13 de junho de 2011

Ubiquidade

por Manuel Bandeira

Estás em tudo que penso,
Estás em quanto imagino;
Estás no horizonte imenso,
Estás no grão pequenino.
Estás na ovelha que pasce,
Estás no rio que corre:
Estás em tudo que nasce,
Estás em tudo que morre.
Em tudo estás, nem repousas,
Ó ser tão mesmo e diverso!
(Eras no início das coisas,
Serás no fim do universo).
Estás na alma e nos sentidos
Estás no espírito, estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás.

5 de junho de 2011

Significando o Reinado de Deus

Este sermão foi pregado alguns anos atrás, na ocasião de minha Confirmação (ou Crisma), pelo Reverendo John Kater, na Paróquia Anglicana de São João Batista, em Nova Lima - Minas Gerais. Ficou marcado para sempre, a força moral e o carinho da pregação.


                Que alegria estar com vocês neste Ofício quando nos reunimos com o bispo para celebrar uma vez mais a festa da SS. Trindade. Celebração especialmente festiva porque também temos a felicidade de testemunhar a confirmação de nossos irmãos e irmãs em Cristo. Que hoje afirmam a sua fé em Cristo e seu desejo de integrar-se profundamente à Igreja e a esta congregação do Corpo de Cristo. Espero que o meu português seja suficiente para comunicar-lhes minha alegria e também minhas reflexões sobre a leitura do Evangelho de hoje.

                Este domingo do ano cristão e o evento da confirmação que celebramos tem algo em comum, pois ambos nos fazem pensar em questões de identidade. A identidade nossa e a identidade de Deus. Na história de Nicodemos, Jesus confronta um homem seguro na sua própria identidade, um mestre, um rabino, uma pessoa considerada pelos judeus como “expert” nas coisas de Deus, uma pessoa respeitada pelo que é, pelo que sabe, pelo posto que ocupa na sociedade; uma pessoa segura no conhecimento que tem de Deus. Ele supõe que a sua identidade fica clara. Ele pondera que sabe quem é. E Jesus lhe diz que a identidade em que confia não é a identidade que importa. A identidade que importa é outra: é a identidade que temos como filhos e filhas de Deus. Isso significa que no fundo, no coração, a identidade que mais importa não depende do que sabemos, nem o posto que ocupamos na sociedade, nem quem eram nosso pai ou nossa mãe. A identidade que mais importa não se compra, nem se ganha, porque é um presente, um presente gratuito da parte de Deus. Por pura graça, só por amor, Deus nos adota como parte da sua família. Isso é o que significa nosso batismo. 

                 A água do batismo é o sinal e símbolo da vida. E como filhos e filhas de Deus temos herdado a promessa de Cristo que o nosso destino é a vida, e vida em abundância. Nossa identidade como cristãos, como filhos e filhas de Deus, nos faz membros de seu reino. Realmente é um nascimento, um nascimento novo como diz Jesus. Deus já nos conhece como seus filhos. A questão é, reconhecemos também nossa própria identidade como membros do seu reino? Vamos deixar que nossa vida seja dirigida pelos valores do reino ou pelo que nos dá o mundo? O mundo nos diz que devemos valorar mais que nada a nossa própria segurança, o nosso sucesso, os nossos interesses. O reino de Deus afirma que é mais importante viver em solidariedade com nossos vizinhos . 

                 O mundo nos dia que a violência é a maneira de obter o que desejamos. O reino de Deus é um reino de paz, porque se sabe que a violência sempre conduz a violência. O mundo nos diz que só devemos preocupar-nos com nossas próprias necessidades. O reino de Deus nos recorda que quando uma criança passa fome, Deus mesmo sofre a mesma dor. O mundo nos diz que sempre há ricos e pobres, poderosos e débeis, gente importante e gente sem valor. O reino de Deus nos promete um mundo de abundância onde já não existe miséria e cada pessoa é preciosa aos olhos de Deus. O mundo nos diz que há boa sorte e má sorte. No reino de Deus celebramos a vida como uma festa. O mundo nos diz que o que vemos na televisão, nos jornais, é inalterável. Que devemos aceitar o mundo como é. O reino de Deus é a promessa de Deus que tudo é possível, tudo pode mudar. 

                A confirmação é o momento quando aceitamos essa identidade que se tornou nossa no batismo. É o momento quando dizemos nosso próprio “sim” ao presente de Deus e ao seu reino. É o momento quando respondemos ao convite Dele e tomamos a decisão de caminhar como cidadãos do reino. E como Jesus explica a Nicodemos: Nossa participação no reino é assunto do Espírito Santo. Esse poder misterioso de Deus que fortaleceu Jesus para o seu ministério, que fortaleceu também os seus amigos na festa de Pentecostes e os transformou em ministros.

               Na confirmação celebramos a presença do Espírito Santo que também nos fortalece e nos faz ministros a serviço do mundo e dos nossos vizinhos para que a oração de Jesus seja cumprida: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”. A confirmação nos liga com esse sonho e essa oração. Realmente confirma a nossa identidade como filhos e filhas de Deus. Esta celebração também nos fala da identidade de Deus porque nós reconhecemos Deus como criador e como Palavra de amor e como Espírito de vida. 

               A doutrina da Trindade é um dos aspectos mais difíceis de ser entendido, de tudo aquilo que dizemos de Deus. Sempre devemos reconhecer que nunca vamos compreender por completo o ministério de Deus. Se não compreendemos as pessoas por completo, se nem compreendemos a nos mesmos por completo, como podemos supor que compreendemos quem é Deus? Não vou tentar explicá-lo, porque penso que é impossível “explicar” Deus. Porém se não o conhecemos por completo, de algum modo sabemos algo de Deus. Porque Deus mesmo quer que saibamos algo de como Ele é. Quer que saibamos que Ele é quem criou este mundo. A vida não é acidente, não é sem valor. Foi sonhada por Deus e portanto é sagrada, digna de nosso cuidado. E sabemos algo do amor de Deus, por conhecemos a história de Jesus Cristo, o amor divino feito carne para nós. Jesus é a palavra de Deus porque na sua vida e morte aprendemos algo de quem é Deus. 

                Apreendemos que não é um Deus ausente, nem um Deus desinteressado. Porém um Deus disposto a fazer tudo para dar-nos um “bem vindo” ao reino. A fazer tudo para que compreendamos com quanto amor Ele nos abraça e nos convida a sua festa de vida. Também temos aprendido do Espírito de Deus, a sua maneira atual de viver conosco. O Espírito que nos anima e nos dá força para confrontar qualquer ameaça, qualquer desafio, porque sabemos que nesses momentos não somos solitários, mas companheiros do Deus da vida e do amor. 

                Sim, a identidade de Deus fica misteriosa, mais profunda. Mas neste dia quando lembramos a SS. Trindade, o Deus criador, Palavra e Espírito, lembremos que é esse Deus a cujo reino pertencemos. Que é esse Deus em quem confiamos nossa fé. Que é esse Deus que hoje nos acompanha e que agora abraça essas pessoas confirmadas e cada um de nos. Que é este Deus, o Deus de Jesus Cristo, o Deus do Espírito Santo que agora nos convida à mesa para encontrarmo-nos com seu filho Jesus, como também filhos e filhas de Deus e, como irmãos e irmãs uma vez mais receber a sua vida no pão e vinho, símbolos de seu amor e da vida que nos une

Amém.

30 de maio de 2011

Vagas para voluntariado

http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorAgronomo.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorCoordinador.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorGestiondeRiesgosyGenero.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorNutricionista.pdf



http://www.unv.org/fileadmin/docdb/pdf/2011/UNV_volunteer_vacancies/ElSalvadorPedagogo.pdf

Acontece em Goiânia

O Grupo de Vivência Ecumênica promove dia 30 de Maio, segunda feira, às 19 horas, mais um encontro de reflexão sobre espiritualidade.

Na ocasião na qual estará presente e falará a Reverenda Tatiana, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Diocese de Brasília. Ela é a coordenadora regional do movimento ecumênico da juventude no Centro Oeste. Uma boa oportunidade.

Será também o último encontro antes da Semana da Unidade dos Cristãos (5-11 de junho) e servirá para os detalhes finais da preparação.

Que a Unidade almejada por Cristo nos anime e nos fortaleça!

24 de maio de 2011

Entre raposas e aves

Indo eles caminho afora,
alguém lhes disse:
“Seguir-te-ei
para onde quer que fores.”
Mas Jesus lhe respondeu:
“As raposas têm seus covis,
E as aves do céu, ninhos;
Mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.” 
Lucas 9, 57-58

Parece que podemos ver um certo padrão em Jesus, ao ser abordado, muitas vezes se parece meio que “arisco”, ou pronto para desarmar a pessoa que o abordou. Ainda que no decorrer do trato com a pessoa, sua postura mude completamente. Podemos ver isso com o Jovem Rico, com a mulher siro-fenícia, e agora aqui com o voluntário impetuoso.

Tal passagem costuma ser enquadrada numa seção com o título “O preço do discipulado”. Poderemos ver que tal enunciado capta em parte o que se passa e o dizer de Jesus.

À primeira vista, realmente Jesus está colocando para a pessoa que o seu caminho passa por privações, e não pompa; requer abdicação, requer aceitar estar com um estilo de vida em que se abnegou de muita coisa para seguir o caminho. Até mesmo em relação à provisão que é feita para os seres da natureza, seu caminho exigiria aceitar privações.

De fato, o autor do evangelho já nos tinha trago antes um quadro em que apresenta que “é necessário que o Filho do Homem sofra”. Lc. 9,22.

Tal apelo encontraria, anos mais tarde, certo eco no testemunho de Paulo para os Filipenses: “Falo assim não por causa das privações, pois aprendi a adaptar-me às necessidades; sei viver modestamente, e sei também como haver-me na abundância; estou acostumado com toda e qualquer situação: viver saciado e passar fome; ter abundância e sofrer necessidade. Tudo posso naquele que me fortalece.” Carta aos Filipenses, 4.11-13.

Mas há algo mais, que superficialmente, passa despercebido para nós.

Lucas 13, 31-32: “na mesma hora, aproximaram-se alguns fariseus que lhe disseram: ‘Parte e vai-te daqui, porque Herodes quer te matar’. Ele respondeu ‘Ide dizer a essa raposa: “Eis que eu expulso demônios e realizo curas hoje e amanhã e no terceiro dia terei consumado!

Em Ezequiel, no capítulo 13, o profeta profere imprecações contra os falsos profetas de Israel que são considerados ardilosos, que iludem e manipulam: “Assim diz o Senhor Yahweh: ‘Ai dos profetas insensatos, que andam segundo o seu próprio espírito e nada vêem. Os teus profetas, ó Israel, são como raposas no meio de ruínas.” VS 3-4.

Costumava-se associar as nações gentias em torno de Israel com “as aves do céu”. Observem na parábola do Reino de Deus e o grão de mostarda, em Mateus 13, 31-32. Claramente há ali representações simbólicas. E evoca as expectativas proféticas das nações gentias vindo adorar e comungar no Novo Israel restaurado.

Podemos ver uma aplicação impactante neste interpelar de Jesus ao voluntário impetuoso então. Se as expectativas messiânicas dele fosse de um “filho de Davi”, glorioso, buscando poder e pompa, com toda a mesma lógica dos poderosos do mundo, era a companhia deles que a pessoa deveria buscar. A lógica do caminho de Jesus é oposta à lógica dos poderosos, à lógica do poder mundial.

Para subverter os poderosos e sua dominação e exploração, não basta assumir a racionalidade deles e tomar o poder deles; é necessário subverter essa racionalidade, para deslegitimá-la e apontar um novo caminho para os oprimidos.

16 de maio de 2011

Hino Pascal, pelos Monges de Valaam

Belíssimo Hino Pascal, entoado pelos aclamados Monges de Valaam





Seu Dia da Ressurreição,
Povos, irradiar alegria!
Sua Páscoa, a Páscoa do Senhor,
da morte à vida,
da terra ao céu,
Cristo, Deus tem nos levado,
Cantem o hino da vitória!


(...)

O Angelo gritou para a cheia de graça: Alegrai-vos! Também vos digo: Alegrai-vos, pois o teu Filho ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia... brilhai, brilhai nova Jerusalém, para a glória do Senhor!
Brilha e Alegra-te e esteja feliz, oh Sião! Alegrai-vos e exultai!
E tu, ó Pura, ó Mãe de Deus, Exaltai na ressurreição de seu Filho.

9 de maio de 2011

No caminho de Emaus

Uma passagem estritamente lucana, constando apenas neste evangelho; pergunta-se então sobre quais as fontes... Possivelmente, pelas referências explícitas a Cléofas na passagem, adviera de algum recolhimento de um testemunho deste na comunidade cristã nascente e apresenta-o então como alguém muito considerado e de papel importante na atividade proclamatória de Cristo, ou na exortação dentro desta.

Importante isto à luz do clima do quadro de suas caminhadas à Emaús. Era um clima lúgubre. Soturno. Talvez de frustração. O que mostra a melhor perspectiva que ficaria de Jesus caso sua história terminasse na cruz: no máximo, teria sido mais um profeta que indicaria o caminho e a vontade de Deus ao povo, levantara expectativas de redenção para Israel, e ficaria martirizado. Sobretudo, de forma alguma seria considerado mais como O Messias nem proclamado como tal.

Jesus vai ao encontro deles; os encontra e os busca na profunda situação de senso de falta de sentido, de vazio, de abismo escuro. E no encontro com eles, vai lhes dando sentido e nova perspectiva. Agora assim já vão abrindo seus corações para a Revelação dele... que vontade louca de saber como que Jesus expôs as Escrituras...

Então eles o acolhem. O convidam para entrar.

É digno de cuidado não deixar passar despercebido o momento em que é reconhecido: no partir do pão! É como recapitular neste momento fenomenal tudo o que a vida de Jesus representou, seu projeto, seu ensino, sua autoridade. A comunhão, partilha revestida com um senso de assim estar na atmosfera do Sagrado! E Jesus Ressuscitado vem à tona! A continuidade entre Jesus em seu ministério terreno e Jesus Ressurreto é plenamente frisada! E o detalhe de seu “sumiço” não é apenas um tipo de relato milagroso exaltador hagiográfico. Se assinala enfaticamente nas narrativas da ressurreição algo muito estranho: ao mesmo tempo a materialidade de sua natureza, a fisicalidade dela, no caso nosso aqui, caminhando, partindo o pão... onde faz sentido o aparentemente paradoxal tema paulino do “corpo espiritual”, não mais sujeito à deterioração, um corpo de natureza espiritual... e também há cenas de uma supra-materialidade, parece que a realização da expectativa da ressurreição material clássica dos judeus no tempo dos martírios do século II a.C. com a idéia da libertação dos limites e da decomposição material deste mundo. Uma nova natureza, e um atesto para a esperança para a Nova Criação.

Jesus some, num momento em que as testemunhas provavelmente iriam querer detalhes sobre o que ocorrera durante este tempo; iriam querer detê-lo, propô-lo muitos projetos... Mas ali Jesus parte como que dizendo que o que fez foi confirmar o sentido de sua missão, reafirmar o seu comissionamento, e enviá-los ao mundo para dividir com todos esse encontro com ele no partir do pão, na leitura profética das escrituras apontando para sua vitória sobre o mal...

Partilha, algo bem materno. Pois no geral, é um dom bastante materno, em que inclusive, na carência, mães costumam abdicar de si para seus filhos...