8 de junho de 2014

Quem é Deus, e como amar a Deus?

            Um sermão pregado por Richard Bauckham, na igreja de Santo André, na Escócia.


Êxodo 34:1-10 e Mateus 22:34



Nossas duas leituras de Êxodo e Mateus contêm algumas das mais importantes coisas que a Bíblia tem a nos dizer sobre Deus. A primeira passagem é o culminar da revelação de Deus de si mesmo à Moisés e ao povo de Israel no Monte Sinai. Depois de Deus ter dado os dez mandamentos, depois do povo ter rejeitado a Deus e, ao invés disso, dado sua devoção ao bezerro de ouro, e depois de Deus tê-los perdoado, então substitui as tábuas de pedra que Moisés quebrara, as tábuas com os dez mandamentos escritos sobre elas, e então Deus vem à Moisés e garante que depois de tudo isso Moisés realmente sabe quem é Deus, quem esse Deus que escolheu Israel para seu povo realmente é. Se Israel está para conhecer este Deus que é agora seu Deus, se Israel está para ser dedicado a este Deus e nenhum outro, então não deve haver imprecisão ou confusão sobre a identidade de Deus.

Assim, Deus se identifica - de duas maneiras. Primeiro, não é o seu nome. Há um importante ponto que é sobre a tradução de nossas Bíblias que eu deveria explicar se vocês ainda não sabem disso. Se você olhar para esta passagem na maioria das traduções do Antigo Testamento, você vai achar que o nome de Deus é dado como “O Senhor” - com a palavra Senhor escrita em letras maiúsculas. Essa é a maneira convencional de representar o nome hebraico de Deus.

Não é realmente uma tradução, é uma espécie de substituto para o próprio nome. E as traduções da Bíblia usam-no porque esta é uma prática que já vinha sendo seguida pelo povo judeu na época de Jesus e do Novo Testamento. Trataram o nomear divino como sagrado demais para se pronunciar. Eles não queriam que o nome de Deus viesse a ser atirado ao vento como qualquer nome tal qual Tom, Dick ou Harry. Este é o nome que nomeia quem é Deus. E assim, quando leem as escrituras, eles não dizem o nome, eles substituíram pela palavra 'Senhor'. E as nossas traduções têm seguido essa prática, de modo que onde quer que você encontre Senhor em letras maiúsculas no AT, ela destaca o uso do nome hebraico de Deus. Onde não está em letras maiúsculas, isso não acontece.


Eu sigo essa prática judaica de não dizer o nome próprio divino, porque era seguida por Jesus e os primeiros cristãos, e eu não vejo por que devemos mudá-la. Também é ofensivo aos judeus usar livremente o nome divino na forma que alguns estudiosos bíblicos cristãos fazem. Então eu evito isso.

Mas é um nome, e isso é muito importante. O Deus de Israel tem um nome, um nome pessoal, um nome que se destaca pela sua identidade, a forma como os nossos nomes representam nossas identidades.

O que ‘Richard Bauckham’ significa sou eu, a mim e nenhuma outra pessoa. Se você usar o meu nome é porque você está querendo me distinguir de qualquer outra pessoa de quem você pode estar falando ou qualquer pessoa que possa ser confundida comigo. Ele identifica com exclusividade quem eu sou. Assim, com o Deus de Israel e o Deus de Jesus Cristo. Este Deus não é um princípio ou ideia, não uma divindade vaga que podemos retratar em qualquer forma geral que nós escolhermos, não é uma deidade que podemos adaptar às nossas necessidades ou desejos, como nós escolhermos. Este Deus tem uma identidade única, que Ele nos dá a conhecer, para que possamos conhecê-lo.

No N.T. este Deus adquire um novo nome, porque ele se revela a nós em Jesus Cristo. Eu disse, como pregadores muitas vezes fazem, antes de começar este sermão, "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O Nome trinitário de Deus. É a abreviação de "Deus Pai de Jesus Cristo, Deus Filho Jesus Cristo, e Deus o Espírito de Jesus Cristo”. Isso significa: Deus como nós o conhecemos em Jesus Cristo. Em certo sentido, é nova identidade de Deus, mas não é nova, no sentido de substituir o antigo. Deus não descartou sua nomeação hebraica. Deus ainda é o Senhor, nesse sentido especial.

Então para Moisés Deus proclama o seu nome e a outra coisa que Ele faz nesta passagem é revelar Seu caráter. Aqui temos a grande descrição do personagem de Deus no A.T.- para o qual o A.T. remete novamente e novamente, e ao qual o N.T. também se refere novamente em pelo menos uma ocasião muito importante que irei mencionar em um momento. Nós sabemos quem é Deus porque este é o tipo de Deus que é, esta é a maneira como se relaciona conosco e lida conosco . Ele diz:
O Senhor, o SENHOR, [insistindo em seu nome exclusivo] é um Deus misericordioso e clemente, lento para a cólera e cheio de amor e fidelidade, mantendo misericórdia até a milésima geração, que perdoa a iniquidade , a transgressão e o pecado, mas de modo algum compensando o culpado ...

O que essa descrição característica diz sobre o personagem Deus? Repare que é tudo sobre a forma como Deus se relaciona com o seu povo. Deus é, reconhecidamente, esse Deus, porque esta é a maneira como Ele lida conosco. Ele é um Deus que se preocupa com entusiasmo com o seu povo e se envolve com eles. Ele se importa apaixonadamente que eles sejam o melhor possível que eles sejam. E assim ele nos ama e ele é muito paciente conosco. Ele perdoa. Ele suporta as formas que nós mantemos erradamente - a maneira como Israel teve com o bezerro de ouro apenas alguns dias antes. Ele é paciente e tolerante, mas isso não significa que ele tolera o nosso pecado abundando – o poderoso pai indulgente, o tipo que, afinal, não se importa em como a criança se comporta e como se sai. Esse tipo de indulgência se dá em função de realmente não se importar. Deus cuida apaixonadamente que sejamos o tipo de pessoas que Ele nos fez para ser. E assim ele não ignora o pecado. Ele não se comporta como se não importasse. O culpado é culpado. Mas Deus está sempre pronto a perdoar. Ele não desiste de seu povo.

Eu disse que há uma importante referência a esta passagem no N.T., e chega próxima ao início do Evangelho de João, onde João está descrevendo o que acontece quando Deus se torna humano na pessoa de Jesus Cristo. (João 1:14): “a Palavra (de Deus) se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória do Filho único do Pai, cheia de graça e de verdade ...” Essa última frase, "cheia de graça e de verdade", vem de Êxodos 34. é uma referência abreviada para a descrição do caráter de Deus em Êxodo. Êxodo diz 'cheio de amor e fidelidade"- João traduz que: "cheia de graça e de verdade". Então, o que isso significa é que o caráter do Deus de Israel é para ser visto na vida humana de Jesus Cristo. O mesmo Deus, o mesmo personagem, mas agora em um sentido Ele pode ser visto (como Moisés não podia ver) em pessoa, o caráter, a vida de Jesus.

Assim, Deus tem um nome pessoal e um caráter pessoal. Nós sabemos quem é Deus. Então, como nesse caso devemos responder a Deus? Vamos voltar à nossa leitura do Evangelho, na passagem em que Jesus seleciona a partir da lei os dois grandes mandamentos. Você vai estar muito familiarizado com isso, porque na verdade nós lemo-lo em todos os serviços de Comunhão. Um dos fariseus, um professor profissional da lei de Moisés, pergunta a Jesus qual é o maior mandamento entre todos os mandamentos que Deus deu a Israel por meio de Moisés. É o tipo de pergunta que os professores judeus na época de Jesus discutiam. A lei de Moisés contém centenas de mandamentos. Então, quais são os mais realmente importantes? Existe um que resume todos os outros? Existe um que resume para nós sobre o que toda a lei é realmente concernente?

O primeiro mandamento que Jesus seleciona é o mandamento "amarás o Senhor, teu Deus ("Senhor" não significa aquele nome hebraico pessoal de Deus, que é o Deus que devemos amar)... amar o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda tua mente." No tempo de Jesus, bons judeus observantes recitavam esse mandamento diariamente em suas orações cotidianas. Eles eram ainda mais familiarizado com ele do que nós. O segundo mandamento que Jesus seleciona diz como ele é- porque é também um comando para o amor-, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Tudo o mais no A.T., diz Jesus, paira sobre esses dois mandamentos. No final do dia, eles são ao que tudo diz respeito.

Estou refletindo esta manhã principalmente no primeiro, o mandamento de amar a Deus com tudo o que somos e temos. Mas note como isso é diferente do mandamento de amar os nossos próximos. Devemos amar os nossos próximos como a nós mesmos, ou, como Jesus diz em outro lugar, fazer a eles como gostaríamos que fizessem a nós. Mas é só Deus que é para ser amado com todo o nosso ser. Eu me pergunto quantas pessoas seculares comuns hoje em dia poderiam imaginar a religião como algo assim. Não como algo que as pessoas religiosas prestem alguma atenção a ao lado de outras preocupações de nossa vida, mas como devotar tudo o que somos e temos e fazê-lo para Deus. Mas se Deus é Deus, essa deve ser a única forma apropriada de se relacionar com Deus.

Amar a Deus com todo o nosso ser significa, por um lado, que algumas coisas são excluídas da nossa vida - qualquer coisa inconsistente ou competindo com o amor de Deus. Mas, por outro lado, isto significa que todos as boas e apropriadas preocupações da vida humana estão incluídas no âmbito do amor de Deus. Não apenas, por exemplo, pregar este sermão é o tipo de coisa que eu deveria fazer para o amor de Deus, mas também a obtenção de um bom sono na noite passada, comer meu café da manhã, aproveitar a caminhada para a igreja - o amor de Deus inclui todas estas coisas, quando estamos verdadeiramente dedicando tudo que somos e temos e fazemos, para Deus. Em outra ocasião, perdendo o sono ou o café da manhã pode ser o que o amor de Deus requer de mim. Viver para Deus significa dever estar atento a essas possibilidades. Mas é só porque amar a Deus é uma noção grande o suficiente para incluir todas as preocupações adequadas e as atividades de nossa vida humana que podemos amar a Deus com todo o nosso coração, mente e alma e força. Em certo sentido, devemos fazer todas essas coisas para o amor de Deus. Isso não tira qualquer valor dessas coisas em si. Muito pelo contrário: tudo se torna inteiramente o que deveria ser quando é dedicado a Deus.

Porque Deus é Deus, o Deus de todas as coisas e todas as pessoas, o Deus que se importa com todas as coisas e todas as pessoas, dar-nos inteiramente a Deus é o caminho a ser verdadeiramente humano. Mas dar-nos inteiramente a outra coisa senão Deus rebaixa e distorce a vida humana, porque nada menos do que Deus pode nos satisfazer como as criaturas que Deus nos fizera. Devotar-nos a algo menos do que Deus é idolatria. Todos os tipos de coisas boas que são partes boas da vida humana quando tomam o seu lugar dentro do amor de Deus, ordenada pelo amor de Deus, tornar-se destrutivas se tentarmos viver para elas. O futebol é uma boa coisa em seu lugar, mas para torná-lo a principal preocupação em sua vida, subordinando tudo a ele, seria empobrecer a sua vida e distorcê-la. Mesmo maravilhosamente boas causas - digamos que você dedica a sua vida à pesquisa de uma cura para o câncer: se realmente domina a sua vida completamente então nada que não contribui para isso é qualquer preocupação para você- o que tornaria até mesmo uma boa causa em um ídolo e em algo que estraga a vida humana. Deus é a única coisa grande o suficiente para merecer a nossa devoção total.

É por isso que não podemos simplesmente desabar o primeiro mandamento no segundo. Não podemos apenas dizer que amamos a Deus, amando o nosso próximo. Amamos a Deus amando ao próximo, mas isso não é tudo. Mesmo amar o nosso próximo não é grande o suficiente para abranger tudo em nossas vidas. Ele pode e deve abranger uma grande soma. Mas não tudo. Por exemplo, quando eu gosto de algo verdadeiramente belo eu tenho um tipo de experiência que é muito importante na vida humana. Não é uma forma de amar o meu próximo, mas pode tornar-se parte da meu amor a Deus com todo o meu ser .

Assim, o amor de Deus é o único amor que realmente pode e deve incluir todas as outras preocupações da vida. Incluí-las em nosso amor por Deus, tanto as acentua como também as mantém em seu lugar, impedindo-as de dominar e tornar-se ídolos. E, finalmente amar a Deus com todo o nosso eu, dá uma unidade às nossas vidas que nada mais pode dar.

Sem Deus nossas vidas são coleções de fragmentos. Estamos ventilados desta forma e por todos os tipos de diferentes preocupações e interesses que exigem de nós. Existe algo que pode soldar todas estas coisas juntas em uma vida, um projeto, um todo pleno de significado? Somente o amor de Deus.

Eu dissera que o amor de Deus pode incluir tudo o resto de nossas vidas. Então não é que, quando eu estou fazendo minhas compras eu não estou amando a Deus. Mas, se a nossa vida é para ser vivida par amor de Deus, então deve haver momentos que deixamos de lado para nos voltarmos apenas para Deus. Somente pela adoração e oração que aprendemos a amar a Deus acima de todas as outras coisas e que podemos também aprender a amar todas essas outras coisas corretamente, para o amor de Deus.
 

19 de março de 2014

A luta contra o reflexo

No clássico “A História Sem Fim” aparece um tema muito comum em sagas congêneres. Atreyu tem que enfrentar como desafio último o espelho. Teria de topar com um espelho que revelava a pessoa tal como é, sem as formas e truques com que se engana - inclusive a si próprio. Há muitas estórias com este desafio de se enfrentar o reflexo de si próprio.

Na esteira da Segunda Etapa da última Guerra Mundial, o que se diz ser “Civilização Judaico-Cristã Ocidental” ou o “Ocidente Moderno”, era amplamente e corriqueiramente antissemita (nos EUA, muitas escolas não aceitavam judeus, e com muito custo foi-se estabelecendo um percentual máximo permitido, como 6%, etc.); a eugenia grassava alegremente e era pauta mesmo das sociedades científicas “esclarecidas” a ideia de selecionar os humanos “superiores” e exterminar as “aberrações”. Tudo embebido no rito social, tudo sociabilizado.

O Nazismo com sua fúria impetuosa pegou estes elementos, perdeu a inibição e espicaçou o cinismo; e ao limite levando, mas sem incoerência, ele tudo isto foi pavorosamente lançado na na cara do mundo; a partir daí o mundo percebeu, meio encabulado, o horror e vergonha que era. Começou a se aceitar que era vergonhoso (ainda que os ciganos nunca foram recompensados e que a eugenia continuou por parte de empresas e governos, mas mascarada ou camuflada longe da atenção pública). Ficou mais difícil – até quando? – legitimar novamente dentro do rito da vida social.

Por detrás das reações das pessoas à tal da “cultura da ostentação”, com fenômenos por vezes bizarros, há um cinismo em parentesco, uma razão cínica. Porque o que ela vem fazendo é jogar na cara igualmente nossa que é o que move nossa sociedade hoje, mas é claro, ritualizado com desfaçatez na liturgia do sociabilizado. A racionalidade por detrás da “cultura da ostentação” está presente nos encontros informais de amigos de escola, colegas de profissão, está presente quando se sai ao trânsito, em diversos meios de confraria social; está subjacente às buscas, aspirações e sonhos. É a marca do senso de valor pessoal de fato, é o norte da escala de valores, está em manifestações religiosas e também de apelo laico ( ou laico na aparência ).

Talvez haja um medo secreto de que acabe se configurando tal racionalidade como algo vergonhoso também. Por isto o escândalo cínico. Se tem percebido que para grande parte das pessoas, se pudessem escolher, prefeririam que o mundo acabasse, que tudo se colapsasse, do que ter de abrir mão disso.
arte de Gerhard Richter


Quantas outras coisas mais têm vindo à tona neste sentido, esperando um outro “Reich” pra fazer o mesmo que aquele? 

10 de outubro de 2013

Uma prece pela respiração

Pai, de fecunda Eternidade,

me ajude, em mim e sobre mim, ao meu lado, a ser mais centrado em Ti para estar mais centrado quando passo pelas espirais da vida; mais aberto a Ti quando sufocado, e para que mesmo de quando meus turbilhões internos, possa escutar melhor ao próximo.

Ajude-me a me organizar melhor para que lhe deixe presente no comum e cotidiano, a ser mais atencioso com o que vivo no presente, não perdendo a dimensão da eternidade em minha consciência. Me ajude, me ajude a amar mais e melhor ao meu próximo como queres, e cuidar mais responsavelmente de mim. Que seja mais sensível e respeitoso com Teu Espírito Santo, em mim, no mundo, na criação. Que leve mais a sério a realidade de que Jesus Cristo é o amado do vórtice do meu ser, o referencial e com quem meu fôlego aspira ser unido, o sentido que pode dar significado à minha vida. E que significa muito que o Senhor se importa conosco e não desiste de nós, a despeito de nós mesmos. Me ensine a valorizar melhor as pessoas importantes de minha vida, não só esperando raros momentos de arrebatamento, mas no esforço do normal. Me ensine a ser mais grato e vivo.

Amém, amada Fonte.

Louvo-te e a Ti dou graças por Tua imensa Glória.

22 de setembro de 2013

A parábola do Senhor Magnânimo

E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo. 
E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.
E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta. Disse depois a outro: E tu, quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta.
E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.
E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.
Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.
Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?
E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?
Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom [Riquezas].


Alguns movimentos sectários no judaísmo dos tempos de Jesus buscaram e apartar da sociedade que para eles, já estava condenada; se consideravam os “Filhos da Luz”, dividindo o campo humano entre eles e os “filhos das trevas”. Em um documento [ os documentos citados a seguir foram extraídos de David Flusser, “Judaísmo e as Origens do Cristianismo”, vl.1, cap. 9] da comunidade de Damasco lê-se que deviam “manter-se à parte dos filhos da perdição, a saber, a abster-se da riqueza impura da iniquidade” - Documento de Damasco 6,14-15. Se separavam assim da vida social e isso incluía o sistema econômico, com o qual a pureza ritual a que consagravam suas vidas se contaminaria, em que os outros “maculam-se nos caminhos da idolatria e da riqueza da iniquidade”. Doc. Dam. 8,5

Em Qumrã há documentos em que se apresenta a postura que concebiam de Deus em relação a isto, “Não mostrarei ciúme do espírito do mal e minha alma não cobiçará a riqueza da iniquidade (...)” 1QS 10,17-20.

O sentido da “riqueza” nos Manuscritos do Mar Morto apresenta-se como algo derivado do modo de vida corrompido dos estranhos às comunidades sectárias, “Assim, nenhum membro será unido com ele em sua obra ou em sua riqueza, para que o membro não se macule com iniquidade culpada, mas se manterá distante dele em cada questão(...) e todas suas ações são sujidade perante ele e a impureza está em todas as suas riquezas”. 1QS 5,14-20.

Nesta parábola podemos então presenciar um notório diferencial de Jesus em relação ao ethos de movimentos religiosos sectários, com uma ética orientada positivamente: menos do que fugir da contaminação, o ideal é produzir algo de bom. Diante das “riquezas da iniquidade”, menos do que fugir do mundo, se é chamado a desviar de produzir maldade para produzir o bem ao próximo.

O administrador desonesto, caracterizado como “infiel” e “filho das trevas”, é alguém que e encontra surpreendido e iluminado em sua condição condenatória ante ao seu senhor. É envergonhado e digno de castigo e reclusão. E sua condição é deixada clara: o senhor o demite, ele não tem mais condições de cuidar dos bens. Mas ele vê ainda a misericórdia deste senhor: ele não é enviado à prisão ainda. Pode ser um sinal de que ele tem ainda a oportunidade de ser uma nova pessoa aos olhos de quem ele prejudicava. Ele extorquia os colonos arrendatários que pagavam com parte da colheita como aluguel, se apropriando do que recebia “por baixo do pano” e assim também, ele que provavelmente recebia uma comissão do senhor pelos contratos, agia desonestamente para com o patrão. Ainda que sem status legal mais para negociar com os arrendatários, ele age ainda como espertalhão, chamando os devedores, chama um por um para poder realizar sua trama, sem que já passem a lhe considerar um sujeito pária, sem legitimidade para tratar com eles, e desta forma eles presumem que a transação é legítima. Eles então acreditam que o senhor autorizou diminuir suas contas, como um abono.

Provavelmente os colonos festejaram neste caso a magnanimidade do senhor de terras para com suas situações devedoras. E o senhor se dá conta do que aconteceu. E foi se fiando nesta magnanimidade e generosidade que o mordomo agiu, ele que reconheceu sua culpabilidade não tendo se queixado da demissão; pois não concebesse assim, estaria mais perdido do que antes. Ele arriscou-se totalmente. E nessa generosidade o senhor das terras pagou o preço pela liberdade e restauração da reputação do mordomo ante à comunidade, e a quitação da situação de endividamento dos arrendatários. E age em sua graça.


15 de setembro de 2013

Percurso

Este é o texto 'Percurso", ao qual me referi na última crônica postada no "Cristianismo, Meramente".

Ele começou a se formar, para depois com ele aflorar um “si próprio”, sem alguma expressiva anunciação. Sim, projetava-se uma meia luz galgaz entrecortada, em passagens ao redor do ventre vogante que se contorcia (de dor?), uma ou outra meia-luz lívida como um reflexo de adaga úmida à pedra; por onde ele dimanaria, era uma mandala alvacenta que ia tomando a forma de um bolor. Nasceu.

Mas não houvera aquela cerimônia de um estrondoso ribombar de surdos de flandres, marchas de hostes e rasgados de carnes irradiadas e fulgurosas. Não houvera bailados de chicotes argênteos incandescentes. Mas um abafado - não de todo silente - gorjear de bolores aeriformes que foram ficando caldeados e túrgidos, como uma espuma de um sumo de chumbo.

Dimanara em um dia que veio sem chegar a nascer, em meio a incontáveis irmãos e irmãs. Falavam desvairadamente todos ao mesmo tempo, como num almoço de domingo em família numerosa de italianos, uma grande e amorfa família. Todos estavam vislumbrados e já nostálgicos, se cumprimentando e despedindo ao mesmo tempo.

Ficou maravilhado por ver aquele mundo para o qual saiu! Ele estava embebido nos brandos raios de claridade que nesse caldo, caldo tênue, invade e se esconde atrás das formas. Eram todos impelidos por uma força ignota, singrando um oceano de ar, e ela conferia um sentido para seus nascimentos e vidas, embora sem dar significado para suas existências - não sabiam em quê elas consistiam, para onde eram levados e afinal, o que realmente estavam fazendo. Não podiam superar a força, apenas continuar rasgando a resistência do vento que ao soprar dava contorno parabólico e distorcido às suas trajetórias.

Constatava que em meio aos irmãos e irmãs faziam algo que não seria apenas obra da diáfana luminosidade, ela não seria capaz de tanto; transfiguravam-lhe a frequência das ondas de reflexão nas formas e moldes em movimento que distinguiam. Em termos que eles ainda não tiveram tempo de aprender - e tempo era algo que lhes fora dado parco, apenas em efemeridade para imaginar como seria ter mais - as cores ficavam mais expressivas.

Conseguia olhar através de si mesmo, por meio dos reflexos do seu interior; via cenas e objetos foscos; as cenas e objetos foscos adquiriam padrões mais lapidados, pela perspicuidade fulcral da córnea que o torneava por inteiro. 

Percebia alguns traços de contornos concatenados, esvoaçando, atirando-se para todos os lados, agitados, assustados com o ímpeto da chegada da família, e quis brincar – como brincam as baleias orcas sem fome com as focas, os gatos com as baratas, os cães com os pássaros – excitado por um sentimento de poder.

 Até que, celeremente, se sentiu mais diminuto e seu ser foi invadido por uma comoção de transitoriedade, culminando quando a gota acometera e se dissipara numa poça entre rochas de ametista, desgastadas por musgos. Houve, por um singular instante, a sensação intensa de se converter em ressonâncias, de brotar de si um continuum, jorrando, enfrentando e irrompendo contra a força, até que...

Sobre a poça límpida quedara uma folha de carvalho emugrecida, pairando, flutuando...

"A Queda" - René Magritte


25 de agosto de 2013

"Identificação: regando as raízes" - uma crônica

“Sou uma gota d'água
 sou um grão de areia”



E subitamente nosso dia mofa. Como mofo de geladeira. Nos deparamos com aquela notícia. Não foi com parente nosso, não foi com amigos. Não era alguém próximo, mas transpomos toda a distância numa ponte de facada gelada no meio de nosso peito. Foi com uma idosa, com um grupo, com uma população. Não necessariamente a mais pobre, o povo mais oprimido, a garota com a cara mais tímida e retraída. "Necessariamente”... como se tivesse alguma necessidade. Como se tivesse intrincado em alguma lógica esquemática... E o dia acaba. Será que ele pôde ter algum começo? Quando começara? Parece que se perdeu de vista... O nascer do sol se tornou tão gélido... e nossos olhos se cobrem de uma fuligem macerada, cinzenta, seca e pegajosa, que enevoa nossas vistas. É quando nos retraímos e não conseguimos partilhar das conversinhas- é o que se tornaram -, do papinho dos colegas de trabalho, dos risinhos das rodinhas, os olhares atravessados nos queimam, parece que o ambiente social ao redor se tornou um bêbado chato.

E por quê? E por quê?

De onde provém a música silente de piano e harpa? A voz docemente triste que parece ter vindo do reflexo pálido do luar no mar parado?

É horrível quando outros sentimentos mesquinhos vêm para manchar isto, como o borrado da maquiagem e o cheiro do ruge de uma meretriz sub-vulgar na paisagem da memória de alguém amado que corre o risco de ficar menos nítida.

Ideias que vêm de se ser o mudo profeta inaudito do mundo surdo. De usar esta melancolia pela dor ante a quem tornamos mais próximos do que o outro que são, para justificar as imposições de nosso ego, os nossos malfeitos e frustrações. Quando se transforma em mecanismo de compensação. Para motivar zombarias amarguradas da parte de quem não consegue se alegrar na festa se não for o centro das atenções. Isso vem para turvar mesmo quaisquer dos mais nobres sentimentos, como se fosse aquilo que algumas igrejas chamam de “setas do inimigo”. Mas para turvar; devido a inveja de não ser água.

Creio que este tipo de empatia não pré-fabricada é autêntica quando não nos leva a sentirmos superiores aos outros, ao mesmo tempo que não importa o quanto possamos nos debater, não afastamos um tipo de indignação, que não é racionalizada – não pode sê-lo – pelo mundo continuar  fazendo o que faz a todo dia e todo momento, tagarelando e barulhando sem parar, não se dando conta do que aconteceu com aquela pessoa. Quem o fez afinal, se não fomos nós, foi o mundo.

Me questiono de onde vem isso de brotar uma partilha de sentimento com pessoas que viveram ou morreram algo doloroso, mesmo a gente não tendo vivido aquilo, ou padecendo de um mal que não é nosso... não falo de uma empatia geral, nada de instinto gregário. Mas casos particulares que nos tocam e cortam diferentemente de quaisquer outros, uma comoção não artificialmente feita que nos domina, e fala em particular... Em meio a tantas agulhas caindo do céu. Iremos encontrar quase concomitantemente diversas notícias horríveis com alguém. Iremos assistir a muitas histórias lacerantes e comoventes, em outros filmes, livros... porque aquela em particular fala tanto conosco? Nos identificamos? Algo do inconsciente? Não, isso seria uma “psicanalização” que ela mesma seria uma racionalização arrogante. Não tem nada tal como um “chiste”. É como se no fundo da alma, o mesmo turbilhão que girou com aquele ser girasse em nós também, no nosso âmago, sua ferida resvalasse nas nossas.

Eu creio que qualquer tentativa de dissertar e descrever isto com artifícios de artigo científico, ou filosofia analítica, deixaria escorrer tanto como areia pura entre os dedos ao fechar a palma da mão. Não é moldável como argila. Apenas as forças conotativas das metáforas poéticas podem compartilhar conosco algo substancial do que ocorre aí, não para a gente “entender”,  mas se aproximar com a percepção e sensibilidade possível para com a textura e temperatura da areia.

Eu sonhei acordado que, em nossos recônditos, no âmago de todos nós, há um poço. Um poço após camadas escuras... sempre cai água, nunca se enche, a não ser no transbordamento quando da morte.  Sempre cai água; gotejando, escorrendo fina pelas paredes, caindo como de uma bica, brotando das fendas... produz sons e vibrações diferentes, e se tudo fosse musicado, teríamos partituras diferentes. Mas no meio do grande ribombar de todos os tanques, uma frequência, um tom, uma forma do cair e do vibrar sintoniza com o de outro poço, e um acorde, ou até uma ária é produzida nesta afinação. Quem sabe até se a água que cai em um não era da mesma, misturando e se dividindo em um dos canais até o desaguar?

Quando esse arrebatamento pelo sofrer alheio é um límpido ribeirinho, algo de significativo e sanador ocorre em alguém, mesmo que seja um processo, um correr de rio entre pedrinhas e galhos caídos.

Conta-se que Beethoven estava numa fase mais soturna na vida quando morava em um conjunto de sobrados, com a surdez já num nível avançado, totalmente insatisfeito com seu momento criativo, desiludido da vida. Havia uma mulher que morava no sobrado ao lado ou abaixo no conjunto; era cega. Beethoven soube que ela afirmava que o maior dos seus pesares era não ver o luar. O compositor se engajou num sentido que captou para seu momento de vida, passando por cima de toda suas lamentações, e se entregou a compor “Sonata ao Luar”, uma das mais arrebatadoras de suas sonatas. Tocando-a ao piano, a mulher ouviu. E dissera então que vira o luar, crescendo, brilhando, se enchendo, minguando para poder novamente renascer.


Eu tive alguns momentos de aguda prostração com a notícia do arrebatamento da vida de B. Um bebê exalando vivacidade, pequena criança sedenta dos descortinares do mundo, uma criança despojada e pueril, que um dia falou embolado algo inteligível demais para nosso esquecimento distraído, um dia jogou papeis, sandálias, coisas coloridas para o alto, esfolou o cotovelo e pintou uma casinha, queria voar de helicóptero, veja só, queria ser repórter, atriz, secretária e aeromoça, andar na rua com sapato alto, óculos e pasta embaixo do braço, tricotar como a vovó. Ela rompia com sua luz pelas colinas. Serelepe com caretas ridículas, muxoxos, pedidos de mimo, sapeca, serelepe. Ela tinha revistinhas tipo Capricho, já aos onze; aos doze anos, ela já entendia de batons, aos onze anos, ela já examinava os meninos, queria paquerar o mais bonito e ser paquerada pelo mais inteligente, achava-se a única a notar um dos mais tímidos, aos doze anos, aos dez anos tinha caderno de segredos. Ela não podia ser tocada, ouvida, não podia receber nenhuma lição, não havia como mandá-la guardar nada, estava “guardada” em um caixão aos treze anos. Ela foi separada de nós, não podia ser abraçada nem como uma fumaça. Uma fumaça ela...

Porque aquilo se eu não era amigo da família, não era próximo, só sabia que existia, se uma menina de sete anos morreu estuprada, se milhares morrem de fome, e outras tantas cheiram cola e outras de treze roubam e matam e muitos querem exterminar as crianças que não foram bem cuidadas? Ela foi bem cuidada. Ela estava doente, de todo jeito, mas aquilo não foi uma doença, talvez uma doença, a chaga da realidade que aceita a carbonização de gente. Doeu isto, doeu seu sofrer anterior com a recém-descoberta doença degenerativa que mal teve tempo de com sua perversão, começar a degenera-la de vez. A minha vida e de quem eu convivo está continuando, eu não sei se as vidas estavam continuando, ela não era mais importante do que todas as crianças do mundo que podem morrer velhas. Eu sabia que ela existia, eu só sabia que ela existia. Mas a minha existência ficara mais abafada e eu às vezes tenho bronquite.


Eu deixava um pouco de pó de vidro arranhar meu esôfago até que um dia um certo encantamento que vem de um Espírito no universo que absorve estas dores lânguidas, como as dores de seu parto, me trazer um cântico para honrar e celebrar e poder pensar: “para B”.
Escultura de Bruno Giorgi

O céu me parecia um companheiro para a minha secura em um dia noturno de uma manhã de segunda feira, em que as nuvens estavam tão cinza quanto o pó de escamas que grudavam minha vista como teia de aranha. E meu inalar estava mais úmido, tendo também que fazer bem mais força para mexer com os braços. O céu respeitava-me e estava até solene. Quando aconteceu. As densas gorfadas de vapor carbonizado como uma fumaça dormente, se convertendo em gotas d'água. Uma família de gotas d´água serelepes. Saltitando aos gritinhos após a abertura dos portões. Elas viviam, entravam cheias de vida aos treze anos até se esfarelar. A ampulheta vazou. E por cada gota d'água, cada única gota d'água, eu gota d'água e todos os meus amores gotas d'água, e pela B., que vive e morre com pesar e esperança em mim, eu reafirmei minha fé de que tudo isto não é em vão. E eu dei as mãos às gotas que me molham não ignorando que há outras gotas que molham, aquelas apenas caíram em mim e as bebi.

O meu texto-desabafo recebeu o nome de “Percurso”.  

Mais adiante o publicarei ;)

30 de junho de 2013

O Menino Inquieto e a Planta de Folhas Brancas

Isto tudo se passou em uma terra distante, em um tempo quando lá o sol ainda nascia branco, branquinho que, com a fina neblina, fazia as vistas da gente parecer que enxergavam o mundo todo lustrado; e na hora de se pôr, o sol ficava de um dourado morno, quase bronze, chegando até a dar uma sensação, nos dias mais frescos, de se ter uma macia pele de urso envolvendo agente com muito aconchego.

Mas durante a história que estamos contando, algo diferente se passava naquele vale; por alguma coisa diferente que estava acontecendo, o sol nascia acinzentado, o ar estava muito seco, e o céu estava com um tom rosado triste. Imaginava-se que devia ser só uma fase, que iria passar; mas como estava sendo duro passar por aquela fase! Também, porque com a secura, os olhos das pessoas ardiam secos também, a garganta ficava seca, e muita gente caíra abatida com uma tosse seca e o peito doendo.

Pedrinho especialmente, sentia muito com o abatimento que tomara conta de tanta gente! Dona Filomena, sempre com aquele vozeirão parecendo de trompa daquelas grandes de assoprar, com um jeitão bondosa que fazia os meninos rirem muito, por dentro, e um bocado bom também por fora, andava resmungona; sem paciência...
"Tempestade de inverno sumido - Vale de Yosemite" - Anselm Adams
_ Aaii, essa criançada sem jeito, chata e enxerida, no meu tempo o chinelo e a vara de marmelo resolviam!

“Que triste ouvir isso de Dona Filó”, Pedrinho e sua irmãzinha Carina pensavam. Os dois ainda eram uma das poucas crianças também que não estavam sendo afetadas por aquele tempo ruim. Ainda. Augusto começara aficar brigão; viram-no até jogando pedra nos passarinhos tico-tico! Armínia ficara fechada, só andando de cabeça baixa e segurando a renda da saia, ela que era de ficar falando e falando, com uma vozinha fina, sempre curiosa com tudo. Perdera os interesses.

Senhor Homero.... Homero passou a mesmo deixar o portão aberto para a bola cair lá dentro da sua casa... e nossa, quando um dia uns meninos foram bater a campainha para pedir, ele rasgou com um facão, com um facão, a pelota na frente deles!

Mas o que realmente deixava Pedro mais aflito, era como estava ficando Mamãe. Mamãe era para ele tudo o que conseguia ser capaz de pensar na palavra Beleza. Com tanto amor, ele, sua irmã mais novinha Camila, Carina e Paulinho, seu irmão pouco mais novo, conseguiam lhe auxiliar nas tarefas em casa, com as ajudas dos avós Raimundo e Dona Leonora, que os visitavam quase todos os dias, mesmo com as lembranças saudosas e a grande falta do pai, Cláudio, que morrera quando Camila ainda era bebezinha. Sobre os detalhes de como ele morreu, vamos deixar de contar para não ficar remoendo com a dor daquela unida e, por terem um ao outro, feliz família. Felicidade que estava em perigo.

Camila tossindo já...Paulinho de cama. Mamãe, que sempre aparentava uma pérola, lisa, radiante, que parecia nos fazer carinho só da gente contemplá-la sorrindo, estava já com a pele do rosto murchando; os olhos amarelos, e a voz rouca, parecendo que falava com um cano na garganta. Vovô e Vovó eram cuidados em casa pela tia Carminha, ela lhes fazia chá.

Aquela doença que veio com o tempo esquisito ainda não tinha nome, pois ali naquela região tão sadia e com o ar tão puro, as doenças que vinham eram bem tratadas com chás, com banhos, respirando poções dos vapores de muitos tipos de ervas do campo.

Pedrinho sabia que tinha que fazer alguma coisa, mas as pessoas já estavam se conformando com aquela situação; ele pensou consigo que isso também devia vir da natureza daquele mal que havia abatido o povoado... e todos faziam pouco quando ele insistia que deviam procurar uma cura diferente,já que nada que conheciam estava dando certo.

Sentado à beira do riacho, que também havia diminuído muito com aquele tempo seco, já fazendo encalhar até os barquinhos de papel, veio até a mente de Pedrinho uma cabana; uma pequena cabana de madeira na saída leste do povoado, em cima de uma colina. Morava lá solitário o senhor Cosme, solitário porque sua esposa de muuuitos e muitos anos falecera haviam já quatro outonos; todos gostavam demais de Dona Hikaru, ela com seus olhos puxados, cabelo em coque, jeito de andar com as mãos juntas, pra frente, viera de uma terra distante que ninguém conhecia ali; ela ia na vila vender uns bolinhos açucarados deliciosos que do adulto aos idosos e, lógico, as crianças,todos se sentiam mais doces e animados saboreando-os. Todo mundo foi ao enterro na época, vindo então a filha dos dois que se casara com um rapaz de outro povoado e já não morava mais ali. Senhor Cosme sabia cuidar muito bem de si, e era o principal conhecedor de muitos segredos do campo, das montanhas, do riacho e do bosque. O avô Raimundo constantemente ia consultar Cosme a respeito de algum problema, procurar conselhos. Mas já tão idoso, morando sozinho, senhor Cosme não era muito mais ouvido e lembrado pela comunidade.

“Ei, senhor Cosme, sou Pedrinho, neto de Raimundo”.

_ Meu bom mocinho, quer sentar aqui comigo para comer um bom pedaço de bolo e tomar um refresco de amora? Uma companhia neste fim de tarde não me faria mal.

“Senhor Cosme, nenhuma comida tem descido bem... minha língua está com um amargo, e a saliva que vem forma um creme que tira o gosto de tudo”.

_Aaah, eu sei, rapaz... os cheiros, os sons, as cores, os gostos, tudo emudeceu a canção da dança da vida aqui em nosso pacato povoado. Estamos em tempos difíceis. É preciso firmar o joelho para conseguir ficar de pé nesta hora.

“Mas senhor Cosme, ainda que isto tudo seja passageiro, e não temos como saber... o que está acontecendo só vai piorando, e não dá mais para suportar. O senhor não sabe o que podemos preparar para tirar esta moléstia do nosso corpo, de nossas vistas, de nosso coração? Sei que as pessoas não parecem levar o senhor a sério, mas confio em meu avô que sempre lhe teve respeito...”

_ Pedro, Pedrinho, sobre isso teríamos muitas luas para conversar. O que as pessoas levam em conta pra dizer o que tem valor, o que deve ter mais consideração em cada momento da vida, é influenciado por muitas coisas que geralmente não aparece no que elas dizem e acham... mas vou falar do que está me pedindo. Eu era criança, do seu tamanho, e quando minha família morava em um povoado no pé daquela outra serra a algumas léguas daqui. Fora uma época de secura, como esta. E nenhum medicamento nem daqui, nem de lá, e até arrisco, nas terras de Hikaru, que são tão ricas em remédios da natureza também, não se descobria. Mas eles encontraram a solução.

“Me diga, Cos, desculpa, Sô Cosme!”.

_ Heita, meu amiguinho. Se já não vão dar muito valor a ter vindo me consultar, vão zombar muito de você se aventurar a buscar o que buscaram naquela ocasião.

“Mas se eu não o fizer, logo também ficarei dominado pela doença. E assim, me comportarei como muitos estão. E vou achar também que isto é tudo muito natural, é da vida, é da realidade. Por favor, senhor Cosme, eu vou buscar, eu estou pronto a escutar.”

_ Menino, naquele pico da montanha que é envolvido por mais névoa do que os outros... vai ter de confiar. Mora uma anciã. Anciã porque ela completa dias e dias após o outro, por muito mais tempo do que o que eu tenho andado neste mundo. Nunca a vi, mas imagino que ela deve impor muita reverência. Ela cuida de uma planta diferente das demais. Possui uma folha branca, quase prateada, e suculenta. Não podemos ver nenhuma planta igual fora de lá. Encontrando esta senhora que deve ser também de uma aparência incomum,de presença de fazer emudecer, com ela estará a planta, que por ela é muito bem cuidada. Nunca sai de perto. Mas, meu filho, não posso te garantir nada. Tudo o que sei é que o povo lá foi curado pelos preparados da planta maravilhosa; mas não posso lhe dar mais garantias de que a anciã esteja lá; nem de que com ela, a planta ainda viva.”

Pedro assentiu e cumprimentou senhor Cosme. Não era discutível que ele descera dali com uma resolução firme.

Na vila, senhor Homero disparou: “se você está mesmo disposto a perseguir este delírio, suas ideias estão mais murchas do que estas bolas que só servem para importunar o sossego”.

Dona Filomena disse “rapaz, você está procurando é desculpa para não ajudar sua mãe agora que o trabalho aumentou por ela estar mais fraca”.

Mesmo seu avô Raimundo não o encorajou; disse que Pedrinho tinha facilidade a ficar sonhando que a vida pode ser diferente, criando modos de vida imaginários na fantasia. Mas a fala mais padrão, repetida por coleguinhas e aldeões, fora:

- Veja, menino. As folhas aqui são verdes; amarelam quando vão cair. Isso é a natureza do mundo. Não pode não ser igual. O tempo está com secura, nós secamos também; melhoraremos se o tempo mudar. O mundo é o que é; sempre foi e será. Falar de anciã, folha branca, é algo que a necessidade das coisas não pode deixar ser. Escute esta palavra: ra-zo-á-vel. O que você está falando não é ra-zo-á-vel. É como querer uma tabuada diferente.

Durante a noite o desânimo abateu Pedrinho. O ar ficara enfim mais pesado para ele do que nunca. Mas ele acordou de madrugada. Teve por si que desanimado ou animado, ele iria arriscar e iria ver se realmente as coisas tinham de ser como falavam, ou se todos estavam querendo encaixar a explicação do mundo em uma caixinha apertada e quadrada em que o mundo redondo não cabia, ou deixavam um tantão de arestas de fora. Na conversa final com senhor Cosme, aprendera que o único caminho que lhe levaria até aquele pico de montanha era, aproveitando que a água estava rasa, seguir pela margem do riacho. E partira pela madrugada.

E tudo concorrera para lhe mostrar que a tarefa não seria nenhuma aventura daquelas cheias de musiquinha de dar coragem. Mas exigiria muito sacrifício da parte dele. Com pouco, perdeu sua sandália ao tropeçar num toco de madeira caído, antes de chegar no riacho, e não o achava no capim alto, pois o céu ainda não estava claro.

Para piorar... “aaaaai!!!”

Cortou seu pé em uma pedra afiada no riacho. No outro pé, entrou um espinho que tentando tirá-lo com a unha, fez foi entrar mais. Mosquitos picavam e chupavam do sangue de Pedro. Ele saiu só pensando em chegar logo na montanha, e, com a mente toda remoendo as palavras das pessoas da vila, não levou comida. Não podia sair pra procurar alguma frutinha na mata, por medo de se perder. A ferida do pé ardia. Seus olhos estavam ardendo, secos. Tudo lhe pesava no coração, e se sentia cada vez mais ranzinza também. Não havia cheiro algum na natureza. Com o dia já levantado, a luz do sol sapecava suas costas, suava suor grosso, bebia da aguazinha do riacho quase secando, lavava o rosto pois o suor caia nos olhos já ardidos e embaçava sua visão. E lá ainda longe, a neblina cobrindo o pico da montanha. Pensava na família. Pensava nos gemidos da Mamãe, que ele percebeu estarem abafados pelo travesseiro que ela punha na boca para tentar evitar de assustar e angustiar mais as crianças, e sua tosse seca.

Grande medo em Pedrinho de tudo ser em vão. De perder Mamãe... ficar os irmãos sem o Papai, sem a Mamãe agora. Perder os avós. Os irmãos e irmãs? Perder todos. Ele mesmo já não sabia se iria durar agora. E outra grande tristeza: de chegar lá, e lá ser lugar nenhum. Não ter essa grande anciã; não ter planta de folha branca. E assim, aquilo tão seco que as pessoas lhe falavam... ser realmente o certo. Elas estarem com a razão.

O riacho foi ficando estreito, estreito.... de repente largueou. Mas acabou. Ainda faltando um bocado pro alto da montanha, Pedrinho chegara na nascente, no olho d'água. Com um preocupante filetinho de água apenas brotando, quase agonizante. Ele tinha que continuar subindo agora, ou escolher voltar. Seguiu acima, guiado apenas pelo senso de direção que tinha que subir a leste, a norte. Uma hora estava tudo muito inclinado, e tinha de apoiar com as mãos nos joelhos. Fraco, as costas doíam. Fraco, teve de segurar nas pedras, quase já escalando... até cortar também a palma de uma mão em um espinho seco na terra.

A neblina o cobriu. “Pelo menos as costas refrescaram”, pensou. Não muito consolado. Mas agora ficou assustado. Ele viu. Tinha uma gruta ali, que não parecia grande. Ele queria tanto encontrar... mas agora viu que também tinha medo de encontrar. Começou a se sentir estranho, como se aquilo fosse algo interrompendo a normalidade do seu mundo, do seu modo de ver as coisas se desenrolando, e ele se sentia inseguro de ser, diante daquele inesperado... bem normal. Lembrava-se de que no dia anterior xingara a irmã na discussão. Se sentiu feio.

Queria encontrar a planta, de todo seu coração. Mas naquela hora, ficou com medo mesmo de, encontrando-a, lhe tocar.

E se preparava no seu íntimo...a gruta estava vazia? Havia mesmo a tal anciã? Ele se lembrou de que não sabia ao certo o que era uma anciã, lhe vindo à mente a imagem de uma senhora toda cheia de presença, cabelos cinza-claro muito compridos, olhar solene, alta, falando como um trovão. E se ela tivesse morrido? Para ser tão mais velha do que o senhor Cosme...

Tinha sim alguém. Tinha uma luz lá dentro. Entrou na gruta. Era pequena. Andou com cuidado, meio que tropeçando nuns galhos fininhos que ficavam embaralhados no chão e sem graça, pareciam se espalhar em redor. Olhou ao redor, parede, uma estante de tronco de árvore velha, uma flauta, mas nadado que esperava, que não sabia ao certo, mas na sua melhor esperança, seria um jardim ao fundo com a grande árvore branca.

Ali estava. Uma pequena senhora. Numa cadeira de balanço. Tomando chá, tricotando. Com um cabelo partido, o rosto que mesmo todo enrugado, fazia lembrar uma criança, não tinha jeito de ser muito cansado. Não era mais alta do que Pedro.

“Senhora, é uma anciã?”

_Olá, rapazinho. Posso ser, posso não ser, não fui eu que me dei esse nome. Depende. - respondeu-lhe com uma voz que mais lembrava chuvinha fina batendo no telhado.

“Ah sim... estou muito cansado. Procurava a planta de folha branca, que diziam estar aqui com a senhora, para curar o povo lá de onde moro; curar minha Mamãe. Subi até aqui, desculpa se a assustei. Me disseram que só poderia estar aqui dentro com a senhora, cuidando dela. Não a vejo.”

_ Pois sim, rapaz. Você acabou de falar. Não a vê. Tem certeza que existe esta planta diferente?

“Não, não tenho.”

_ Ouvi você dizendo, então. Pois sim, não vê nada aqui comigo.

Ele então se entregou. Prostrado, acabou todo seu ânimo. Chorou e chorou muito. “Então eu enfrentei a zombaria das pessoas, fui humilhado; andei isso tudo sem comer, com muita fome, perdi a sandália, feri meus pés, que estão ardendo muito, mais ainda agora; estou todo coçando de picadas de mosquito; cortei minhas mãos. Estou com as costas sapecando, os olhos sapecando. E tudo isto agora até me rouba as forças para voltar. Todos dizem que este mal horrível vai passar, mas ninguém sabe quando, e o que vai ser de nós até lá? E todos, enfim, por pior que seja, todos tinham razão.”

E chorava sem consolo, com a senhora escutando tudo. Suas lágrimas caíam nos pés, caiam no chão. Caiu num dos galhos. E ele viu pequenininha, pequenininha, uma pontinha se mexendo. Um cristalzinho, um negocinho igual uma lagartinha, uma plantícula; e com ela uma folhinhazinha enrolada, branquinha, branquinha, do tamanho das manchas que dão nas unhas, e dizem ser sinal de presente chegando.

“Senhora, digo, Anciã, não sei como a senhora realmente se chama... vejo isto aqui no chão, que brotou ao cair de minhas lágrimas. Se não fosse tão pequeno, queria acreditar ser uma folhinha da planta curadora!”

- Pois sim, você está vendo?

Esta pergunta, estas palavras, estalaram na cabeça de Pedrinho. E ele foi seguindo com os olhos o raminho, os galhinhos, trançados no chão, subindo nas paredes... e no alto das paredes, por todo o teto... folhas brancas, gordas e quase prateadas!

“Mas... é ela, é ela! Eu achei que não existia!”

_ Mocinho, eu fiquei tão triste quanto você, de pensar que se desiludiu tão fácil, se entregou e estaria até disposto a ir embora, se contentando em me dizer que não vira a planta. Há pouco falava, todo desesperançado, sobre como eram pesadas as coisas que lhe haviam dito sobre o mundo, que ficou muito muito triste das pessoas terem razão. Não tendo ficado curioso em olhar direito e investigar onde as raízes em que você pisava iriam dar, descontente diante da figura da “anciã” que não era o que você tinha se convencido de encontrar, já também entregara a vitória para essas palavras em seu coração. Agora, os seus olhos vêem!

“E ela realmente tem o poder de curar aquele mal do tempo que passamos?”

_ Ela tem, meu querido. E para isso, basta apertar uma folha e beber do caldo dela.

“Posso levar quantas eu quiser?”

_ Poder, pode. Mas sabe, se arrancar muito... a planta precisa das folhas para respirar, para ter energia... e assim, para curar mais males de outras pessoas ("hu-hum", ele concordou). E você não tem como carregar tanto assim, desperdiçaria no caminho. Primeiro, beba de uma. Você está precisando. Descanse um pouco, vou tratar suas feridas. Aqui também tem pão para você. Depois, leve um pouco para sua mãe, sua família, para aqueles em situação mais urgente. E você terá uma grande responsabilidade: levará algumas mudas, e terá de cuidar delas. Cuidar. Não deixar morrer. E percebeu o segredo? Suas lágrimas, viu o que fizeram, com o raminho brotando? O sereno e a umidade da neblina, no tipo de mineral que é a coisa do que é feito as paredes desta montanha, dão à planta uma água fresca e um pouco salgada. Ela precisa disso, e é com esse tipo de água que ela trabalha para ter suas folhas brancas. Terá que a abastecer com uma água um pouco salgada também, nem precisa muito.


Pedro ficara um tempo com a senhora, por quem acabou lhe crescendo um grande carinho e ternura. Lembrou-se para sempre dela. Como se fosse uma mistura da mãe, irmãos, avós, e até do seu Cosme, mas apenas como se fosse, pois quando tentava associar muito, ficava diferente o sentimento, a sensação.

E ele cuidara e cultivara a planta como ela lhe recomendou. Com as folhas que levou, não teve muito mistério, não precisava de muito preparado, era apertar e pingar na língua para a disposição de ânimo e a boa respiração voltar para quem tomasse. E teve muito o que contar a respeito do mundo, para seus irmãos, e a quem mais estivesse disposto a lhe ouvir.