21 de fevereiro de 2011

Fé: iluminação para os momentos de pura sombra

Romanos 8:15 –
Com efeito, não recebestes um espírito de escravos, para recair no temor, mas recebestes um espírito de filhos adotivos, pelo qual clamamos Abba! Pai!

Marcos 14.36:
E dizia: ‘Abba! Tudo é possível para ti: afasta de mim este cálice; porém, não o que eu quero, mas o que tu queres’.

Neste grito dilacerante, neste momento de tormenta e pavor, Jesus não se achega a Deus com amargura, antes relança um grito que ecoará e será um marco na devoção da igreja cristã nascente, como se atesta na passagem de Romanos e em Gálatas 4.6 ("E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: 'Aba, Pai'").

O cálice evocava a imagem do julgamento de Deus, representado como Rei. Em Marcos 10.39 Jesus aplica-o para tratar do martírio cristão. Ele sabe então ali que o aguarda o martírio, e mais do que somente a crucificação, mas o recair do julgamento pelos pecados da humanidade. Ele expõe o sincero desejo do coração para não passar por isso; porém, sua disposição de espírito é a de cumprir o que sabe ser o querer de Deus.

Na passagem citada em Romanos, o sentido de urgência na expressão de Paulo no emprego da palavra "clamar" bem se adéqua à descrição de Jesus no jardim como estando "angustiado" e "agitado".

Advém como ápice para a linha da argumentação que faz com a igreja de Roma. Ele joga neste trecho com a idéia da libertação de Israel no Êxodo e as constantes recaídas destes devido à inconstância para com Deus. Destaca que é a ação de Deus a partir da Sua boa-vontade em redimir um povo para se relacionar especialmente com ele é que desencadeou seu ato de libertação da escravidão, sempre algo para adiante, não um retrocesso:

Êxodo 13.21: Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade.
Êxodo 15.13: Tu, com a tua beneficência, guiaste a este povo, que salvaste; com a tua força o levaste à habitação da tua santidade.
Reinvocado em Neemias 9.12: E guiaste-os de dia por uma coluna de nuvem, e de noite por uma coluna de fogo, para lhes iluminar o caminho por onde haviam de ir.
Salmo 78.14: De dia os guiou por uma nuvem, e toda a noite por uma luz de fogo.

A força da imagem da “luz” de Deus guiando adiante sem dúvida brilhara na retórica de Paulo na contraposição a “recair no temor”.

Também aí Paulo, como pensador brilhante, combina com temas da cultura romana, em que quando ocorria uma adoção legal, o filho adotivo passava a ser considerado herdeiro, e todas as pendências antigas com o novo pai eram canceladas.

14 de fevereiro de 2011

Oração de São Basílio de Cesaréia

Ó Deus e Senhor dos Poderes, e Criador de toda a criação, Aquele que, por causa da Sua clemência e misericórdia incomparável, enviaste Teu Filho Unigênito e nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação da humanidade, e com a Sua venerável cruz Tu dilaceraste o registro de nossos pecados, e assim Tu sobrepujaste os governantes e os poderes das trevas, receba de nós, um povo pecador, ó Senhor Misericordioso, estas orações de gratidão e de súplica, e livrai-nos de toda transgressão destrutiva e sombria, e de todos os inimigos visíveis e os invisíveis que querem nos ferir. Pregue abaixo a nossa carne com o temor de Ti, e não deixe nossos corações inclinar-se a palavras ou pensamentos do mal, mas trespasse nossa alma com o Vosso amor, que já contemplando a Ti, sendo iluminada por Ti e Te discernindo, a luz inacessível e eterna, podemos render incessantemente confissão e gratidão a Ti: O Pai eterno, com Teu Filho Unigênito, e com o Teu Santíssimo, Clemente, e Vivificante Espírito, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

4 de fevereiro de 2011

Um vislumbre do chamado de Natanael

É fascinante como a riqueza de significados das narrativas bíblicas se apresenta de forma mais ampla quando temos a oportunidade de mergulhar no pano de fundo das imagens na própria Bíblia e do contexto contemporâneo ao escrito.

Já falamos a respeito algumas vezes no “Cristianismo, meramente”. Podemos visitar uma outra passagem cujos significados são pouco explorados e muitas vezes é atrofiada apenas pela idéia de alguns cristãos de querer ressaltar “o sobrenatural” em detrimento das idéias humanamente construídas, forçando a dicotomia.

Em João 1. 46-51, o chamado do discípulo Natanael, que possivelmente é o Bartolomeu nas listas dos Doze nos evangelhos sinópticos. Natanael se admira com a possibilidade de que alguém sumamente importante para o destino da nação, juntamente com os eventos que se relacionariam, adviesse de um pequeno povoado de menos de 2000 habitantes sem nenhuma importância histórica, Nazaré. Mas o contexto ressalta que ele nutria uma grande expectativa pela vinda da redenção de Israel. Na Galiléia, explodiam as tradições das expectativas populares por novos profetas que anunciariam a libertação do povo do jugo dos tiranos ímpios e opressores, sendo muito exaltada a figura de Elias, enquanto na Judéia era mais Davi.

Jesus, galileu, ressalta a fé e integridade de outro galileu, como “verdadeiro israelita”. Ele faz um jogo de palavras com o patriarca de Israel – Jacó, que significa “enganador”, e aparece em Gênesis como alguém dissimulado – confira Gn. 27.35 e 31.26.

Então Natanael indaga como Jesus poderia o conhecer. E Jesus, já lidando com as expectativas messiânicas de Natanael que o cenário da narrativa mostra, vai ao fundo as esperanças e anseios do mesmo. Normalmente ao se comentar sobre a fala de Jesus, costuma-se priorizar uma interpretação de “advinhação”. Mas a figueira é um símbolo marcante para a piedade daquelas pessoas. Sob a sombra da figueira mestres ensinavam a seus discípulos, e também era um local considerado especial para a meditação e oração.

Também a tradição bíblica utiliza-se da figueira para formar a imagem dos tempos da redenção, de liberdade e descanso, em que cada israelita se sentaria em paz sob uma figueira.

Judá e Israel habitavam confiados, cada um debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira, desde Dã até Berseba, todos os dias de Salomão.                                                                     I Reis 4.25

Cada qual se sentará debaixo de sua vinha e debaixo de sua figueira, e ninguém o inquietará, porque a boca do Senhor dos Exércitos falou!                                                              Miquéias 4.4

Podia ficar cada um sentado debaixo de sua figueira, e não havia quem medo lhes causasse.       I Macabeus 14.12

Naquele dia, diz o Senhor dos Exércitos, cada um de vós convidará ao seu próximo para debaixo da vide e para debaixo da figueira.                                                                            Zc. 3.10

Jesus prossegue evocando em Natanael a recordação da tradição sobre a escada de Jacó. Os anjos subindo e descendo apresentaram a Jacó a providência de Deus atuando na Terra, e foi a ocasião da promessa de Deus de estar com ele e cumprir através dele as promessas aos seus ancestrais. O abrir dos céus retoma também a abertura do livro de Ezequiel, sinalizando o momento especial da revelação divina. E falando do Filho do Homem, neste contexto, Jesus expressa a fortíssima imagem de Daniel 7, com a figura celestial representante de Deus para julgar o mundo e estabelecer Seu reinado.

Parte daí deste cenário um momento sem dúvida chocante para o discípulo Natanael, que o leva a mudar sua vida para sempre.

25 de janeiro de 2011

Na Escuta, no Silêncio, na unidade

Sermão do Arcebispo Anglicano de Cantuária, Sua Graça Revdma. Rowan Williams, em Vesper - Catedral de Westminster,  durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, há dois anos, 22 de janeiro de 2009.


Ouvimos o Evangelho e qual é o sotaque que nós ouvimos, qual é o tom que pegamos? É uma voz que é devastadoramente crítica do auto-engano de tantos tipos de religião, devastadoramente crítica da justiça própria e auto-satisfação. É uma voz que é mesmo capaz de soar com raiva ao ver o sofrimento dos filhos de Deus. É uma voz que rompe qualquer número de barreiras e obstáculos, para falar uma palavra de amor para o culpado ou os perdidos. É uma voz que na cruz grita em sofrimento inimaginável à Deus Pai e fica em silêncio depois de um grande grito. E é a voz que é instantaneamente reconhecível para os discípulos no dia de Páscoa quando se pronuncia a palavra 'Paz'. "A paz esteja convosco", a primeira saudação do Cristo Ressuscitado.

Jesus nos diz no Evangelho que ouvimos há poucos minutos (João 10,14-16) que a unidade acontece quando as pessoas estão ouvindo sua voz. "Eles vão ouvir a minha voz", diz ele, "e haverá um só rebanho e um só pastor." E assim, a implicação parece ser que, quando não há um só rebanho e um só pastor não estamos escutando a sua voz. Unidade vem quando todo o povo de Deus está todo a ouvir e reconhecer a voz de Jesus Cristo junto. E isso significa que o coração de nossa busca da unidade é muito simplesmente a busca pelo silêncio quando somos capazes de juntos, ouvirmos a voz de Jesus.

Quando nos reunimos como cristãos, devemos abrir nossos corações e nossas mentes para que possamos ouvir Jesus. Tentamos ouvir Jesus no outro, ouvir o que Jesus Cristo está dizendo a nós através da boca de um estranho, alguém com outra lealdade, outra teologia. Buscamos juntos, em silêncio, ouvir a palavra de Deus, na Escritura, na voz do povo de Deus ao longo dos tempos. E oramos para que quando estamos no ápice do silêncio suficiente, bastante livres, bastante pacientes, amando bastante, vamos ouvir sua voz. Então, e somente então, haverá um só rebanho e um só pastor.

A busca da unidade é muitas vezes um negócio de muito palavrório. Nós gostamos de falar sobre as coisas que nos interessam, dividem-nos, entusiasmam-nos e às vezes (cristãos sendo cristãos) temos muito gosto de falarmos entre nós em exaustão. Existem alguns tipos de diálogos ecumênicos (longe de mim para dar alguns exemplos), quando falar entre si exaustivamente parece um pouco como a ordem do dia. Mas hoje, pela graça de Deus, estamos aqui reunidos para ouvir: ouvir um ao outro, para ouvir a voz de Jesus. Estamos aqui também para lembrar d o Bom Pastor, como ele levanta bons pastores de sua igreja, levanta e concede dons com os quais as pessoas são capazes de fazer os outros ouvirem porque elas próprias ouvem a voz de Jesus.

Então damos graças a Deus pelo maravilhoso ministério entre nós do Cardeal Cormac, que certamente é o que estamos celebrando: um pastor, porque ele ouve a voz de Jesus, é capaz de deixá-lo ecoar em seu ministério. Cormac foi um grande servidor da unidade da Igreja, em grande parte devido ao grande dom de ouvir Jesus, de ajudar os outros escutarem, e de fazer muitas conversas ecumênicas em que ele esteve envolvido muito mais do que ruído competitivo.

Um bom pastor ecoa a voz de Jesus, porque um bom pastor tem estado pura e simplesmente a escutá-lo, paciente e silenciosamente. Ouça as pessoas o tempo suficiente, como todos sabem, e você começa a pegar alguns dos sotaques e as inflexões das pessoas que você está ouvindo. (Quando eu passo muito tempo o suficiente de volta em casa no País de Gales eu descubro que o meu sotaque do Vale Swansea retorna). Todos nós, eu acho, temos experiências similares: nós pegamos o som distinto daqueles em cuja companhia nós estamos. E a lição não é uma questão complicada. Se nós estamos indo captar e transmitir a voz de Jesus temos que passar um tempo em sua companhia, para que seu sotaque e o tom de voz seja a nossa.

Ouvimos o Evangelho e qual é o sotaque que nós ouvimos, qual é o tom que pegamos? É uma voz que é devastadoramente crítica do auto-engano de tantos tipos de religião, devastadoramente crítica da justiça própria e auto-satisfação. É uma voz que é mesmo capaz de soar com raiva ao ver o sofrimento dos filhos de Deus. É uma voz que rompe qualquer número de barreiras e obstáculos, para falar uma palavra de amor para o culpado ou os perdidos. É uma voz que na cruz grita em sofrimento inimaginável à Deus Pai e fica em silêncio depois de um grande grito. E é a voz que é instantaneamente reconhecível para os discípulos no dia de Páscoa quando se pronuncia a palavra 'Paz'. «A paz esteja convosco", a primeira saudação do Cristo Ressuscitado.

E assim nós buscamos ouvir, esses são os tons, os sotaques, que pegamos; que temos que tentar treinar nossas próprias vozes para ecoar. Ou melhor, se ouvirmos o suficiente - o silenciosamente o suficiente, pacientemente o suficiente, e carinhosamente o suficiente - é isso que vai ecoar na câmara de nossos corações e assim ser ouvido em nossas próprias vozes.

Sem isso não há reconciliação. Porque se é verdade que somente a Palavra de Deus pode trazer a paz definitiva para nossos medos, nossas guerras e as nossas rivalidades, é somente quando estamos em silêncio ansiando por essa Palavra, essa voz, que Deus pode romper e fazer a diferença.

Que Deus nos dê todo o silêncio e paciência para ouvir. Que o Pai nos ensine tudo o necessário para falar com o sotaque de seu Filho, e para proferir em nome de seu Filho aquelas palavras que irão quebrar barreiras. Que possamos aprender de novo e de novo para ouvirmos juntos, para ouvir uns aos outros e, então, pela graça e dom de Deus haverá "um só rebanho e um só pastor".

18 de janeiro de 2011

Para o coração de Deus

Oração pela paz
Leipizig, 1989, pouco antes da queda do muro de Berlim

Deus, Criador do céu e da terra,
Está na hora de que venhas,
Pois nosso tempo está acabando,
E nosso mundo passa.
Deste-nos vida com paz uns com os outros,
Nós a destruímos na luta entre nós.
No equilíbrio firmaste a tua criação.
Nós quisemos o progresso e nos arruinamos.
Vem, Criador de todas as coisas,
Renova a face da terra.

Vem, Senhor Jesus,
nosso irmão na caminhada.
Vieste para buscar o que está perdido.
Vieste até nós e nos achaste.
Leva-nos no teu caminho.
Esperamos pelo teu reino,
Assim como esperamos pela paz.
Vem, Senhor Jesus, vem já.

Vem, ó Espírito da vida:
Inunda-nos com tua luz.
Penetra em nós com teu amor.
Desperta nossas forças pelas tuas energias,
e permite que estejamos inteiramente presentes na tua presença.
Vem, Espírito Santo.

Deus Pai, Filho e Espírito Santo,
Deus triúno,
Unifica contigo esse mundo dilacerado
e faz com que nós, pessoas, nos tornemos eternos em ti,
unidos com toda a criação,
que te louva e exalta
e que está feliz em ti.
Amém.


Deus não é necessário para ganhar dinheiro, adquirir poder ou conquistar bem-estar. Também não é necessário para nos dispensar do mal, do sofrimento ou das desgraças da vida. Deus serve, para nós, crentes, para enfrentarmos com uma luz, um estímulo e um horizonte novo a dureza da vida e o mistério da morte.

José Antonio Pagola, autor de Jesus - aproximação histórica



Em breve, texto desenvolvendo o tema da postagem "Profanação"...

7 de janeiro de 2011

Profanação

"Sim", disse eu, "é essa, de todas as palavras humanas, a que arrasta consigo a carga mais pesada. Não há outra palavra que tenha sido tão conspurcada e aviltada. Justamente por isso não posso renunciar a ela. Sobre essa palavra as gerações dos homens colocaram todo o fardo de suas energias, rolaram-na e derrubaram-na por terra; ela encontra-se no pó, esmagada pelo peso de todos eles. Com suas divisões religiosas, as gerações dos homens a dilaceraram; por ela eles mataram e por ela morreram; ela carrega em si os vestígios e o sangue de todas as gerações. Onde poderia eu encontrar palavra igual para designar o Altíssimo? Se tomasse o conceito mais pura e mais brilhante do mais íntimo tesouro dos filósofos, não encontraria nele senão uma pálida imagem, mas jamais a presença daquele de quem estou falando, daquele que as gerações dos homens exaltaram e humilharam com sua vida e morte. É a ele que me refiro, é a ele que se referem as castigadas gerações dos homens que querem conquistar os céus. É verdade que eles desenham uma careta qualquer e escrevem embaixo 'Deus'; matam-se uns aos outros dizendo 'em nome de Deus'. Mas, quando toda a sua loucura e engodo passam, quando se defrontam com ele no mais recôndito de sua solidão e deixam de dizer 'Ele, Ele', passando a suspirar 'Tu, Tu', quando gritam 'Tu', quando todos gritam o Uno, e quando então acrescentam 'Deus', não é o Deus real que eles invocam, o Único Vivo, o Deus dos filhos dos homens?! Não é ele que os escuta? Não é ele que os ouve? E não é justamente por isso que 'Deus' é a palavra de invocação, a palavra que se tornou nome, por todos os tempos santificada, em todas as línguas dos homens?  Os que a rejeitam por se rebelarem contra a injustiça e os abusos dos que tanto buscam dominar os outros em nome de 'Deus' precisam ser respeitados, mas nós não podemos desistir. É compreensível que muitos proponham que por algum tempo não se fale das 'últimas coisas', a fim de remir as palavras que se têm profanado! Mas não é assim que essas palavras devam ser redimidas. Não podemos lavar a palavra 'Deus' nem podemos consertá-la, mas podemos, manchada e rasgada como está, levantá-la do chão e erguê-la nas horas de grande preocupação".

Martin Buber, prefácio de "Eclipse de Deus".

20 de dezembro de 2010

A Adoração do Novo Rei

Mateus 2
Depois que Jesus nasceu em Belém da Judéia, nos dias do rei Herodes, magos vindos do Oriente chegaram a Jerusalém e perguntaram: "Onde está o recém-nascido rei dos judeus? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo".
Quando o rei Herodes ouviu isso, ficou perturbado, e com ele toda a Jerusalém.
Tendo reunido todos os chefes dos sacerdotes do povo e os mestres da lei, perguntou-lhes onde deveria nascer o Cristo. E eles responderam: "Em Belém da Judéia; pois assim escreveu o profeta:
‘Mas tu, Belém, da terra de Judá, de forma alguma és a menor entre as principais cidades de Judá; pois de ti virá o líder que, como pastor, conduzirá Israel, o meu povo’ ".
Então Herodes chamou os magos secretamente e informou-se com eles a respeito do tempo exato em que a estrela tinha aparecido. Enviou-os a Belém e disse: "Vão informar-se com exatidão sobre o menino. Logo que o encontrarem, avisem-me, para que eu também vá adorá-lo".
Depois de ouvirem o rei, eles seguiram o seu caminho, e a estrela que tinham visto no Oriente foi adiante deles, até que finalmente parou sobre o lugar onde estava o menino. Quando tornaram a ver a estrela, encheram-se de júbilo.
Ao entrarem na casa, viram o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram. Então abriram os seus tesouros e lhe deram presentes: ouro, incenso e mirra.
E, tendo sido advertidos em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram a sua terra por outro caminho.
Depois que partiram, um anjo do Senhor apareceu a José em sonho e disse-lhe: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e fuja para o Egito. Fique lá até que eu lhe diga, pois Herodes vai procurar o menino para matá-lo".
Então ele se levantou, tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito, onde ficou até a morte de Herodes. E assim se cumpriu o que o Senhor tinha dito pelo profeta: "Do Egito chamei o meu filho".
Quando Herodes percebeu que havia sido enganado pelos magos, ficou furioso e ordenou que matassem todos os meninos de dois anos para baixo, em Belém e nas proximidades, de acordo com a informação que havia obtido dos magos.
Então se cumpriu o que fora dito pelo profeta Jeremias:
"Ouviu-se uma voz em Ramá, choro e grande lamentação; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque já não existem".
Depois que Herodes morreu, um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse: "Levante-se, tome o menino e sua mãe, e vá para a terra de Israel, pois estão mortos os que procuravam tirar a vida do menino".
Ele se levantou, tomou o menino e sua mãe, e foi para a terra de Israel. Mas, ao ouvir que Arquelau estava reinando na Judéia em lugar de seu pai Herodes, teve medo de ir para lá. Tendo sido avisado em sonho, retirou-se para a região da Galiléia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.



Conta-nos Mateus que Jesus fora visitado e recebera a adoração de Magos (Magoi). O termo se refere a sábios astrólogos. Diferente da lenda popular, a narrativa da Natividade não enumera muito menos menciona os nomes dos astrólogos. A astrologia era então misturada com a astronomia e era uma ciência que, nas regiões da Pérsia, Babilônia, Arábia do Sul, entre outras do “Oriente”, estava no mais alto degrau da escala das ciências, reservada para os mais disciplinados na busca da sabedoria.

Ainda que tendo em suas escrituras a proibição de adivinhações por consultas aos astros, os judeus da época dos séculos II a.C. a I.d.C. consideravam verossímil que os astros apontavam sinais de acontecimentos espetaculares do futuro. Também no mundo romano circundante era mais comum ainda esta noção, sendo que Augusto e outros imperadores perseguiram astrólogos devido a crença de que cometas, eclipses e estrelas prediziam a queda de governantes. Nero mesmo fora um que chacinou soberanos afim de que evitar que uma famosa profecia relacionada a um cometa se aplicasse à sua morte, mas a deles.

Seguramente menção de que ‘toda Jerusalém” ficara alarmada é uma hipérbole, muito embora a caravana dos astrólogos - sem dúvida não viajavam sozinhos – fora notada pela população. O fato de serem “pagãos” não afetava a consciência religiosa da coorte herodiana, visto que nas cidades que erguera cidades com presença de monumentos que os judeus consideravam “pagãos” em Sebaste, Agrippias, Antipátrida, Fasaelis, e outras. Ele sem dúvida estava bem ambientado no ideário dessas crenças.

Interessante na narrativa e que os líderes religiosos tinham ciência acerca da tradição do nascimento do Rei Legítimo em Jerusalém. E não se menciona reação alguma deles, mas apenas uma menção lacônica à profecia. Muito antes de Pilatos, os chefes dos sacerdotes e os escribas – que tinham prestígio e influência popular – lavaram as mãos. E isso diante de um tirano que em 37 a.C. executara todos os membros do sinédrio porque levantaram uma acusação de assassinato quando ele era governador da Galiléia.

Várias teorias foram formadas para tentar explicar a “Estrela de Belém”. Umas das mais consistentes, de acordo com análises astronômicas e culturais sobre aquele tempo, remetem a uma conjunção tripla Júpiter-Saturno-Signo de Peixes, destacada e levando para o ano 6 a.C., e a de uma hipernova tipo Ic, relacionando a data do nascimento para o ano 8 a.C.  Há algumas com menos probabilidade de correspondência, como as hipóteses do cometa Halley, 12 a.C. (muito tarde, embora pode-se encaixar com ano do nascimento de Jesus, haja vista que nele começara a haver um senso nas províncias da Síria, em que se incluía a Palestina), e a da “estrela teológica”, ou simbólica. Esta agrada alguns sabores, mas é implausível que o evangelista supusesse que uma estrela formada de anjos propiciaria ligações com a cuidadosa relação com os astrólogos, o mesmo se sucedendo em relação a uma estrela apenas simbólica, existente apenas na narrativa. De qualquer forma, não é prudente se apegar a cada detalhe do relato narrativo.

O retrato da paranóia de Herodes é convincente. Movimentos insurrecionistas apoiados na alegação de que a profecia estava se cumprindo conquistariam rapidamente vasto apelo popular. Afinal, estariam do lado daquele que seria o “escolhido por Deus”. Apesar de Herodes se encontrar doente, obviamente ele não levaria em conta que quando a criança crescesse ele poderia estar morto. Que grande tirano leva isso em conta? Ainda mais que rebeldes poderiam se insuflar antes dela crescer, diante do quadro opressivo, para abrir caminho e garantir seu reinado. Herodes naquele tempo executara seus dois filhos, Alexandre e Aristóbulo, por suspeitar que conspiravam. Massacrara todos os que suspeitara de estarem envolvidos num motim no fim do ano 5 a.C. já convalescente, em Jerusalém, tendo queimado vivos os líderes. Nem sua esposa escapou à sua sordidez.

Era natural de se esperar que o regresso dos "Magos" passasse por Jerusalém, visto que era a rota da estrada principal na direção norte de Belém. Por que arriscariam viagens mais longas e perigosas pelo sul, por Hebrom e Gaza, atravessando Nazaré, Cafarnaum e Damasco? Seria necessário imperativamente um motivo muito forte e urgente, relacionado às questões de poder...É inconcebível que Herodes não tivesse tomado atitude alguma. Seria também irracional conceber que Herodes iria se expor ao ponto de pessoalmente ir à Belém à frente de suas milícias. Toda a Judéia tomaria conhecimento, e a expectativa profética em relação a Belém não se extinguiria, antes se reforçaria, motivando rebeldes a alegarem que os tempos messiânicos chegaram, e inspiraria líderes amotinados. Uma débil demonstração de fraqueza.

Isto posto que Belém era uma vila de cerca de mil habitantes, distando menos do que 16 Km de Jerusalém. O massacre teria atingido pouco mais de duas dezenas de crianças. O Herodium, uma das fortalezas de Herodes era o local estratégico de onde partiram os guardas. O evangelista vira neste ato um eco ao pranto de Raquel em Jeremias 31.15.

As oferendas dos "Magos" eram preciosidades destacadas que o Oriente exportava como artigos de luxo nas caravanas: I Rs. 10.10; Sl. 72.10-15. A adoração dos "Magos", característica das reverências aos reis e deuses em sua cultura, fazia ressoar as profecias das homenagens que todas as nações prestariam ao Deus único. O que reforça ainda mais o contraste com os líderes religiosos.

O fato de José ter evitado as terras do cruel Arquelau, outro tirano filho de Herodes que assassinara 3 mil opositores de uma só vez, mesmo antes de ir à Roma reclamar sua herança, tendo ido uma delegação de judeus ao imperador implorar para não nomeá-lo como rei (Augusto acabara lhe dando o governo das terras, negando-lhe porém o título real) num tempo e local de extremada turbulência é compreensível. À primeira vista, porém, há de se estranhar ter procurado abrigo nas terras do outro filho de Herodes, Herodes Antipas. Mas uma investigação breve mas atenciosa afasta os receios. Antipas planejara um opulento plano de infra-estrutura e construção de cidades. Isso incluía Séforis, planejada para 25 mil pessoas. Isso seria trabalho garantido para carpinteiros e serralheiros, e Nazaré, um pequeno povoado, era próximo o bastante para a locomoção diária ao trabalho, bem como segura e de vida pacata comparada com a confusão de Séforis, além de mais barata para se estabelecer e morar.
 Salmo 72
Ó Deus, dá ao rei os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei.
Ele julgará o teu povo com justiça e os teus pobres com juízo.
Os montes trarão paz ao povo, e os outeiros, justiça.
Julgará os aflitos do povo, salvará os filhos do necessitado e quebrantará o opressor.
Temer-te-ão enquanto durar o sol e a lua, de geração em geração.
Ele descerá como a chuva sobre a erva ceifada, como os chuveiros que umedecem a terra.
Nos Seus dias florescerá o justo, e abundância de paz haverá enquanto durar a lua.
Dominará de mar a mar, e desde o rio até às extremidades da terra.
Aqueles que habitam no deserto se inclinarão ante ele, e os seus inimigos lamberão o pó.
Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Sebá oferecerão dons.
E todos os reis se prostrarão perante Ele; todas as nações o servirão.
Porque Ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude.
Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará a alma dos necessitados.
Libertará a sua alma do engano e da violência, e precioso será o seu sangue aos olhos dele.
E viverá, e se lhE dará do ouro de Sabá, e continuamente se fará por Ele oração, e todos os dias O bendirão.
Haverá um punhado de trigo na terra sobre os cumes dos montes; o seu fruto se moverá como o Líbano, e os da cidade florescerão como a erva da terra.
O Seu nome permanecerá eternamente; o Seu nome se irá propagando de pais a filhos, enquanto o sol durar; e os homens serão abençoados nEle; todas as nações lhE chamarão bem-aventurado.
Bendito seja o SENHOR Deus, o Deus de Israel, que só Ele faz maravilhas.
E bendito seja para sempre o Seu nome glorioso; e encha-se toda a terra da Sua glória! Amém e amém!