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9 de junho de 2015

Um escândalo religioso

Obra escandalosa do Mestre Mathias Grünewald, dentre os anos de 1512-16. O Retábulo de Iseiheim.

Em relevo na foto anexa, o Cristo retratado no painel do altar, com um traço marcante:
Num período turbulento envolvendo a "Guerra dos Camponeses" em terras alemãs, quando a nobreza se empenhava em sufocá-la, esta figura de Jesus em um altar na Alsácia retrata um camponês portador da doença mortal conhecida como "Fogo de Antão", que ocasionava ulcerações, purulências, fedor e dores que enlouqueciam as pessoas.

Vistos como fustigados pelo "flagelo de Deus", os camponeses, já com o ostracismo social, eram normalmente abandonados à sorte.

Mas havia religiosos antonitas que se dedicavam a cuidar destes momentos tenebrosos vividos pelas pessoas, a despeito da ideia de que esta doença era como a "lepra".



À pintura do altar se apresentavam os doentes, que viam a encarnação de Deus na Terra se identificando com seus sofrimentos; depositados aos pés do altar, confrontando as ideias de que o que viviam era castigo, viam no crucificado a desfiguração que lhes acometia.

Grunewald sofreu por ter tomado partido da causa camponesa. Ia contra o status quo.



Morreu em 31 de agosto de Deus de 1528, fabricando sabonetes e construindo canalizações de água.

15 de abril de 2015

Espiral de Desumanização


Na obra “A Desumanização”, o escritor espanhol Valter Hugo Mãe tece uma trama de carga psicológica profunda e claustrofóbica numa ilha islandesa em torno da menina Halla, que tem como estopim a morte de sua irmã gêmea Sigridur e o trauma dilacerante nela e na família. A irmã representava a completude de sua identidade, e a referência para ternura, cumplicidade, autodescoberta e mesmo a lucidez.

Objeto do descarrego da dor da mãe – que outrora era a imagem da candura -, em fúria insana que lhe busca como bode expiatório, Halla não podia encontrar apoio no pai; figura que outrora fora diligente, era quem lhe alimentava a alma de lirismo, imaginação, de possibilidades maiores de vida posto que era um erudito autodidata que lia para ela as histórias, se entregou e foi consumido pela letargia. Pra completar, Halla sofria o ostracismo, cercada de rejeição em toda a sua comunidade, estigmatizada e caluniada por pessoas que aparentemente seriam pacatas e cordiais aldeãs.

Sonhava com mundos além-mar, tinha um vento impetuoso e um fulgor em si porém. Mas neste desterro em suas próprias raízes, se envolveu com um rapaz problemático, muito mais velho, que na infância era o algoz dela e de sua irmã, para a qual prometera que nunca daria uma chance para ele. Acabou por desenvolver uma cumplicidade com ele, receber algo que lhe faltava do buraco que fora deixado por Sigridur, e descobriu o sexo sem amor até chegar ao amor sem paixão, mas um amor de entrega e refúgio.

Einar, o garoto, tinha certas desordens em organizar o raciocínio, era meio esquizoide, com grande senso de rejeição para o qual reagia como conscientemente inoportuno, era “sem graça” e de “boca podre”. Ela engravida, mas quer segredo dele, não quer que saibam que ele era o pai, ele quer. Espalha-se o forte boato de que o pai a violentara, e o pior poderia ter ocorrido se outra coisa ruim não acontecesse: descobrem o caso entre os dois. A espiral de maldade, incompreensão e intolerância aumenta, ainda mais, para com Halla, até que num ataque ensandecido a mãe lhe faz perder o bebê.
“Não é sobre o corte entre as pernas que me interessa pensar, pai. O corte entre as pernas não foi sequer capaz de me afastar a pele, porque a pele imediatamente se soube juntar e reconstruir. O que me magoa é mais violento do que isso. Porque à minha mãe posso odiar sinceramente, perdendo-lhe a ternura, como se exercesse um sentimento honesto, sem problemas maiores. O que me magoa está por definir e tem-me aqui presa quanto me obriga a fugir. De igual modo me propõe a morte e a vida ao mesmo tempo”.

Vai depois morar junto com o padrasto de Einar, o pastor da comunidade, que depois se casa com a tia de Halla que chegara da cidade, mulher dominadora.

Einar também tinha seus mistérios, lembranças reprimidas, que no convívio com Halla foram reemergindo e revelando para ambos maiores laços e histórias de maldade, desumanidade, perversão, autointeresse implacável e jogos de cinismo na vida das pessoas sob máscaras de virtude, autogratificação e vida pacata. Onipresente em toda trama e pano de fundo está uma cratera sem fundo na montanha, onde o vento sempre assoprava mostrando a sua fome de tragar almas, chamada “boca de deus”.

Com o aprofundamento do stress, insanidade e apatia em sua família, com a amargura de Halla que só tinha a ela a se apegar, Halla se sente desapegada de tudo, até do que amava, ela se desumanizara; não porque não podia mais amar algo ou nutrir bons sentimentos, mas ela se desumanizara. Perdera a ideia de alma eternamente ligada com a da sua irmã, já não sentiam que elas poderiam ainda ser gêmeas; não mais lhe guiava entre o certo e o errado. Topa uma fuga da ilha para tocar a vida no desconhecido com Einar, e na véspera da fuga combinada, tranca a casa com ele, o pai adotivo e a nova madrasta, assassinos do pai do garoto, usa os poemas do pai para tocar fogo com os três e seguiu seu caminho.


Os sentimentos que irrompem e nos acercam ao nos depararmos com os comentários de notícias na internet também pareiam com estes processos de “desumanização”. Há uma pulsão de realmente considerarmos que o empreendimento humano é um caso perdido, que a esperança deságua nas torrentes do niilismo, que por esta raça não vale a pena lutar, que estes picos de gelo no mar são icebergs inexoráveis que afundarão quaisquer engenharias humanitárias a quererem atravessar as águas caóticas, antes que se chegue à terra firme e fértil. Ou antes que se chegue ao lar.

Numa matéria simples no site da UOL, com a chamada "Perto dofim da escravidão, 60% dos negros trazidos ao país eramcrianças", 90% dos comentários em redes sociais são de fazer vomitar sangue.

Coisas como "e daí, deviam ter permanecido na África então e tudo seria melhor", "mereceram, uns venderam aos outros", "nós brancos apenas compramos a mercadoria", "eles têm que agradecer por serem trazidos e ganhado comida, para não passarem fome na África", "isso é pesquisa plantada pelo PT pra insuflar a luta de classes comunista".

Todos comentaristas "Cidadãos de Bem da família pagadores de impostos".

Parece que há uma soma de forças conectadas para nos desiludir totalmente, como a dizer “este é o verdadeiro rosto das criaturas que comerão as mãos que se lhe estendem. Somos horripilantes. Somos o seu vizinho do cumprimento simpático do elevador, as senhorinhas gentis do Pilates, somos 'os caras legais', as meninas bonitas, somos a potência daquele menininho do riso enternecedor e da menina brincando de repórter”. E sim, os soldados de Gengis Khan, a turba disciplinada no nazismo, os cientistas austeros em limpos jalecos brancos usando de cobaias humanas, os líderes religiosos instigando matanças, todos tinham e têm no dia à dia, este “rosto humano”.

Todo este desvencilhar do pudor, da alteridade, da autocrítica, todos estes demônios das Caixas de Pandora abertas nas redes sociais, todas essas “abissalidades” que se julgava superadas no empreendimento civilizatório mostrando que não só estão muito vivas, presentes, como querem agora recuperar qualquer centímetro perdido e se esbaldar sem nenhum constrangimento.

É para jogarmos a toalha e queimarmos os poemas. E simplesmente resolvermos tocar o barco até que afunde. Mas há quem esteja à espreita nisso tudo, a invocar Plutão para ditar as coordenadas de navegação no mar.


Onde vejo a resposta de Camus para o dilema que formulou no livro “O Mito de Sísifo” incompleta, e Dostoiévski ilumina essa incompletude. Dostoiévski conseguiu penetrar nas mais diabólicas cavernas do coração humano, mergulhou na abissal “boca de deus” dos pesadelos da ilha islandesa de Hugo Mãe, e sentiu o hálito do sopro insaciável.

Conseguiu retratar a sordidez presente como um rizoma na mente e comportamento humano, na sociedade e nos indivíduos, sem falso pudor. Mas ele precisava de uma inocência, de uma virtude, ainda que restasse a ela enlouquecer para não se perder a integridade no mundo insano, como com o Príncipe Míchkin em “O Idiota”, ou com a chama bruxuleante do idealismo de Stiepan Trofímovitc se descobrindo cercada de niilismos fanáticos em “Os Demônios” e tentando distinguir o que busca e o que não busca, ou como o pobre Aliócha com seu “Discurso Junto À Pedra”, em que até então, ele absorto nas sequenciais eloquências niilistas que expunham o absurdo visceral do mundo para, como Satanás reclamou a Simão, lhe “peneirar como trigo”, invoca a ressurreição para manter viva a chama do amor nos meninos invocando uma memória querida, e seguindo seu caminho, em um desfecho diferente do de Halla. Dostoiévski ainda foi mais além com o sofrimento redentor de Raskolnikov amparado pela candura de Sônia que vencera as trevas.

A questão para Dostoiévksti é que ele explorara igualmente como Camus o sofrimento absurdo, e a tormenta interior e sentimento de exílio na sociedade que Camus explorara, em personagens ácidos dos subterrâneos, como o irredimível de “A Queda” do "juiz-penitente" Jean-Baptiste; em “Notas do Subsolo”, Dostoiévski solapa mais do que Camus com toda a auto-complacência, pois seu personagem sem nome aí também se encontra não só em fluxo de consciência mas em ação, na rememória de uma trama degenerada e torpe.

A clivagem que eu vejo entre as respostas de Dostoiévski e Camus se dá quando este diz que imagina um Sísifo feliz. Este que, condenado a empurrar a pedra que no limiar de chegar ao cume da montanha sempre rola novamente abaixo, encarna o herói trágico e dionisíaco de Nietzsche, transformando o “assim foi” no “eu quis assim”, encontrando no destino sua marca impressa. Eu não imagino um Sísifo feliz a não ser que ele fosse como as figuras de “Admirável Mundo Novo”, condicionado para finalmente desaguarem o destino no empurrar a pedra, ou entregando a consciência para a fatalidade. Vejo Dostoiévksi, em uma das suas experiências mais importantes para desenvolver seu trabalho de vivissecção moral literária, na prisão, pautando que se colocarem um preso para a tarefa mais pesada que fosse, mas ele visse que estava construindo uma ponte, uma obra significativa, ele teria uma determinação em si; mas colocando-o para algo como peneirar água, encher uma pá de areia e jogá-la para o alto, ele se alienaria em demência, frustração e explodiria.



Por isso precisamos de algum significado para dar sentido ao que fazemos. Se não pensarmos um pouco que nossos trabalhos ou alguma ação ajuda a algumas fagulhas de luz, não semeia alguma beleza ou bondade ou indignação criadora, não instiga alguma força de vida e algo melhor no mundo, fica difícil resistir ao fatalismo; ainda que por vezes precisamos nos fiar numa via negativa, algo como pensar que se o mundo se queimar ou apodrecer, não foi por pensarmos que não tínhamos poder de fazer nada que contribuímos para isso, tal como muitos que o pensaram contribuíram. Mas é claro que por detrás das frustrações devemos nos perguntar se não havia também cinismo, autocompensação emocional e descargo de consciência, com uma vontade de dominação.



Cena final de "Melancolia", de Lars Von Trier
Como nos filmes de Lars Von Trier (que explorou a fundo o niilismo em "Melancolia", que desfecha com uma explosão fútil que termina com a vida na Terra, única no Universo), como no “Europa”, “Medea”, “Dançando no Escuro”, “Dogville” e “Manderlay”… os desprendimentos humanitaristas dos personagens, de Leopold Kessler na Alemanha até a Grace nos povoados, são tragados pelo que a raposa eviscerada vaticina em O Anticristo, “o caos reina”; sugados numa espiral que os leva ao limite, desarma, e “o que não tem governo nem nunca terá” desnuda neles todos os sentimentos de ódio e sadismo que condenavam antes, porque há arranjos e configurações de aparência bizarra e
ineficiente que são formas eficazes encontradas para lidar com forças desconhecidas presentes mesmo na trajetória que formou os sentimentos dos humanitários. “Pois é, sra. Grace, é fácil insultar os negros [quando ela diz que eles escolheram e mereceram a escravidão, frustrada por não se acomodarem aos seus planos civilizatórios], mas não está esquecendo algo? Vocês nos criaram”.Em muitos filmes dele, humanitarismo, as piedades religiosas, racionalidades modernas como a
psicanálise, tentaram adestrar as forças caóticas, para submeter os outros à servidão, e terminaram por serem reviradas do avesso e vítimas de si próprios.



Não temos como “domesticar” e as pessoas. E nem temos que nos impor este fardo frustrante de convencê-las. Muitos referenciais nossos podem nos desiludir. Mas também muitos gigantes monstruosos têm pés de barro, e muitas pessoas também apenas estão com medo ou frustradas. Com esta resposta inconclusa de quem não quer ser o humanitarista redentor que vai curar a excruciante ninfomania de Cloe, apenas quero desafogar o peito rezando para que não nos desumanizemos.

Bansky, "O lançador de flores"

_ Digo isso por receio de que nos tornemos maus – prosseguiu Aliócha -, mas por que teríamos de nos tornar maus, não é verdade? Sejamos primeiros e antes de tudo bons, depois honestos e já depois – não nos esqueçamos nunca uns dos outros.
(...)
_Bem, agora encerremos os discursos e vamos às exéquias dele. Não vos perturbeis porque comeremos panquecas. Porque é uma tradição antiga, eterna, e nisso há algo de bom – riu Aliócha. _Então, a caminho! E agora lá vamos nós de mãos dadas!
_ E sempre assim, de mãos dadas para o resto da vida! Hurra, Karamázov! - gritou Kólia mais uma vez entusiasmado, e mais uma vez todos os meninos secundaram sua exclamação.















19 de março de 2014

A luta contra o reflexo

No clássico “A História Sem Fim” aparece um tema muito comum em sagas congêneres. Atreyu tem que enfrentar como desafio último o espelho. Teria de topar com um espelho que revelava a pessoa tal como é, sem as formas e truques com que se engana - inclusive a si próprio. Há muitas estórias com este desafio de se enfrentar o reflexo de si próprio.

Na esteira da Segunda Etapa da última Guerra Mundial, o que se diz ser “Civilização Judaico-Cristã Ocidental” ou o “Ocidente Moderno”, era amplamente e corriqueiramente antissemita (nos EUA, muitas escolas não aceitavam judeus, e com muito custo foi-se estabelecendo um percentual máximo permitido, como 6%, etc.); a eugenia grassava alegremente e era pauta mesmo das sociedades científicas “esclarecidas” a ideia de selecionar os humanos “superiores” e exterminar as “aberrações”. Tudo embebido no rito social, tudo sociabilizado.

O Nazismo com sua fúria impetuosa pegou estes elementos, perdeu a inibição e espicaçou o cinismo; e ao limite levando, mas sem incoerência, ele tudo isto foi pavorosamente lançado na na cara do mundo; a partir daí o mundo percebeu, meio encabulado, o horror e vergonha que era. Começou a se aceitar que era vergonhoso (ainda que os ciganos nunca foram recompensados e que a eugenia continuou por parte de empresas e governos, mas mascarada ou camuflada longe da atenção pública). Ficou mais difícil – até quando? – legitimar novamente dentro do rito da vida social.

Por detrás das reações das pessoas à tal da “cultura da ostentação”, com fenômenos por vezes bizarros, há um cinismo em parentesco, uma razão cínica. Porque o que ela vem fazendo é jogar na cara igualmente nossa que é o que move nossa sociedade hoje, mas é claro, ritualizado com desfaçatez na liturgia do sociabilizado. A racionalidade por detrás da “cultura da ostentação” está presente nos encontros informais de amigos de escola, colegas de profissão, está presente quando se sai ao trânsito, em diversos meios de confraria social; está subjacente às buscas, aspirações e sonhos. É a marca do senso de valor pessoal de fato, é o norte da escala de valores, está em manifestações religiosas e também de apelo laico ( ou laico na aparência ).

Talvez haja um medo secreto de que acabe se configurando tal racionalidade como algo vergonhoso também. Por isto o escândalo cínico. Se tem percebido que para grande parte das pessoas, se pudessem escolher, prefeririam que o mundo acabasse, que tudo se colapsasse, do que ter de abrir mão disso.
arte de Gerhard Richter


Quantas outras coisas mais têm vindo à tona neste sentido, esperando um outro “Reich” pra fazer o mesmo que aquele? 

30 de junho de 2013

O Menino Inquieto e a Planta de Folhas Brancas

Isto tudo se passou em uma terra distante, em um tempo quando lá o sol ainda nascia branco, branquinho que, com a fina neblina, fazia as vistas da gente parecer que enxergavam o mundo todo lustrado; e na hora de se pôr, o sol ficava de um dourado morno, quase bronze, chegando até a dar uma sensação, nos dias mais frescos, de se ter uma macia pele de urso envolvendo agente com muito aconchego.

Mas durante a história que estamos contando, algo diferente se passava naquele vale; por alguma coisa diferente que estava acontecendo, o sol nascia acinzentado, o ar estava muito seco, e o céu estava com um tom rosado triste. Imaginava-se que devia ser só uma fase, que iria passar; mas como estava sendo duro passar por aquela fase! Também, porque com a secura, os olhos das pessoas ardiam secos também, a garganta ficava seca, e muita gente caíra abatida com uma tosse seca e o peito doendo.

Pedrinho especialmente, sentia muito com o abatimento que tomara conta de tanta gente! Dona Filomena, sempre com aquele vozeirão parecendo de trompa daquelas grandes de assoprar, com um jeitão bondosa que fazia os meninos rirem muito, por dentro, e um bocado bom também por fora, andava resmungona; sem paciência...
"Tempestade de inverno sumido - Vale de Yosemite" - Anselm Adams
_ Aaii, essa criançada sem jeito, chata e enxerida, no meu tempo o chinelo e a vara de marmelo resolviam!

“Que triste ouvir isso de Dona Filó”, Pedrinho e sua irmãzinha Carina pensavam. Os dois ainda eram uma das poucas crianças também que não estavam sendo afetadas por aquele tempo ruim. Ainda. Augusto começara aficar brigão; viram-no até jogando pedra nos passarinhos tico-tico! Armínia ficara fechada, só andando de cabeça baixa e segurando a renda da saia, ela que era de ficar falando e falando, com uma vozinha fina, sempre curiosa com tudo. Perdera os interesses.

Senhor Homero.... Homero passou a mesmo deixar o portão aberto para a bola cair lá dentro da sua casa... e nossa, quando um dia uns meninos foram bater a campainha para pedir, ele rasgou com um facão, com um facão, a pelota na frente deles!

Mas o que realmente deixava Pedro mais aflito, era como estava ficando Mamãe. Mamãe era para ele tudo o que conseguia ser capaz de pensar na palavra Beleza. Com tanto amor, ele, sua irmã mais novinha Camila, Carina e Paulinho, seu irmão pouco mais novo, conseguiam lhe auxiliar nas tarefas em casa, com as ajudas dos avós Raimundo e Dona Leonora, que os visitavam quase todos os dias, mesmo com as lembranças saudosas e a grande falta do pai, Cláudio, que morrera quando Camila ainda era bebezinha. Sobre os detalhes de como ele morreu, vamos deixar de contar para não ficar remoendo com a dor daquela unida e, por terem um ao outro, feliz família. Felicidade que estava em perigo.

Camila tossindo já...Paulinho de cama. Mamãe, que sempre aparentava uma pérola, lisa, radiante, que parecia nos fazer carinho só da gente contemplá-la sorrindo, estava já com a pele do rosto murchando; os olhos amarelos, e a voz rouca, parecendo que falava com um cano na garganta. Vovô e Vovó eram cuidados em casa pela tia Carminha, ela lhes fazia chá.

Aquela doença que veio com o tempo esquisito ainda não tinha nome, pois ali naquela região tão sadia e com o ar tão puro, as doenças que vinham eram bem tratadas com chás, com banhos, respirando poções dos vapores de muitos tipos de ervas do campo.

Pedrinho sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas as pessoas já estavam se conformando com aquela situação; ele pensou consigo que isso também devia vir da natureza daquele mal que havia abatido o povoado... e todos faziam pouco quando ele insistia que deviam procurar uma cura diferente,já que nada que conheciam estava dando certo.

Sentado à beira do riacho, que também havia diminuído muito com aquele tempo seco, já fazendo encalhar até os barquinhos de papel, veio até a mente de Pedrinho uma cabana; uma pequena cabana de madeira na saída leste do povoado, em cima de uma colina. Morava lá solitário o senhor Cosme, solitário porque sua esposa de muuuitos e muitos anos falecera haviam já quatro outonos; todos gostavam demais de Dona Hikaru, ela com seus olhos puxados, cabelo em coque, jeito de andar com as mãos juntas, pra frente, viera de uma terra distante que ninguém conhecia ali; ela ia na vila vender uns bolinhos açucarados deliciosos que do adulto aos idosos e, lógico, as crianças,todos se sentiam mais doces e animados saboreando-os. Todo mundo foi ao enterro na época, vindo então a filha dos dois que se casara com um rapaz de outro povoado e já não morava mais ali. Senhor Cosme sabia cuidar muito bem de si, e era o principal conhecedor de muitos segredos do campo, das montanhas, do riacho e do bosque. O avô Raimundo constantemente ia consultar Cosme a respeito de algum problema, procurar conselhos. Mas já tão idoso, morando sozinho, senhor Cosme não era muito mais ouvido e lembrado pela comunidade.

“Ei, senhor Cosme, sou Pedrinho, neto de Raimundo”.

_ Meu bom mocinho, quer sentar aqui comigo para comer um bom pedaço de bolo e tomar um refresco de amora? Uma companhia neste fim de tarde não me faria mal.

“Senhor Cosme, nenhuma comida tem descido bem... minha língua está com um amargo, e a saliva que vem forma um creme que tira o gosto de tudo”.

_Aaah, eu sei, rapaz... os cheiros, os sons, as cores, os gostos, tudo emudeceu a canção da dança da vida aqui em nosso pacato povoado. Estamos em tempos difíceis. É preciso firmar o joelho para conseguir ficar de pé nesta hora.

“Mas senhor Cosme, ainda que isto tudo seja passageiro, e não temos como saber... o que está acontecendo só vai piorando, e não dá mais para suportar. O senhor não sabe o que podemos preparar para tirar esta moléstia do nosso corpo, de nossas vistas, de nosso coração? Sei que as pessoas não parecem levar o senhor a sério, mas confio em meu avô que sempre lhe teve respeito...”

_ Pedro, Pedrinho, sobre isso teríamos muitas luas para conversar. O que as pessoas levam em conta pra dizer o que tem valor, o que deve ter mais consideração em cada momento da vida, é influenciado por muitas coisas que geralmente não aparece no que elas dizem e acham... mas vou falar do que está me pedindo. Eu era criança, do seu tamanho, e quando minha família morava em um povoado no pé daquela outra serra a algumas léguas daqui. Fora uma época de secura, como esta. E nenhum medicamento nem daqui, nem de lá, e até arrisco, nas terras de Hikaru, que são tão ricas em remédios da natureza também, não se descobria. Mas eles encontraram a solução.

“Me diga, Cos, desculpa, Sô Cosme!”.

_ Heita, meu amiguinho. Se já não vão dar muito valor a ter vindo me consultar, vão zombar muito de você se aventurar a buscar o que buscaram naquela ocasião.

“Mas se eu não o fizer, logo também ficarei dominado pela doença. E assim, me comportarei como muitos estão. E vou achar também que isto é tudo muito natural, é da vida, é da realidade. Por favor, senhor Cosme, eu vou buscar, eu estou pronto a escutar.”

_ Menino, naquele pico da montanha que é envolvido por mais névoa do que os outros... vai ter de confiar. Mora uma anciã. Anciã porque ela completa dias e dias após o outro, por muito mais tempo do que o que eu tenho andado neste mundo. Nunca a vi, mas imagino que ela deve impor muita reverência. Ela cuida de uma planta diferente das demais. Possui uma folha branca, quase prateada, e suculenta. Não podemos ver nenhuma planta igual fora de lá. Encontrando esta senhora que deve ser também de uma aparência incomum,de presença de fazer emudecer, com ela estará a planta, que por ela é muito bem cuidada. Nunca sai de perto. Mas, meu filho, não posso te garantir nada. Tudo o que sei é que o povo lá foi curado pelos preparados da planta maravilhosa; mas não posso lhe dar mais garantias de que a anciã esteja lá; nem de que com ela, a planta ainda viva.”

Pedro assentiu e cumprimentou senhor Cosme. Não era discutível que ele descera dali com uma resolução firme.

Na vila, senhor Homero disparou: “se você está mesmo disposto a perseguir este delírio, suas ideias estão mais murchas do que estas bolas que só servem para importunar o sossego”.

Dona Filomena disse “rapaz, você está procurando é desculpa para não ajudar sua mãe agora que o trabalho aumentou por ela estar mais fraca”.

Mesmo seu avô Raimundo não o encorajou; disse que Pedrinho tinha facilidade a ficar sonhando que a vida pode ser diferente, criando modos de vida imaginários na fantasia. Mas a fala mais padrão, repetida por coleguinhas e aldeões, fora:

- Veja, menino. As folhas aqui são verdes; amarelam quando vão cair. Isso é a natureza do mundo. Não pode não ser igual. O tempo está com secura, nós secamos também; melhoraremos se o tempo mudar. O mundo é o que é; sempre foi e será. Falar de anciã, folha branca, é algo que a necessidade das coisas não pode deixar ser. Escute esta palavra: ra-zo-á-vel. O que você está falando não é ra-zo-á-vel. É como querer uma tabuada diferente.

Durante a noite o desânimo abateu Pedrinho. O ar ficara enfim mais pesado para ele do que nunca. Mas ele acordou de madrugada. Teve por si que desanimado ou animado, ele iria arriscar e iria ver se realmente as coisas tinham de ser como falavam, ou se todos estavam querendo encaixar a explicação do mundo em uma caixinha apertada e quadrada em que o mundo redondo não cabia, ou deixavam um tantão de arestas de fora. Na conversa final com senhor Cosme, aprendera que o único caminho que lhe levaria até aquele pico de montanha era, aproveitando que a água estava rasa, seguir pela margem do riacho. E partira pela madrugada.

E tudo concorrera para lhe mostrar que a tarefa não seria nenhuma aventura daquelas cheias de musiquinha de dar coragem. Mas exigiria muito sacrifício da parte dele. Com pouco, perdeu sua sandália ao tropeçar num toco de madeira caído, antes de chegar no riacho, e não o achava no capim alto, pois o céu ainda não estava claro.

Para piorar... “aaaaai!!!”

Cortou seu pé em uma pedra afiada no riacho. No outro pé, entrou um espinho que tentando tirá-lo com a unha, fez foi entrar mais. Mosquitos picavam e chupavam do sangue de Pedro. Ele saiu só pensando em chegar logo na montanha, e, com a mente toda remoendo as palavras das pessoas da vila, não levou comida. Não podia sair pra procurar alguma frutinha na mata, por medo de se perder. A ferida do pé ardia. Seus olhos estavam ardendo, secos. Tudo lhe pesava no coração, e se sentia cada vez mais ranzinza também. Não havia cheiro algum na natureza. Com o dia já levantado, a luz do sol sapecava suas costas, suava suor grosso, bebia da aguazinha do riacho quase secando, lavava o rosto pois o suor caia nos olhos já ardidos e embaçava sua visão. E lá ainda longe, a neblina cobrindo o pico da montanha. Pensava na família. Pensava nos gemidos da Mamãe, que ele percebeu estarem abafados pelo travesseiro que ela punha na boca para tentar evitar de assustar e angustiar mais as crianças, e sua tosse seca.

Grande medo em Pedrinho de tudo ser em vão. De perder Mamãe... ficar os irmãos sem o Papai, sem a Mamãe agora. Perder os avós. Os irmãos e irmãs? Perder todos. Ele mesmo já não sabia se iria durar agora. E outra grande tristeza: de chegar lá, e lá ser lugar nenhum. Não ter essa grande anciã; não ter planta de folha branca. E assim, aquilo tão seco que as pessoas lhe falavam... ser realmente o certo. Elas estarem com a razão.

O riacho foi ficando estreito, estreito.... de repente largueou. Mas acabou. Ainda faltando um bocado pro alto da montanha, Pedrinho chegara na nascente, no olho d'água. Com um preocupante filetinho de água apenas brotando, quase agonizante. Ele tinha que continuar subindo agora, ou escolher voltar. Seguiu acima, guiado apenas pelo senso de direção que tinha que subir a leste, a norte. Uma hora estava tudo muito inclinado, e tinha de apoiar com as mãos nos joelhos. Fraco, as costas doíam. Fraco, teve de segurar nas pedras, quase já escalando... até cortar também a palma de uma mão em um espinho seco na terra.

A neblina o cobriu. “Pelo menos as costas refrescaram”, pensou. Não muito consolado. Mas agora ficou assustado. Ele viu. Tinha uma gruta ali, que não parecia grande. Ele queria tanto encontrar... mas agora viu que também tinha medo de encontrar. Começou a se sentir estranho, como se aquilo fosse algo interrompendo a normalidade do seu mundo, do seu modo de ver as coisas se desenrolando, e ele se sentia inseguro de ser, diante daquele inesperado... bem normal. Lembrava-se de que no dia anterior xingara a irmã na discussão. Se sentiu feio.

Queria encontrar a planta, de todo seu coração. Mas naquela hora, ficou com medo mesmo de, encontrando-a, lhe tocar.

E se preparava no seu íntimo...a gruta estava vazia? Havia mesmo a tal anciã? Ele se lembrou de que não sabia ao certo o que era uma anciã, lhe vindo à mente a imagem de uma senhora toda cheia de presença, cabelos cinza-claro muito compridos, olhar solene, alta, falando como um trovão. E se ela tivesse morrido? Para ser tão mais velha do que o senhor Cosme...

Tinha sim alguém. Tinha uma luz lá dentro. Entrou na gruta. Era pequena. Andou com cuidado, meio que tropeçando nuns galhos fininhos que ficavam embaralhados no chão e sem graça, pareciam se espalhar em redor. Olhou ao redor, parede, uma estante de tronco de árvore velha, uma flauta, mas nadado que esperava, que não sabia ao certo, mas na sua melhor esperança, seria um jardim ao fundo com a grande árvore branca.

Ali estava. Uma pequena senhora. Numa cadeira de balanço. Tomando chá, tricotando. Com um cabelo partido, o rosto que mesmo todo enrugado, fazia lembrar uma criança, não tinha jeito de ser muito cansado. Não era mais alta do que Pedro.

“Senhora, é uma anciã?”

_Olá, rapazinho. Posso ser, posso não ser, não fui eu que me dei esse nome. Depende. - respondeu-lhe com uma voz que mais lembrava chuvinha fina batendo no telhado.

“Ah sim... estou muito cansado. Procurava a planta de folha branca, que diziam estar aqui com a senhora, para curar o povo lá de onde moro; curar minha Mamãe. Subi até aqui, desculpa se a assustei. Me disseram que só poderia estar aqui dentro com a senhora, cuidando dela. Não a vejo.”

_ Pois sim, rapaz. Você acabou de falar. Não a vê. Tem certeza que existe esta planta diferente?

“Não, não tenho.”

_ Ouvi você dizendo, então. Pois sim, não vê nada aqui comigo.

Ele então se entregou. Prostrado, acabou todo seu ânimo. Chorou e chorou muito. “Então eu enfrentei a zombaria das pessoas, fui humilhado; andei isso tudo sem comer, com muita fome, perdi a sandália, feri meus pés, que estão ardendo muito, mais ainda agora; estou todo coçando de picadas de mosquito; cortei minhas mãos. Estou com as costas sapecando, os olhos sapecando. E tudo isto agora até me rouba as forças para voltar. Todos dizem que este mal horrível vai passar, mas ninguém sabe quando, e o que vai ser de nós até lá? E todos, enfim, por pior que seja, todos tinham razão.”

E chorava sem consolo, com a senhora escutando tudo. Suas lágrimas caíam nos pés, caiam no chão. Caiu num dos galhos. E ele viu pequenininha, pequenininha, uma pontinha se mexendo. Um cristalzinho, um negocinho igual uma lagartinha, uma plantícula; e com ela uma folhinhazinha enrolada, branquinha, branquinha, do tamanho das manchas que dão nas unhas, e dizem ser sinal de presente chegando.

“Senhora, digo, Anciã, não sei como a senhora realmente se chama... vejo isto aqui no chão, que brotou ao cair de minhas lágrimas. Se não fosse tão pequeno, queria acreditar ser uma folhinha da planta curadora!”

- Pois sim, você está vendo?

Esta pergunta, estas palavras, estalaram na cabeça de Pedrinho. E ele foi seguindo com os olhos o raminho, os galhinhos, trançados no chão, subindo nas paredes... e no alto das paredes, por todo o teto... folhas brancas, gordas e quase prateadas!

“Mas... é ela, é ela! Eu achei que não existia!”

_ Mocinho, eu fiquei tão triste quanto você, de pensar que se desiludiu tão fácil, se entregou e estaria até disposto a ir embora, se contentando em me dizer que não vira a planta. Há pouco falava, todo desesperançado, sobre como eram pesadas as coisas que lhe haviam dito sobre o mundo, que ficou muito muito triste das pessoas terem razão. Não tendo ficado curioso em olhar direito e investigar onde as raízes em que você pisava iriam dar, descontente diante da figura da “anciã” que não era o que você tinha se convencido de encontrar, já também entregara a vitória para essas palavras em seu coração. Agora, os seus olhos vêem!

“E ela realmente tem o poder de curar aquele mal do tempo que passamos?”

_ Ela tem, meu querido. E para isso, basta apertar uma folha e beber do caldo dela.

“Posso levar quantas eu quiser?”

_ Poder, pode. Mas sabe, se arrancar muito... a planta precisa das folhas para respirar, para ter energia... e assim, para curar mais males de outras pessoas ("hu-hum", ele concordou). E você não tem como carregar tanto assim, desperdiçaria no caminho. Primeiro, beba de uma. Você está precisando. Descanse um pouco, vou tratar suas feridas. Aqui também tem pão para você. Depois, leve um pouco para sua mãe, sua família, para aqueles em situação mais urgente. E você terá uma grande responsabilidade: levará algumas mudas, e terá de cuidar delas. Cuidar. Não deixar morrer. E percebeu o segredo? Suas lágrimas, viu o que fizeram, com o raminho brotando? O sereno e a umidade da neblina, no tipo de mineral que é a coisa do que é feito as paredes desta montanha, dão à planta uma água fresca e um pouco salgada. Ela precisa disso, e é com esse tipo de água que ela trabalha para ter suas folhas brancas. Terá que a abastecer com uma água um pouco salgada também, nem precisa muito.


Pedro ficara um tempo com a senhora, por quem acabou lhe crescendo um grande carinho e ternura. Lembrou-se para sempre dela. Como se fosse uma mistura da mãe, irmãos, avós, e até do seu Cosme, mas apenas como se fosse, pois quando tentava associar muito, ficava diferente o sentimento, a sensação.

E ele cuidara e cultivara a planta como ela lhe recomendou. Com as folhas que levou, não teve muito mistério, não precisava de muito preparado, era apertar e pingar na língua para a disposição de ânimo e a boa respiração voltar para quem tomasse. E teve muito o que contar a respeito do mundo, para seus irmãos, e a quem mais estivesse disposto a lhe ouvir.

6 de janeiro de 2013

O Desafio de Bonhoeffer: A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo (Parte II)

Ser cristão não significa ser religioso de certa maneira, tornar-se alguém (um pecador, um penitente ou um santo) com base em alguma metodologia, mas significa ser pessoa; Cristo não cria em nós um tipo de ser humano, mas o próprio ser humano.                                              16.7.45



Um fenômeno é muito constatado em locais com situações: emergente ascensão de classes sociais em novas condições econômicas mais favoráveis, mantendo-se contudo uma estrutura desigual ou que marginaliza muitos outros componentes da sociedade circundante – onde se vê religiões ainda com um forte cumprimento de função de conferir coesão social mínima a este estado de coisas. Às camadas mais altas e/ou ascendentes, justificação, sendo favorecida pelos poderes espirituais que lhe dão pleno direito e se comprazem em estar na sua condição favorecida, lhes outorgando todos os méritos – desde que cumpridas algumas condições rituais e obrigações para com os líderes religiosos e sua instituição. Para as camadas mais baixas, a ideia de algo em si e na sua vida que fez com que não tenha mérito em ter seu quinhão no bolo – que é bom lembrar, não é para a todos mas, no discurso, é “para qualquer um” - e que expurgar-se na frequência dos rituais, as portas poderão ser abertas. Os que conseguiram seu lugar ao sol satisfizeram as forças espirituais. Há ainda meios, oportunidades, possibilidades, recursos, que o mundo produziu para proporcionar mais bem-estar e alívio, para pessoas das camadas mais baixas e também para aquelas de extratos médios ascendentes ou já tradicionais, que não estão ao seu alcance; diferente de outras épocas, é inadmissível aceitar que se tenha produzido condições no mundo hoje de superar a situação em que se encontra (ou atingir uma dada condição anelada), mas não esteja acessível para a pessoa.

As crenças prometem meios mágicos ou místicos diversos para se obter o que se anseia. Tais crenças e sistemas religiosos podem estar mais ou menos organizadas, centradas em templos, comunidades, ou podem ser menos sistematizadas e de adesão mais individualista e não associada, podem remeter-se mais a divindades, ou a conceitos mais etéreos; englobam versões adaptadas de religiões tradicionais, crenças exotéricas ligadas a autoajuda, misticismos com apropriação de termos e conceitos científicos, arengas mais vagas com empréstimos de filosofias zen, etc.


No caso cristão, a chamada Teologia da Prosperidade e semelhanças, em igrejas carismáticas em confissões tradicionais ou igrejas neopentecostais, constitui-se o exemplo do discurso religioso mais adaptado e sintonizado com o espírito e verniz do caráter social de nosso sistema e nosso tempo. Estimula desejos de se pautar existencialmente encontrando satisfação com as exigências culturais para o bom funcionamento da economia e estabilização política dela. É a mais bem adaptada, ajustada, consubstancial e integradora para os indivíduos na lógica, nos mecanismos de incentivos, recompensa, vergonha, autossatisfação e marginalização do sistema. Não se admira que assim, sejam as numericamente e materialmente mais bem-sucedidas. Propiciam meios para catarses individuais e coletivas ante as frustrações e stress do cotidiano na sociedade atual. Se norteiam e caracterizam-se pelas funcionalidades descritas mais logo acima. Exigem muito pouco em termos de constituição de racionalidades e corpos doutrinários que possam se chocar com o que é essencial na organização capitalista. Ao mesmo tempo criam uma certa agregação social sem confrontar o atomismo social da sociedade de consumo. O ideário religioso é adequado, apropriado e trabalhado para servir como ponte entre a a estrutura socioeconômica e os fetiches e ideias catalizadores para o comportamento que mantêm o funcionamento regular do sistema. Há um estímulo à aplicação intelectual pragmática no que é tocante ao sucesso material e sucesso nos padrões hierárquico-simbólicos do sistema social. Há um grande desestímulo intelectual, e mesmo o fomento a um obscurantismo subcultural pró-ativo, no engajamento ante a apreensão cognitiva analítica/sistematizadora das estruturas e processos naturais, sociais e culturais.

É onde reside um ponto a que remetemos a conjuntura de Bonhoeffer e sua provocação. Fazendo uma sintética recapitulação do contexto: Bonhoeffer fazia parte de um conjunto articulado de teólogos e lideranças pastorais que se insurgiram contra uma síntese religiosa cristã predominante em seu tempo que desembocou na adesão ao programa oficial do Partido Nacional Socialista, embora não fosse o horizonte definido dela. A chamada escola do “liberalismo teológico”, embora devamos tomar cuidado porque a experiência e tradição histórica do “liberalismo teológico” é muito mais ampla e rica do que essa delimitação.

"Epifania I :Adoração dos Magos" - de Gottfried Helnwein
Se constituía na “Religião do Sistema”: ao mesmo tempo que se propunha a uma “simplificação dogmática” que entendiam obstaculizar a mensagem principal da fé cristã, a “fraternidade universal”. Enfatizavam o caldeirão de potencialidades positivas que era o homem. Incorporaram a teologia a conceitos idiossincráticos da conjuntura moderna, como o Progresso Histórico Imanente e Inexorável. Seus conclames giravam em torno da concepção de uma “religiosidade inata” no ser humano, que seria ali configurada e canalizada para promover a unidade espiritual da nação. Serviria para dar suporte motivacional para o senso de dever dos cidadãos às instituições nacionais. Desta forma, a teologia ficava submissa à agenda dos aglutinadores ideológicos da conjuntura que, embora condicionada, era vista e propalada como universalista e realizadora da história.

Em reação a isto se constituiu a Igreja Confessante, que reafirmava princípios fundamentais do cristianismo e os contrapunham à pregação da Igreja Oficial de coadunar o cristianismo à ideologia do Estado, usando o Evangelho para se contrapor. Contudo, Bonhoeffer foi se contrariando por ela se afirmar em linguagem e conclames apolíticos especificamente religiosos internos à igreja.

As tentações dos cristãos que não se conformavam ao “liberalismo” a isto era o fundamentalismo, ou uma negação incondicional da modernidade em todos os pontos que se considere que a fé tradicional se sentisse constrangida; este é um aspecto. Outro aspecto é a religião buscar dimensões compartimentadas que estivessem “seguras” da autonomia do mundo. Também, que se buscasse usar de artifícios psicológicos para inculcar desespero interior, pânico ante a vida e fraqueza mental nas pessoas para elas terem como último recurso se escorar no discurso religioso. Podemos ver que são “tentações” frequentemente usadas como ferramentas estratégicas para diversas igrejas e pregadores.

Onde há saúde, força, segurança, simplicidade, eles farejam um fruto maduro para roer ou pôr seus ovos ruinosos. Seu objetivo inicial é levar o ser humano ao desespero interior, e então a parada está ganha. (…) Considero como o ataque da apologia cristã à maioridade do mundo primeiro como sem sentido, segundo como deselegante, terceiro como não cristão. Sem sentido, porque ele me parece como a tentativa de fazer retroceder à puberdade uma pessoa que se tornou adulta, ou seja, torná-la dependente de coisas das quais ela, de fato, não mais depende, lançá-la em problemas que para ela, de fato, não são mais problemas. Deselegante, porque aí se tenta explorar a fraqueza de uma pessoa para fins estranhos a ela, com os quais não concordou livremente. Não cristão, porque Cristo é confundido com um certo estágio da religiosidade do ser humano, ou seja, com uma lei humana                                                        - 8. 6. 44


Onde ele bradara o seu desafio profético que abre nossa reflexão. Uma chamado a um cristianismo “arreligioso” [diferente de irreligioso]. Sem Deus como tapa-lacunas do conhecimento, abstendo-se e prevenindo-se do obscurantismo; sem religiosidade como muleta, alienação escapista ou como em contraparte, argamassa social; sem usar do recurso de forçar alguém ao desespero eminentemente emocional [citar]; incitar à postura altera, responsável, consciente e madura no mundo. O engajamento em Cristo ser embebido e estar imanente no encarar e lidar da vida social, familiar, política, econômica, sabendo lidar com os termos a que estas esferas se propõem por si mesmas, não querendo acrisolar em particularidades da linguagem religiosa . Não promover nem a identificação, nem a clivagem, entre “espaço sagrado” e “espaço profano”. “(...) aprender a con-viver”: (…) não se postar como espectador, avaliador, juiz fora dos processos da vida; con-viver (…) a partir da plenitude dos motivos vitais” e “na plenitude das tarefas e dos processos concretos da vida com a sua infinita diversidade de motivos”. 
- De seu livro "Ética".

As disciplinas espirituais, sacramentos, oração, leitura e estudo da Bíblia, louvor, etc., são vistos não como um ponto de aparte do mundo, mas como para dar força pulsional para o serviço no mundo. A isto ele retomava o conceito de “disciplina arcana”, em que as disciplinas eram algo a se guardar com cuidado na comunidade de fé e ministrado àqueles que se compromissaram com o caminho cristão, para se alimentar de sua essência, e não ser profanada servindo como atração cultural para o mundo. Atentando para Deus como participando, sofrendo na história e compartilhando das lutas nela, não como apartado ou, por outro lado controlando tudo como um Titereiro Transcendente. “Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz. (…) A religiosidade do ser humano o remete, na sua necessidade ou aflição, ao poder de Deus no mundo, Deus é o deus ex machina [ i. e., “o deus que surge mecanicamente”]. A Bíblia remete o ser humano à impotência e ao sofrimento de Deus; somente o Deus sofredor pode ajudar”. 16.7    “Pessoas buscam Deus na sua necessidade (…) cristãos ficam com Deus na Sua paixão” - do poema “Cristãos e pagãos”- constante em "Resistência e Submissão".

A igreja deve sair de sua estagnação. Devemos voltar ao ar livre do confronto espiritual com o mundo. Devemos correr o risco inclusive de dizer coisas contestáveis, se isso possibilita levantar questões de importância vital. Como 'teólogo moderno”, que entretanto leva ainda consigo a herança liberal, sou obrigado a tirar de debaixo do tapete tais questões. Entre os jovens, não haverá muitos que consigam reunir em si as duas coisas. Cartas do Cárcere, 3-8-1944.


O cristianismo está hoje aguda e profundamente re-confrontado com isto. De forma inapelável e impossível de escamotear e postergar. Como peitar de frente a instigação a esta responsabilidade, não tendendo à queda pragmática/utilitarista das práticas da Teologia da Prosperidade e Apelações de Manipulação Emotivista que tanto “sucesso” (por enquanto) fazem?

Encontramos tentações no caminho semelhantes: em um extremo, ser pautado pela busca de “relevância”; não há algo que fica ultrapassado mais rápido do que o “relevante”. Em outro extremo, se “refugiar” centrando-se novamente na dita “salvação individual”.

Redenção significa agora redenção das preocupações, das aflições, dos medos e anseios, do pecado e da morte em um além melhor. Mas seria isto de fato o essencial da proclamação de Cristo nos evangelhos e em Paulo? Discordo disso. A esperança cristã na ressurreição diferencia-se das mitológicas pelo fato de remeter o ser humano à sua existência sobre a terra de maneira inteiramente nova e radicalizada em relação ao Antigo Testamento. Diferentemente dos devotos dos mitos de redenção, a pessoa cristã não tem sempre ainda à disposição uma última escapatória das tarefas e dificuldades terrenas para dentro da eternidade, mas tem de degustar plenamente a vida terrena, assim como fez Cristo ('meu Deus, porque me abandonaste?') e somente ao fazer isto o Crucificado e Ressuscitado estará com ela e ela, por sua vez, estará crucificada e ressuscitada com Cristo. O aquém não pode ser abolido prematuramente. Neste ponto, o A.T. e o N. T. Permanecem unidos.                                       - 27.6.44

E como poderemos a delinear contornos para propostas? Creio que de forma primária, os primeiros passos devem ser dados analogamente ao que conhecemos como “via apodítica”: antes de sabermos “o que é”, sabermos “o que não é”. E para auxiliar nisto, tomarei como um brevíssimo estudo de caso iluminador, um “causo” pitoresco dos tempos dos juízes no povo hebreu, extraído do livro homônimo constante na Bíblia, “Juízes”. Elucida enormemente em que termos tem-se grande parte dos fenômenos de “conversão” e adesão religiosa no rosto majoritário das igrejas hoje.

Livro dos Juízes, capítulo 17:

“Este homem, Micas, tinha uma casa de Deus; ele fez um 'efod' e 'terafim', e deu a investidura a um dos seus filhos, que veio a ser seu sacerdote.
(…)
Havia um jovem de Belém, em Judá, do clã de Judá, que era levita [ i. e. da tribo de Levi, dedicados a organizar e ministrar o culto e louvores] e residia ali como estrangeiro. Esse homem deixou a cidade de Belém, em Judá, para estabelecer-se como estrangeiro onde pudesse. No curso da sua viagem, chegou à montanha de Efraim, à casa de Micas, que lhe perguntou: 'De onde vens?' _ Eu sou levita de Belém de Judá – respondeu-lhe. _Ando em viagem a fim de me estabelecer como estrangeiro onde puder.
'Fica comigo', disse-lhe Micas. 'Sê para mim pai e sacerdote e te darei dez siclos de prata por ano, vestuário e sustento'. O levita foi. Concordou em ficar com este homem, e jovem foi para ele como um dos seus filhos. Micas deu a investidura ao levita, e o jovem se tornou seu sacerdote e ficou morando na casa dele. 'E agora', disse Micas, “eu sei que Yahweh me fará bem, porque tenho um levita como sacerdote'. ”


Veja-se bem. Com símbolos, amuletos, ritos e sacerdote profissional, a pessoa domestica Deus pactuando que ele sirva para lhe conferir boa sorte. Reduzira as incertezas inerentes da vida e se associara com poderes mágicos para ela adquirir uma lógica mais segura para se estabelecer nela. Está configurado o convênio, o contrato.

Adiante no livro, vemos um grupo de batedores de uma tribo à procura de uma terra para invadir, conquistar e se estabelecer. Eles se deparam com as terras e bens de Micas, e com o jovem sacerdote. Posteriormente, regressando do combate, os cinco batedores conduzem um contingente armígero do clã para as posses de Misã, mostrando-lhes os amuletos, símbolos e acessórios religiosos. Eles decidem se apropriar dos mesmos e acabam levando também o sacerdote, primeiramente constrangido por ameaça, e logo a seguir contente por persuasão de se tornar mais importante, trabalhando por toda uma tribo. Agora, Deus está amarrado a um contrato social em um jogo místico para conferir sucesso e chauvinismo.

"E enviaram os filhos de Dã, da sua tribo, cinco homens dentre eles, homens valorosos, de Zorá e de Estaol, a espiar e reconhecer a terra, e lhes disseram: "Ide, reconhecei a terra." E chegaram à montanha de Efraim, até à casa de Mica, e passaram ali a noite. E quando eles estavam junto da casa de Mica, reconheceram a voz do moço, do levita; e dirigindo-se para lá, lhe disseram: "Quem te trouxe aqui? Que fazes aqui? E que é que tens aqui?" E ele lhes disse: _ Assim e assim me tem feito Mica; pois me tem contratado, e eu lhe sirvo de sacerdote. Então lhe disseram: "Consulta a Deus, para que possamos saber se prosperará o caminho que seguimos." E disse-lhes o sacerdote: _Ide em paz; o caminho que seguis está perante Yahweh". Juízes 18:2-6

""'
Entrando eles, pois, em casa de Mica, e tomando a imagem de escultura, e o éfode, e os terafins, e a imagem de fundição, disse-lhes o sacerdote: _ Que estais fazendo? E eles lhe disseram: "Cala-te, põe a mão na boca, e vem conosco, e sê-nos por pai e sacerdote. E melhor ser sacerdote da casa de um só homem, do que ser sacerdote de uma tribo e de uma família em Israel?"
Então alegrou-se o coração do sacerdote, e tomou o éfode, e os terafins, e a imagem de escultura; e entrou no meio do povo.
Juízes 18:18-20

A “conversão” religiosa como disfarce para um contrato de conveniência. É assim que muitas pessoas têm se "convertido", transformando Deus em um ídolo. O quanto é necessário resguardar este tipo de religião?


Mas se não conseguir levar a pessoa a encarar e caracterizar sua felicidade como sua desgraça, sua saúde como sua doença, sua força vital como seu desespero, então o latim dos teólogos se esgota. Trata-se, então, de um pecador empedernido de natureza especialmente perversa ou de uma existência 'burguesa saturada', e o primeiro está tão distante da salvação quanto o segundo. Olha, esta é a postura contra a qual eu me defendo. (…) Jesus nunca questionou a saúde, a força, a felicidade de um ser humano como tais e as considerou uma fruta podre; do contrário, porque ele teria restabelecido a saúde dos doentes, devolvido a força aos fracos? Jesus reclama para si e para o reino de Deus toda a vida humana em todas as suas manifestações                                                                                                               - 30.6.44

O Desafio de Bonhoeffer - A Crise da Religião e a Autonomia do Mundo ( Parte I)

O movimento em direção à autonomia humana (refiro-me à descoberta de leis segundo as quais o mundo vive e dá conta de si mesmo nas áreas da ciência, da sociedade e do Estado, da arte, da ética e da religião) que iniciou por volta do século XIII – não quero entrar na discussão sobre o momento exato – chegou a uma certa completeza na nossa época. O ser humano aprendeu a dar conta de si mesmo em todas as questões importantes sem apelar para a 'hipótese Deus'.
(…)
Assim como no campo científico, também na esfera humana em geral 'Deus' está sendo afastado cada vez mais da vida; ele está perdendo terreno. Ora as visões católica e protestante da história concordam que se deva ver nesse processo a grande apostasia de Deus, de Cristo, e quanto mais elas se valem de Deus e Cristo e os jogam contra esse desenvolvimento, tanto mais este se compreende como anticristão. O mundo que chegou à consciência de si mesmo e de suas leis vitais está a tal ponto seguro de si mesmo que ficamos inquietos com isso. Desvirtuamentos e insucessos não conseguem deixar o mundo inseguro quanto à necessidade de sua caminhada e seu desenvolvimento; (…).
Ora, a apologia cristã reagiu, das mais diversas formas, contra essa segurança de si próprio. Procura-se demonstrar ao mundo que atingiu a maioridade que ele não seria capaz de viver sem o tutor 'Deus'. - Cartas do Cárcere, 6.6.44 - em "Resistência e Submissão"


Essas provocações não são proferidas por um renegado religioso que entrou para a onda pentelha atualmente chamada de “neo-ateísmo”. Foram escritas por um dos grandes nomes da teologia do século XX, Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano, que fora morto em campos de concentração nazistas devido à sua luta de desobediência civil contra o Reich, escritas na prisão em 1944 para seu amigo também teólogo Eberhard Bethge; sobre seu comportamento na prisão e sua morte temos não-poucas testemunhas de como se mantinha íntegro em sua fé, irradiando a paz de Cristo.

Desafios que pairaram sobre toda a teologia séria feita desde então. Figura em toda reflexão conscienciosa sobre o futuro da religião cristã no mundo. Muitos grandes nomes repensaram seu teologar a partir delas, e houveram várias tentativas de responder a esses vergalhões: Neo-ortodoxia, Teologia da Cultura, Teologia da Secularização, Teologia da Morte de Deus, Teologia da Esperança, Teologia da Libertação, etc., são algumas elencadas aqui que o espaço não permite destrinchar.

Mas ouso dizer que ainda não se conseguiu levar a cabo um tratamento que tenha dado conta efetivamente da tarefa, diante de todos os fenômenos socioculturais decorridos desde então. Todas tiveram seus condicionamentos momentâneos e tiveram como fraqueza circunscrever estes momentos como se fossem a configuração definitiva. E acabou que foi-se esquecendo... tenho ficado inquieto e busco aqui trazer alguns pontos importantes para justificar que, tanto como nunca, é preciso resgatar a preocupação atinente, sem respostas-prontas, para a ressonância das palavras de Bonhoeffer, sopradas pelo vento impetuoso, no período de transição caótica para o imprevisível que atravessamos.

O que pretendo com isso, portanto, é que Deus não seja introduzido clandestinamente em algum derradeiro lugar secreto, mas que simplesmente se reconheça a maioridade do mundo e do ser humano, que o ser humano não 'seja tornado ruim' na sua mundanalidade, mas que seja confrontado com Deus no seu ponto mais forte (...).
Mais uma vez ficou bem claro para mim que não devemos fazer com que Deus figure como o tapa-furos do nosso conhecimento imperfeito; quando então – e isto acontece forçosamente – os limites do conhecimento deslocam-se cada vez mais para fora, também Deus é deslocado junto com eles e encontra-se assim, num movimento de constante retirada.
(…)
Isso vale também para a relação entre Deus e o conhecimento científico. Mas vale também para as questões humanas gerais da morte, do sofrimento e da culpa. Atualmente, ocorre que também para essas questões há respostas humanas que podem prescindir totalmente de Deus. De fato, pessoas de todas as épocas conseguiram resolver essas questões também sem Deus, e simplesmente não é verdade que só o cristianismo tenha a solução para elas.
(…)
Também neste ponto Deus não é um tapa-furos; tem de ser conhecido não apenas nos limites de nossas possibilidades mas no centro da vida.

Tem sido comum nos depararmos na internet com pesquisas demográficas sobre confissões religiosas; o ponto mais destacado é a diminuição significativa nos últimos anos do número de fiéis religiosos em países com mais altos IDH's [Índice de Desenvolvimento Humano], também, a diminuição à medida em que um país ou região chega de forma mais ampla em índices elevados. A relação entre não-participação religiosa e não-crença não é equivalente nem linear, bem como a não-crença em uma religião sistematizada com a não-crença em alguma realidade transcendente, supranatural ou exotérica. Mas é correlacional e não-discrepante.

O clima de fanatismo aguerrido e de provocações pentelhas em diversos ambientes costuma esculhambar com a análise sóbria e ponderada. Raramente vemos comentários com mínima capacidade de abstração lógica e substancial para abrir caminhos ao pensamento com propriedade, predominando interesses apologéticos (religiosos e antirreligiosos) obtusos, e o embotamento faz brotar pirraças patéticas ao estilo de gritos de torcidas organizadas. O que dificulta o empreendimento de quem não se identifica com os coros.

É patente que não ocorrera um processo de primária e básica apostasia da(s) fé(s) tradicional do recorte (país, nacionalidade, região, etc.), em que se catalizou de uma vez uma explosão da barbárie ao topo de indicadores de desenvolvimento social, como se fosse uma causa-efeito para um “Big-Bang civilizatório”.

Decorre dos dados mensurados que a desvinculação confessional com a religiosidade tradicional se acentua após se chegar a níveis maiores nos índices de renda econômica. Não houvera uma “apostasia” para depois se começar a construir escolas, hospitais, se avultarem empreendimentos econômicos, redes de articulações sociais, inserção mais favorável na cadeia mercantil e divisão internacional do trabalho. É depois desses processos já estarem em maiores níveis que começa a cair, em destaque, o compromisso regular com instituições religiosas.


A religiosidade atua em comunidades e sociedades experimentando privações, de múltiplas maneiras nos pulsos motivacionais das pessoas. Algumas acentuam-se mais. Pode servir de um escape subjetivo para o íntimo diante de uma situação opressora ( opressão para muito além do sentido restrito de coerção política). Refrigério, ou força interior para suportar a pressão e não se entregar ao sentimento de absurdo ou desespero. Pode servir também de acomodação; embora se desconte que, em muitas situações, o indivíduo realmente não tem condições concretas de subverter seu contexto, restando a loucura ou o suicídio. Esperanças transcendentais não necessariamente “alienam”, a pessoa “esquecendo” suas condição e evitando mudar devido a ela; não, as pessoas podem enfrentar a realidade, apesar de algumas batalhas serem inglórias e desesperadoras, considerando que sua resistência não ficará inútil e desperdiçada em vão, mas “contará”. A situação de opróbrio não fica sendo como a condição última e realidade definitiva para dizer quem a pessoa é e a quê foi incondicionalmente destinada.

A partir daí, agentes institucionais de religiões criam condições de trabalhá-la como aglutinador e estabilizador comunitário, social, “nacional”. A religião expande seus papéis e atua como “cimento” para a coesão social e fator simbólico-estruturador para a diferenciação e identidade, mesmo de “sintonização” para o cosmos que é projetado, idealizado e no qual as mentalidades se concebem inseridas e condicionadas. Há efeitos adversos para pessoas e ideias que se considere fator de desagregação e geradores de “caos” quanto a isto.

Sem dúvida, há limites variados para se conseguir cumprir esta “função”. Quando a leitura da vida passa a ser plenamente negativa, o apelo espiritual começa a ser encarado como engodo. A impressão de futilidade e desperdício, de tudo ser estabelecido em um fundamento de maldade e vaidade, cego e surdo a qualquer apelo melhor, passa a criar sim uma revolta quanto a qualquer discurso ou ideia de Sagrado ou Transcendente. A “coesão” começa a ser encarada de fato como artificial e deslegitimada.

O prisioneiro leitor da Bíblia, sobre o qual igualmente contei que, num estado de demência, havia se atirado sobre o major com um tijolo, certamente estava entre os desesperados que perderam todo o resquício de esperança e, como não se pode viver sem esperança, acharam uma saída no martírio espontâneo, quase produzido artificialmente. (…) Quem sabe qual o processo psicológico se passou nele; nenhum ser humano pode existir sem alvo e sem buscar esse alvo. Um ser humano que não tem mais alvo nem esperança muitas vezes se transforma, em virtude do vazio, num monstro... Mas o alvo de todos os presidiários era a liberdade.
 - Do romance “Recordações da Casa dos Mortos”, de Fiódor Dostoiévski.

Podemos situar nisto a famosa e mal compreendida colocação de Marx quanto a religião ser o “ópio” do povo, numa época em que o ópio tinha consideração também de funções medicinais além da entorpecente. Colocação que também, de forma oportunista, costuma aparecer “surecada”:

“O sofrimento religioso é, a um só e mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições desalmadas. Ela é o ópio do povo.”


Nos lugares apontados nas pesquisas, as populações chegaram a uma condição de desenvolvimento material mais emancipada ante as precariedades em que viviam seus antepassados, mesmo em comparação com os menos distantes. Uma maior “liberdade” ante as “necessidades” duras de desprendimento de esforço físico e tempo para o mínimo necessário ao sustento material básico. Diversas atividades desgastantes cujos produtos gerados são necessários para manter seu padrão de vida são desenvolvidas e externalizadas em outras localidades e suas condições econômicas lhes permitem aproveitar disso. Muitos povos e países foram inseridos ou se inseriram de maneira mais oportuna nos ciclos e jogos de poder entre impérios, potências, hegemonias e grandes forças econômicas, por diversos fatores estratégicos nos locais e momentos certos.

Assim se permite mesmo às classes médias nestes países usufruírem de aproveitar gozos que, relativamente – ou mesmo não-relativamente – só se era usufruído pelos mais altos extratos das elites mais antigas, mesmo os reis da Antiguidade. E as classes mais baixas terem necessidades atendidas e oportunidades de usufrutos também inimagináveis em qualquer período da história. Mirando para adiante, vêem oportunidades antes inacessíveis, muito o que têm a ganhar; olhando para trás, vêem o quanto têm também a perder, que antes não se tinha. E ao redor, possibilidades de usufrutos e experiências.

Já em primeira instância, a religiosidade não é mais fundamental para conferir coesão social. Essa nova situação engendra outros mecanismos motivacionais de recompensa e fracasso, ambição e marginalização. Imprime-se nas consciências de que estão abertas no horizonte as fronteiras para ganho de status e mais bem-estar, poder e satisfação, usufrutos e conquistas, para a perícia e mérito. Ainda que não esteja aberto para todos, o argumento validador é que está aberto a “qualquer um”, mesmo com necessários ajustamentos periódicos, e sobre isto repousa o equilíbrio – estável ou instável – do sistema.

E neste ponto, encontra-se o fio da navalha das religiões. De força motivacional, passam a ser encaradas como entraves e constrangimentos para as pessoas aproveitarem a pleno alcance as possibilidades que a nova condição econômica, social e cultural lhes abre. Seu “descarte” é facilitado, no interior dos sujeitos, pela autonomia que o cosmos passa a ganhar no sistema simbólico também, que em grande parte, sua estrutura de produção está integrada aos mecanismos de funcionamento regular do sistema. Não significa que os sujeitos não busquem recursos simbólicos motivacionais e estabilizadores para seu ser e estar, buscam e se apegam a alguns, embora muitas vezes a alternativa optada seja cair sim na anomia social ou apatia. Quando não se encontra, o sentimento de desajustamento costuma ser não convivível. Contudo, tais recursos devem ter êxito em se amalgamar com o potencial aberto de demais recursos de vida, disponíveis nas condições em que ele está inserido (ou como ocorre por vezes, há aqueles e aquelas que acabam se encontrando com estímulos e significados em maneiras alternativas de viver que desafiam em pontos cruciais valores de sua sociedade, sendo opções contraculturais em escalas variadas, mas com baixo apelo em escala – e muitas vezes absorvidos e instrumentalizados pelo caráter social do sistema) e alimentem seu modo de vida de sentidos menos imediatos.

Em várias ocasiões, líderes e representantes das religiões tradicionais reagem a este cenário com apelos e discursos retrógrados, buscando formas de causar pânico e recorrer a medos em cenários que acarretem queda no status quo: “dissolução da família tradicional”, o temor de contatos, misturas e um “diluir” sociocultural com pessoas e respectivas culturas “alienígenas” à formação tradicional da sociedade a qual apela; além de apelos à identidade étnica e/ou nacional que pode estar se “dissolvendo”, à perda do reconhecimento mútuo e orgulho tradicional, etc. Nesse caso, o apelante aceita sacrificar o conteúdo último e ontológico do sistema religioso, quando ocorre de causar desconforto em conciliar com tais questões e se remeter a desafios mais profundos, impelindo a buscas de sentido último que não se ajustam ao status quo que se promete e para o qual aponta no apelo feito - em prol de sua função como amálgama e verniz social e legitimador identitário nacional ou étnico.

Vale lembrar que, obviamente, os cenários descritos não se aplicam igualmente em cada e todo os casos passíveis de observação; você verá casos de realidades com pessoas em condições mais pobres generalizadamente, com alto grau de evasão ou baixo grau de adesão religiosa, e realidades com pessoas em condições econômicas mais confortáveis generalizadamente, com alto grau de adesão e prática. Mas são cenários que se aplicam de maneira mais geral e difundida geograficamente.

22 de dezembro de 2012

Re-pousando no Magnificat

Lucas 1,46-55


Esta quem entoou este hino, é Maria. A Santa Maria...

Que Maria diferente nos é apresentada por Lucas, não é mesmo?

Maria valente, de pé no chão, Maria com sangue circulando nas veias, no rosto, com vento na voz... Maria valente, Maria de paixão, febril, Maria indignada com a condição do mundo... não aquela Maria apática, complacente, fria....

Infelizmente, a ideia de Maria está presa entre dois extremos. A Maria ignorada ou recusada, em grande parte dos protestantismos.... a Maria divinizada, pacata e condescendente do catolicismo popular...

E aqui vemos um pouco mais diretamente outra Santa Maria, vindo das páginas vivas das Escrituras.

Ela canta de forma vibrante e arrebatada um hino do seu povo, que tinha raízes em um antigo cântico tradicional, o cântico de Ana, em I Samuel 2,1-10. Que falava à alma da nação. Traduzia a esperança dos pobres e condenava a arrogância das nações, exaltando a libertação e advertindo que os opressores ainda seriam humilhados. No “Magnificat”, o hino fora retrabalhado, incorporando menções a passagens de salmos, profetas (como Habacuque, Sofonias, Isaías, Miqueias), passagens que ecoavam a expectativa do triunfo final da liberdade do povo, conquistado através de Deus, ante o jugo dos dominadores. Ana também comemorava, na antiga canção, quando o Senhor abrira seu útero estéril. Como acontecera com Izabel, prima de Maria.

Um hino judaico que logo em seus primórdios a Igreja Cristã incorpora para sua vida. Ali Maria vibra e traz as maravilhas fantásticas que estavam acontecendo consigo e em sua família – a prima Izabel, idosa, esperando um filho que já se anunciava ser alguém especial – para todo um cenário do drama, aflições e esperanças de seu povo.

Sem esquecer de si mesma, enxerga ainda assim muito além de si.

Hoje, é meio triste que as pessoas cultivem uma fé individualista e egocêntrica; e uma das formas em que isto se manifesta é canalizarem toda sua relação e expectativa em Deus para a salvação da sua alma, para “ir para o Céu”.... às vezes, pior, para ter sucesso individual na sociedade.

Ali, o regozijo não era de agradecer porque iria para o “Céu”, mas por participar do plano de Deus de curar o mundo de toda injustiça.

Às vezes ficamos intrigados com uma questão... qual teria sido o papel da mãe, Maria, na formação da personalidade e caráter de Jesus? Abre-se espaço para qualquer invenção sem base da imaginação...

Neste hino, temos as pistas... fortes!

Vejamos alguns recortes dele:

48-9: “gerações me considerarão bem-aventurada”...

O que lembra? As bem-aventuranças proclamadas por Jesus. Podemos ver como há uma sintonia fina, onde elas constam no evangelho de Lucas, de 6 a 26:
Maria disse: “contemplou na humildade de tua serva” ..."meu espírito se alegrou no Senhor...”... “misericórdia sobre os que o temem” - é bem o espírito das “Bem-aventuranças”, as quais Jesus proferia como motivação para a fé dos mais pobres e humildes.

Ainda temos mais pontos em comum: 52-"derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes”...        53 - "encheu de bens os famintos, despediu vazios os ricos”.

“Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reinado de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir” (…) “Mas ai de vós, ricos, porque já tendes a vossa consolação! Ai de vós, que estais saciados, porque tereis fome! Ai de vós, que agora rides, porque conhecereis o luto e as lágrimas!”

Vemos que a espiritualidade de Jesus herdou de Maria o inconformismo com este mundo, e o anseio de transformação; a consciência de não usar o nome de Deus para legitimar o atual estado de coisas, mas apontar o dedo nas feridas mostrando que a injustiça não terá a palavra final, mas passará...

A Visitação - Il Guercino


Na tradição anglicana, os santos são honrados como peças-chave para a construção do Reinado de Deus na história, por sua importância para a vida e doutrina da Igreja, pelos seus testemunhos de vida especiais. Maria tem um lugar especial aí, em que lhe é direcionada grande honra. Que possamos fazê-lo, dando-lhe grande honra, aprendendo com ela, perseverando junto com ela, compartilhando dos anseios dela.

25 de julho de 2012

Em honra de São Tiago, o Menor, Apóstolo de Jesus Cristo

Naqueles dias, alguns profetas desceram de Jerusalém a Antioquia. Apresentou-se um deles, chamado Ágabo, o qual começou a anunciar, por meio do Espírito, que estava pra vir uma grande fome sobre toda a terra. E ela de fato veio, no reinado de Cláudio. Decidiram então os discípulos, cada um segundo suas posses, enviar contribuições em ajuda aos irmãos que moravam na Judeia. Eles de fato o fizeram, enviando-as aos anciãos por intermédio de Barnabé e de Saulo. Nessa mesma ocasião o rei Herodes começou a tomar medidas visando a maltratar alguns membros da Igreja. Assim, mandou matar a espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isto agradava aos judeus, mandou também prender Pedro. Era no dia dos Pães Sem Fermento.
Atos 11,27-12,3.


Vinte e cinco de Julho é no calendário litúrgico da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil data de celebração à honra e memória de São Tiago, o apóstolo. Ele fora um dos Doze dos círculo de discípulos de maior incumbência por parte de Jesus, simbolizando a restauração da nação israelita. Irmão do apóstolo João, filhos de Zebedeu, ganharam de Jesus o apelido de “Boanerges”, “Filhos do Trovão”.

Efetivamente no período relatado no trecho de Atos, houvera uma grande fome; o território da Judeia foi especialmente afetado. Vimos aí uma das primeiras características da continuidade do movimento idealizado por Jesus, quando pessoas de outras nações, povos, países, promovem coletas para ajudar os mais vulneráveis. E os líderes, os Anciãos/Presbíteros, cumprindo a função de servirem na organização dos suprimentos recebidos.

Chegamos à morte de Tiago; o Herodes mencionado ali, Antipas I, era o filho e cunhado de Herodes Magno, meio-irmão do Herodes Antipas, personagem importante nos evangelhos. Ele se unira ao partido do maníaco Gaio Calígula em Roma, se tornando quando da entronização deste como imperador, oficialmente “rei dos judeus” em cerca de 37 d.C. Era uma figura carismática muito influente na população, frequentava o Templo.

Nas mãos deste, o primeiro grande martírio cristão. Vemos aí uma figura recorrente na história e no período contemporâneo: uma liderança despótica com poder de sedução nas massas, que apela para e explora seus símbolos e elementos de aglutinação cultural (frequentemente religioso), e que assim se julga acima do bem e do mal. Insaciável.

Então, aproximou-se de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu com seus filhos e, prostrando-se, fez-lhe um pedido.
"O que você quer? ", perguntou ele. Ela respondeu: "Declara que no teu Reino estes meus dois filhos se assentarão um à tua direita e o outro à tua esquerda".
Disse-lhes Jesus: "Vocês não sabem o que estão pedindo. Podem vocês beber o cálice que eu vou beber? " "Podemos", responderam eles.
Jesus lhes disse: "Certamente vocês beberão do meu cálice; mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim conceder. Esses lugares pertencem àqueles para quem foram preparados por meu Pai".
Quando os outros dez ouviram isso, ficaram indignados com os dois irmãos.
Jesus os chamou e disse: "Vocês sabem que os governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas.
Não será assim entre vocês. Pelo contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo;
como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos".
 Mateus 20:20-28


No trecho do Evangelho segundo a tradição de São Mateus, vemos algo nada honroso por parte dos irmãos; na vergonha do que estavam fazendo, tentaram usar sua mãe para “amolecer” Jesus e fazê-lo considerar seus pedidos de lhes conferir o domínio ao seu lado. Possivelmente entenderam o “cálice” a que Jesus se referia como o símbolo de glória dos cálices dos reis; mas Jesus empregava um recurso de linguagem próprio dos profetas, como em Isaiás 51,17, que era cálice de um sofrimento que se recai. E ele antevera que recairia sobre eles também...

Adviera grande celeuma entre os discípulos; com razão, os outros dez se sentiram ultrajados com a atitude de Tiago e João. Jesus então agiu como Mestre, chamando a todos e subvertendo completamente suas noções de poder, o que tornaria a discussão vã. Redefine o poder como capacidade e possibilidade de servir. E a honradez como a disposição e préstimo em servir. Evoca mesmo a figura do Filho do Homem para si, que era uma lenda entre os judeus sobre alguém que viria julgar o mundo, fazer justiça aos fiéis de Deus e restabelecer a nação israelita. Observe sua raiz:

Eu continuava contemplando, em minhas visões noturnas, quando notei, vindo sobre as nuvens do céu, um como Filho do Homem. Ele adiantou-se até ao Ancião de Dias e foi introduzido em sua presença. A ele foi outorgado o poder, a honra e o reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram.
Daniel 7,13-14

Jesus então empregou uma frase de forte altissonância para impactar seus seguidores, evertendo suas compreensões tradicionais. A lição ficara marcada no início de seu movimento, ficara marcada no apóstolo Tiago.


Oração para o dia de São Tiago, o Menor, Apóstolo de Jesus Cristo, no Livro de Oração Comum:
Senhor Deus, o teu apóstolo Tiago consentiu em deixar seu pai e tudo o que possuía e ainda em sofrer pelo nome do teu Filho; ajuda-nos misericordioso para que nenhuns laços terrenos nos afastem do teu serviço. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém.

11 de julho de 2012

Nem alforje, nem dinheiro ao cinto

E ele percorria os povoados circunvizinhos, ensinando. Chamou a si os Doze e começou a enviá-los dois a dois. E deu-lhes autoridade sobre os espíritos impuros. Recomendou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser um cajado apenas; nem pão, nem alforje, nem dinheiro ao cinto. Mas que andassem calçados com sandálias e não levassem duas túnicas. E dizia-lhes: “Onde quer que entreis numa casa, nela permanecei até vos retirardes do lugar. E se algum lugar não vos receber nem vos quiser ouvir ao partirdes de lá, sacudi o pó de debaixo dos vossos pés em testemunho contra eles”. Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios, e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo.


Diferente de muitos líderes carismáticos e formadores de grupos religiosos, Jesus não parecia ter um ministério marcado por um apelo a se apartar da sociedade e da vida do povo; parecia se envolver e adentrar nas comunidades e relacionar sua mensagem com a vida delas.

O cenário retratado pelo evangelista Marcos acentua isto bastante. Ele situa essa passagem logo após narrar a rejeição do Mestre em sua região. Ainda assim, não sucumbe à tendência de dar, a partir disso, um direcionamento à sua proclamação para um sentido de apartamento do mundo social dos aldeões... antes ele permanece percorrendo e ministrando nos povoados, e a atribuição aos seus discípulos para fazer o mesmo, no mesmo caráter.

Os Doze. Jesus não selecionou doze discípulos priores à toa; sem dúvida passava o entendimento de remontar ao povo de Israel unido; ao Israel idealizado; remetiam às doze tribos das origens do povo de seu Deus. Mas a ênfase de Jesus não seria a nostalgia do passado; mas à perspectiva do futuro, à restauração do povo, restauração com a terra, restauração consigo mesmos, restauração com Deus.

E muito importante quando Marcos coloca que a estes Doze ele lhes outorgou poder. A questão passa a ser como ele lhes incumbira de exercer este poder...

Primeiramente, são chamados a associarem sua missão com a vida as comunidades, e não se apartarem num tipo de “esnobismo espiritual” delas. Também, são chamados a se despojarem e dependerem totalmente de Deus.

Não tinham reservas de sustento: não levavam suprimentos, não podiam usa a comum túnica sobre-capa, a qual era cusual como cobertor, colcha de cama, na falta de pousada para a noite. Apenas uma túnca. Tinham que contar que Deus iria providenciar. Não poderiam mendigar, não usando as bolsas que os mendigos usavam. Aceitar o pouso que lhes oferecessem, a comida que lhes dessem, sem ter a opção de migrarem para as casas mais confortáveis nos povoados caso lhes oferecessem no decorrer da estadia. E em caso de rejeição, deixarem a causa por conta de Deus, para ele acertar as contas com as pessoas, não levando consigo a mágoa e rancor...sacudir a poeira e deixar as pessoas com suas responsabilidades.

Marcos, diferente de Mateus 10.9, diz que os discípulos poderiam usar um bordão. Talvez porque a combinação deste com as sandálias remetesse à imagem do êxodo do Egito – Ex. 12.11 – ou porque Mateus os quis diferenciar de outros grupos de pregadores itinerantes.

Marcos chama a nossa atenção para a associação entre a mensagem de arrependimento com a expulsão dos demônios e cura. É como se quisesse mostrar que para o caráter da missão de Jesus, estavam mesmo interligados. O arrependimento, a restauração, a derrota do mal e o sanar. Realmente, causamos muitos males a nós mesmos, de cunho psicológico e físico, com nossas culpas que carregamos; também com as ações más, que reverte-se em nós, ou que deformam nossa imagem e semelhança de Deus. Quebramos nossas resistências e tendemos a entrar numa espiral viciosa de degradação interior ou exterior, que não se retrai; apenas pode ser quebrada; este é o papel da confissão e do arrependimento.

Marcos continua nos conduzindo a esta apresentação do comissionamento de Cristo. Nos transporta a seguir para um cenário contrastante, com o fausto e perversão da corte herodiana, e dela para a morte de João Batista, como que indicar realmente que este discipulado tem um preço, e que não é algo, digamos, “romântico”, mas um embate mortífero com as forças contrárias...