lc. 9,22.

Tal apelo encontraria, anos mais tarde, certo eco no testemunho de Paulo para os Filipenses: “Falo assim não por causa das privações, pois aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer situação: viver saciado e passar fome; ter abundância e sofrer necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” Carta aos Filipenses, 4.11-13.

Mas há algo mais, que superficialmente, passa despercebido para nós.

Lucas 13, 31-32: “na mesma hora, aproximaram-se alguns fariseus que lhe disseram: ‘Parte e vai-te daqui, porque Herodes quer te matar’. Ele respondeu ‘Ide dizer a essa raposa: “Eis que eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã e no terceiro dia terei consumado!”

Em Ezequiel, no capítulo 13, o profeta profere imprecações contra os falsos profetas de Israel que são considerados ardilosos, que iludem e manipulam: “Assim diz o Senhor Yahweh: ‘Ai dos profetas insensatos, que andam segundo o seu próprio espírito e nada vêem. Os teus profetas, ó Israel, são como raposas no meio de ruínas.” VS 3-4.

Costumava-se associar as nações gentias em torno de Israel com “as aves do céu”. Observem na parábola do Reino de Deus e o grão de mostarda, em Mateus 13, 31-32. Claramente há ali representações simbólicas. E evoca as expectativas proféticas das nações gentias vindo adorar e comungar no Novo Israel restaurado.

Podemos ver uma aplicação impactante neste interpelar de Jesus ao voluntário impetuoso então. Se as expectativas messiânicas dele fosse de um “filho de Davi”, glorioso, buscando poder e pompa, com toda a mesma lógica dos poderosos do mundo, era a companhia deles que a pessoa deveria buscar. A lógica do caminho de Jesus é oposta à lógica dos poderosos, à lógica do poder mundial.

Para subverter os poderosos e sua dominação e exploração, não basta assumir a racionalidade deles e tomar o poder deles; é necessário subverter essa racionalidade, para deslegitimá-la e apontar um novo caminho para os oprimidos.

9 de maio de 2011

No caminho de Emaus

Uma passagem estritamente lucana, constando apenas neste evangelho; pergunta-se então sobre quais as fontes... Possivelmente, pelas referências explícitas a Cléofas na passagem, adviera de algum recolhimento de um testemunho deste na comunidade cristã nascente e apresenta-o então como alguém muito considerado e de papel importante na atividade proclamatória de Cristo, ou na exortação dentro desta.

Importante isto à luz do clima do quadro de suas caminhadas à Emaús. Era um clima lúgubre. Soturno. Talvez de frustração. O que mostra a melhor perspectiva que ficaria de Jesus caso sua história terminasse na cruz: no máximo, teria sido mais um profeta que indicaria o caminho e a vontade de Deus ao povo, levantara expectativas de redenção para Israel, e ficaria martirizado. Sobretudo, de forma alguma seria considerado mais como O Messias nem proclamado como tal.

Jesus vai ao encontro deles; os encontra e os busca na profunda situação de senso de falta de sentido, de vazio, de abismo escuro. E no encontro com eles, vai lhes dando sentido e nova perspectiva. Agora assim já vão abrindo seus corações para a Revelação dele... que vontade louca de saber como que Jesus expôs as Escrituras...

Então eles o acolhem. O convidam para entrar.

É digno de cuidado não deixar passar despercebido o momento em que é reconhecido: no partir do pão! É como recapitular neste momento fenomenal tudo o que a vida de Jesus representou, seu projeto, seu ensino, sua autoridade. A comunhão, partilha revestida com um senso de assim estar na atmosfera do Sagrado! E Jesus Ressuscitado vem à tona! A continuidade entre Jesus em seu ministério terreno e Jesus Ressurreto é plenamente frisada! E o detalhe de seu “sumiço” não é apenas um tipo de relato milagroso exaltador hagiográfico. Se assinala enfaticamente nas narrativas da ressurreição algo muito estranho: ao mesmo tempo a materialidade de sua natureza, a fisicalidade dela, no caso nosso aqui, caminhando, partindo o pão... onde faz sentido o aparentemente paradoxal tema paulino do “corpo espiritual”, não mais sujeito à deterioração, um corpo de natureza espiritual... e também há cenas de uma supra-materialidade, parece que a realização da expectativa da ressurreição material clássica dos judeus no tempo dos martírios do século II a.C. com a idéia da libertação dos limites e da decomposição material deste mundo. Uma nova natureza, e um atesto para a esperança para a Nova Criação.

Jesus some, num momento em que as testemunhas provavelmente iriam querer detalhes sobre o que ocorrera durante este tempo; iriam querer detê-lo, propô-lo muitos projetos... Mas ali Jesus parte como que dizendo que o que fez foi confirmar o sentido de sua missão, reafirmar o seu comissionamento, e enviá-los ao mundo para dividir com todos esse encontro com ele no partir do pão, na leitura profética das escrituras apontando para sua vitória sobre o mal...

Partilha, algo bem materno. Pois no geral, é um dom bastante materno, em que inclusive, na carência, mães costumam abdicar de si para seus filhos...

17 de abril de 2011

Buscar primeiro... o quê?


O grande fogo de paixão que moveu a vida e o ministério de Jesus é o projeto Reino de Deus. É o núcleo de sua mensagem. Não foi a alma indo para o céu, o indivíduo indo para a igreja. Mas a inauguração do Reino; a futura consumação do Reino e o sentido de constante urgência. Manifestações do Reino. A chegada do Reino de Deus com poder.

É uma expressão que aparecia muito pouco nas Escrituras hebraicas. Mas a quê ela remetia, de qual lençol e nascente ela jorrava?


“Não serei eu vosso soberano, nem meu filho. IWHW seja seu soberano!” -Gideão em Jz:8.3

“IWHW disse a Samuel: Escuta a voz do povo em tudo aquilo que te pedem. Não é a ti que rejeitam, mas a mim. Não querem mais que eu reine sobre eles”. I Sm:8.7

“Dai a Deus a força. Sua majestade está sobre Israel, sua força está nas nuvens”. Sl:68.35

“Senhor, nosso Deus, outros senhores além de Ti dominaram sobre nós, mas é unicamente o Teu nome que repetimos”. Is: 26.13

“A oração foi a seguinte: 'Senhor, Senhor Deus, Criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, o único Rei, o único bom,' (...)” II Mb:1.2

Vemos em um texto antigo o profeta Isaías, em êxtase, atônito diante da visão da coorte celestial de Deus:
No ano em que faleceu o rei Ozias, vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado. A cauda de sua veste enchia o santuário. (...)
Ai de mim, estou perdido!
Com efeito, sou um homem de lábios impuros,
e vivo no meio de um povo de lábios impuros,
e meus olhos viram o Rei, YWHW dos Exércitos!

Salmo 47.8 “YWHW é o rei de toda a terra.” Salmo 103.19 : “Nos céus estabeleceu YWHW o seu trono, e os seus poder real domina sobre o universo.” Em Daniel 3.33, “Quão grandiosos são os teus sinais! Quão portentosas suas maravilhas! Seu reino é reino eterno e seu domínio vai de geração em geração”.

Então, sobre as bases da idéia do Reinado de Deus vinha a concepção de que não era algo situado aqui ou ali, delimitado a um local, uma particularidade, mas algo sem fronteiras e que perpassa e abarca a criação e a própria realidade cósmica.

Com o desenrolar da história de Israel, foi se firmando a perspectiva do Reinado de Deus como uma promessa de redenção para a nação. Vejamos o profeta que continua a pregação de Isaías, no contexto em que o povo estava sob o domínio da Babilônia, anunciando para o futuro próximo um novo êxodo do povo exilado em conexão com a ascensão de Deus ao trono, de importância mundial:
Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião:
O teu Deus se tornou rei!
Ouve, os teus vigias erguem a voz,
juntamente exultam,
porque como com seus próprios olhos vêem
o retorno de YWHW a Sião.
Rompei em júbilo, exultai à uma, ó ruínas de Jerusalém;
Porque YWHW consola o seu povo, redime a Jerusalém
(Is 52.7-9)

Já no presente, o profeta vê o mensageiro da vitória de Deus para a nação, antecipando o futuro que será consumado, a fim de lhe trazer a notícia de paz: “Teu Deus se tornou rei!” Uma palavra de encorajamento, apresentando que as tristezas daquela situação não eram nem seriam a realidade definitiva que teria a última palavra. A cena é desoladora: Jerusalém está arrasada, destruída pelos babilônios; mas a vinda do Deus vitorioso é descrita.

Em Ezequiel, algo semelhante acontece:

“Com mão poderosa, com braço estendido e com furor desencadeado, hei de reinar sobre vós; tirar-vos-ei do meio dos povos e vos congregarei dentre os países onde fostes dispersados(...) Levar-vos-ei ao deserto dos povos e ali entrarei em juízo convosco, face a face”. (Ez. 20.33-35).

Ali se apresenta que Deus congregará os que foram dispersos entre povos distantes. Estabelece um ato de libertação passional e subvertedor. E nele prova seu poder de rei e estabelece seu direito como senhor. É a esperança de um futuro que supera o presente.

Pois a Yahweh pertence o Reino: Ele governa as nações.
Sim, só diante dEle todos os poderosos da Terra se prostarão,
perante ele se curvarão todos os que descem ao pó;
Salmo 22.29-30a

Mexia de maneira avassaladora com a mente do povo os brados dos profetas sobre a restauração promovida por Deus a partir de um restante fiel, removendo a assolação promovida por, dentre outras coisas, a infidelidade anterior do povo:
Certamente reunirei todo Jacó,
Congregarei o restante de Israel, (..)
Sobe diante deles o que abre o caminho(...)
E o seu rei vai adiante deles
E YWHW estava adiante deles”
Miquéias 2.12.’Farei das estropiadas um resto,
e das dispersas uma nação poderosa.
E YWHW reinará sobre elas,
no monte Sião,
desde agora e para sempre.
Miquéias 4.7.

Restabelece-se o que foi perdido. Renova e aprofunda-se a aliança. Repara-se injustiças antigas. “O Reino pertencerá a YWHW”, não ao estado (Abdias 21). Em Zacarias 14, incorpora-se o juízo sobre os opressores, e remanescentes vindo de todos os povos adorar. “YWHW será rei sobre toda a terra; naquele dia YWHW será único, e um só será o seu nome”. (Zac.14.9; confira Deuteronômio 6.4; Salmo 22 28-30). A criação também é envolvida, e ela aclama e se alegra na redenção: “YWHW tornou-se rei – regozije-se a terra!” Sl. 97.1

Sob a subjugação e exploração do Império Romano, império este que se impunha através do Evangelho de César - a aclamação do Imperador, desfilando em carros e cavalos num cortejo e procissão triunfal, se glorificando de uma vitória de uma guerra ou uma conquista - e do discurso da filiação divina do mesmo imperador, Israel ainda considerava-se sob exílio, esperando a salvação de YHWH. É sob e por sobre toda esta expectativa e força propulsora que Jesus plasmará sua mensagem para seu tempo, para sua vida, para o povo e para o mundo. Ela alimentará suas pregações, suas curas, sua entrega até a morte.