28 de abril de 2010

Qual dos dois senhores?

Este ano, o mote da Campanha da Fraternidade Ecumênica [cujo o tema é "Economia e Vida"] é “Você não pode servir a Deus e ao Dinheiro”. Realmente impactante, visto à dissimilaridade com o rosto mais eloqüente e mordaz com que a religião cristã se tem apresentado e tido mais visibilidade no Brasil. Bate de frente com a lógica da “pequenas [ e grandes] igrejas, grandes negócios”. Pois o que pega hoje é um cristianismo descristianizado, em que se vende Mamón, a Ganância, usando o nome de Jesus, e se brinca com os sofrimentos das pessoas propondo soluções rápidas e mágicas para promover estelionato com o suado dinheiro delas.

Por outro lado, não temos somente “crédulos ingênuos”, mas pessoas buscando apaziguar a consciência dos seus valores éticos buscando o peso da religião para sua ganância e moral individualista, buscando comodismo e legitimar suas posturas de anomia social, comprometidas com as injustiças. E isto é exatamente o oposto do espírito do ministério de Jesus e do cristianismo nascente.

A referência é a Mateus 6.76. Mas considero que é o evangelista Lucas que insere uma parte considerável do seu evangelho, em um quadro referencial que trata da questão da ganância e do culto ao dinheiro, da instrumentalização de Deus e da religião pelo dinheiro. Na seção do capítulo 12, que versa sobre o que implica segui-lo, o tema é tratado com referência em diversas tradições dos ensinamentos de Jesus. Fala abertamente a se ter cuidado de toda ganância; conta a parábola do rico insensato; sobre o sentido de viver, de ser, tendo na visão a frugalidade e simplicidade no coração; sobre o tesouro incorruptível; ainda num quadro amplo de Lucas, tratando do seguir a Jesus, mais à frente no capítulo 16 ele fala sobre o valor que o dinheiro falso deste mundo, as riquezas da iniqüidade (que por detrás da qual reside muita desgraça na história para ela chegar até aqui) pode possuir é para investir nas pessoas; conta a parábola do rico e Lázaro.


No capítulo 18, o perturbador encontro com o jovem rico. Ele, Jesus, é retratado no diálogo com um jovem rico de outra maneira escandalosa para seu tempo. Não havia na riqueza do jovem nada tradicionalmente condenável, como esbanjamento, opulência, fruto de opressão, roubo, etc.; muito pelo contrário, era algo que a literatura sapiencial ressaltava como fruto da vida virtuosa sobre observância da lei, e os evangelistas ressaltam isso destacando que tal se dera 'desde a juventude'. E no relato Jesus o confrontara o chamando a abrir mão de tudo, num quadro em que é nitidamente destacado que segui-lo incondicionalmente é mais essencial para entrar no Reino do que a Torá, que pela fé era o caminho da salvação.

Não é pra se enganar: a agulha não era uma “porta”, como alguns tentam de maneira meio que ridícula ensinar, falando sobre um camelo se ajoelhando tentando passar sob ela com bens sobre as corcovas. Realmente Jesus ensinara que, se acreditando que a riqueza era um sinal de ser abençoado e assim aceito por Deus, se está numa lógica oposta: antes, “é mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha”, ou seja, “é impossível para o homem”; somente Deus pode operar a transformação na vida, tal qual operou em Zaqueu (que uma música extremamente melosa menciona, sem se referir, obviamente, ao que se sucedeu depois que a atenção de Jesus foi chamada para ele e qual foi a atitude tomada por Zaqueu; será porque se omite isso, hein?).

Como um dos grandes Pais da Igreja, João Crisóstomo, já advertia:
Não é absurdo pores tanto cuidado nas coisas do corpo, a ponto de já desde muitos dias antes da festa preparares uma roupa belíssima, e te adornares e embelezares de todas as maneiras possíveis, e, no entanto, não tomares nenhum cuidado com a tua alma, abandonada, suja, esquálida, consumida de fome...?

E também, Santo Ambrósio:
Não é, aliás, de teus bens que distribuis ao pobre; é do seu que lhe dás. Porque tu és usurpador daquilo que é dado a todos para uso de todos. A terra pertence a todos, não só aos ricos; mas aqueles que não usam essa suapropriedade são mais numerosos do que os que a usam. Assim, em vez de liberalidades gratuítas, tu pagas a tua dívida.

São Basílio Magno:
Pertence aquele que tem fome o pão que tu guardas; àquele que está nu, a capa que tu conservas nos teus guarda-vestidos; àquele que está descalço, os sapatos que apodrecem em tua casa; ao pobre o dinheiro que tu tens guardado. Assim tu cometes tantas injustiças quantas as pessoas às quais poderias dar.

São Jerônimo:
Com razão é que o Evangelho chama os bens da Terra de ‘riquezas injustas’, pois que não têm outras fontes senão a injustiça dos homens, não podendo pertencer a uns, senão diante da ruína de outros. A opulência é sempre o produto do roubo; se não foi cometido pelo atual proprietário, o foi por seus antepassados.

Eu gostaria de deixar com todos uma recomendação especial, de uma obra traduzida para o português que trata da questão da riqueza e pobreza pela análise técnica da Bíblia de maneira sóbria, ponderada, mas também contumaz, de um grande biblista do Novo Testamento, Craig Blomberg - Nem Riqueza, Nem PobrezaO principio de moderação explica as preocupações de Jesus e Paulo por uma vida simples, particularmente quando envolvidos no ministério, para não dar brecha desnecessária à má reputação do Evangelho. Pg. 245


Sem dúvida, é para ser divulgada, compartilhada e discutida em círculos de leitura, escolas bíblicas, retiros, entre amigos, e refletidas nas caminhadas à solidão.

10 de abril de 2010

O Milagre da Vida

Na perspectiva cristã está errado dizer que Deus “intervém" na natureza, porque Deus não está isolado hermeticamente da criação, mas Sua realidade abarca-a e transcende-a

O físico e teólogo anglicano John Polkinghorne consegue colocar de forma muito acertada:

Se existem coisas como milagres, são raros, eventos únicos, que é exatamente o tipo de coisa que a ciência não está configurada para falar. Portanto, o problema dos milagres é um problema teológico. É uma questão de coerência divina. Deus não está condenado a nunca fazer nada de diferente, mas quando Deus faz algo diferente, deve ser em uma consonância, alinhado em relação às coisas que Deus tem feito antes. Portanto, eu acho que o mais fácil milagre cristão a acreditar no momento é a ressurreição de Jesus. Se você acredita que Deus estava fazendo uma coisa nova em Jesus, então é apropriado que uma nova atividade acompanha esse ato.

Um milagre não acontece apenas para facilitar a vida, sem qualquer custo para a vida real. Eu acredito que Deus interage com a história. E eu acredito que Deus influencia a história e a guia e fortalece os seres humanos e sua ação na história. Isso é a chamada a providência de Deus. Um milagre é algo mais do que excepcional em tudo.

Eu penso que Deus age dentro da textura aberta da natureza. Assim como nós agimos dentro dela em pequenas formas, Deus age de formas maiores, tal qual algo tipo ocultado - porque a textura aberta da natureza vem destas imprevisibilidades intrínsecas, por isso nunca consegue calcular quem está fazendo o quê nestas coisas.

Mas depois há a questão de saber se Deus faz algo novo, e esse é o problema de um milagre. O cristianismo não pode escapar do problema de um milagre, pois parece-me que a ressurreição de Cristo é tão importante para ele. Se validamente não foi ressuscitado dentre os mortos, a vida de Jesus termina em fracasso extremo.


Tenhamos um momento de inspiração com essa bela canção dos músicos excepcionais Stênio Marcius e Silvestre Kuhlmann.

3 de abril de 2010

A curiosa idéia da Ressurreição

Como os primeiros cristãos lutaram para aceitar a idéia de que Jesus voltou dos mortos

por Larry Hurtado

Domingo de Páscoa representa a afirmação fundamental da fé cristã, o maior dia do ano cristão como celebração da ressurreição de Jesus. Mas muitos cristãos não têm certeza sobre o que a alegação de que Jesus havia ressuscitado para uma nova vida depois de ser crucificado, na verdade significa, enquanto os não-cristãos muitas vezes acham toda a idéia de ressurreição dispensável e até mesmo ridícula.

Estas diferenças sobre o que a ressurreição de Jesus representa e o desconforto com a idéia não é nada novo, porém: os cristãos nos primeiros séculos também tinha dificuldades em abraçar a idéia de uma ressurreição corporal real. Então, como agora, a ressurreição não era idéia favorita de existência pós-morte - muita gente preferiu pensar que depois de morrer, as almas dirigiam-se a algum reino etéreo de luz e tranquilidade. Durante o período romano, muitos consideravam o corpo como uma coisa deplorável no melhor dos casos e no pior, um constrangimento sobre a alma, até mesmo uma espécie de prisão de que a alma é libertada com a morte.

Assim, não é surpreendente ter havido cristãos que simplesmente acharam a ressurreição corporal estúpida e repugnante. Para tornar a idéia palatável, interpretaram todas as referências à ressurreição de Jesus em termos estritamente espirituais. Alguns pensavam de Jesus como tendo perdido o seu corpo terreno em sua morte, assumindo um estado puramente espiritual, e retornando ao seu estado original no reino divino. Em outros casos, o corpo terreno de Jesus e até mesmo sua morte foram vistos como ilusórios, o Cristo divino penas parecendo ter um corpo normal (um pouco como Clark Kent!).

A idéia de uma real, pessoal ressurreição - significando uma nova existência física dos indivíduos após a morte, de uma forma ou de outra - não se originou com o cristianismo ou com reivindicações a respeito de Jesus. Em vez disso, parece ser primeiro claramente refletida nos textos judaicos datados de meados do século II a.C., como o livro bíblico de Daniel 12:2. Na época, era uma idéia realmente inovadora. ( O livro de Alan SegalLife After Death” oferece um amplo debate sobre as origens da idéia de ressurreição.)

Muitos povos do mundo antigo esperavam um ou outro tipo de vida eterna, mas era geralmente visto como um tipo de existência de alma ou espírito sem corpo fixado no reino dos mortos, que poderia ou não ser feliz, em lugares agradáveis. Ainda em outras expectativas, a morte poderia trazer uma fusão de indivíduos com algum oceano de ser, como uma gota de água caindo no mar.

A idéia dos antigos judeus e cristãos da ressurreição pessoal representou uma nova ênfase sobre os indivíduos e a importância da existência encarnada para além da mera sobrevivência ou o aperfeiçoamento da alma, embora houvesse debate sobre a natureza exata do corpo pós-ressurreição. Para alguns parece que supostamente seria um novo corpo de carne e ossos, intimamente ligado ao cadáver no túmulo, mas não passível de deterioração ou morte. Outros imaginaram um corpo mais parecido com o de um anjo. Mas seja qual for a sua natureza exata, a esperança da ressurreição reflete uma visão fortemente holística da pessoa, exigindo algum tipo de corpo para ser concluída.

No judaísmo antigo, do tempo de Jesus, no entanto, a ressurreição não era universalmente afirmada. Alguns judeus piedosos (em especial a parte religiosa chamada saduceus), aparentemente, consideraram a idéia ridícula, como evidenciado pelo Novo Testamento, que nos dá algumas das referências mais diretas para as disputas entre os antigos judeus sobre o assunto. Em Marcos 12:18-27, saduceus questionam com sarcasmo a Jesus com uma pergunta sobre uma mulher casada por várias vezes, perguntado-lhe de quem ela será esposa após a ressurreição. Jesus afirma fortemente a ressurreição, mas ele insiste que os ressuscitados não vão se casar e retrata a questão dos saduceus como a refletir uma ignorância insensata do poder de Deus.

Nas primeiras expressões de sua fé que nós temos, os cristãos alegaram que a ressurreição de Jesus mostrou que Deus escolheu Jesus à frente da futura ressurreição dos mortos para mostrar-lhe singularmente digno de ser senhor de todos os eleitos. Entretanto, o significado paradigmático da ressurreição de Jesus também foi muito importante para os cristãos antigos.

Nos primeiros séculos do cristianismo, quando os crentes muitas vezes sofreram duras perseguições e mesmo a ameaça de morte, aqueles que acreditavam na ressurreição corporal de Jesus encontraram-na como particularmente significativa para as suas próprias circunstâncias. Jesus havia sido condenado à morte de forma horrível, mas Deus tinha subvertido a execução de Jesus e, na verdade, tinha-lhe dado um novo e glorioso corpo. Então, eles acreditavam que eles poderiam enfrentar sua própria morte, bem como os dos seus entes queridos na firme esperança de que Deus seria fiel a eles também. Eles pensaram que eles compartilham o mesmo tipo de reafirmação dos seus imortais “eus” pessoais e corporais que Jesus tinha experimentado. Elaine Pagels, uma estudiosa do cristianismo nascente, argumentou que aqueles cristãos que consideravam o corpo como sem importância, talvez incluindo "gnósticos", eram menos dispostos a enfrentar o martírio por sua fé e mais dispostos a fazer gestos de concordância para os romanos, por exemplo, oferecendo sacrifícios aos deuses romanos porque eles consideravam as ações feitas com seus corpos como insignificantes, enquanto em seus corações mantinham suas crenças.

Pelo contrário, os cristãos que acreditavam na ressurreição corporal parecem ter considerado as suas próprias encarnações mortais como locais cruciais em que estavam a viver sua devoção a Cristo. Quando esses cristãos foram denunciados por sua fé, consideraram uma verdadeira apostasia ceder aos gestos exigidos pelas autoridades romanas.
Para eles, a devoção interior de Jesus teve que ser expressa em uma fidelidade exterior em seus corpos e eles estavam prontos para enfrentar o martírio por sua fé, estimulados pela perspectiva de ressurreição corporal. De fato, os mártires cristãos são retratados como engajados em uma batalha com as autoridades romanas (e com o Diabo, a quem os cristãos consideravam por detrás da malevolência romana para com eles), com os corpos dos mártires como campos de batalha no qual a integridade da sua pessoa e sua salvação pessoal poderiam ser perdidas ou retidas.

Historicamente, então, como os cristãos têm entendido a ressurreição de Jesus diz muito sobre como eles se entendiam, se eles têm uma visão holística da pessoa humana, se eles vêem a existência corporal como trivial ou fundamental, e como eles imaginam a salvação se manifestar completamente. A salvação não inclui uma libertação do corpo em algum tipo de felicidade pós-morte imediata e permanente (o que é realmente muito mais próximo da piedade popular cristã ao longo dos séculos), ou a salvação requer uma nova encarnação de algum tipo, uma reafirmação mais robusta de pessoalidades? Esse tipo de questão foi originalmente integrante da crença judaica e cristã no início da ressurreição. Em todas as variedades do início do cristianismo, e em todos os entendimentos diferentes do que a sua ressurreição significava, Jesus era tipicamente o modelo, o paradigma fundamental para os crentes, o que tinha acontecido com ele visto como protótipo do que os crentes tinham como a esperança para si .

31 de março de 2010

Lava-pés

(...)sabendo que o Pai lhe entregou todas as coisas entre as mãos, que ele saiu de Deus e volta para Deus, Jesus se levanta da mesa, depõe o seu manto e toma um pano com o qual se cinge. Depois, derrama água em uma bacia e começa a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com o pano com que havia se cingido.
                                 Evangelho Segundo São João , 13,3-5.

Lava Pés - (Jaci Correa Maraschin)

Jesus, tu reuniste os teus amigos
e lhes lavaste os pés humildemente,
e enviaste-os, logo após, entre os perigos
de um mundo desumano e incoerente.

Também pediste que este teu exemplo
se repetisse em nós e que, ao invés
de nos fecharmos em teu santo templo,
saíssemos lavando ainda outros pés.

Na poeira das estradas desta vida,
vem nossos pés lavar, tão doloridos;
vem dar-nos mãos que acalmem a ferida,
dos que ainda longe estão de ti, perdidos.
Senhor, que os nossos pés assim lavados
nas águas transparentes de tuas fontes,
indiquem sempre a cura dos pecados
e resplandeçam belos sobre os montes.

Bênção de Mesa - (Jaci Correa Maraschin)

Senhor, te damos graças porque em volta desta Mesa,
Renova-nos a força de lutar contra a pobreza,
Transforma nossa gula, a nossa sede de abastança,
Num novo sentimento de justiça e de esperança.

Senhor, que os nossos pratos numa terra dividida,
Um dia se dividam numa terra reunida,
Perdoa-nos agora, nesta injusta refeição,
Até que a terra inteira se alimente do teu pão.

28 de março de 2010

Meditação para Domingo de Ramos

A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos.” citado em Mateus 21:42.

Na imagem de apresentação de nosso blog, temos se destacando no horizonte uma cruz celta.

A cruz celta possui em sua raiz na associação com a divindade Lug; o anel representa a "Totalidade", também os ciclos de sustentação da natureza, e também ao sol; a cruz remete aos quatro elementos ( água, fogo, ar, terra) e os quatro sentidos (leste, oeste, norte sul). Com o cristianismo, passou a simbolizar a abrangência de toda a criação tomando parte na vitória de Cristo na Cruz.

Temos um exemplo emblemático de uma das várias e multifacetadas inculturações promovidas de forma rica ao longo da história da evangelização e desenvolvimento da tradição cristã.

Esses processos costumam ser duramente criticados e atacados tanto por alguns cristãos quanto por céticos. Os primeiros dizem que é uma contaminação, deturpação da fé e uma capitulação. Os segundos que isso indica que a religião é falsa e se apropria de outras para mascarar sua falsidade e construir suas narrativas.

São duas críticas que demonstram uma enorme estreiteza de visão e falta de conhecimento de princípios básicos da antropologia. Tomemos o exemplo concreto, o caso da cruz celta, para apontar o quanto o processo de inculturação é legítimo, pois não deturpa a fé e nem se dá sobre bases arbitrárias, mas se enraíza em crenças já estabelecidas antes na comunidade de fé cristã. O simbolismo desta cruz é ambientado e enraizado em doutrinas fundantes do cristianismo?

O Templo ocupava um lugar primordial na fé do judaísmo contemporâneo dos tempos de Jesus. Lá se eram comemoradas festas que remontavam às crenças fundamentais do judaísmo e da identidade do povo judeu. Inclusive a Judéia poderia ser considerada uma cidade-estado do Templo. Lá havia a aristocracia religiosa, de onde procediam regimentos da vida pública. Lá eram realizados diariamente cultos e sacrifícios, e suas cerimônias principais eram concorridas e para as quais afluíam um imenso número de peregrinos dentre judeus da diáspora e gentios conversos.

Um elemento poderosamente significativo para ilustrar a elevadíssima imagem de Jesus na fé cristã nascente é a associação da obra e da própria pessoa de Jesus, com os ofícios e com o próprio Templo, identificando em Jesus o papel que cabia ao Templo. Isso transparece na primeira carta de Paulo aos Coríntios, na literatura joanina e no livro de Hebreus, principalmente. Hoje, a imagem mais lembrada e retomada é a do sacrifício. No Templo, ocorriam os sacrifícios de ação de graças a Deus e sendo veículo da concessão graciosa de Deus do perdão dos pecados para aqueles que viviam em fé confiante na Torá. Os cristãos enxergaram em Jesus o Templo definitivo, a morada plena de Deus entre os homens, e na sua obra, viam o veículo para a concessão graciosa de Deus do perdão dos pecados para aqueles que viviam em fé confiante em Jesus Cristo. Importante assinalar que era uma relação comunitária; muitas vezes no cristianismo, e sobretudo hoje especialmente nos segmentos evangelicais, se acentua a dimensão da “salvação individual”, em dissemelhança com o significado dela naquele tempo.

Mas há outra igualmente atribuição e importância do ofício do Templo no judaísmo daquele período. Algo que compartilhava em um núcleo comum com diversas visões religiosas da história (com a importantíssima dissemelhança de se remeter ao Deus único). O ofício do Templo expressava o ambiente e esfera de ligação da vida e do mundo com a ordem última das coisas, na esfera dos Céus. Assim, a ordem e a obediência aos preceitos, no ofício do Templo, influenciava a estabilidade cósmica e os processos de renovação da vida; a agregação pessoal, social e natural. A conservação e o destino cósmico e social estava ligado ao culto correto no Templo, que remetia às realidades fundamentais da realidade.

E tal função, fora também remetida à obra e pessoa de Jesus, igualmente? Sem dúvida é algo que passa despercebido hoje. Mas sim, havia esse acento, igualmente importante à dimensão expiatória, enfatizando o destino da criação ligado à obra e pessoa de Cristo.

Tomemos Hebreus -
1.3: “Este Filho é o esplendor de sua glória e a expressão de seu ser, e sustenta o universo inteiro pelo poder da sua palavra”.
9.23: “Se, pois, as imagens do que está nos céus são purificadas mediante estes ritos, é mister que as próprias realidades celestes o sejam por sacrifícios bem melhores”.

Colossenses -
1.19 “Pois aprouve a Deus fazer habitar nele [Cristo] toda a plenitude e tudo reconciliar por meio dele e para ele, na terra e nos céus(...)”
2.9 “Pois neste [Cristo] habita corporalmente toda a plenitude da divindade(...)”

II Coríntios 5.19 "Isto é, Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não lhes imputando os seus pecados; e pôs em nós a palavra da reconciliação".

Não vemos aí o que o simbolismo da Cruz Celta passa a retratar no cristianismo?

21 de março de 2010

Sobre ritos e sacralidade

Acordando, pois, Jacó do seu sono, disse: Na verdade o SENHOR está neste lugar; e eu não o sabia. E temeu, e disse: Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Então levantou-se Jacó pela manhã de madrugada, e tomou a pedra que tinha posto por seu travesseiro, e a pôs por coluna, e derramou azeite em cima dela. E chamou o nome daquele lugar Betel; o nome porém daquela cidade antes era Luz.
E Jacó fez um voto, dizendo: Se Deus for comigo, e me guardar nesta viagem que faço, e me der pão para comer, e vestes para vestir; e eu em paz tornar à casa de meu pai, o SENHOR me será por Deus; e esta pedra que tenho posto por coluna será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamente te darei o dízimo. Gênesis 28.16-19

Em toda a história, em todo o mundo, é universal dentre os povos alguma visão ou visões de esferas e hierarquias de sacralidade no microcosmo e macrocosmo abrangido por suas culturas. O Sagrado se apresenta por lógicas próprias, que transcendem os mecanismos e processos regulares da vida. Na hierarquia, há os contrastes, com diversas nuances, entre o sagrado e o profano. Em graus variáveis, diferentes âmbitos dão maior acesso ou maior distância para com o sagrado, manifestando-se por mediações destes lugares, ritos, sendo assim, níveis diferentes de pureza. Constatamos bosques sagrados, mananciais, montanhas, locais de cultos construídos, etc., etc. Objetos ou materiais purificadores, especialmente água e fogo. A impureza podia ser transmitida por contato físico, e expurgada por contato físico.

No recorte bíblico da religião hebraica, temos estes exemplos, destacando os Montes Sinai, Horeb, o Santo dos Santos no Templo. Locais em que a presença de Deus é mais imediata. Também impureza, ou seja, o afastamento da presença mais direta do sagrado, é expressa no consumo de determinados animais (Lv. 11), contato com animais mortos(Lv 11.24-28), secreções dos órgãos genitais ( Lv. 12.1-8; 15.1-32). No judaísmo do Segundo Templo, podemos ver a extensão dessa dinâmica pureza-impureza para esferas e atitudes comuns da vida privada e social em detalhes. A temática dominante para essas práticas era a discussão quanto a levar uma vida mais próxima de Deus, mais harmônica com o Senhor. Sobretudo quando se tinha uma auto-imagem de pessoa, comunidades e povo sacerdotal, ou seja, aqueles que intercedem pelo mundo a Deus e por intermédio de quem Deus busca se manifestar no mundo. E assim se constituía as tradições da vida religiosa cotidiana.

Uma leitura pouco cuidadosa leva à impressão de que Jesus se opunha em si a essa preocupação, encarando-a cinicamente como fútil e para bobocas hipócritas. Às vezes chega-se a projetar uma figura de Jesus como desconectada e em oposição a todo judaísmo de seu tempo. Nada mais falso. Jesus participava do culto nas sinagogas, ia às festas, valorizava as ceias comunais, usava vestes típicas dos homens piedosos e dedicados à reflexão teológica, como o tzit-tzit – algo que passa batido pelas traduções da passagem da mulher curada de hemorragia em Marcos 5.25-31, como “franjas” ou “bordas”.

O que Jesus criticava era a racionalização, ou o uso como desculpa, desses costumes, para a pessoa ter uma atitude de desamor e conveniência com a injustiça, ou ser chauvinista e demófoba com arrogância para com as pessoas simples, ou os desamparados e segregados dentre o povo, com os “menores”, os estigmatizados. Ele conclamava que a busca da pureza era boa, o zelo para com viver em harmonia com Deus. Porém, devia começar por uma novidade de vida, por misericórdia e empatia; a pureza advinha de uma busca de relacionamento pessoal íntimo com Deus que se manifestava numa disposição interior, e não se fiava em ritos e atitudes exteriores habituais que serviam para criar um coração fechado e amargo; pois com isto, na verdade se abdicava e se perdia do ser sacerdotal, pois Deus não está aí, Deus é “indomável”, “indomesticável”. Uma “religião do coração”, não no sentido sentimental apenas, pois o “coração” para os judeus na Antiguidade era o centro da vontade e determinação da pessoa; ser “o coração de algo” era ser o âmbito vital, norteador. “Cabeça”, por sua vez, costumava significar “fonte”, ou até mesmo o que hoje às vezes se emprega – fulano é o coração do time – ou seja, o núcleo referencial.

Por isso hoje, os cristãos não devem perder a grande riqueza da tradição histórica na liturgia, nos símbolos, rituais, rezas, cores, sabores, vestes, estética, hinos, arquitetura, arte sacra. O quanto está ficando insípida muita área da igreja que deu de ombros pra isso tudo! O quão raso e feio fica quando isto acontece! O foco é não deixar que estas coisas esteja, por si, em dessintonia com a disposição interior. A ordem é começar de dentro e exteriorizar, e estes símbolos e riquezas da tradição são repletos de significado a respeito da atitude interna do membro do cristianismo; não se pode é deixar que tomem o lugar desta atitude.

7 de março de 2010

Lendo a Bíblia com Jesus? Parte II - revelação progressiva

A pregação profética tinha um duplo sentido; de um lado, denunciava uma queda em auto-suficiência, em que os princípios e o espírito da Aliança eram obnublados por uma confiança cega em serem “o povo”, falhando em cumprir a missão e as prerrogativas dela, em uma interpretação triunfalista; de outro, eles retomaram e ampliaram o alcance da questão sacerdotal, levando a últimas conseqüências sua implicação do caráter universalista do propósito desse ser divino para todo o mundo, e Israel e Judá como instrumento que estava falhando.

Por isso, ora vinham pesados juízos contra as nações pela violência, idolatria, perversão, agressão ao “povo escolhido”, ora vinham oráculos anunciando bênçãos a elas, e elas sendo legitimadas em subjugar um povo que abandonava e perdia sua razão de ser .

Com o exílio, estes temas proféticos foram retomados, sobretudo o da Aliança, e sob o ângulo dos caminhos abertos para a Bênção e Maldição, do vislumbre do que poderia ter sido caso Israel se mantivesse fiel à Aliança, e da constatação da quebra desta, da maldição decorrente e da falência humana em caminhar com Deus em harmonia, já visto aí como o único Deus verdadeiro, e não o maior; com um propósito universal de redimir o mundo, reforçando o caráter sacerdotal e necessidade de “santificação” do povo, e alguns (como o autor de Jonas) reforçando o tom universalista ante um provincianismo que ameaçava recrudescer.

Houve a justaposição dos textos da criação. Ali fora feita uma "projeção" de sua leitura da história de Israel e do povo hebreu, sobre a história da humanidade, enxergando que a primeira recapitulara a segunda. Como se a Aliança fosse, na verdade, uma Segunda Aliança, após a Primeira feita com a humanidade, quebrada e cujas consequências desta quebra todos sofrem.
No tempo de Jesus, com tudo o que decorreu posteriormente do domínio helênico, a resistência, os mártires, a revolta dos Macabeus e divisões religiosas, o domínio romano, haviam multiplicidade de respostas.

Mas num cerne abrangente, tinha uma noção, mais atenuada até mais apocalíptica, de que estavam ainda num “exílio” e que aguardavam Deus visitar novamente Israel, e a forma como isso se daria variava. Daí o cenário para uma “revelação progressiva”, um conhecimento progressivo dos caminhos de Deus.

Jesus parece ter adotado um amálgama de várias visões messiânicas, absorvendo elementos de cada e rejeitando outros. Compartilhou com João Batista a noção de que chegara o tempo da visita de YHWH. Que os “mais fracos”, os estigmatizados e precarizados, estariam no centro do plano de Deus para redimir. E que era necessário se cumprir os sinais esperados para a mediação do povo para estar pronto para isso. Ampliou a perspectiva com a noção mais universalista de que essa mediação era para com o mundo, e que estaria inaugurando-se com seu ministério.

Daí o panorama para um cristão se aproximar, ou tentar, com as lentes para uma linha norteadora da Bíblia Hebraica que era a Bíblia que Jesus adotava.