No clássico “A História Sem Fim” aparece um tema muito comum
em sagas congêneres. Atreyu tem que enfrentar como desafio último o espelho.
Teria de topar com um espelho que revelava a pessoa tal como é, sem as formas e
truques com que se engana - inclusive a si próprio. Há muitas estórias com este
desafio de se enfrentar o reflexo de si próprio.
Na esteira da Segunda Etapa da última Guerra Mundial, o que
se diz ser “Civilização Judaico-Cristã Ocidental” ou o “Ocidente Moderno”, era
amplamente e corriqueiramente antissemita (nos EUA, muitas escolas não aceitavam
judeus, e com muito custo foi-se estabelecendo um percentual máximo permitido,
como 6%, etc.); a eugenia grassava alegremente e era pauta mesmo das sociedades
científicas “esclarecidas” a ideia de selecionar os humanos “superiores” e
exterminar as “aberrações”. Tudo embebido no rito social, tudo sociabilizado.
O Nazismo com sua fúria impetuosa pegou estes elementos,
perdeu a inibição e espicaçou o cinismo; e ao limite levando, mas sem
incoerência, ele tudo isto foi pavorosamente lançado na na cara do mundo; a
partir daí o mundo percebeu, meio encabulado, o horror e vergonha que era.
Começou a se aceitar que era vergonhoso (ainda que os ciganos nunca foram
recompensados e que a eugenia continuou por parte de empresas e governos, mas
mascarada ou camuflada longe da atenção pública). Ficou mais difícil – até quando?
– legitimar novamente dentro do rito da vida social.
Por detrás das reações das pessoas à tal da “cultura da ostentação”,
com fenômenos por vezes bizarros, há um cinismo em parentesco, uma razão
cínica. Porque o que ela vem fazendo é jogar na cara igualmente nossa que é o
que move nossa sociedade hoje, mas é claro, ritualizado com desfaçatez na liturgia
do sociabilizado. A racionalidade por detrás da “cultura da ostentação” está
presente nos encontros informais de amigos de escola, colegas de profissão, está
presente quando se sai ao trânsito, em diversos meios de confraria social; está
subjacente às buscas, aspirações e sonhos. É a marca do senso de valor pessoal
de fato, é o norte da escala de valores, está em manifestações religiosas e
também de apelo laico ( ou laico na aparência ).
Talvez haja um medo secreto de que acabe se configurando tal
racionalidade como algo vergonhoso também. Por isto o escândalo cínico. Se tem
percebido que para grande parte das pessoas, se pudessem escolher, prefeririam
que o mundo acabasse, que tudo se colapsasse, do que ter de abrir mão disso.
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arte de Gerhard Richter |
Quantas outras coisas mais têm vindo à tona neste sentido,
esperando um outro “Reich” pra fazer o mesmo que aquele?