E dizia também aos seus discípulos: Havia um certo homem rico, o qual tinha um mordomo; e este foi acusado perante ele de dissipar os seus bens. E ele, chamando-o, disse-lhe: Que é isto que ouço de ti? Dá contas da tua mordomia, porque já não poderás ser mais meu mordomo.
E o mordomo disse consigo: Que farei, pois que o meu senhor me tira a mordomia? Cavar, não posso; de mendigar, tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer, para que, quando for desapossado da mordomia, me recebam em suas casas.
E, chamando a si cada um dos devedores do seu senhor, disse ao primeiro: Quanto deves ao meu senhor? E ele respondeu: Cem medidas de azeite. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e assentando-te já, escreve cinqüenta. Disse depois a outro: E tu, quanto deves? E ele respondeu: Cem alqueires de trigo. E disse-lhe: Toma a tua obrigação, e escreve oitenta.
E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.
E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos.
Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.
Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?
E, se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?
Nenhum servo pode servir dois senhores; porque, ou há de odiar um e amar o outro, ou se há de chegar a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom [Riquezas].
Alguns movimentos
sectários no judaísmo dos tempos de Jesus buscaram e apartar da
sociedade que para eles, já estava condenada; se consideravam os
“Filhos da Luz”, dividindo o campo humano entre eles e os “filhos
das trevas”. Em um documento [ os documentos citados a seguir foram
extraídos de David Flusser, “Judaísmo e as Origens do
Cristianismo”, vl.1, cap. 9] da comunidade de Damasco lê-se que
deviam “manter-se à parte dos filhos da perdição, a saber, a
abster-se da riqueza impura da iniquidade” - Documento de Damasco 6,14-15. Se
separavam assim da vida social e isso incluía o sistema econômico,
com o qual a pureza ritual a que consagravam suas vidas se
contaminaria, em que os outros “maculam-se nos caminhos da
idolatria e da riqueza da iniquidade”. Doc. Dam. 8,5
Em Qumrã há
documentos em que se apresenta a postura que concebiam de Deus em
relação a isto, “Não mostrarei ciúme do espírito do mal e
minha alma não cobiçará a riqueza da iniquidade (...)” 1QS
10,17-20.

Nesta parábola podemos
então presenciar um notório diferencial de Jesus em relação ao
ethos de movimentos religiosos sectários, com uma ética orientada
positivamente: menos do que fugir da contaminação, o ideal é
produzir algo de bom. Diante das “riquezas da iniquidade”, menos
do que fugir do mundo, se é chamado a desviar de produzir maldade
para produzir o bem ao próximo.
O administrador
desonesto, caracterizado como “infiel” e “filho das trevas”,
é alguém que e encontra surpreendido e iluminado em sua condição
condenatória ante ao seu senhor. É envergonhado e digno de castigo
e reclusão. E sua condição é deixada clara: o senhor o demite,
ele não tem mais condições de cuidar dos bens. Mas ele vê ainda a
misericórdia deste senhor: ele não é enviado à prisão ainda.
Pode ser um sinal de que ele tem ainda a oportunidade de ser uma nova
pessoa aos olhos de quem ele prejudicava. Ele extorquia os colonos
arrendatários que pagavam com parte da colheita como aluguel, se
apropriando do que recebia “por baixo do pano” e assim também,
ele que provavelmente recebia uma comissão do senhor pelos
contratos, agia desonestamente para com o patrão. Ainda que sem
status legal mais para negociar com os arrendatários, ele age ainda
como espertalhão, chamando os devedores, chama um por um para poder
realizar sua trama, sem que já passem a lhe considerar um sujeito
pária, sem legitimidade para tratar com eles, e desta forma eles
presumem que a transação é legítima. Eles então acreditam que o
senhor autorizou diminuir suas contas, como um abono.
Provavelmente os
colonos festejaram neste caso a magnanimidade do senhor de terras
para com suas situações devedoras. E o senhor se dá conta do que
aconteceu. E foi se fiando nesta magnanimidade e generosidade que o
mordomo agiu, ele que reconheceu sua culpabilidade não tendo se
queixado da demissão; pois não concebesse assim, estaria mais
perdido do que antes. Ele arriscou-se totalmente. E nessa
generosidade o senhor das terras pagou o preço pela liberdade e
restauração da reputação do mordomo ante à comunidade, e a
quitação da situação de endividamento dos arrendatários. E age
em sua graça.