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8 de junho de 2014

Quem é Deus, e como amar a Deus?

            Um sermão pregado por Richard Bauckham, na igreja de Santo André, na Escócia.


Êxodo 34:1-10 e Mateus 22:34



Nossas duas leituras de Êxodo e Mateus contêm algumas das mais importantes coisas que a Bíblia tem a nos dizer sobre Deus. A primeira passagem é o culminar da revelação de Deus de si mesmo à Moisés e ao povo de Israel no Monte Sinai. Depois de Deus ter dado os dez mandamentos, depois do povo ter rejeitado a Deus e, ao invés disso, dado sua devoção ao bezerro de ouro, e depois de Deus tê-los perdoado, então substitui as tábuas de pedra que Moisés quebrara, as tábuas com os dez mandamentos escritos sobre elas, e então Deus vem à Moisés e garante que depois de tudo isso Moisés realmente sabe quem é Deus, quem esse Deus que escolheu Israel para seu povo realmente é. Se Israel está para conhecer este Deus que é agora seu Deus, se Israel está para ser dedicado a este Deus e nenhum outro, então não deve haver imprecisão ou confusão sobre a identidade de Deus.

Assim, Deus se identifica - de duas maneiras. Primeiro, não é o seu nome. Há um importante ponto que é sobre a tradução de nossas Bíblias que eu deveria explicar se vocês ainda não sabem disso. Se você olhar para esta passagem na maioria das traduções do Antigo Testamento, você vai achar que o nome de Deus é dado como “O Senhor” - com a palavra Senhor escrita em letras maiúsculas. Essa é a maneira convencional de representar o nome hebraico de Deus.

Não é realmente uma tradução, é uma espécie de substituto para o próprio nome. E as traduções da Bíblia usam-no porque esta é uma prática que já vinha sendo seguida pelo povo judeu na época de Jesus e do Novo Testamento. Trataram o nomear divino como sagrado demais para se pronunciar. Eles não queriam que o nome de Deus viesse a ser atirado ao vento como qualquer nome tal qual Tom, Dick ou Harry. Este é o nome que nomeia quem é Deus. E assim, quando leem as escrituras, eles não dizem o nome, eles substituíram pela palavra 'Senhor'. E as nossas traduções têm seguido essa prática, de modo que onde quer que você encontre Senhor em letras maiúsculas no AT, ela destaca o uso do nome hebraico de Deus. Onde não está em letras maiúsculas, isso não acontece.


Eu sigo essa prática judaica de não dizer o nome próprio divino, porque era seguida por Jesus e os primeiros cristãos, e eu não vejo por que devemos mudá-la. Também é ofensivo aos judeus usar livremente o nome divino na forma que alguns estudiosos bíblicos cristãos fazem. Então eu evito isso.

Mas é um nome, e isso é muito importante. O Deus de Israel tem um nome, um nome pessoal, um nome que se destaca pela sua identidade, a forma como os nossos nomes representam nossas identidades.

O que ‘Richard Bauckham’ significa sou eu, a mim e nenhuma outra pessoa. Se você usar o meu nome é porque você está querendo me distinguir de qualquer outra pessoa de quem você pode estar falando ou qualquer pessoa que possa ser confundida comigo. Ele identifica com exclusividade quem eu sou. Assim, com o Deus de Israel e o Deus de Jesus Cristo. Este Deus não é um princípio ou ideia, não uma divindade vaga que podemos retratar em qualquer forma geral que nós escolhermos, não é uma deidade que podemos adaptar às nossas necessidades ou desejos, como nós escolhermos. Este Deus tem uma identidade única, que Ele nos dá a conhecer, para que possamos conhecê-lo.

No N.T. este Deus adquire um novo nome, porque ele se revela a nós em Jesus Cristo. Eu disse, como pregadores muitas vezes fazem, antes de começar este sermão, "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O Nome trinitário de Deus. É a abreviação de "Deus Pai de Jesus Cristo, Deus Filho Jesus Cristo, e Deus o Espírito de Jesus Cristo”. Isso significa: Deus como nós o conhecemos em Jesus Cristo. Em certo sentido, é nova identidade de Deus, mas não é nova, no sentido de substituir o antigo. Deus não descartou sua nomeação hebraica. Deus ainda é o Senhor, nesse sentido especial.

Então para Moisés Deus proclama o seu nome e a outra coisa que Ele faz nesta passagem é revelar Seu caráter. Aqui temos a grande descrição do personagem de Deus no A.T.- para o qual o A.T. remete novamente e novamente, e ao qual o N.T. também se refere novamente em pelo menos uma ocasião muito importante que irei mencionar em um momento. Nós sabemos quem é Deus porque este é o tipo de Deus que é, esta é a maneira como se relaciona conosco e lida conosco . Ele diz:
O Senhor, o SENHOR, [insistindo em seu nome exclusivo] é um Deus misericordioso e clemente, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade, mantendo misericórdia até a milésima geração, que perdoa a iniquidade , a transgressão e o pecado, mas de modo algum compensando o culpado ...

O que essa descrição característica diz sobre o personagem Deus? Repare que é tudo sobre a forma como Deus se relaciona com o seu povo. Deus é, reconhecidamente, esse Deus, porque esta é a maneira como Ele lida conosco. Ele é um Deus que se preocupa com entusiasmo com o seu povo e se envolve com eles. Ele se importa apaixonadamente que eles sejam o melhor possível que eles sejam. E assim ele nos ama e ele é muito paciente conosco. Ele perdoa. Ele suporta as formas que nós mantemos erradamente - a maneira como Israel teve com o bezerro de ouro apenas alguns dias antes. Ele é paciente e tolerante, mas isso não significa que ele tolera o nosso pecado abundando – o poderoso pai indulgente, o tipo que, afinal, não se importa em como a criança se comporta e como se sai. Esse tipo de indulgência se dá em função de realmente não se importar. Deus cuida apaixonadamente que sejamos o tipo de pessoas que Ele nos fez para ser. E assim ele não ignora o pecado. Ele não se comporta como se não importasse. O culpado é culpado. Mas Deus está sempre pronto a perdoar. Ele não desiste de seu povo.

Eu disse que há uma importante referência a esta passagem no N.T., e chega próxima ao início do Evangelho de João, onde João está descrevendo o que acontece quando Deus se torna humano na pessoa de Jesus Cristo. (João 1:14): “a Palavra (de Deus) se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória do Filho único do Pai, cheia de graça e de verdade ...” Essa última frase, "cheia de graça e de verdade", vem de Êxodos 34. é uma referência abreviada para a descrição do caráter de Deus em Êxodo. Êxodo diz 'cheio de amor e fidelidade"- João traduz que: "cheia de graça e de verdade". Então, o que isso significa é que o caráter do Deus de Israel é para ser visto na vida humana de Jesus Cristo. O mesmo Deus, o mesmo personagem, mas agora em um sentido Ele pode ser visto (como Moisés não podia ver) em pessoa, o caráter, a vida de Jesus.

Assim, Deus tem um nome pessoal e um caráter pessoal. Nós sabemos quem é Deus. Então, como nesse caso devemos responder a Deus? Vamos voltar à nossa leitura do Evangelho, na passagem em que Jesus seleciona a partir da lei os dois grandes mandamentos. Você vai estar muito familiarizado com isso, porque na verdade nós lemo-lo em todos os serviços de Comunhão. Um dos fariseus, um professor profissional da lei de Moisés, pergunta a Jesus qual é o maior mandamento entre todos os mandamentos que Deus deu a Israel por meio de Moisés. É o tipo de pergunta que os professores judeus na época de Jesus discutiam. A lei de Moisés contém centenas de mandamentos. Então, quais são os mais realmente importantes? Existe um que resume todos os outros? Existe um que resume para nós sobre o que toda a lei é realmente concernente?

O primeiro mandamento que Jesus seleciona é o mandamento "amarás o Senhor, teu Deus ("Senhor" não significa aquele nome hebraico pessoal de Deus, que é o Deus que devemos amar)... amar o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda tua mente." No tempo de Jesus, bons judeus observantes recitavam esse mandamento diariamente em suas orações cotidianas. Eles eram ainda mais familiarizado com ele do que nós. O segundo mandamento que Jesus seleciona diz como ele é- porque é também um comando para o amor-, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Tudo o mais no A.T., diz Jesus, paira sobre esses dois mandamentos. No final do dia, eles são ao que tudo diz respeito.

Estou refletindo esta manhã principalmente no primeiro, o mandamento de amar a Deus com tudo o que somos e temos. Mas note como isso é diferente do mandamento de amar os nossos próximos. Devemos amar os nossos próximos como a nós mesmos, ou, como Jesus diz em outro lugar, fazer a eles como gostaríamos que fizessem a nós. Mas é só Deus que é para ser amado com todo o nosso ser. Eu me pergunto quantas pessoas seculares comuns hoje em dia poderiam imaginar a religião como algo assim. Não como algo que as pessoas religiosas prestem alguma atenção a ao lado de outras preocupações de nossa vida, mas como devotar tudo o que somos e temos e fazê-lo para Deus. Mas se Deus é Deus, essa deve ser a única forma apropriada de se relacionar com Deus.

Amar a Deus com todo o nosso ser significa, por um lado, que algumas coisas são excluídas da nossa vida - qualquer coisa inconsistente ou competindo com o amor de Deus. Mas, por outro lado, isto significa que todos as boas e apropriadas preocupações da vida humana estão incluídas no âmbito do amor de Deus. Não apenas, por exemplo, pregar este sermão é o tipo de coisa que eu deveria fazer para o amor de Deus, mas também a obtenção de um bom sono na noite passada, comer meu café da manhã, aproveitar a caminhada para a igreja - o amor de Deus inclui todas estas coisas, quando estamos verdadeiramente dedicando tudo que somos e temos e fazemos, para Deus. Em outra ocasião, perdendo o sono ou o café da manhã pode ser o que o amor de Deus requer de mim. Viver para Deus significa dever estar atento a essas possibilidades. Mas é só porque amar a Deus é uma noção grande o suficiente para incluir todas as preocupações adequadas e as atividades de nossa vida humana que podemos amar a Deus com todo o nosso coração, mente e alma e força. Em certo sentido, devemos fazer todas essas coisas para o amor de Deus. Isso não tira qualquer valor dessas coisas em si. Muito pelo contrário: tudo se torna inteiramente o que deveria ser quando é dedicado a Deus.

Porque Deus é Deus, o Deus de todas as coisas e todas as pessoas, o Deus que se importa com todas as coisas e todas as pessoas, dar-nos inteiramente a Deus é o caminho a ser verdadeiramente humano. Mas dar-nos inteiramente a outra coisa senão Deus rebaixa e distorce a vida humana, porque nada menos do que Deus pode nos satisfazer como as criaturas que Deus nos fizera. Devotar-nos a algo menos do que Deus é idolatria. Todos os tipos de coisas boas que são partes boas da vida humana quando tomam o seu lugar dentro do amor de Deus, ordenada pelo amor de Deus, tornar-se destrutivas se tentarmos viver para elas. O futebol é uma boa coisa em seu lugar, mas para torná-lo a principal preocupação em sua vida, subordinando tudo a ele, seria empobrecer a sua vida e distorcê-la. Mesmo maravilhosamente boas causas - digamos que você dedica a sua vida à pesquisa de uma cura para o câncer: se realmente domina a sua vida completamente então nada que não contribui para isso é qualquer preocupação para você- o que tornaria até mesmo uma boa causa em um ídolo e em algo que estraga a vida humana. Deus é a única coisa grande o suficiente para merecer a nossa devoção total.

É por isso que não podemos simplesmente desabar o primeiro mandamento no segundo. Não podemos apenas dizer que amamos a Deus, amando o nosso próximo. Amamos a Deus amando ao próximo, mas isso não é tudo. Mesmo amar o nosso próximo não é grande o suficiente para abranger tudo em nossas vidas. Ele pode e deve abranger uma grande soma. Mas não tudo. Por exemplo, quando eu gosto de algo verdadeiramente belo eu tenho um tipo de experiência que é muito importante na vida humana. Não é uma forma de amar o meu próximo, mas pode tornar-se parte da meu amor a Deus com todo o meu ser .

Assim, o amor de Deus é o único amor que realmente pode e deve incluir todas as outras preocupações da vida. Incluí-las em nosso amor por Deus, tanto as acentua como também as mantém em seu lugar, impedindo-as de dominar e tornar-se ídolos. E, finalmente amar a Deus com todo o nosso eu, dá uma unidade às nossas vidas que nada mais pode dar.

Sem Deus nossas vidas são coleções de fragmentos. Estamos ventilados desta forma e por todos os tipos de diferentes preocupações e interesses que exigem de nós. Existe algo que pode soldar todas estas coisas juntas em uma vida, um projeto, um todo pleno de significado? Somente o amor de Deus.

Eu dissera que o amor de Deus pode incluir tudo o resto de nossas vidas. Então não é que, quando eu estou fazendo minhas compras eu não estou amando a Deus. Mas, se a nossa vida é para ser vivida par amor de Deus, então deve haver momentos que deixamos de lado para nos voltarmos apenas para Deus. Somente pela adoração e oração que aprendemos a amar a Deus acima de todas as outras coisas e que podemos também aprender a amar todas essas outras coisas corretamente, para o amor de Deus.
 

22 de setembro de 2013

A parábola do Senhor Magnânimo

E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo. 
E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.
E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta. Disse depois a outro: E tu, quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta.
E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.
E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.
Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.
Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?
E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?
Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom [Riquezas].


Alguns movimentos sectários no judaísmo dos tempos de Jesus buscaram e apartar da sociedade que para eles, já estava condenada; se consideravam os “Filhos da Luz”, dividindo o campo humano entre eles e os “filhos das trevas”. Em um documento [ os documentos citados a seguir foram extraídos de David Flusser, “Judaísmo e as Origens do Cristianismo”, vl.1, cap. 9] da comunidade de Damasco lê-se que deviam “manter-se à parte dos filhos da perdição, a saber, a abster-se da riqueza impura da iniquidade” - Documento de Damasco 6,14-15. Se separavam assim da vida social e isso incluía o sistema econômico, com o qual a pureza ritual a que consagravam suas vidas se contaminaria, em que os outros “maculam-se nos caminhos da idolatria e da riqueza da iniquidade”. Doc. Dam. 8,5

Em Qumrã há documentos em que se apresenta a postura que concebiam de Deus em relação a isto, “Não mostrarei ciúme do espírito do mal e minha alma não cobiçará a riqueza da iniquidade (...)” 1QS 10,17-20.

O sentido da “riqueza” nos Manuscritos do Mar Morto apresenta-se como algo derivado do modo de vida corrompido dos estranhos às comunidades sectárias, “Assim, nenhum membro será unido com ele em sua obra ou em sua riqueza, para que o membro não se macule com iniquidade culpada, mas se manterá distante dele em cada questão(...) e todas suas ações são sujidade perante ele e a impureza está em todas as suas riquezas”. 1QS 5,14-20.

Nesta parábola podemos então presenciar um notório diferencial de Jesus em relação ao ethos de movimentos religiosos sectários, com uma ética orientada positivamente: menos do que fugir da contaminação, o ideal é produzir algo de bom. Diante das “riquezas da iniquidade”, menos do que fugir do mundo, se é chamado a desviar de produzir maldade para produzir o bem ao próximo.

O administrador desonesto, caracterizado como “infiel” e “filho das trevas”, é alguém que e encontra surpreendido e iluminado em sua condição condenatória ante ao seu senhor. É envergonhado e digno de castigo e reclusão. E sua condição é deixada clara: o senhor o demite, ele não tem mais condições de cuidar dos bens. Mas ele vê ainda a misericórdia deste senhor: ele não é enviado à prisão ainda. Pode ser um sinal de que ele tem ainda a oportunidade de ser uma nova pessoa aos olhos de quem ele prejudicava. Ele extorquia os colonos arrendatários que pagavam com parte da colheita como aluguel, se apropriando do que recebia “por baixo do pano” e assim também, ele que provavelmente recebia uma comissão do senhor pelos contratos, agia desonestamente para com o patrão. Ainda que sem status legal mais para negociar com os arrendatários, ele age ainda como espertalhão, chamando os devedores, chama um por um para poder realizar sua trama, sem que já passem a lhe considerar um sujeito pária, sem legitimidade para tratar com eles, e desta forma eles presumem que a transação é legítima. Eles então acreditam que o senhor autorizou diminuir suas contas, como um abono.

Provavelmente os colonos festejaram neste caso a magnanimidade do senhor de terras para com suas situações devedoras. E o senhor se dá conta do que aconteceu. E foi se fiando nesta magnanimidade e generosidade que o mordomo agiu, ele que reconheceu sua culpabilidade não tendo se queixado da demissão; pois não concebesse assim, estaria mais perdido do que antes. Ele arriscou-se totalmente. E nessa generosidade o senhor das terras pagou o preço pela liberdade e restauração da reputação do mordomo ante à comunidade, e a quitação da situação de endividamento dos arrendatários. E age em sua graça.


27 de maio de 2013

Sermão sobre a Trindade - Richard Bauckham

Traduzido diretamente do site pessoal do teólogo, exegeta e historiador.

Domingo da Trindade é um dia difícil para os pregadores, os quais muitas vezes temem tentar explicar a ideia de Deus como Trindade. Às vezes é um dia ainda mais difícil para congregações, que têm de ouvir pregadores tentando explicar a Santíssima Trindade.

É um dia difícil para os pregadores, porque achamos que temos de falar sobre Deus.Você pode pensar que os pregadores estão sempre falando de Deus, mas na minha experiência a maioria dos pregadores realmente falam muito pouco sobre Deus. Eles falam muito sobre o que Deus quer de cada um de nós. Se eles são bons pregadores, eles falam mais do que Deus fez por nós e está fazendo por nós. O quê, afinal, é o Evangelho. Mas eles não falam muito sobre quem é Deus. Talvez deixam isso para a liturgia e os hinos, o que provavelmente não melhor do que sermões geralmente podem ser.

Falar sobre Deus – pelo que quero dizer, não apenas se referir a Deus, mas na verdade tentando dizer quem é Deus - é um daqueles pontos em que a linguagem nos falha. Todos vocês irão conhecer a experiência de querer dizer algo realmente significativo - contar alguém o quão importantes é para você, ou dizer a alguém o quão profundamente você está arrependido - e as frases habituais não estão nada ao alcance do que você realmente quer dizer. As únicas palavras que você pode encontrar são terrivelmente improvisadas, mas por outro lado você deve utilizá-las. Não dizer nada seria pior. Você deve dizer o que você pode e espera que as palavras apontem para o que você não pode realmente dizer.

Temos de falar sobre Deus. Vivemos em uma sociedade que em grande parte esqueceu o que a palavra "Deus" significa . As pessoas pensam que Deus é alguma figura de conto de fadas no céu. Nós não podemos contar com significado da palavra 'Deus' para a maioria das pessoas nada remotamente parecido com o Deus que conhecemos em Jesus Cristo. Precisamos falar sobre quem é Deus. Ao mesmo tempo nós saibamos que palavras não podem resumir a Deus ou selar Deus. Tudo o que podemos fazer é usar palavras que apontam para o que não pode ser dito. É importante falar sobre Deus. É importante, quando falamos de Deus, perceber que Deus é infinitamente mais do que pode ser dito.

A primeira é a simples afirmação: Deus é amor. A afirmação é do Novo Testamento. É uma das coisas mais importantes que a Bíblia diz. E você pode achar que isso é realmente tudo o que se precisa dizer a respeito de Deus: Deus é amor. Não é tão simples declaração o suficiente? O problema é: o que o amor significa? Nós usamos a palavra 'amor' em todos tipos de formas. 'Eu amo bolo de chocolate': é que o tipo de amor que Deus é? 'Fizemos amor': é o tipo de amor que é Deus? Nós dizemos que amamos pessoas, quando o que queremos dizer é uma egoísta, possessiva forma de amor que prejudica as pessoas. O amor pode ser uma obsessão destrutiva. O amor pode ser sentimentalismo auto-indulgente. O amor pode ser vagamente desejar alguém bem. O amor pode ser todos os tipos de coisas ou às vezes nada.

Então, 'Deus é amor' só vai significar alguma coisa se ​​pudermos esclarecer o que o amor de Deus significa. Então chegamos à segunda maneira de falar de Deus. Isto é, falar de Deus, contando a história de amor de Deus para com o mundo. Essa é a forma como a Bíblia explicita o que significa dizer que Deus é amor. Ela nos diz sobre o amor de Deus enquanto a melhor maneira de falar sobre o amor: ela nos diz sobre o amor de Deus na prática. A melhor maneira que você possa saber o que o amor de alguém por você é vendo o que significa na prática. A Bíblia nos diz que tipo de amor que é Deus é contando a história do amor de Deus por nós.

Ela diz como Deus criou o mundo por amor, e a história de como Deus continua a amar o mundo que Ele havia criado e se envolveu com ele em Eeu amor por nós. Ele conta como, mesmo quando rejeitamos o amor de Deus e o mundo de Deus deteriora-se com o mal, Deus ainda continuou nos amando e fez tudo o que podia para salvar-nos do mal e para ganhar o nosso amor por Ele. Essa é a história do Antigo Testamento sobre o envolvimento de Deus com o povo de Israel . É a história que chega a um clímax com Jesus , quando Deus em Seu amor por nós enviou seu Filho para ser realmente um de nós, para viver uma vida humana com a gente e morrer por nós. É a história que continua com a presença amorosa de Deus no Espírito Santo, na igreja, em nossas vidas. A história do amor de Deus pelo mundo continua: somos parte dela.

A história conta-nos quem Deus é porque contemplamos que tipo de amor é Deus. Deus é amor auto-doador. Ele não apenas senta-se no céu e nos quer bem. Ele se envolve com a gente no seu amor por nós. Ele dá a si mesmo por nós, em caro auto-sacrifício no sofrimento e morte de Jesus por nós. Ele se dá a nós, quando nos dá o seu Espírito Espírito como o dom de si mesmo presente conosco em nossas vidas. 'Deus é amor' significa que Deus dá a si mesmo - por nós e para nós. Essa é a natureza de Deus.

Mas há outra coisa a notar sobre essa história do amor de Deus para com o mundo. Eu somente posso contar esta história, falando sobre Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. Eu já tentei fazer diferente. Eu não poderia ajudá-lo. Quando vemos o amor de Deus em ação, não vemos só Deus, o Pai que cuida de nós como um pai para seus filhos. Também vemos Deus o Filho, que nos ama , chegando ao nosso lado, como Jesus, como nosso irmão humano, um de nós, vivendo e morrendo por nós. E também vemos Deus, o Espírito Santo, que vem para o nosso próprio ser, que nos ama, por assim dizer, a partir do interior. Deus, o Pai cuida de nós, nos alimenta, nos protege, nos orienta no seu amor.

Deus o Filho é Deus em amor em solidariedade conosco; Deus, como Jesus, conosco no nosso mundo humano, dando a si mesmo por nós, em sua vida humana e morte. E Deus, o Espírito Santo, é o amor de Deus nas profundezas do nosso ser, compartilhando o amor de Deus para conosco, para que possamos amar com o amor de Deus. É somente porque Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus pode nos amar da maneira que ele faz. Só porque Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, que Deus pode ser atencioso, auto-sacrificial, amor auto-doador.

Então, nós realmente precisamos de todas as três maneiras de falar sobre Deus. Precisamos dizer que Deus é amor. Precisamos contar a história do amor de Deus para com o mundo: o amor de Deus é na prática. Então nós também precisamos dizer: Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Isto é outra maneira de dizer que Deus é amor, uma outra maneira de contar a história do amor de Deus. Deus nos ama como o Pai, como o Filho e como o Espírito Santo. Então, quando achamos a doutrina da Trindade difícil e confusa, devemos nos perguntar: como poderíamos contar a história de outra forma?

No entanto , é preciso dar mais um passo, que é o mais difícil. Eu tenho falado sobre o amor de Deus por nós. Mas se Deus é amor, o amor de Deus deve ser mais do que o seu amor por nós. Deus é amor, em seu próprio ser, para além de nós. Mesmo antes de nós existirmos, mesmo antes de Deus criar o mundo, Deus era o amor em seu próprio ser. Deus não começara a amar quando ele amou sua criação. O amor de Deus por nós é o transbordamento do amor que Deus é eternamente. E isso pode ser assim porque, mais uma vez, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. O ser de Deus é o amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Uma ilustração pode ajudar, mas não é mais do que uma ilustração. Pense em uma família muito amorosa, em que as pessoas são devotadas uma a outra. Mas não é o tipo de família cujo amor é um círculo fechado, excluindo outras pessoas. Este é o tipo de família que está sempre fazendo amizade com outras pessoas. O próprio amor da família está constantemente sendo compartilhado com outras pessoas. Outras pessoas são bem-vindas em casa e sentem que são praticamente parte da família.

Você deve ter deparado com as famílias como essa. Mas isso só acontece quando há realmente o amor dentro da família. Tem de haver amor entre os membros da família para que eles possam compartilhar esse amor com os outros e abrir seus relacionamentos amorosos para abraçar outros. Outros se sentem bem-vindos, eles podem sentir que pertencem à família, porque existe uma família amorosa lá, já. É um pouco parecido com Deus. É o amor eterno em Deus, o amor entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que Deus compartilha conosco. Quando Deus enviou o seu Filho ao mundo para nos fazer amizade e quando Deus envia o seu Espírito em nossos corações, Deus está abrindo sua própria vida por amor a nós para nos compartilhar consigo. É como ser acolhido na família.

Em conclusão, parece -me que há dois erros que as pessoas normalmente fazem sobre a ideia da Trindade, que eu espero agora que você será capaz de ver que são erros. Uma delas é de que a doutrina da Trindade é uma espécie de especulação teológica rarefeita, o tipo de coisa que os teólogos se divertem com em seus estudos, mas nada tendo ver com a vida cristã real. Pelo contrário, a doutrina da Trindade é o que nós devemos acreditar se realmente compreendemos aquela surpreendente verdade do Evangelho: que o próprio Deus em seu amor realmente viera em nosso mundo como Jesus Cristo e que o próprio Deus em seu amor realmente viera em nossa própria experiência como o Espírito Santo.

O outro erro é pensar que em uma mera fórmula - Trindade – temos Deus ao alcance de nossas mentes, como se agora nós realmente depreendêssemos Deus. Não, absolutamente. A doutrina da Trindade nos leva ao mistério de quem é Deus, mas não faz explicar ou dissipar o mistério. Quando conhecemos a Deus como Trindade conhecemos verdadeiramente Deus, mas de maneira nenhuma inferimos Deus.

Deus Trindade é o amor que encontramos em Jesus Cristo e experimentamos no Santo Espírito. Deus Trindade é o mistério do amor que podemos experimentar, mas nunca depreender.

3 de novembro de 2012

Mensagem para o Domingo de Todos os Santos e Todas as Santas

Leituras Bíblicas

Sirácida 2,1-9
Efésios 1, 15-23
São Lucas 6,20-26.

"Um homem muito rico, ao morrer, deixou suas terras para seus filhos. Todos eles receberam terras férteis e belas, com exceção do mais novo, para quem sobrou um charco inútil para a agricultura. Seus amigos se entristeceram com isso e o visitaram, lamentando a injustiça que lhe havia sido feita. Mas ele só lhes disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No ano seguinte, uma seca terrível se abateu sobre o país, e as terras dos seus irmãos foram devastadas: Mas o charco do irmão mais novo se transformou em um oásis fértil e belo. Ele ficou rico e comprou um lindo cavalo branco por um preço altíssimo. Seus amigos organizaram uma festa porque coisa tão maravilhosa tinha acontecido. Mas dele só ouviram uma coisa:'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu cavalo de raça fugiu e foi grande tristeza. Seus amigos vieram e lamentaram o acontecido. Mas o que o homem lhes disse foi: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Passado sete dias o cavalo voltou trazendo consigo dez lindos cavalos selvagens. Vieram os amigos celebrar essa nova riqueza, mas o que ouviram foram as palavras de sempre: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

No dia seguinte seu filho sem juízo montou um cavalo selvagem. O cavalo corcoveou e o lançou longe. O moço quebrou uma perna. Voltaram os amigos para lamentar as desgraças: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá' o pai o repetiu. Passado poucos dias, vieram os soldados o rei para levar os jovens para a guerra. Todos os moços tiveram de partir, menos o seu filho de perna quebrada, os amigos se alegraram e vieram festejar. O pai viu tudo e só disse uma coisa: 'Se é bom ou se é mal, só o futuro dirá'.

Assim termina a história, sem fim e com reticências (...) Ela poderá ser continuada, indefinidamente. E ao contá-la, é como se contasse a estória de minha vida.

Tanto os meus fracassos quanto as minhas vitórias duraram pouco. Não há nenhuma vitória profissional ou amorosa que garanta que a vida finalmente se arranjou e nenhuma derrota que seja a condenação final. As vitórias se desfazem como castelos atingidos pelas ondas, e as derrotas se transformam em momentos que prenunciam um começo novo. Enquanto a morte não nos tocar, pois só ela é definitiva, a sabedoria nos diz que vivemos sempre à mercê do imprevisível dos acidentes. 'Se é bom ou se é mau, só o futuro dirá'. "

em "As Melhores Crônicas de Rubem Alves", pg. 82

TEMA: O “Ainda Não” como motivo de viver o “Agora”

Incerteza inerente à vida. O risco do qual não se tem como fugir. Tentação de renegar a fé, de não suportar nenhuma dor ou mau em nome do bem, em “jogar o jogo” para ser bem estabelecido no mundo. Não temos garantias. Viver a virtude agora não oferece nenhum penhor de que aqui seremos bem-sucedidos ou estamos livre de quaisquer desgraças.

Então, pra quê perseverar? Pra quê arriscar? Nossas decepções e frustrações não nos dão as devidas desculpas para sermos condescendentes, e de consciência limpa, buscarmos “levar vantagem em tudo”, porque afinal, não faz sentido nos expormos a “fracassarmos” aqui?

Definitivamente, os padrões do chamado cristão, do sentido de viver chamado por Jesus, não são as chaves do sucesso aqui; a cruz, foi o exemplo de maior, fraqueza, humilhação e derrota para aquele mundo. Para um cidadão romano, só era utilizada caso fosse culpado de uma nojenta traição à pátria e servia para dizer que chegara ao extremo da vergonha. Era o castigo apropriado para escravos revoltosos, o serville suplicium.

Por isso o cristianismo tem sido alvo de ataques ao longo da história, como uma religião de fracos. Que usam a desculpa da esperança no porvir para aceitar fracassos do agora.

Essa acusação não esteve presente apenas no mundo moderno, embora tenha ganhado frequência nele com suas promessas de que o progresso da humanidade é inevitável.

Um grafite anti-cristão do segundo século de Roma, bem conhecido entre os historiadores que estudam o período, mostra um homem crucificado grosseiramente elaborado, com uma cabeça de burro, em que está uma figura humana, e sob este um escárnio rabiscado: "Alexamenos adora o seu Deus" [Alexamenos sebetai ton theon].

Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e, o que no mundo é insignificante e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é.  I Coríntios, 1, 27-28.

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No mundo dos inícios do cristianismo, a convicção geral das pessoas era de que toda a existência era regida e movida pela força do Destino. Se remetia sua expressão às estrelas, e ninguém escaparia dele. Nem os deuses estavam a altura do Destino. Muito da busca da sabedoria, seja mística, religiosa, filosófica, se dava em entender o destino saber aproveitá-lo o possível.

É estranho revisitarmos a história e pensar nestes termos. Muitas vezes parece que está certo. Coisas e situações costumam se repetir, com leves mudanças que só realçam os pontos em comum. Parece que não conseguimos escapar de certos padrões. Por outro lado, por diversas vezes se percebeu que o mundo estava seguindo uma tendência, todos julgavam tudo no mundo, as pessoas, ideias, crenças, comportamentos, enquanto utilidade ou obstáculo haveria de proporcionar para essa tendência. Achou-se ter captado a sintonia da realidade. Por diversas vezes na vida também é assim. Seja para o bem ou para o mal, enxergamos um horizonte como se fosse apenas uma linha de consequência em que desaguou o curso do rio que achamos estar a nado nele, derivado de uma leitura que fazemos da situação.

Até que vem o inesperado e sacode tudo. Aí, a história já começa a parecer um bêbado andando e trupicando, fazendo troça de tudo. Parece que tem alguém brincando com nossa vida.

Vamos continuar sempre ouvindo um caso sobre “progresso da humanidade”. E quanta coisa, quantas vidas já fora sacrificadas em nome disso? Seja para ajudar, acelerar o progresso, ou não atrapalhar. Contudo, por diversas vezes, as guerras mais monstruosas vieram depois de períodos de grande otimismo e louvor pelos tratados de paz, como a Guerra dos Trinta Anos, na Europa, depois do Tratado de Paz de Westfalia, quando todos achavam que finalmente o caos do mundo iria se consertar.

Reluta-se a admitir que a transitoriedade, que o fato de que vivemos uma realidade sempre transitória, passageira, faz com que não possamos dizer que em algum momento teremos um cenário para o qual apontaremos e diremos “é assim que as coisas são”. Não vivemos numa existência marcada pela estabilidade, embora ansiamos e buscamos trazê-la à força. Remédios, exercícios, livros, conselhos, buscas e fugas, fugindo da incerteza e querendo uma estabilidade para firmar os passos, deitarmos, estarmos seguros.

Mas qualquer segurança neste mundo é frágil. Como a imagem de uma areia que se querermos apertar as mãos, ela escorre. Por isto São Paulo escreveu, em I Coríntios 15, 19: “Se pusermos nossa esperança em Cristo somente para esta vida, somos as pessoas mais dignas de piedade”.

Por isto a crença na vida eterna. No caso da fé cristã, a crença na renovação do Universo, numa Nova Criação, em que tomaremos parte na sua nova realidade, não sujeita mais à decomposição, ressurretos. Nossa fé na ressurreição que participaremos juntos com toda a Criação de Deus.

Não é de forma alguma uma crença para alienar e tornar covarde as pessoas. Muito pelo contrário. É a única esperança de que podemos desafiar o absurdo, na vida, na história, e não ficaremos frustrados. Diversas pessoas lutaram contra atrocidades, males, injustiças, e não viram resultado algum. Diversas pessoas tentaram, em sua vida, não pagar o mal com o mal, abrir mão de um certo sucesso e prestígio não vendendo a alma para tal, não caindo em jogos sórdidos, e pelas aparências do mundo, ficaram frustradas enquanto outras chegaram ao topo. Diversas pessoas se pautaram pela justiça, amor, integridade, por servir ao próximo, por não buscar saciar o anseio de dominação sobre o outro, e o veredito que o mundo deu foi: fracasso. Fraqueza. Estupidez. Loucura. Não vale a pena! Não vale a pena!

Muito além então de ser um apelo alienante, para as pessoas se resignarem com os augúrios e males da vida e do mundo, esperando pelo “Céu” - a Redenção e Reconciliação da Existência com Deus no Renovar dos Tempos - serve de motivação para independente do que for, podermos não nos entregarmos a isto, não caracterizarmos nenhuma condição atual como definitiva, pois Deus não deixará nada perdido, esgotado, desperdiçado mas a coragem de não se entregar e se definir pela lógica do mundo, e todos os atos de amor machucados pelo desamor, serão matérias-primas para a construção da Verdadeira Realidade Eterna, por parte do próprio Deus. Nada será desperdiçado ou em vão.

Sem esse olhar da eternidade, essa é a realidade crua. É muita bobagem querer disfarçar dizendo que a luta dessas pessoas não se perdeu, continua viva em não sei onde. Não. Porque ninguém sabe se a qualquer momento, tudo vai se frustrar. Não se tem garantia de que tudo não será em vão. E a pessoa não está ciente de nada se está na memória de não sei quem. Não está vendo, sentindo, nada. E para tantas pessoas que são lembradas, muito mais caíram no limbo do esquecimento. Outras tantas foram traídas. E quem busca continuar o legado delas, pode também morrer a qualquer momento. Até mesmo a daqui a pouco.


Por que nos expomos continuamente ao perigo? Dia após dia estou morrendo. Juro, irmãos, pelo orgulho que sinto de vós diante de Cristo Jesus Senhor nosso. Se por motivos humanos lutei com as feras em Éfeso, de que me serviu? Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos. I Co. 15, 30-32.

Jesus, com as bem-aventuranças, está revertendo, pondo de cabeça-para-baixo os valores consagrados, “normais”, aqui na sociedade terrena. Em comparação ao projeto de Deus para seu Cosmo renovado, estamos numa era “torta”, em um mundo “torto”; e os valores norteadores deste projeto divino, atualmente, são “tortos” para este mundo. Bonitinhos e gostosinhos às vezes para se sentir no fundo do peito ou na ponta da colher, mas não para pautar a “vida real”. A esperança cristã manifestada em Jesus Cristo é que a vida, a existência, e estes valores finalmente se “ajustarão” na ressurreição, e então, não hão de cair no Nada, não estarão perdidos para sempre, todos os atos de desafio ao mundo feitos pela mais humilde e esquecida figura humana. Se converterão em fôlego de vida, um fôlego que não se acaba, alimentados por uma chama que não se apaga, a que criou a primeira fagulha do primeiro sol, a energia do Espírito de Deus.


Este Espírito vem com amor e graça entrar em comunhão com a gente, nos chamando a Si, já no agora. E cremos estar presentes aqui. É nessa comunhão com Ele que nos unimos hoje aos Santos e Santas de Deus na história, os de dentro da Igreja, e os de fora da Igreja, incluindo aqueles que só Deus conhece. Na compreensão da tradição anglicana, comemoramos e prestamos homenagem e deferência aos Santos e Santas, não como pessoas dotadas de um poder especial para intermediar entre nós e o Sagrado, nem para operar feitos miraculosos. Mas como exemplos de pessoas que foram pecadores e pecadoras como nós, imperfeitos, falhos, mas cuja vida teve um peso, significado ou papel edificador importante para a história da igreja ou para o testemunho cristão no mundo, glorificando Deus e servindo para fazer seu Reinado mais presente no mundo.

Que esta reflexão seja trabalhada pelo Espírito, para que em Cristo, nenhum feito ou testemunho destes irmãos e irmãs, seja em vão. Honremo-los.

2 de setembro de 2012

Escapismo, Batalha e as Trevas do Ar

Finalmente, fortalecei-vos no Senhor e na força do seu poder. Revesti a armadura de Deus para poder resistires às insídias do diabo. Pois não lutais contra carne e sangue, mas contra as Autoridades, contra os Soberanos, contra os Dominadores das trevas deste mundo, contra os espíritos do mal que povoam o ar. Portanto, tomai as armaduras de Deus, para poderem resistir no dia mau e saírem firmes de todo o combate. Cingi os rins com a verdade e revesti-vos da couraça da justiça, calçai as sandálias com o zelo para com o evangelho da paz, empunhando sempre o escudo da fé, com o qual se apagarão as lanças inflamadas do Mal. Tomai o capacete da salvação e espada do Espírito, que é a palavra de Deus.

Permanentes na oração e súplica, orai constantemente no Espírito; para isso, vigiai com toda a perseverança, rezando por todos os consagrados.
Efésios, 6,10-20

Há um tempo em que a maioria dos especialistas técnicos considera que o autor do livro “Aos Efésios”, do Novo Testamento, não é o apóstolo Paulo. Não temos uma explicação de consenso ainda a respeito desta autoria. Minha posição é de que seus discípulos, seja ainda com o apóstolo em vida, autorizando, seja após sua morte, retrabalharam a Epístola aos Colossenses, para aplicá-la, da especificidade desta comunidade, para a Ásia Menor em geral considerando a pertinência da sua pauta para as igrejas da região. Daí o enfoque dela, menos cristológico, ou seja, uma ênfase menor sobre a natureza universal de Cristo, para mudar as ênfases eclesiológicas, de igrejas locais para a natureza universal da Igreja de Cristo.

Ele é profundamente marcado por traços do imaginário intelectual apocalíptico judaico, depositário de heranças como constante no Livro de Ezequiel, Joel, Daniel, etc. Nesta tradição, se ressaltava as Forças do Mal como figuras e poderes cósmicos, atuando nos sistemas sociais humanos, disputando o controle e destino final da História.

Mais cedo neste livro neotestamentário, no primeiro capítulo, versículos 19-20, fala-se do Poder de Deus operando na história, através de Cristo, suplantando as forças diabólicas através da sua Ressurreição, completando o desfecho da história com a consumação de Seu Reinado em uma Terra transformada.

O psicólogo social Eric Fromm cunhou o conceito de “caráter social” para assinalar a energia psícossomática canalizada nos contornos dos padrões que um sistema social requer para funcionar. Nosso sistema histórico hoje tem como eixo a acumulação autorreplicante de capital... “acumulai, acumulai, assim dizem a Lei e os Profetas” (Karl Marx)... O lucro efetivamente capitalista é o lucro extraordinário, situado num patamar acima da média do mercado. Rompe com qualquer limite ou constrangimento. O indivíduo, para o sistema, existe em função do quanto contribui para maximizar, para a regularidade e inexorabilidade disto, os que falham são deixados para trás e existe uma rede de artifícios para fazê-lo se sentir inferiorizado e descartável. Este dínamo impulsona as pessoas e gera cargas simbólicas e psicológicas que influenciam o comportamento, tendendo a aumentar o egoísmo implacável, a ardilosidade, trapaça, desconfiança e falta de amor; “naturaliza” isto. Está por traz de todos os processos que sustentam este sistema. Por vezes, parece ter vontade própria, consciência, sabendo aprender, recuar, contra-atacar... Sua fome é insaciável.

Sem disciplina espiritual, oração e silêncio, silêncio e escuta, sem uma certa “ritualidade do Sagrado” - não mecânica – de forma a nos organizar na integralidade do nosso ser, para abrirmo-nos e entregarmo-nos, sermos preenchidos e impulsionados pela e para ação da Força do Bem Maior, que provém da vontade de Deus, nossa luta no mundo é um “bater-cabeças”. E o mal pode até este nosso pugnar contra nós mesmos, pois por fora nos faremos de idealistas, “pessoas boas”, virtuosas, porque cumprimos os códigos, proferimo-los; os jargões de quem contende pelo bem, mascarando e cuidando das maldades que brotam em nosso interior. Escapando de enfrentá-las.

Escapismo...que palavra galhofeira!

"Não derrame lágrimas", por Denis Peterson

Dizem que devemos deixar de lado fantasias e imaginação, porque são coisas escapistas, e costumamos ler ou ouvir que as artes, as artes devem nos “trazer para” a vida real, ou “falar da vida real”, ou “re-tratar a" vida real; se chega a estabelecer como parâmetro de qualidade o quão “fiel à vida real” se consegue ser... “Vida real”...o que que é isto? Nossas funções orgânicas, o que se processa entre os glúons, quarks e léptons? Como tudo isso se encadeia no conjunto total?

A discussão política, ou da “vida”, nossos temas “concretos”, às vezes servem de escapismo pra conta que tem de se pagar, pro perdão que se deixou de pedir, de dar...pros defeitos que apontamos nos outros para escapar dos nossos. Nossas manifestações humanitárias não servem de escapismo para os modos como agimos de forma rude com aquela pessoa?.. Nossos motes e jargões religiosos e antirreligiosos, ideológicos, nossas “compaixões”, não são escapismos das vergonhas que sentimos de muitas nossas ações, nossas frustrações, para as quais buscamos esses escapismos pra nos convencer que no fundo somos “pessoas boas” e nos darmos todas as licenças ao sabor de nossos caprichos?

…

Influenciado pelo mestre Paulo, o (s) discípulo (s) autor (es) emprega o estilo retórico dos filósofos de moral; costumavam explanar sobre os conflitos para se viver uma vida de virtude como uma competição esportiva ou uma guerra. As imagens: o preparo dos soldados e a formação das brigadas do exército romano. Cinturão: protegia o ventre. Couraça: protegia o peito. Capacete, obviamente a cabeça. Sandálias: proteção dos pés para poder marchar firme e compassado. Escudo: protegia contra os dardos.

Para a eficácia verdadeira, se formava um bloco fechado de soldados. A espada era empregada na luga frontal com o inimigo. Assim, a mensagem e o espírito do Evangelho é o que o cristão tem para manejar quando confrontado frente a frente com os poderes do caos, absurdo, exploração, crueldade... agindo sobre as pessoas e pelo sistema. Alude-se ao “Evangelium de César”, as “boas-novas” que eram proclamadas à frente da procissão pomposa que vinha do Imperador saudando uma conquista bélica de um território. Aqui, é o Evangelho da Paz, de Jesus Cristo, em desafio franco e aberto.

A oração de uns pelos outros... Um soldado só, é vulnerável. Ele abre a guarda do grupamento. O exército coeso não se conseguia deter. As portas do inferno não prevalecem sobre ele. Cada assessório mencionado, maneado em conjunto, cobria o pelotão e o permitia avançar. Os cristãos se unem e se cobrem orando uns pelos outros, porque não se deixa assim a união espiritual ante os ataques do cotidiano que pode fazer os momentos mais vívidos de fé íntima esvanecerem. Persistir.

Um dos meus maiores constrangimentos em orar costuma ser em não me achar bom o suficiente, vindo à tona que encontro em mim sentimentos de que o momento de oração logo se torna desagradável, vem a mim todas minhas motivações diversas que são harmoniosas com os valores e propagandas deste sistema que o Evangelho condena. Mas o escritor de Efésios pede que o próprio Espírito de Deus seja o Suscitador da oração. “Pois, embora a consciência nos acuse, Deus é maior que a nossa consciência e tudo conhece”. Não se manifestar em mim ainda aquilo a que Deus sonhou para mim, e ousar dobrar meus joelhos para Cristo, não é escapismo. E encontro. Destes encontros vêm a vitória de Deus contra o mal em mim, e no meu mundo. O mistério do Evangelho.

6 de maio de 2012

Uma nova identidade







Estamos sempre acercados pela indagação quanto a nossa identidade. O que nos distingue? Quem somos e por que somos? Isto está arraigado em questões de valor próprio, de nos apercebemos que temos uma singularidade, ou fazemos parte de algo maior mas também específico, e não somos apenas algo amorfo em uma massa de bolo.
 

O livro bíblico de Deuteronômio foi produzido em períodos de crise, após a divisão de Israel no Reino do Norte e em Judá, no sul. Possui uma base composta primeiramente no Reino do Norte, numa crise diante da perspectiva de ter sua cultura absorvida, tendo perdido o centro simbólico cultural, Jerusalém, com a divisão territorial, perigo de absorção cultural e religiosa com povos vizinhos com os quais se promoviam alianças políticas e intercâmbios econômicos...se reliam as tradições mais antigas sobre as origens de Israel com o Êxodo do Egito e a passagem pelo deserto, com novas molduras e traços, sob esta perspectiva; mais tarde foi acrescentado e remoldurado mais, tendo chegado até o Reino do Sul, e mais ainda sob o reinado do Rei Josias, após uma profunda reforma no sistema religioso do Templo, quando este Reino também passava por uma grave crise religiosa e de liderança.

Percebemos então estas formas, marcas e acentos em passagens emblemáticas como:
Agora, pois, pergunta aos tempos passados, que te precederam desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra, desde uma extremidade do céu até à outra, se sucedeu jamais coisa tão grande como esta, ou se jamais se ouviu coisa como esta?

Ou se algum povo ouviu a voz de Deus falando do meio do fogo, como tu a ouviste, e ficou vivo?
Ou se Deus intentou ir tomar para si um povo do meio de outro povo com provas, com sinais, e com milagres, e com peleja, e com mão forte, e com braço estendido, e com grandes espantos, conforme a tudo quanto o SENHOR vosso Deus vos fez no Egito aos vossos olhos?
A ti te foi mostrado para que soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há senão ele.
Desde os céus te fez ouvir a sua voz, para te ensinar, e sobre a terra te mostrou o seu grande fogo, e ouviste as suas palavras do meio do fogo.
E, porquanto amou teus pais, e escolheu a sua descendência depois deles, te tirou do Egito diante de si, com a sua grande força.
Para lançar fora de diante de ti nações maiores e mais poderosas do que tu, para te introduzir e te dar a sua terra por herança, como neste dia se vê.
Por isso hoje saberás, e refletirás no teu coração, que só o SENHOR é Deus, em cima no céu e em baixo na terra; nenhum outro há.
E guardarás os seus estatutos e os seus mandamentos, que te ordeno hoje para que te vá bem a ti, e a teus filhos depois de ti, e para que prolongues os dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá para todo o sempre.
Deuteronômio 4:32-40


Ali, repensar seu lugar na História do Mundo vista a partir da vontade de Deus, a honra e a responsabilidade como tal, e o reforço a se notarem que têm marcas especiais em si e não podiam diluir isto.


Na Primeira Carta de João, temos uma comunidade com grandes problemas. O caldo cultural greco-romano tinha uma predominância acentuada de se considerar a verdadeira identidade da pessoa numa substância delineada imaterial e independente, com imortalidade inata, presa no corpo. Assim, tinha dificuldade com as heranças judaicas do cristianismo, que enfatizavam a participação da matéria e do corpo no horizonte para além da história do plano de Deus, e também na obra redentora de Jesus. Era difícil aceitar que a redenção do mundo por Jesus se deu com a participação central do seu corpo; isto deveria ser uma ilusão para os menos esclarecidos. Necessidades próprias de renovação e de redefinirem-se em seu tempo também fazia com que desdenhassem da autoridade do Ancião João. Assim, ele enfatiza a ética coerente no presente tempo, como forma de ver que tendo ela inevitavelmente que se praticar no mundo material e com o corpo, não faz sentido desvincular Cristo de sua participação material e corpórea em sua obra redentora. E que o vínculo entre si e com Cristo seria nesta participação também, retroagindo pelo agir coerente com seus mandamentos, implicando daí na observância do amor como padrão maior e enxergando como isso vincularia as gerações da igreja e como isto respaldaria sua aliança.

Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.
E nisto conhecemos que somos da verdade, e diante dele asseguraremos nossos corações;
Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas.
 Amados, se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus;
E qualquer coisa que lhe pedirmos, dele a receberemos, porque guardamos os seus mandamentos, e fazemos o que é agradável à sua vista.
E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento.
E aquele que guarda os seus mandamentos nele está, e ele nele. E nisto conhecemos que ele está em nós, pelo Espírito que nos tem dado. 
I João 3, 18-24



O Evangelho de João tem grande probabilidade de advir dos testemunhos do mesmo João das cartas. Mas não há como se ter toda a certeza. Escrito em torno de 60 anos após a Ressurreição de Jesus, de qualquer forma, visualiza-se entre os estudos especializados que era também um ambiente em crise. Eu visualizo uma comunidade plural, com muita gente oriunda de meios diversos do judaísmo, oriundas do núcleo dele a partir do epicentro em Jerusalém e raios mais místicos de tal; samaritanos, isto, um ambiente que acolhera samaritanos; gentios. Havia diversos traumas de separação: a drástica separação da sinagoga, a partir de 70 d.C. após a assolação de Jerusalém e destruição do Templo; samaritanos que enfrentavam a rejeição de judeus e poderiam ser – e julgo, eram mesmo- questionados por judeus-cristãos de diversas partes, a própria igreja sendo questionada quanto a legitimidade de ter havido uma missão entre eles; gentios, ou seja, não-judeus (pela ótica dos judeus), estigmatizados no mundo romano. Provavelmente enfrentavam também oposição e questionamento de círculos que buscavam continuar a tradição de João Batista.

Neste Evangelho, se mostra como a nova identidade em Cristo redefinia tudo; a participação no amor dele, e o novo ambiente de vida e estar no mundo a partir do seguimento a ele, e o vínculo que se dava a partir de estarem ligados a Jesus e ao Pai pelo Advogado/Consolador, o Paracleto, o Espírito, era agora o autorreferencial, de cada um e de todos. Não mais deviam ter como parâmetro a mentalidade predominante na sociedade com aquilo que estabelecia como padrão para o valor pessoal e para se ter status; mais do que qualquer vínculo, este vínculo espiritual era agora uma porta de entrada a um novo mundo, da vida eterna com Deus.
Podemos entender

Se me amais, guardai os meus mandamentos.
E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre;
O Espírito de verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.
Não vos deixarei órfãos; voltarei para vós.
Ainda um pouco, e o mundo não me verá mais, mas vós me vereis; porque eu vivo, e vós vivereis.
Naquele dia conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós.
Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.

João 14:15-21



E ver como foi impactante para o eunuco etíope, em Atos 8, 26-40, ao mesmo tempo advindo de traumas de desprezo por ser de um povo então há séculos desterrado e espalhado por nações, estigmatizado por muitos como feitos para serem serviçais, e ele um eunuco; mas também, ser alguém de uma posição singularmente importante na hierarquia para com sua rainha, um administrador, oficial encarregado de seus tesouros, mas também alguém privado de poder deixar descendência. Impactante para o eunuco etíope, no primeiro registro de uma conversão gentia no cristianismo, ter redefinida sua história e identidade a partir da identificação da mensagem de Jesus, Redentor, como Servo Sofredor, de Isaías 53; sua identificação em participar de Jesus e se referenciar a partir dele agora. Ele vê chegando a si a expectativa da profecia de Isaías, 56, 4-5.