Mostrando postagens com marcador Criação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criação. Mostrar todas as postagens

25 de agosto de 2013

"Identificação: regando as raízes" - uma crônica

“Sou uma gota d'água
 sou um grão de areia”



E subitamente nosso dia mofa. Como mofo de geladeira. Nos deparamos com aquela notícia. Não foi com parente nosso, não foi com amigos. Não era alguém próximo, mas transpomos toda a distância numa ponte de facada gelada no meio de nosso peito. Foi com uma idosa, com um grupo, com uma população. Não necessariamente a mais pobre, o povo mais oprimido, a garota com a cara mais tímida e retraída. "Necessariamente”... como se tivesse alguma necessidade. Como se tivesse intrincado em alguma lógica esquemática... E o dia acaba. Será que ele pôde ter algum começo? Quando começara? Parece que se perdeu de vista... O nascer do sol se tornou tão gélido... e nossos olhos se cobrem de uma fuligem macerada, cinzenta, seca e pegajosa, que enevoa nossas vistas. É quando nos retraímos e não conseguimos partilhar das conversinhas- é o que se tornaram -, do papinho dos colegas de trabalho, dos risinhos das rodinhas, os olhares atravessados nos queimam, parece que o ambiente social ao redor se tornou um bêbado chato.

E por quê? E por quê?

De onde provém a música silente de piano e harpa? A voz docemente triste que parece ter vindo do reflexo pálido do luar no mar parado?

É horrível quando outros sentimentos mesquinhos vêm para manchar isto, como o borrado da maquiagem e o cheiro do ruge de uma meretriz sub-vulgar na paisagem da memória de alguém amado que corre o risco de ficar menos nítida.

Ideias que vêm de se ser o mudo profeta inaudito do mundo surdo. De usar esta melancolia pela dor ante a quem tornamos mais próximos do que o outro que são, para justificar as imposições de nosso ego, os nossos malfeitos e frustrações. Quando se transforma em mecanismo de compensação. Para motivar zombarias amarguradas da parte de quem não consegue se alegrar na festa se não for o centro das atenções. Isso vem para turvar mesmo quaisquer dos mais nobres sentimentos, como se fosse aquilo que algumas igrejas chamam de “setas do inimigo”. Mas para turvar; devido a inveja de não ser água.

Creio que este tipo de empatia não pré-fabricada é autêntica quando não nos leva a sentirmos superiores aos outros, ao mesmo tempo que não importa o quanto possamos nos debater, não afastamos um tipo de indignação, que não é racionalizada – não pode sê-lo – pelo mundo continuar  fazendo o que faz a todo dia e todo momento, tagarelando e barulhando sem parar, não se dando conta do que aconteceu com aquela pessoa. Quem o fez afinal, se não fomos nós, foi o mundo.

Me questiono de onde vem isso de brotar uma partilha de sentimento com pessoas que viveram ou morreram algo doloroso, mesmo a gente não tendo vivido aquilo, ou padecendo de um mal que não é nosso... não falo de uma empatia geral, nada de instinto gregário. Mas casos particulares que nos tocam e cortam diferentemente de quaisquer outros, uma comoção não artificialmente feita que nos domina, e fala em particular... Em meio a tantas agulhas caindo do céu. Iremos encontrar quase concomitantemente diversas notícias horríveis com alguém. Iremos assistir a muitas histórias lacerantes e comoventes, em outros filmes, livros... porque aquela em particular fala tanto conosco? Nos identificamos? Algo do inconsciente? Não, isso seria uma “psicanalização” que ela mesma seria uma racionalização arrogante. Não tem nada tal como um “chiste”. É como se no fundo da alma, o mesmo turbilhão que girou com aquele ser girasse em nós também, no nosso âmago, sua ferida resvalasse nas nossas.

Eu creio que qualquer tentativa de dissertar e descrever isto com artifícios de artigo científico, ou filosofia analítica, deixaria escorrer tanto como areia pura entre os dedos ao fechar a palma da mão. Não é moldável como argila. Apenas as forças conotativas das metáforas poéticas podem compartilhar conosco algo substancial do que ocorre aí, não para a gente “entender”,  mas se aproximar com a percepção e sensibilidade possível para com a textura e temperatura da areia.

Eu sonhei acordado que, em nossos recônditos, no âmago de todos nós, há um poço. Um poço após camadas escuras... sempre cai água, nunca se enche, a não ser no transbordamento quando da morte.  Sempre cai água; gotejando, escorrendo fina pelas paredes, caindo como de uma bica, brotando das fendas... produz sons e vibrações diferentes, e se tudo fosse musicado, teríamos partituras diferentes. Mas no meio do grande ribombar de todos os tanques, uma frequência, um tom, uma forma do cair e do vibrar sintoniza com o de outro poço, e um acorde, ou até uma ária é produzida nesta afinação. Quem sabe até se a água que cai em um não era da mesma, misturando e se dividindo em um dos canais até o desaguar?

Quando esse arrebatamento pelo sofrer alheio é um límpido ribeirinho, algo de significativo e sanador ocorre em alguém, mesmo que seja um processo, um correr de rio entre pedrinhas e galhos caídos.

Conta-se que Beethoven estava numa fase mais soturna na vida quando morava em um conjunto de sobrados, com a surdez já num nível avançado, totalmente insatisfeito com seu momento criativo, desiludido da vida. Havia uma mulher que morava no sobrado ao lado ou abaixo no conjunto; era cega. Beethoven soube que ela afirmava que o maior dos seus pesares era não ver o luar. O compositor se engajou num sentido que captou para seu momento de vida, passando por cima de toda suas lamentações, e se entregou a compor “Sonata ao Luar”, uma das mais arrebatadoras de suas sonatas. Tocando-a ao piano, a mulher ouviu. E dissera então que vira o luar, crescendo, brilhando, se enchendo, minguando para poder novamente renascer.


Eu tive alguns momentos de aguda prostração com a notícia do arrebatamento da vida de B. Um bebê exalando vivacidade, pequena criança sedenta dos descortinares do mundo, uma criança despojada e pueril, que um dia falou embolado algo inteligível demais para nosso esquecimento distraído, um dia jogou papeis, sandálias, coisas coloridas para o alto, esfolou o cotovelo e pintou uma casinha, queria voar de helicóptero, veja só, queria ser repórter, atriz, secretária e aeromoça, andar na rua com sapato alto, óculos e pasta embaixo do braço, tricotar como a vovó. Ela rompia com sua luz pelas colinas. Serelepe com caretas ridículas, muxoxos, pedidos de mimo, sapeca, serelepe. Ela tinha revistinhas tipo Capricho, já aos onze; aos doze anos, ela já entendia de batons, aos onze anos, ela já examinava os meninos, queria paquerar o mais bonito e ser paquerada pelo mais inteligente, achava-se a única a notar um dos mais tímidos, aos doze anos, aos dez anos tinha caderno de segredos. Ela não podia ser tocada, ouvida, não podia receber nenhuma lição, não havia como mandá-la guardar nada, estava “guardada” em um caixão aos treze anos. Ela foi separada de nós, não podia ser abraçada nem como uma fumaça. Uma fumaça ela...

Porque aquilo se eu não era amigo da família, não era próximo, só sabia que existia, se uma menina de sete anos morreu estuprada, se milhares morrem de fome, e outras tantas cheiram cola e outras de treze roubam e matam e muitos querem exterminar as crianças que não foram bem cuidadas? Ela foi bem cuidada. Ela estava doente, de todo jeito, mas aquilo não foi uma doença, talvez uma doença, a chaga da realidade que aceita a carbonização de gente. Doeu isto, doeu seu sofrer anterior com a recém-descoberta doença degenerativa que mal teve tempo de com sua perversão, começar a degenera-la de vez. A minha vida e de quem eu convivo está continuando, eu não sei se as vidas estavam continuando, ela não era mais importante do que todas as crianças do mundo que podem morrer velhas. Eu sabia que ela existia, eu só sabia que ela existia. Mas a minha existência ficara mais abafada e eu às vezes tenho bronquite.


Eu deixava um pouco de pó de vidro arranhar meu esôfago até que um dia um certo encantamento que vem de um Espírito no universo que absorve estas dores lânguidas, como as dores de seu parto, me trazer um cântico para honrar e celebrar e poder pensar: “para B”.
Escultura de Bruno Giorgi

O céu me parecia um companheiro para a minha secura em um dia noturno de uma manhã de segunda feira, em que as nuvens estavam tão cinza quanto o pó de escamas que grudavam minha vista como teia de aranha. E meu inalar estava mais úmido, tendo também que fazer bem mais força para mexer com os braços. O céu respeitava-me e estava até solene. Quando aconteceu. As densas gorfadas de vapor carbonizado como uma fumaça dormente, se convertendo em gotas d'água. Uma família de gotas d´água serelepes. Saltitando aos gritinhos após a abertura dos portões. Elas viviam, entravam cheias de vida aos treze anos até se esfarelar. A ampulheta vazou. E por cada gota d'água, cada única gota d'água, eu gota d'água e todos os meus amores gotas d'água, e pela B., que vive e morre com pesar e esperança em mim, eu reafirmei minha fé de que tudo isto não é em vão. E eu dei as mãos às gotas que me molham não ignorando que há outras gotas que molham, aquelas apenas caíram em mim e as bebi.

O meu texto-desabafo recebeu o nome de “Percurso”.  

Mais adiante o publicarei ;)

15 de abril de 2013

Uma brevíssima história do "Coisa Ruim"


Às vezes em algumas igrejas ele é quase tão mais falado do que o próprio Deus. Há aqueles que dizem ser seus seguidores ou admiradores. Pipocam por alguns fóruns teorias sobre a evolução até a configuração cristã clássica de sua imagem. Muitas delas são chutes. Vamos fazer uma brevíssima recapitulação da história da emergência do conceito da figura do Diabo. Vamos ver um pouco como se constituiu na matriz do cristianismo, o imaginário judaico polimorfo.

Até há um tempo atrás se jugava que foi algo nascido na interação com o Império Persa, sob influência da religião de Zoroastro, que advogava dois polos ontológicos fundamentais, duas forças volitivas em um conflito cósmico permanente. Hoje tal visão está superada, ainda que se tenha em mente a contribuição forte deste sistema religioso.

O povo hebreu iria constituindo seu ideário religioso a partir de experiências de visionários, da experiência e tradições coletivas do povo, em influência de interações complexas do seu meio circundante. Em grande parte queria contrastar com as noções e referenciais dos vizinhos, sobretudo rivais, contudo, retrabalhavam-nas. Decerto, era forte a pressão por assimilações de povos muitas vezes mais estruturados e organizados, de grandes nações e impérios com mitologias e religiões exuberantes e elaboradas dando sentido às organizações sociais.

Hoje temos meios extremamente mais férteis do que há anos atrás para compreendermos cenários primordiais deste processo, através de muitos documentos dos povos do Oriente Próximo, como
os textos de Ras Shamra, os manuscritos ugaríticos de Marzēah, os selos de Tell Asmar, o Tratado de Enuma Elish, etc.

Baal 
Diversos mitos versavam sobre o conflito da divindade mais saliente do imaginário vencendo forças mais antigas do caos.

Uma muito influente fora a vitória de Baal contra Leviatã, a serpente que aparece em alguns achados representada com sete cabeças; ou contra Yam (ou o "Juiz Nahar), o mar, o deus da destruição, ou contra "Mot", rei das profundezas da morte, em que Baal desta forma consegue escapar da sua morte como destino final e passa a ser doador da vida. Baal era um vistoso guerreiro, inferior no panteão à figura anciã sapiencial de El, que sob uma outra forma, era cultuada pelos hebreus, se mesclando com YWHW ( Yaweh), havendo ainda a controvérsia se o nome de YWHW chegara de regiões egípcias ou sírias. Baal desafiara a serpente do caos primordial e da morte, fulgurara aí aclamado como grande divindade, doadora da vida.

Em outras fontes, interagindo com outras figuras religiosas poderosas como Gilgamesh, uma imagem similar a Leviatã aparece como Tiamat ( caldeus – vencida por Marduk ), Rahab, etc. É impressionante o quão vasta é esta marca no inconsciente coletivo humano, espalhado por tradições em diversas regiões, como por exemplo milenarmente na Índia, com a vitória de Indra sobre a serpente Vishnu.

Contudo, pode-se conceber uma controvérsia na mentalidade hebreia, de onde se reformatou a ideia dos vizinhos: o fator mais constrangedor seria que sua divindade era anterior a qualquer outra, sendo assim, ficaria embaraçoso conceber que se revoltou contra seres malignos anteriormente mais poderosos. Desta forma, se inverteu, e estes seres, poderosos mais inferiores, ora aparecem como insurretos subjugados, ora como vencidos e dominados por El/Yaweh no ato de dar forma e ordem ao mundo criado [concomitante, na busca de estabelecer sua identidade própria por contraste com os rivais, a cultura israelita foi associando algumas das divindades principais rivais - também devido a práticas cultuais que era condenada pela ética israelita - com os próprios seres insurgentes].

Alguns exemplos:

Jó 26, 10- 13:
Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas. As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. Com a sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário. Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz.

Salmo 89, 9-10: 
Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. Calcaste a Rahab, como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos.

Isaías 51.9,10: 
Por acaso não és tu aquele que despedaçou Rahab, que trespassou o Dragão?

Salmo 74.13-17:
Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste as cabeças do Leviatã e o deste por alimento às alimárias do deserto. Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos. Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol, tu os formaste. Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste.

Se estabeleceu então na religião hebreia essas figuras poderosas mas inferiores à sua Divindade. Se temia, sobretudo pela associação com o mar, de onde provinham muitos impérios conquistadores. Mas a concepção de um estreito interesse com a vida humana era remota ainda. 

Como muitos imaginários de seu contexto geocultural, os israelitas concebiam o mundo habitado por espíritos não-humanos, seres sobrenaturais de caráter diversos. Alguns, como nosso caipora, caboclo d'água, curupira, armavam emboscadas em bosques, beiras de rios, etc.

Abstraindo sobre o que já foi abordado, as pessoas articulam seus sistemas simbólicos sobre as realidades espirituais, transcendentes, sobrenaturais, mediadas pelo impacto conotativo e carga semântica na representação de seres, fenômenos e ideias de nosso mundo, e pelas impressões que lhe são impingidas na vida, no mundo social, na própria natureza. Assim, muito popular entre os hebreus também era a ideia de “corte celestial”, sua divindade como Rei. Por exemplo, em expressões de “buscar a face” do Senhor, a ideia é tomada da busca de se ter audiência com os reis e serem atendidos por eles. O próprio termo “El” entre os hebreus às vezes era usado na acepção de uma mescla do Rei divino e a corte. Nesta corte atuaria um Promotor, um Acusador, que era um destes espíritos dos quais falamos acima; era inimigo declarado dos humanos. O nome com o qual mais se sagrou foi “Ha Satan”, O Adversário.

Sob influência persa, o que se incrementou, aí então já no judaísmo ( pois as tribos israelitas do norte foram deportadas pelo Império Assírio nas décadas finais do século VIII a.C. e perderam-se na história, permanecendo o reino do Sul, Judá (para o qual houvera uma migração maciça de refugiados do Reino do Norte no período imediatamente antecedente), que mesmo com a deportação pelo Império Babilônico nos inícios do século VI a.C.; a tribo de Judá e juntamente, em grande parte, a de Benjamim, permaneceu coesa em diversas partes do Oriente Próximo e muitos na sua terra, com um grande retorno sob o Império Persa a partir da antepenúltima década do século VI numa política de repovoamento sob vassalagem imperial), foi que as antigas formas monstruosas do caos passaram a ter um papel maior na vida humana, na história. Se tornaram as senhoras de um mundo sombrio, para onde iriam pessoas desertadas de Deus; e passaram a atuar também como adversárias do projeto de Deus para Israel.

Já de um processo anterior se desenvolveu a ideia de que povos tinham um Guardião, e o povo de Israel tinha o Anjo Miguel.

Belial, Baal, se tornaram os nomes mais populares e difundidos para a grande Força do Caos. Superior em hierarquia com Ha Satan, aos poucos foram se fundindo. Temos, dos tempos de Jesus, documentos mais antigos preservados entre a Seita do Mar Morto, cuja biblioteca em Qunrã fora uma das maiores descobertas da história da arqueologia, que nos legam textos em que interagem as crenças em Belial e Ha Satan, ambos por trás das forças das guerras dos impérios opressores odiados – em especial, “Manuscritos da Guerra”, da Biblioteca de Qunrã, capítulo 13.

Com a ideia de Belial e Ha Satan se fundindo, temos aí um grande ser do mal, com um caráter de trazer o caos na criação e no mundo, a opressão na geopolítica e inimigo de cada ser humano, atuando para destruir sua vida e lhe buscando afastar da comunhão com Deus, ideia já desenvolvida nos tempos da origem do cristianismo. Onde também veio ganhando corpo outra dimensão extra para o ser maligno.

Um assunto extenso seria traçar aqui a polêmica no judaísmo quanto a relação entre a divindade transcendente ao mundo com o próprio mundo. Deus seria tão “outro” em relação a este mundo, que como pensar sua atuação no mundo sem comprometer sua transcendência. De fato, o judaísmo caminhara para uma concepção monoteísta de caráter muito mais acentuado do que nos tempos mais antigos e mais ainda no período que o antecedeu, na religiosidade hebreia.

Uma das respostas (precisaríamos de um bom estudo só para apresentar várias destas respostas) foi salientar o papel dos anjos. Eram mensageiros e agentes com uma “procuração” divina, atuando para implementar a vontade de Deus no mundo e auxiliar os homens nos propósitos divinos. Mas, diante da constatação do caos e maldade no mundo, uma “ovelha negra” na família angelical se fez indispensável: o arquirrival de Miguel (ou Gabriel ou Rafael – que aparecem ou com menor destaque, ou com grande destaque mas em menos documentos), o anjo rebelde Samma'el. Um anjo que se rebelara contra Deus e arrastara muitos consigo, e se prepara para o grande combate final cósmico (como consta na literatura judaica do tempo das origens cristãs - Jubileus 23,29; Assunção de Moisés 10,1).

Assim, vemos alternando entre estes papéis o nome de Belial, Ha Satan, e posteriormente (com menos aparições em documentos cristãos) Samma'el, para o mesmo ser, fundidas sua características.

Como testemunho atestando as raizes antigas das quais brotaram este imaginário, podemos ver nas passagens que falam da queda espiritual, política e histórica de alguns grandes reis. Da onde proveio o termo “Lúcifer”, Filho da Luz. Filho da Luz era o nome dado a Vênus. E era comum os reis se associarem a astros, sendo Vênus um nome auspicioso. E o duplo sentido, o sentido cósmico e espiritual presente como alusão nesta epopeia de queda do rei soberbo, pode ser compreendido em que, literariamente, estas passagens são intimamente ligadas à literatura chamada “apocalíptica”; literatura na qual, como vemos ilustrado no livro “Apocalipse” do cânon do Novo Testamento (temos muitos “Apocalipses” no judaísmo contemporâneo de então, bem como presença marcante nos livros veterotestamentários de Ezequiel, Daniel, Joel, algumas passagens em Isaías, etc.), os traços das batalhas dos poderes cósmicos por trás do palco da história humana é marca característica.

De onde mestres cristãos dos primeiros séculos viram nesta passagem uma ilustração da queda do Demônio enquanto um Anjo especial que se revoltou contra Deus, crença já firmada independentemente delas.

Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônica, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.
Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti.
Ezequiel 28:12-17

Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, Filho da Aurora! Como foste atirado à terra, subjugador das nações!
E no entanto, dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e na montanha da Assembléia me assentarei, nos confins do norte.
Subirei sobre até o céu, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo foste precipitado ao Sheol, ao mais profundo do abismo.
Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: É este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os reinos?
Isaías 14:12-16

Entremeado a esta passagem de Isaías, vê-se o pano de fundo de antigas tradições, constando com uma antiga divindade de sistemas históricos caananitas: Shahar = Aurora, e disputas por poder na corte da divindade máxima do panteão, El, que culminou com o desdouro do desafiante sacrílego no mundo da morte. A memória destas sagas vem reproduzida aqui num poema profético que interpreta a vaidade e quebra do poder de um rei conquistador soberbo.




Bibliografia Consultada:

Flusser, David. Judaismo E As Origens Do Cristianismo, V.2. Capítulo 8, “O Magnificat, o Benedictus e o Manuscrito da Guerra”. Rio de Janeiro: Imago, 2001.

Foster, Benjamin R. Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature. Bethesda, CDL, 2005

Kelly, Henry Ansgar. Satan: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2008.

Mettinger, Tryggve. O Significado e a Mensagem dos Nomes de Deus na Bíblia. São Paulo: Ed. Academia Cristã, 2008.

Smith, Mark S. O Memorial de Deus: História, memória e experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.

Sparks, Kenton L. Ancient Texts for the Study of the Hebrew Bible: A Guide to the Background Literature. Peabody, Mass.: Hendrickson, 2005.

Wray, T. J., e Gregory Mobley. The Birth of Satan: Tracing the Devil’s Biblical Roots. New York: Palgrave Macmillan, 2005.


3 de março de 2013

Ciência, Metafísica e Estética


A Scientific American Brasil publicou em seu portal este formidável texto de George Musser, onde ele versa sobre os “Einstein Papers Project” que contêm mostras das posições de Einstein dentro do panorama geral do clássico debate com Niehls Bohr a respeito da física quântica. 

Este debate famoso (de Einstein: "se sem perturbar de modo algum um sistema, pode-se prever, com certeza, o valor duma quantidade física, existe um elemento de realidade física relativo a este sistema, que corresponde a esta quantidade física") abriu as cancelas para uma das controvérsias mais acirradas da ciência básica, a do instrumentalismo do Bohr, em que a probabilidade quântica é uma propriedade intrínseca e a indeterminação está no real ( para ele, as teorias científicas sendo apenas instrumentos convenientes para permitir predizer fenômenos e serem úteis para correlacionar o que se observa com o controle técnico, e o debate quanto ao rigor e acurácia delas não é no nível do que a realidade realmente é - pois em si mesma é inapreensível - , mas no nível da linguagem mais apurada e consistente sobre ela) e o determinismo ontológico de David Bohm em que a incerteza é oriunda da inevitável ignorância devido a não se ter o instrumental necessário para acessar experimentalmente as "variáveis escondidas" (para ele, as teorias científicas realmente descrevem a realidade, que embora tenha manifestações locais indeterministas, no todo é determinista, fechada na cadeia de causa-efeito, só que descobre-se que ela possui variáveis intrinsecamente ocultas).

É o debate do positivismo (Borh) contra a epistemologia (Bohm). 

"siga-me", fotografia por Wang Qingsong
Para Bohr, "não existe mundo quântico. Existe apenas uma descrição filosófico-quântica abstrata. É errado pensar que a tarefa da física seja descobrir como é a natureza. A física se preocupa com o que podemos dizer sobre a natureza", em "The Philosophy of Quantum Mechanics", de M. Jammer.

Tal debate nunca foi resolvido em termos de julgamento das evidências, comprovação, corroboração, contra-exemplos. Os julgamentos entre os cientistas entre a controvérsia evoca critérios metafísicos e mesmo estéticos. Decidem em termos de qual postulado é mais elegante, ou que possui maior poder explicativo para um número maior de fenômenos, etc.

Eu me identifico com uma posição recente, que integra alguns pontos de cada, ( como o faz também o Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica - ICRA); adoto a visão de que emergem na realidade diversos níveis de eventos, processos e componentes com princípios de organização próprios e que se influenciam mutuamente no todo maior. A abertura caótica criativa ao meu ver está na própria realidade, mas a realidade não pode ser decifrada manifestamente direta. Sou Realista Crítico, caindo mais para o crítico, porém: pode-se ter acesso à escopos da realidade (mesmo que a galera Copenhague diga que não), ainda que não seja representada de forma diretamente objetiva, mas pode ser conhecida parcialmente e representada ainda que imperfeitamente. Ocorrerá sempre uma "distorção". 

Assim, está mal-direcionada a busca para um modelo e consequente linguagem universal para todos os fenômenos, que muitos cientistas acreditam ser uma "missão", autônomo ante as peculiaridades do processo abordado. 

 Disto decorre que o Real é muito mais rico e fecundo do que cabe no claustro positivista. Não podemos pautar o que "É” com um "Só Pode Ser Assim" derivado do que achamos "Normal". Nosso questionamento tem de ser no sentido de "o que lhe faz pensar que seja assim?".
  
Vez ou outra retomo leituras de "Uma Incertaine Réalidaté", de Bernard d'Espagnat, que de certa forma acompanha uma avaliação balanceada da controvérsia, de linha realista critica, embora esteja inclinado de foma mais matizada para Copenhague. Foi uma das leituras mais apaixonadas que fiz de um livro sobre divulgação popular de física teórica e cosmologia, e considero uma obra que nos conduz a encaramos o Universo com o assombro do "Numinoso", sobre o qual Rudolf Von Otto escreveu tão poderosamente. 

As traduções do francês aqui são livres, com ajuda indispensável do dicionário (imagine-se o que é ler e reler sob estas condições =P):

Ao contrário do caso com a física clássica, com sua divisão em campos e parcelas que são consideradas um reflexo da realidade, os 'objetos' de referência da física quântica são insólitos. Partículas quânticas agem de forma imprevisível e indeterminada e muitas vezes não possuem propriedades palpáveis ou detectáveis que permitam estabelecer sua localização espacial, nem sobre margens de energia limitada, nem seu sentido de rotação. Eu me atreveria inclusive a dizer que essas formas misteriosas não são outra coisa do que noções que nós temos elaborado para representar o nosso mundo empírico.

Ele conclui em termos gerais que, conquanto as implicações físicas da teoria quântica sugerem que o conhecimento científico nunca verdadeiramente descreve a realidade de maneira puramente objetiva, independente dos meios de mentalização, a necessidade conceitual é de redefinir a realidade definitiva por uma "realidade velada”'. "_A única resposta que eu sou capaz de fornecer é que subjacente a esta realidade empírica está uma misteriosa e não-conceituável 'realidade última', não incorporada no espaço e (provavelmente) não no tempo também."

Então, nenhum dos seguimentos do saber humano hoje é suficiente para nos endereçar na "caça" ao real, reivindicando serem as vias cognitivas únicas de acesso ao Ser. "Teoria do Tudo"? Um sonho vago e distante. Talvez com necessidade de ser "re-focado". A melhor tarefa da explicação científica é impedir fantasia descuidada e a especulação desenfreada, suscitando coerência para os cenários ontológicos.

13 de junho de 2012

Religião por Direitos - Cúpula dos Povos

As agências e organizações ecumênicas estarão realizando grande parte suas atividades no espaço de Religião Por Direitos. Visitem o site www.pad.org.br e/ou o blog www.religioespordireitos.blogspot.com onde consta a programação.

3 de junho de 2012

Crepúsculo no Cerrado

Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos.
Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite.
Salmos 19:1-2



27 de março de 2012

Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental


A Plataforma Brasileira de Direitos Humanos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais - Dhesca Brasil - se inseriu no processo da Cúpula dos Povos da Rio+20 por Justiça Social e Ambiental, paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (UNCSD) – Rio + 20 , participando do Comitê Facilitador da Sociedade Civil para a Rio + 20.

O processo de Cúpula, que acontecerá entre os dias 15 e 23 de junho no Aterro do Flamengo, não intenta realizar atividades de organizações singulares, mas busca processos de articulação de diferentes organizações e movimentos, que possam convergir dentro dos grandes eixos propostos.

Na semana passada (18 a 20) houvera uma reunião no Rio de Janeiro com as redes internacionais, para internacionalizar o processo, fechar conjuntamente os eixos da Cúpula e a metodologia do evento. A proposta medotológica ainda está sendo fechada no Grupo de Trabalho Metodologia, já havendo informes preliminares de algumas propostas:

Os três grandes eixos da Cúpula vão também embasar as três grandes Assembleias dos povos que acontecerão 1) a denúncia das causas estruturais da atual crise e das novas formas de reprodução do capital; 2) as soluções e novos paradigmas dos povos; 3) as agendas, campanhas e mobilizações que articulam os processos da luta anticapitalista após a Rio +20.

Antes das Assembleias, porém, acontecerão Plenárias Pré-Assembleias, a fim de facilitar a convergência das atividades autogestionadas desenvolvidas durante a Cúpula. Os temas das Plenárias ainda estão em discussão no Grupo de Trabalho de metodologia, mas os indicados giram em torno dos eixos Trabalho, Consumo, Produção e Educação, sendo as Plenárias assim distribuídas:


1) Direitos, por Justiça Social e Ambiental;
2) Defesa dos bens Comuns, Contra a Mercantilização;
3) Soberania Alimentar;
4) Energia e Industrias Extrativas e
5) Trabalho: Por uma Outra Economia e Novos Paradigmas de Sociedade.

As datas das Assembleias dos Povos são:

  • 19 de junho - Assembleia sobre causas estruturais e falsas soluções
  • 21 de junho - Assembleia Nossas soluções
  • 22 de junho - Assembleia para agendas de lutas e campanhas

A proposta é que ao mesmo tempo em que as Assembleias estejam acontecendo, sejam organizadas também em outros países paralelamente manifestações, marchas, ações. A forma de integração (estratégias de comunicação) entre tais eventos ainda está sendo avaliada. Além disso, o dia 20 de junho foi eleito como dia de Mobilização Global, no qual estarão acontecendo em diversos países manifestações com denúncias das violações decorrentes do modelo de desenvolvimento, contra a economia verde e apontando alternativas da sociedade civil.

No espaço da Cúpula, além das atividades autogestionadas, das Plenárias e das Assembleias, acontecerão mobilizações, acampamentos e o chamado Pró-território do futuro, para que a Cúpula seja uma expressão das práticas que esperamos prevalecerem no futuro e as quais queremos construir. Ou seja, o espaço contará, por exemplo, com feiras e stands sobre economia solidaria, reciclagem de lixo etc. As inscrições para atividades autogestionadas acontecerão durante o mês de abril, e devem ser feitas pelo site http://www.cupuladospovos.org.br/







17 de outubro de 2011

06 de novembro - Dia de Oração : Mudanças Climáticas


277140_220700044630707_5884872_n.jpg

Esperança para a Criação, Dia Global de Oração e Ação para enfrentamento das Mudanças Climáticas: 06 de novembro de 2011.

Hope for Creation ou Esperança para a Criação, é um movimento global de cristãos que se colocarão de joelhos no domingo (06 de novembro) para orar por uma ação urgente para proteger a boa criação de Deus e aqueles que estão sendo mais atingidos pelas consequências das mudanças climáticas no mundo.

‎"N'A Rocha acreditamos que Deus fez o mundo, o ama e nos chamou para cuidar dele. É por isso que cremos serem essenciais para o enfrentamento das mudanças climáticas a oração e ação, como parte da 'Esperança para a Criação'. Em todo o mundo, do Reino Unido à África do Sul e dos Países Baixos ao Brasil, A Rocha está trabalhando com a Tearfund e as igrejas locais para as pessoas se envolverem e orarem durante o dia 06/novembro. Algumas A Rocha também estão organizando atividades práticas, permitindo que as pessoas experimentem a natureza. Esperamos incentivar uma apreciação mais profunda da natureza e uma compreensão do impacto que nossas ações podem ter tanto localmente como globalmente." Sarah Young, A Rocha Internacional.

Junte-se a nós.
Coloque-se de joelho no dia 06 de novembro.
Mobilize sua igreja para orar também neste dia.

Esta é uma iniciativa da Tearfund e você pode confirmar sua presença nesta rede de oração pelo site:hopeforcreation.org e/ou pelo Facebook d'A Rocha Brasil: 
Dia de oração e ação.

8 de dezembro de 2009

Reverência ao Criador, responsabilidade com a criação

De 07 a 18 de dezembro acontece a 15ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas - COP 15, em Copenhague, Dinamarca, mobilizando delegações do mundo inteiro, chefes de estado, representações diplomáticas, institutos de pesquisa, organizações não-governamentais.

Links recomendados:
Cop 15 - Copenhague 2009: Especial da BBC Brasil
Observatório do Clima

Confira também as organizações e espaços de reflexão/mobilização cristã na seção Ecumenismo no nosso blog "Cristianismo, meramente".



Oração

Deus Criador, a Terra é miraculosa e linda. Perdoe nossa confusão e inação ao nos confrontar com os desafios que as mudanças climáticas nos apresentam. Na luz de Sua verdade, ilustrada tão nitidamente através da vida e dos ensinamentos de Jesus, ajude-nos à reexaminar a nós mesmos e as escolhas relacionadas aos nossos estilos de vida. Ajude-nos à perceber as implicações que nosso modo de viver tem nas outras formas de vida na Terra. Que nós possamos seguir Sua liderança e cuidar de todo aspecto desse precioso mundo, que Tu fizeste e que Tu amas.

Nós oramos pelos líderes mundiais, que eles possam concordar num tratado novo, justo e radical em Copenhague que possa proteger e conservar nosso mundo frágil para as futuras gerações. Através da história o Senhor tem movido pessoas à realizar coisas incríveis pelo amor de seus próximos. Inspire-nos a trabalharmos juntos, como Seu povo, para mudar as prioridades na maneira em que vivemos, para que nós possamos construir um mundo justo e seguro para toda a Sua criação; um mundo aonde Sua vontade seja feita como nos céus. 
Amém.

Viver bem com baixas emissões de carbono

Essa Oração pelo Clima foi escrita pela organização Climate Stewards (Zeladores do Clima), um programa da organização A Rocha,  com o objetivo de ajudar as pessoas a reagirem às mudanças climáticas. Para saber mais sobre ‘viver bem com baixas emissões de carbono’ em Inglês, acesse o site http://www.climatestewards.net/

Atualizações diárias de orações

Dê uma olhada no twitter.com/climateprayer. Com mais de 1900 seguidores, está entre os 2% dos sites mais visitado do Twitter. Você pode expor esse material no seu próprio site, Facebook, Myspace usando o código do www.climatestewards.net/cs-int-en/resources/getprayers.html



*Imagem: Rio São Francisco - Velho Chico
Fotografia nossa - nascer do sol em Januária/MG.

2 de agosto de 2009

A Mensagem das Origens - Quem somos nós

O relato das “Origens” no livro de Gênesis, na Bíblia, contempla os capítulos de 1 a 11. Contudo, não é apenas um texto, mas uma justaposição de mais de um texto editado em épocas diferentes. Possuem paralelos significativos com diversos textos importantes de povos do contexto histórico-geográfico, como o Épico de Atrahasis, Enuma Elish, a Epopéia de Gilgamesh, a Lista dos Reis Sumérios, e o Gênesis de Eridu. Como podem ver, não são poucos. Textos que têm a criação seguida por uma catástrofe e um novo começo. Entretanto, também se apresentam significativas diferenças em termos estilísticos, ênfases, visão de mundo, esperança, teologia, moral.

O que isso significa? Por um lado, que não podem ser meras cópias diretas. Por outro, que as tradições do livro de Gênesis, são bem antigas e remetem-se a tempos remotos. Podemos dizer que partilham das convenções narrativas vigentes e de um substrato cultural comum com outros mitos do Oriente Próximo ( diversos povos espalhados no mundo possuem mitos correlatos, e muitos mesmo crêem até num tipo de "queda" dos ancestrais ante seus deuses, p.ex. entre os Karen, na antiga Birmânia, hoje Mianmar, ante o Deus Supremo Y'wa, e que esperavam por um messias; mesmo entre os Tupis, no Brasil, e seu relato do Grande Dilúvio, bem como na Ilha de Páscoa, entre os Astecas, Maias, Mapuches, até na China, com notórias similaridades). Sendo assim, os textos não “caíram de pára-quedas” para os hebreus, mas estão enraizados na história.

Neste prisma, podemos ver com certeza que não podem ser tomados como se fossem narrativas literais descrevendo cientificamente a história da criação e registros históricos frios em formas de crônicas. Mas, a rigor, não se pode de maneira alguma dizer que são alegorias. Grandes estudiosos da crítica da forma, bem rigorosos, já mostram que não, são narrativas, feitas sim, por compilações, mas são narrativas - embora esteja errado quem diz que não há alegoria na Bíblia, os profetas usavam largamente a alegoria. São histórias de tempos remotos, contadas de forma que o significado é transformado em significante, ou seja, os meios e conteúdos da mensagem tomam forma dos elementos da narração.

Do período da nossa história escrita propriamente dita, nós só temos acesso a uma ínfima parte. Muito foi perdido, e quanto mais longínquo no tempo, mesmo com a arqueologia, menos temos; temos migalhas. E muito do patrimônio desse conhecimento tradicional dos povos tem, aceleradamente, sido perdido também. Mais ainda se formos pensar quanto a toda a história humana! O ser humano passou a maior parte de sua vida aqui no mundo sem a escrita! Ah sim, perdemos muito, muito... Geralmente se tenta reconstituir com o "método da analogia", retroprojetando no passado o que se processa numa escala de tempo mais próxima, em condições parecidas. Mas isso é limitado, pequenas variações iniciais nos fenômenos mudam todo o decurso deles. Alguns acontecimentos podem alterar todo o decurso da história, e no desenvolvimento de um processo podem ocorrer eventos que, se pudéssemos regredir no tempo, não encontraríamos a situação decorrente de uma regressão puramente linear; são irreversíveis.

Então, muita coisa se perdeu. Mas pode (acredito que deve) ter acontecido eventos que mudaram completamente o curso da evolução humana, que estão perdidos e inacessíveis a nós. Muita coisa ficou marcada nos signos humanos, canções, contos, mitos, expressões e modos de expressão, figuras de linguagem, etc. Muita coisa foi repassada dos pais aos filhos desde a infância às rodas de fogueira, danças, conversas ao rio, ao “fogão”, às atividades artesanais, etc. E muito ficou introjetado no inconsciente, se constituindo num material psicológico herdado.

Cada povo têm esses mitos de fundação consignados com sua auto-identidade. Os hebreus trabalharam em cima desse substrato partilhado ali para isso, entender a relação das origens com sua condição e caminhada. Os antropólogos estudam comunidades tradicionais e suas ligações com a terra, e vêem como os povos costumam legitimar sua ligação com “seu chão” guardando tradições sobre o primeiro antepassado a chegar no lugar; um desbravador, um viajante cansado que ali resolveu “apear”, um escravo fugido, ou que conquistara a liberdade ou a comprara; não somente indivíduos, mas mesmo grupos humanos. No relato bíblico, os hebreus remeteram à ligação do ser humano com a própria Terra, apontando que ele não é um ser originalmente concebido para ser alienado de um sentido de “pátria”, alguém deslocado, mas para ser alguém com raízes. O nome do “primeiro homem”, Adão - Adâm, está ligado a Adamah, ou seja, tirado do solo; a mulher, Eva - Ishshá, "humana”, que remete ao húmus, indicando aí a terra fértil. Mas esse elemento nas narrativas das comunidades tradicionais vai mais além também: essa origem de seu ancestral é marca primária de suas identidades, relacionada com a ocupação de seu chão; isso nos proporciona uma leitura impactante de Gênesis: nossa origem fundamental é em Deus, e nossa identidade funda-se em sermos originados de um propósito especial do Criador.


Compartilhamos com tudo o mais nossa origem como “pó”: tudo à nossa volta provém intimamente da poeira cósmica. O relato ainda expõe uma imagem do ser humano sendo incumbido de um grande privilégio sobre a criação, ao mesmo tempo em que uma grande responsabilidade. Temos responsabilidade sim sobre o que fazemos com a criação, e enquanto Gênesis expõe que não somos apenas um ser a mais dentre todos os outros, temos de forma especial em nós o “sopro” divino, somos criados à imagem e semelhança de Deus, também. E esse mandato não para abuso e arbitrariedade, mas cuidado, cuidado e convivência.

Também aprendemos dali do texto a sabedoria de que somos antes de tudo indivíduos, não apenas um naco de uma massa de multidão, ou outras abstrações coletivas. Mas não indivíduos completos e perfeitamente autônomos: somos seres relacionais, nossa natureza é de necessitar de semelhantes para nos complementarmos; mais que indivíduos, somos pessoas. Podemos “passear a sós”, ou seja, necessitamos de momentos para nós mesmos, sozinhos, mas não vivemos para isso e apenas nisso somos tão somente metade de um. Um mais um é mais do que dois; um mais um é um. A sabedoria do relato também não mostra a mulher sendo criada dos pés do homem, mas da costela, ou seja, os dois estão lado a lado, a relação básica é de alteridade.

Também vemos em Gênesis o que decorre da alienação ante a Deus, à fonte de nosso Ser: a morte. A partir de quando ouvimos as forças que tentam ocupar o lugar do Altíssimo (por quais interesses a "serpente" agira?), querendo nós mesmos ocuparmos o lugar dEle, tudo o que quer usurpar o que compete somente à Deus, nossa existência não é mais uma aventura rumo ao Grande Encontro com a Fonte, permeada por um relacionamento autêntico, ainda que longe de ser o pleno, com Ele; mas um fardo, em que passamos a busca-lO tateando, e não mais naturalmente ouvimos o Seu chamado; ficamos como entre quatro paredes num quarto escuro, sem saída; a morte passa a ser um encontro rumo à maldição. Não podemos encarar um ao outro como somos, mas sentimos vergonha, estamos alienados um do outro também, estamos alienados de nós mesmos. Nossa relação com a Criação passa a ser orientada pela luta, confronto.


Advém a inveja, incompreensão, fratricídio. Nossos empreendimentos se dão para preencher a lacuna do Absoluto, o vazio de Deus em nós, e procuramos chegar aos Céus por nós mesmos, compensar nossa alienação com megalomanias; o que era para ser um empreendimento criativo de realização de nossas potencialidades, passa a ser sede de poder.


O ensino destes relatos de Gênesis, é parte essencial da visão do cristianismo, por uma ligação coerente com as respostas gerais da fé cristã a quem nós somos, o que há de errado, quais as perspectivas de para onde vamos, o sentido de viver, o drama que envolve o cosmos e a história.

Destarte entendemos que somos uma criação de Deus, compartilhando a natureza material comum a toda a Criação, mas dotados de atributos e responsabilidades especiais pelo Criador, envolvidos num drama histórico-cósmico. Entendemos que estamos numa situação na história que não derivou apenas da evolução natural das coisas. Que não somos o que poderíamos, ou mais, deveríamos ser, poderíamos estar numa condição muito melhor. Que estamos numa condição alienada de nosso potencial, e a Quem o devemos; alienados de Deus. E isso gera uma angústia diante da realidade da morte e a perda da segurança de continuar a vida nAquele que a doou.

Mas Deus não nos deixou abandonados a nós mesmos. Pois assim a Desesperança seria a realidade definitiva, teria a palavra sempre atual e final. Aniquilar-nos-íamos e pronto. Parte daí a busca do ser humano por parte de Deus, a despeito do próprio ser humano. O arco-íris brilha ante a chuva.

29 de maio de 2009

Deus e Criação na perspectiva cristã


A Criação, no foco bíblico-cristão, é um ato especial de Deus: deve sua realidade à vontade de Deus; Deus opera seu poder especial na redenção pois antes o operou na criação.

Claus Westermann [1], mundialmente reconhecido pela sua coleção de comentários sobre Gênesis [do grego Γένεσις, Génesis, "Origens"; do hebraico בראשית, Bereshit, "No Princípio"] indagando-se sobre a linguagem bíblica da obra criadora de Deus, pergunta: “Qual o sentido de tudo isto no contexto geral da Bíblia?” e adianta a resposta: “Ora, se Deus é aquele que sempre age e em tudo opera, então também o é na obra criadora. O redentor deve ser idêntico com o criador”. No tópico “A palavra como mediadora da criação”: “ É a palavra singular, imperativo autêntico introduzido pelo ‘Deus disse’, seguido pelo outro imperativo ‘faça-se!’, seguindo a execução exata da ordem ‘e assim se fez’. (...)Todos os atos importantes são precedidos de ordem divina adequada: no princípio da libertação Deus ordena a Moisés comparecer na presença do faraó; na teofania sinaítica Deus manda armar a tenda da reunião; no final da jornada pelo deserto Deus determina a passagem pelo Jordão e a entrada na terra prometida.”

Então, a perspectiva bíblica da Criação revela que o valor da desta deriva de ser fruto da ação especial e aprovadora de Deus, ou “Deus viu que era bom”. Ela não é uma ilusão, nem é má, nem possui um caráter sagrado independente de Deus, não é divina, não é Deus. É criatura. De Deus ela foi dotada de beleza, pois o adjetivo hebraico tob - bom, notável - também tem conotação de belo – “e Deus viu que era belo”. As duas coisas estão associadas, sendo importante notar que, diferentemente dos gregos que expressavam o apreço pelo belo em especial na escultura, os hebreus o expressavam especialmente na poesia.

Claus Westermann destaca também que os “seis dias” do relato de Gênesis inauguram-se pela distinção entre “luz e trevas”, expirando com a distinção do sábado em relação aos demais, como o dia consagrado a Deus, aparecendo assim como a meta da história de Israel e posteriormente da humanidade, apontando ao culto divino. Assim, a história tem uma meta.

Refletindo sobre Gênesis 2,4-9, o teólogo anglicano e físico John Polkinghorne [2] expõe, num diálogo mediado pela sua formação científica, que A continuidade da humanidade com a natureza está sendo afirmada de uma forma clara e notável. Isto é metade da história. A outra metade é que 'Deus insuflou nas suas narinas o hálito da vida, e o homem se tornou um ser vivo'. (...) A criação não é algo que Deus fez, de uma vez por todas, muito tempo atrás. É algo que Ele vem fazendo o tempo todo e que continua a fazer hoje. Quando se para para pensar nisso, este é o modo como seria de se esperar que o Deus de amor agisse. Ele não iria simplesmente estalar os dedos em um tipo de mágica e forçar as coisas a acontecer. O Deus de amor é paciente e sutil e permite que a criação faça a si mesma.

Com isso, podemos enxergar que “cataclismas naturais”, como furacões, terremotos, vulcões, tsunâmis, etc., são manifestações dessa qualidade relativamente autônoma da criação, o modo dela se auto-regular e manter-se. É o preço de uma natureza que propicie haver uma liberdade, inovação, espontaneidade. E assim, de haver a oportunidade para agentes morais como nós virem à tona. Contudo, e dessa forma, por si só, a criação está sujeita também à deterioração.

A criação então é parte do projeto integral de Deus de redenção, consumada na Nova Criação . Isso é ilustrado claramente na epístola de Paulo aos Romanos, capítulo 8, versículos 19 a 23:
Pois a criação espera com impaciência a revelação dos Filhos de Deus: entregue ao poder do nada – não por vontade própria, mas por autoridade daquele que lha entregou – ela guarda a esperança, pois também ela será libertada da escravidão da corrupção, para participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus. – Bíblia de Tradução Ecumênica (TEB).

N.T.Wright [2], bispo anglicano de Durham, e reconhecido como dos maiores especialistas em Novo Testamento, costuma expor sistematicamente que o propósito da Aliança de Deus é contemplar toda a criação; expõe no livro “Simplesmente Cristão”: "Nós somos chamados para ser parte da nova criação de Deus, chamados para ser agentes desta nova criação aqui e agora.”

Em Apocalipse 11.18, há um elemento que passa batido nas reflexões cristãs: dentre os pecados postos sob juízo e que serão julgados, está a destruição da criação:
As nações encolerizaram-se, mas foi tua cólera que chegou. É o tempo do julgamento dos mortos, tempo da recompensa para teus servos, os profetas, os santos e os que temem o teu nome, pequenos e grandes, tempo da destruição para os que destroem a terra. –T.E.B.

Outro teólogo anglicano, Alister McGrath [3], que também é PhD em biofísica por Oxford, expõe o ensino de um outro teólogo, Calvin B. DeWitt, que se destaca em estudar e expor as percepções ecológicas na Bíblia, apresentando quatro princípios fundamentais nesta:

1 – O ‘princípio da manutenção da terra’: assim como o criador mantém e sustenta a humanidade, a humanidade deve, da mesma forma, manter e cuidar da criação do criador.
2 – O ‘princípio do sábado’: deve-se permitir que a criação se recupere do uso que o ser humano faz dos seus recursos.
3 – O ‘princípio da fertilidade’: a fecundidade da criação deve ser desfrutada e não destruída.
4 – O ‘princípio da satisfação e da limitação’: a humanidade deve reconhecer seus limites em relação ao sistema da criação, com fronteiras definidas e que devem ser respeitadas.

De fato, a doutrina da Criação implica que o ser humano não é dono da Terra, pois Deus o é; uma das melhores metáforas correspondentes ao nosso papel seria o de jardineiros.

O teólogo Mario Antonio Sanches [4] expõe em “Bioética, Ciência e Transcedência”, sobre as novas perspectivas de estudo da Bíblia sobre a relação do ser humano com a criação : “Tem-se por exemplo, valorizado muito a perspectiva de que somos administradores da criação ou procuradores de Deus – aí o compromisso de zelar pela criação transparece como fundamental”. De fato, se fôssemos somente uma coisa a mais no meio de outras coisas no mundo, fruto apenas da casualidade, não teríamos nenhuma responsabilidade pessoal especial, tendo nossas relações com a natureza apenas o caráter utilitário.

Referências:

[1] Westermann, Clauss. “Fundamentos da Teologia do Antigo Testamento”. Ed.Academia Cristã. 2005.

[2] Polkinghorne, John. “Um Cientista Lê a Bíblia.” Loyola.1998.

[3] Wright, N.T. “Simplesmente Cristão”. Ed. Ultimato. 2008.

[3] McGrath, Alister. “Fundamento do Diálogo entre Ciência e Religião”. Loyola. 2005.

[4] Sanchez, Marco Antônio. “Bioética: ciência e transcendência”. Loyola. 2004.