No cotidiano por entre o concreto e o asfalto, entre as buliçosas gentes distinguimos em meio a gastura da fuligem, sussurros soprados aos ouvidos.
Perambulando compenetrado em sensações vagas de nossa finitude quando temos de atravessar ruas do centro da cidade grande, como a Rua 04 de Goiânia altura com a 06 (ou 07), topei às 13:30h de uma terça-feira com uma cena excepcional: um caminhão da limpeza urbana municipal, atravessado à rua em suas ocupações com o que vai sobrando do nosso dever de existirmos e sermos percebidos, tendo em pé sobre seu para-choque traseiro quatro garis, mulheres com risadas tão abertas, francas e descontraídas que me chamaram a atenção. Notei os batons, brincos, penteados, cuidados de si e afirmações devida lavando estereotipagens que se poderiam impor sobre elas, que as roupas alaranjadas passaram a brilhar como enfeites de Natal.
Mas a energia dessa história toda jorrou de suas risadas, tão abertas que pareciam os arco-íris conduzidos por bolas de sabão brilhando com os feixes do sol.
O contágio foi imediato, o sorriso brotou em mim como nascente no campo, desconhecendo o motivo da alegria delas que talvez poderia ser os equilíbrios inexplicáveis da natureza imediata após o Big Bang, talvez um fenômeno que só o coração delas captavam a contra gosto do ruído dos carros e da agonia dos transeuntes. Ou algo mais natural e igualmente radiante, na macia e acariciante radiação daqueles risos que nem mesmo aquele cinza urbano eclipsa.
Em meu contentamento acenei com a cabeça para elas com o sorriso contínuo espontâneo. Quando passei, ouvi pela diagonal da orelha direita a observação de uma: “Pode sorrir, gente, porque isto não se costuma ver nunca não”.
A seguir fui fulminado com por um raio, primeiramente por um momento de vácuo de estupor no pensamento; logo após viera o som do trovão,intrepidamente veio de súbito a recordação de um trecho mordaz de uma das mais eletrizantes crônicas do G. K. Chesterton, “Os passarinhos que não cantam”:
E no final e minhas reflexões não consegui de fato chegar mais longe do que o sentimento subconsciente de meu amigo do banco –que há algo espiritualmente sufocante sobre nossa vida; não apenas sobre nossas leis, mas sobre nossa vida. Os bancários não têm canções, não porque são pobres, mas porque são tristes. Marinheiros são muito mais pobres. Enquanto ia para casa passei por alguma pequena construção metálica de algum tipo de religião, que era sacudida com gritos como uma trombeta que se rompe com seu próprio som. Eles estavam cantando, de qualquer forma; e tive por um instante uma impressão que já tivera frequentemente antes: que entre nós o sobre-humano é o único lugar em que se encontra o humano. A natureza humana está sendo caçada e escondeu-se num santuário.
Este final me remete – assumo a responsabilidade disso - ao corcunda Quasímodo, resgatando a formosa cigana Esmeralda da turbe furiosa e dos soldados do reino, levando-a lépido para onde recebiam um “salvo-conduto”, aos brados na torre: “Santuário! Santuário!”.
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Fotografia de Phillip Lorca diCorcia, do trabalho "Reflections oh the Streetwork" |
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