17 de abril de 2011

Buscar primeiro... o quê?


O grande fogo de paixão que moveu a vida e o ministério de Jesus é o projeto Reino de Deus. É o núcleo de sua mensagem. Não foi a alma indo para o céu, o indivíduo indo para a igreja. Mas a inauguração do Reino; a futura consumação do Reino e o sentido de constante urgência. Manifestações do Reino. A chegada do Reino de Deus com poder.

É uma expressão que aparecia muito pouco nas Escrituras hebraicas. Mas a quê ela remetia, de qual lençol e nascente ela jorrava?


“Não serei eu vosso soberano, nem meu filho. IWHW seja seu soberano!” -Gideão em Jz:8.3

IWHW disse a Samuel: Escuta a voz do povo em tudo aquilo que te pedem. Não é a ti que rejeitam, mas a mim. Não querem mais que eu reine sobre eles”. I Sm:8.7

“Dai a Deus a força. Sua majestade está sobre Israel, sua força está nas nuvens”. Sl:68.35

“Senhor, nosso Deus, outros senhores além de Ti dominaram sobre nós, mas é unicamente o Teu nome que repetimos”. Is: 26.13

“A oração foi a seguinte: 'Senhor, Senhor Deus, Criador de todas as coisas, terrível e forte, justo e misericordioso, o único Rei, o único bom,' (...)” II Mb:1.2

Vemos em um texto antigo o profeta Isaías, em êxtase, atônito diante da visão da coorte celestial de Deus:
No ano em que faleceu o rei Ozias, vi o Senhor sentado sobre um trono alto e elevado. A cauda de sua veste enchia o santuário. (...)
Ai de mim, estou perdido!
Com efeito, sou um homem de lábios impuros,
e vivo no meio de um povo de lábios impuros,
e meus olhos viram o Rei, YWHW dos Exércitos!

Salmo 47.8 “YWHW é o rei de toda a terra.” Salmo 103.19 : “Nos céus estabeleceu YWHW o seu trono, e os seus poder real domina sobre o universo.” Em Daniel 3.33, “Quão grandiosos são os teus sinais! Quão portentosas suas maravilhas! Seu reino é reino eterno e seu domínio vai de geração em geração”.

Então, sobre as bases da idéia do Reinado de Deus vinha a concepção de que não era algo situado aqui ou ali, delimitado a um local, uma particularidade, mas algo sem fronteiras e que perpassa e abarca a criação e a própria realidade cósmica.

Com o desenrolar da história de Israel, foi se firmando a perspectiva do Reinado de Deus como uma promessa de redenção para a nação. Vejamos o profeta que continua a pregação de Isaías, no contexto em que o povo estava sob o domínio da Babilônia, anunciando para o futuro próximo um novo êxodo do povo exilado em conexão com a ascensão de Deus ao trono, de importância mundial:
Que formosos são sobre os montes os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião:
O teu Deus se tornou rei!
Ouve, os teus vigias erguem a voz,
juntamente exultam,
porque como com seus próprios olhos vêem
o retorno de YWHW a Sião.
Rompei em júbilo, exultai à uma, ó ruínas de Jerusalém;
Porque YWHW consola o seu povo, redime a Jerusalém
(Is 52.7-9)

Já no presente, o profeta vê o mensageiro da vitória de Deus para a nação, antecipando o futuro que será consumado, a fim de lhe trazer a notícia de paz: “Teu Deus se tornou rei!” Uma palavra de encorajamento, apresentando que as tristezas daquela situação não eram nem seriam a realidade definitiva que teria a última palavra. A cena é desoladora: Jerusalém está arrasada, destruída pelos babilônios; mas a vinda do Deus vitorioso é descrita.

Em Ezequiel, algo semelhante acontece:

“Com mão poderosa, com braço estendido e com furor desencadeado, hei de reinar sobre vós; tirar-vos-ei do meio dos povos e vos congregarei dentre os países onde fostes dispersados(...) Levar-vos-ei ao deserto dos povos e ali entrarei em juízo convosco, face a face”. (Ez. 20.33-35).

Ali se apresenta que Deus congregará os que foram dispersos entre povos distantes. Estabelece um ato de libertação passional e subvertedor. E nele prova seu poder de rei e estabelece seu direito como senhor. É a esperança de um futuro que supera o presente.

Pois a Yahweh pertence o Reino: Ele governa as nações.
Sim, só diante dEle todos os poderosos da Terra se prostarão,
perante ele se curvarão todos os que descem ao pó;
Salmo 22.29-30a

Mexia de maneira avassaladora com a mente do povo os brados dos profetas sobre a restauração promovida por Deus a partir de um restante fiel, removendo a assolação promovida por, dentre outras coisas, a infidelidade anterior do povo:
Certamente reunirei todo Jacó,
Congregarei o restante de Israel, (..)
Sobe diante deles o que abre o caminho(...)
E o seu rei vai adiante deles
E YWHW estava adiante deles”
Miquéias 2.12.’Farei das estropiadas um resto,
e das dispersas uma nação poderosa.
E YWHW reinará sobre elas,
no monte Sião,
desde agora e para sempre.
Miquéias 4.7.

Restabelece-se o que foi perdido. Renova e aprofunda-se a aliança. Repara-se injustiças antigas. “O Reino pertencerá a YWHW”, não ao estado (Abdias 21). Em Zacarias 14, incorpora-se o juízo sobre os opressores, e remanescentes vindo de todos os povos adorar. “YWHW será rei sobre toda a terra; naquele dia YWHW será único, e um só será o seu nome”. (Zac.14.9; confira Deuteronômio 6.4; Salmo 22 28-30). A criação também é envolvida, e ela aclama e se alegra na redenção: “YWHW tornou-se rei – regozije-se a terra!” Sl. 97.1

Sob a subjugação e exploração do Império Romano, império este que se impunha através do Evangelho de César - a aclamação do Imperador, desfilando em carros e cavalos num cortejo e procissão triunfal, se glorificando de uma vitória de uma guerra ou uma conquista - e do discurso da filiação divina do mesmo imperador, Israel ainda considerava-se sob exílio, esperando a salvação de YHWH. É sob e por sobre toda esta expectativa e força propulsora que Jesus plasmará sua mensagem para seu tempo, para sua vida, para o povo e para o mundo. Ela alimentará suas pregações, suas curas, sua entrega até a morte.

10 de abril de 2011

Ainda que morto...


Estava, porém, enfermo um certo Lázaro, de betânia, aldeia de Maria e de sua irmã Marta. Maria era aquela que tinha ungido o Senhor com ungüento, e lhe tinha enxugado os pés com os seus cabelos, cujo irmão Lázaro estava enfermo.
Mandaram-lhe, pois, suas irmãs dizer: Senhor, eis que está enfermo aquele que tu amas. E Jesus, ouvindo isto, disse: Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela. Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro.
Ouvindo, pois, que estava enfermo, ficou ainda dois dias no lugar onde estava. Depois disto, disse aos seus discípulos: Vamos outra vez para a Judéia. Disseram-lhe os discípulos: "Rabi, ainda agora os judeus procuravam apedrejar-te, e tornas para lá?" Jesus respondeu: Não há doze horas no dia? Se alguém andar de dia, não tropeça, porque vê a luz deste mundo; mas, se andar de noite, tropeça, porque nele não há luz. Assim falou; e depois disse-lhes: Lázaro, o nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo do sono.
Disseram, pois, os seus discípulos: 'Senhor, se dorme, estará salvo." Mas Jesus dizia isto da sua morte; eles, porém, cuidavam que falava do repouso do sono. Então Jesus disse-lhes claramente: Lázaro está morto; e folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse, para que acrediteis; mas vamos ter com ele.
Disse, pois, Tomé, chamado Dídimo, aos condiscípulos: "Vamos nós também, para morrermos com ele."
Chegando, pois, Jesus, achou que já havia quatro dias que estava na sepultura. (Ora Betânia distava de Jerusalém quase quinze estádios.) E muitos dos judeus tinham ido consolar a Marta e a Maria, acerca de seu irmão.
Ouvindo, pois, Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro; Maria, porém, ficou assentada em casa. Disse, pois, Marta a Jesus: "Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas também agora sei que tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá. "
Disse-lhe Jesus: Teu irmão há de ressuscitar.
Disse-lhe Marta: "Eu sei que há de ressuscitar na ressurreição do último dia."
Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá;E todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá. Crês tu isto?
Disse-lhe ela: "Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo." E, dito isto, partiu, e chamou em segredo a Maria, sua irmã, dizendo: "O Mestre está cá, e chama-te." Ela, ouvindo isto, levantou-se logo, e foi ter com ele. (Ainda Jesus não tinha chegado à aldeia, mas estava no lugar onde Marta o encontrara.)
Vendo, pois, os judeus, que estavam com ela em casa e a consolavam, que Maria apressadamente se levantara e saíra, seguiram-na, dizendo: "Vai ao sepulcro para chorar ali."
Tendo, pois, Maria chegado aonde Jesus estava, e vendo-o, lançou-se aos seus pés, dizendo-lhe: "Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido."
Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu-se muito em espírito, e perturbou-se. Disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: "Senhor, vem, e vê."
Jesus chorou.
Disseram, pois, os judeus: "Vede como o amava." E alguns deles disseram: "Não podia ele, que abriu os olhos ao cego, fazer também com que este não morresse?"
Jesus, pois, movendo-se outra vez muito em si mesmo, veio ao sepulcro; e era uma caverna, e tinha uma pedra posta sobre ela. Disse Jesus: Tirai a pedra. Marta, irmã do defunto, disse-lhe: "Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias." Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?
Tiraram, pois, a pedra de onde o defunto jazia. E Jesus, levantando os olhos para cima, disse: Pai, graças te dou, por me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre me ouves, mas eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que tu me enviaste.
E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora. 
E o defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço. Disse-lhes Jesus: Desligai-o, e deixai-o ir. 
Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo a Maria, e que tinham visto o que Jesus fizera, creram nele. Mas alguns deles foram ter com os fariseus, e disseram-lhes o que Jesus tinha feito. Depois os principais dos sacerdotes e os fariseus formaram conselho, e diziam: "Que faremos? porquanto este homem faz muitos sinais. Se o deixamos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar santo e a nação."
E Caifás, um deles que era sumo sacerdote naquele ano, lhes disse: "Vós nada sabeis. Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação." Ora ele não disse isto de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação. E não somente pela nação, mas também para reunir em um corpo os filhos de Deus que andavam dispersos.
Desde aquele dia, pois, consultavam-se para o matarem. Jesus, pois, já não andava manifestamente entre os judeus, mas retirou-se dali para a terra junto do deserto, para uma cidade chamada Efraim; e ali ficou com os seus discípulos.


Maria, Marta e seu irmão Lázaro eram amigos próximos de Jesus, que o acolhiam quando ia para Jerusalém e preferia ficar no seu vilarejo do que na cidade urbanizada. Betânia ficava pouco mais de 3 Kms de Jerusalém, no lado oriental do monte das Oliveiras. O nome "Lázaro" era uma variação de Eleazar, “Deus ajuda”. Ao comentar sobre Maria, João antecipa o relato do capítulo 12.

Jesus está na Galileia e Lázaro morre pouco antes de Jesus começar a retornar. No tempo de Jesus os judeus consideravam que a morte é completamente e irreversivelmente estabelecida a partir de quatro dias. O princípio vital pairaria três dias sobre o corpo, com a esperança de se retornar. No quarto dia, vinha a putrefação, e se passava o efeito das substâncias aromáticas. Com isto, se permitia a preparação do corpo mesmo no sábado. Havia também o período de luto conhecido como Shiv'ah, que significa algo como "sete", em que se sentava e lamentava a morte do parente por 07 dias. As pessoas sentavam-se no chão ou num assento baixo na casa do morto, abstinham-se do trabalho ordinário e diversões. Amigos iam orar e se lamentar com eles. O evangelho que mais enfatiza Jesus como Revelador do Pai, apresenta-lhe também como alguém envolvido em amizades e partilhando do prosaico da vida com os lares e famílias.

A sepultura é típica; escavada em uma caverna com um bloco de pedra – que geralmente era em forma de disco para ser rolado – que protegia o túmulo de violações, de ataques de animais ao corpo, de intempéries. Havia uma antecâmara em cujo chão o corpo era depositado. Após um ano, se recolhiam os ossos em um ossuário, que era também deposto numa fenda na parede do túmulo. Se envolvia o cadáver em longas tiras de pano, atados para mantê-lo ereto atá as maçãs do roso, fechando a boca e cobrindo a face com um sudário de até quase um metro. Se amarrava os tornozelos e prendia as mãos ao corpo. Normalmente, pelo sistema deste embrulhar, impediria um alguém reavivado de se locomover. Talvez neste caso, o corpo de Lázaro tenha sido enrolado de uma maneira não tão rígida.

Jesus corre risco indo à Judéia. Apresenta aos discípulos que está consciente de que o tempo de seu ministério está se esgotando...

Era comum que houvessem lamentadores, alguns até profissionais – incluindo flautistas, mulheres pranteadoras, em que mesmo pobres os contratavam -, mas era um traço cultural muito forte que as pessoas acompanhassem os familiares em seu pranto e dor. O termo no grego para a expressão normalmente traduzida por "perturbou-se" ou "comoveu-se internamente" tem uma conotação de grande agitação interna no sentido de raiva, irritação; Jesus está profundamente comovido ante a situação e irado diante da praga da morte que vigora, e também ante a dor que assola seus amigos. A morte é sua desafiante, e de seu ministério. É como se estivesse lidando com um quadro de fracasso. Não importa as maravilhas e sinais que tinha feito, seu amigo está morto, e é essa a realidade da vida.

Jesus chora... o termo empregado indica um derramar copioso de lágrimas.


O conselho trama para levar Jesus à morte. Esse que desafiou as autoridades, que subverte o padrão hierárquico que as visões religiosas estabeleciam, que subverte a expectativa dos líderes religiosos quanto ao destino de Deus para as pessoas e quanto aos critérios de acolhimento das pessoas por parte de Deus, que denunciou todo o sistema político-religioso manipulador, explorador, centrado e simbolizado pelo sistema sacrificial do Templo, apresentou o sinal mais perigoso: impelir as pessoas a não terem medo da morte. A morte é o instrumento de controle mais poderoso e efetivo dos poderosos, o poder sobre a vida das pessoas, o poder sobre a morte delas. O que fariam agora que as pessoas, seguindo Jesus, não teriam mais medo da morte?

Caifás honra a reputação ao ser arrogante com o Conselho [ o historiador judeu Flávio Josefo chega a escrever sobre os líderes saduceus “a conversação deles com os de seu próprio partido é tão bárbara como se eles fossem estrangeiros para com eles”, em “Guerras Judaicas” 2.8.14 } 166]. E mostra-se simbolicamente no texto qual a racionalidade de poder que se opunha frontalmente a Jesus. E ao invocar a “segurança nacional”, invoca um discurso historicamente repetido pelos tiranos para tentar legitimar um status quo injusto e silenciar os que clamam por justiça. Há precedentes no judaísmo para crenças a considerar que o sumo-sacerdote, mesmo em torpeza, tem um poder profético forte nas suas palavras [ em “Antiguidades dos Judeus” Josefo narra o caso da previsão de um sumo-sacerdote iníquo, Paddua, previndo que Alexandre o Grande não assolaria Jerusalém, e também comenta sobre o poder profético de Hircano, outro sumo-sacerdote condenável].

O maior recurso para os poderosos, políticos e econômicos, para oprimirem as pessoas, que é o medo que impõem pelo poder para a morte, é frontalmente posto em questão.

Jesus retira-se para o deserto de Efraim [ 2 Crônicas 13.19], perto de 19 Km de Jerusalém. Breve ele retornará para a Páscoa...

7 de abril de 2011

As crianças no Reinado de Deus

E traziam-lhe meninos para que lhes tocasse, mas os discípulos repreendiam aos que lhos traziam.
Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus.
Em verdade vos digo que qualquer que não receber o reino de Deus como menino, de maneira nenhuma entrará nele.
E, tomando-os nos seus braços, e impondo-lhes as mãos, os abençoou.
O Evangelho segundo a tradição de São Marcos, 10.13-17.

Crianças: seres insignificantes. Eram um peso a mais para se alimentar e cuidar, completamente dependente dos pais. Em algumas regiões do império, eram jogadas em monturos para morrer, ou abandonadas e recolhidas como escravas. As crianças meninas então, eram muito mais indesejáveis.

Há uma descoberta arqueológica ao sul do Cairo de um escrito do século I a.C., de um emigrante que arrumar a trabalho em Alexandria, de nome Hilarião, para sua mulher Alis, então grávida: “Eu fico em Alexandria. Peço-te encarecidamente que cuides de nosso filhinho, que eu, quando receber o pagamento, lhe enviarei. Se deres à luz uma criança, caso seja varão, deixai que viva; mas se for menina, expõe-na para que morra”.

Jesus as toma como o paradigma de como se recebe o Reinado de Deus e como se entra nele: com esta postura de dependência e anelo pelo apego e acolhimento. Seria anacrônico pensarmos que a ênfase é na “inocência” das crianças, um conceito romântico. Mas dentro daquela cultura, perante a audiência do contexto, tem a ver justamente com as crianças estarem bem abaixo na escala do status quo, do que representa poder e presunção, e serem dependentes e necessitadas, e aceitarem este cuidado.

29 de março de 2011

Coral Anglicano de King's College - Salmo 50



Salmo 50:

  • Para o culto em Espírito
Fala Yawhe, o Deus dos deuses,
convocando a Terra, do nascente ao poente,
de Sião, beleza perfeita, Deus resplandesce,
o nosso Deus vem, e não se calará.

à Sua frente um fogo devora,
e ao Seu redor tempestade violenta;
do alto Ele convoca o céu
e a terra, para julgar o Seu povo.

"Reuni junto a mim os meus fiéis,
que selaram minha aliança com sacrifício!"
O céu anuncia a Sua justiça,
pois o próprio Deus julgará.

"Ouve, meu povo, eu falarei,
Israel, testemunharei contra ti.
Eu sou Deus, o teu Deus!

Não te acuso pelos teus sacrifícios,
tuas imolações estão sempre à minha frente;
não tomarei um novilho de tua casa,
nem um bode de seus apriscos;

pois são minhas todas as feras da selva,
e os animais nas montanhas, aos milhares;
conheço as aves todas do céu,
e o rebanho dos campos me pertence.

Se eu tivesse fome não o diria a ti,
pois o mundo é meu, e o que nele existe.
Acaso comeria eu carne de touros,
e beberia sangue de bodes?

Oferece a Deus um sacrifício de confissão,
e cumpre teus votos ao Altíssimo;
invoca-me no dia da angústia:
e eu te livrarei, e tu me glorificarás".

Ao ímpio, contudo, Deus declara:

"Que adianta divulgar meus mandamentos
e ter minha aliança na boca,
uma vez que detestas a disciplina
e rejeitas as minhas palavras?

Se vês um ladrão, corres com ele,
e junto aos adúlteros tens a tua parte;
abres a tua boca para o mal,
e teus lábios tramam a fraude.

Sentas-te para falar contra teu irmão
e desonras o filho de tua mãe.
Assim te comportas, e Eu me calaria?
Imaginas que Eu seja como tu?
Eu te acuso e exponho tudo aos teus olhos.

Considerai isto, vós que esqueceis a Deus,
senão Eu vos dilacero, e ninguém vos libertará!
Quem oferece uma confissão me glorifica,
e ao ser humano íntegro mostrarei a salvação de Deus".

20 de março de 2011

Com Nicodemos

Heli Menegale (1903 - 1982)

Como a serpente ao cimo de uma vara
com que Moisés ao povo israelita
salvou do seu castigo, quando, em grita,
em caminho de Edom se rebelara,
de bondade insondável e infinita,


Jeová nos deu Jesus, seu Filho, para
nos resgatar da maldição amara
em que o mundo entre dúvidas se agita.
Amor inimitável e profundo!


Sacrifício de Pai, bênção paterna!
Pois Deus amou de tal maneira o mundo,
que o seu Filho lhe deu, para que aquele
que nele crê e que confia nele,
não pereça, mas tenha a vida eterna.

...

de Alphonsus de Guimarães

Ora José de Arimatéia viera
Tomar o Corpo de Jesus. Mais cedo
Nicodemos no Gólgota estivera,
E com mirra voltara. E tinham medo.


Pois cada um destes homens puros era
Do bom Senhor discípulo em segredo,
Por temor aos judeus. Logo o soubera
O Sinedrim judaico, injusto e tredo.


Junto ao lugar do Sacrifício, um horto
Havia, e nele um monumento aberto
Onde nunca pousara nenhum morto.


Sepultaram-nO, e a lápide fechou-se.
Viu-se depois o túmulo deserto:
Voara ao Céu Quem o Céu consigo trouxe.

13 de março de 2011

Meditação para a Quaresma: Alma Tentada

Como já comentamos aqui no “Cristianismo, meramente”, nas narrativas das origens em Gênesis, se busca situar a experiência de fé e o decorrente vislumbre de mundo experimentado com as experiências com Deus, relacionando-a com a condição humana e daí, com como se chegou à atual condição das coisas a partir do panorama descortinado pela fé. Todo um caldo cultural circundante, de tradições de origens, sobre criação do mundo pela batalha dos deuses, capricho dos deuses, necessidade do apetite ou xiste dos deuses, e assim também com a criação da humanidade, e a amizade/inimizade com certos deuses, foi reinterpretado a partir da visão de mundo completamente reorientada pelas experiências com o Deus Supremo de caráter distinto, e o relacionamento especial com Ele, e o maravilhar-se com um cenário ofuscante de que Ele tinha um plano para a História.

E assim é com a narrativa hoje conhecida como a “narrativa da Queda”. Um ser humano colocado para ser quase que co-regente de Deus em Seu mundo, plasmando interativamente com ele- o mundo - uma experiência de jardim, para crescer em sabedoria, aprendizado, acaba tendo uma nova orientação, uma desorientação, por ceder a pior das depravações, que é o ápice da idolatria - transformar Deus em ídolo. Pois foi este o retrato que fizeram de Deus, a imagem que fundiram dEle, equivocadamente, quando pensaram em “ser como Ele”. Pois da forma que os personagens imaginaram que seriam “como Deus”, fica nítido que não era a forma que Deus se apresentava. Vindo, em Sua grandeza, humildemente passear com eles e ter prosas coloquiais, um relacionamento carregado de singeleza e ternura. Deus não era o Dominador Tirânico e sedento de poder a que eles buscaram se tornar.

Foi por aí que na verdade o tiro saiu pela culatra. Ao invés de ser como Deus, se alienaram dEle, de si mesmos, da criação.

Na experiência visionária de Jesus no deserto, podemos ver como seria Ele quem reverteria esta Queda, tendo sido tentado no mesmo sentido: transformar Deus em ídolo.

Jesus vulnerabilizado, com fome, no deserto. Não saciado, num jardim de delícias.

Se ele era o Filho de Deus, então esse relacionamento especial tinha de se mostrar real com as necessidades satisfeitas, atendidas, uma relação instrumental; tinha que haver a demonstração de poder submetedor. Como é hoje em grande parte das buscas de Deus que vemos, nas igrejas e fora delas.

Outro dia uma pessoa veio me falar sobre ela não crer em Deus. Me disse algo assim: “se você está desempregado, procurando emprego, é você que tem que se virar; você tem que conseguir emprego. Não tem Deus lá não, é você! Não é Deus que vai criar empregos.

A questão aí é que é como se fosse um reflexo especular da fé imatura; a descrença imatura. Pois ambas vêem a mesma coisa: pra se ter relação com Deus, todas as necessidades teriam de ter imediata satisfação, e nossas responsabilidades, dramas, lutas, sumiriam; uns acreditam que é isso a fé, e relacionam-se com a fé assim, se auto-iludindo, e ao invés de Deus, possuem um ídolo do lar pra suas barganhas mágicas. Outros não acreditam que tal possa ser feito, e assim se despem da fé.

Ambos querem um ídolo. Uns acreditam na possibilidade de tal relação, outros não. E nenhum quer Deus. Experimentar arrebatadoramente e se acercar totalmente das energias de Deus.
Saltar do Templo. Fazer seus caprichos, que Deus correrá atrás. Ele terá que dar ordens aos anjos, porque você é Deus também, os anjos têm que te servir. Você não poderá tropeçar em nenhuma pedra. Hoje, podemos gozar e usufruir de bens e consumos que para gerações passadas eram inimagináveis. Queremos e sentimos que temos todo o direito, e todo o cosmos tem o dever de nos servir para aproveitarmos ao máximo. Se houver algum espaço para relacionarmos com Deus, tem que ser nestes termos e condições. Nada de atrapalhar esta realização de caprichos, antes, deve ser um instrumento de mais; deus de auto-ajuda, de mimo.

Depois, a tentação máxima da idolatria. Romper todos os escrúpulos em prol do sucesso, do que se imagina a plena conquista do sucesso e realização do ego. Poder sem limites. Estar no topo. Ser um astro. E que tudo se curve, e que todos os escrúpulos se curvem. E não percebe-se que na verdade, é a pessoa a se curvar, e dar o que não é seu. E perder tudo. E não aproveitar nada, na realidade, porque nem ela é mais de si mesma. Outro está a se esbaldar nela. Ela se alienou por completo.

Ao Senhor teu Deus adorarás,
e a Ele só prestarás culto.

Como se diz na oração comunal anglicana, Deus, a quem servir é a verdadeira liberdade. Com a vitória de Jesus sobre a tentação, se diz que o demônio foi embora, e aí os anjos de Deus puderam se aproximar e cuidar dele.

Como na paráfrase da poesia “Operário em Construção”, de Vinícius de Moraes:

Sentindo que a violência
Nao dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobra-lo de modo contrário
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher
Portanto, tudo o que ver
Sera' teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.


Disse e fitou o operário
Que olhava e refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria
O operário via casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!


- Loucura! - gritou o patrão
Nao ves o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Nao podes dar-me o que é meu.

27 de fevereiro de 2011

O desenvolvimento antigo da compreensão da Trindade

Nos meados do século II, o teólogo Santo Irineu de Lyon, sacerdote e escritor, cujo pensamento era totalmente focado na preocupação em ser fiel ao ensino e continuidade do ministério dos apóstolos, já expressava, na obra "Demonstração da pregação apostólica":

Deus Pai, que não foi criado, que é indivisível, o único Deus, criador do universo; esse é o primeiro artigo de nossa fé... E o Verbo de Deus, o Filho de Deus, é Nosso Senhor Jesus Cristo...que, na plenitude do tempo, para reunir todas as coisas em si mesmo, tornou-se um ser humano entre os seres humanos, capaz de ser visto e tocado, de destruir a morte, de trazer vida e de restaurar a comunhão entre Deus e a humanidade. E o Espírito Santo...que na plenitude do tempo, foi derramado de forma inédita sobre a natureza humana para renovar a humanidade, em todo o mundo, aos olhos de Deus.

O próprio termo “Trindade”, do latim Trinitas, foi cunhado, juntamente com todo um edifício correspondente de terminologia, por Tertuliano de Cartago no século II., para a sistematização do pensamento, especialmente no escrito "Contra Praxeas", quanto às três pessoas de Deus fundamentadas em uma existência em comum numa substância única.

Orígenes escreveu em "Primeiros Princípios, Livro 1, Prefácio 2-8:"

As espécies de doutrina que foram claramente transmitidas no ensinamento dos apóstolos são as seguintes: Primeiro, que há um Deus...Segundo que o próprio Jesus Cristo [...]nasceu do Pai antes de todas as criaturas...Terceiro, que o Espírito Santo era associado em honra e dignidade com o Pai e o Filho...

Atenágoras de Atenas dizia que o Espírito era tal como "uma efluência [aporroiam] de Deus, fluindo dEle e voltando para Ele como um raio de sol".

"Súplica em favor dos cristãos", 10.1

Chega a comentar também que "os homens reconhecem a Deus Pai, Deus Filho e o Espírito Santo e declaram tanto o Seu poder em união quanto a Sua distinção na ordem" (tën en të taxei diairesin).

SFC 10.3

Teófilo de Antioquia identificava o Espírito com a Sabedoria, tal como no Salmo 33, Sabedoria de Salomão, Provérbios 8, etc. Em "A Autólico", 1.7;2.15;18

Sobre o Lógos, coloca que
Ele não é seu Filho na acepção em que os poetas e romancistas descrevem o nascimento dos filhos dos deuses, mas sim, no sentido de que a verdade fala do Verbo considerando-o eternamente imanente [ endiatheton ] no seio do Pai
"A.A." 2.10

Justino argui
nós adoramos e amamos, além de Deus, o Logos derivado do Deus não criado e inefável, vendo que por amor de nós Ele se tornou homem.
2ª Apologia, 13,4

No princípio, antes de todas as criaturas, Deus gerou um poder racional a partir de Si mesmo" (...) esse Poder é indivisível e inseparável do Pai.

Diálogo com Trifo, 61.1-2

Irineu de forma diferente considera que
O Pai é Deus, o Filho é Deus, pois tudo o que é gerado de Deus é Deus
- "Demonstração da pregação católica" 47

Hipólito de Roma mais tarde também ecoa
Embora só um, Ele era múltiplo [ monos ön polys ën], pois não estava sem Sua Palavra e sem Sua Sabedoria, Seu Poder e Seu Conselho.
"Contra Noetum" 10

Tertuliano

"Eu e o Pai somos um indica que os Três são 'uma só realidade' unum] não 'uma só Pessoa' unus] (...); o Filho é unius substantiae com o Pai, e o Filho e o Espírito são consortes substantae patris."

"Contra Praxeas", 2-3

De Inácio temos citações mais quanto à divindade de Jesus, em termos que precediam os da Fórmula Calcedoniana.

Afirma que "Cristo" é
Deus encarnado [ en sarki genomenos theos], "Deus manifestado como homem" [theou anthrõpiños phaneroumenou]. Afirma que foi "incriado" [agenñetos].
Epístola aos Efésios, 7.2; 19.3;

Empregava expressões como "o sangue de Deus", "o sofrimento de meu Deus" e "Deus {...]foi concebido de Maria".

Epístola aos Romanos, 1.1;18.2

Existe um só médico, constituído de carne e espírito, gerado e não-gerado, Deus no homem, vida autêntica na morte, procedente de Maria e procedente de Deus, primeiro passível e depois impassível, Jesus Cristo Nosso Senhor.
Romanos 6.3