Às vezes em algumas igrejas ele é quase tão mais falado do que o próprio Deus. Há aqueles que dizem ser seus seguidores ou admiradores. Pipocam por alguns fóruns teorias sobre a evolução até a configuração cristã clássica de sua imagem. Muitas delas são chutes. Vamos fazer uma brevíssima recapitulação da história da emergência do conceito da figura do Diabo. Vamos ver um pouco como se constituiu na matriz do cristianismo, o imaginário judaico polimorfo.
Até há um tempo atrás
se jugava que foi algo nascido na interação com o Império Persa,
sob influência da religião de Zoroastro, que advogava dois polos
ontológicos fundamentais, duas forças volitivas em um conflito
cósmico permanente. Hoje tal visão está superada, ainda que se
tenha em mente a contribuição forte deste sistema religioso.
O povo hebreu iria
constituindo seu ideário religioso a partir de experiências de
visionários, da experiência e tradições coletivas do povo, em
influência de interações complexas do seu meio circundante. Em
grande parte queria contrastar com as noções e referenciais dos
vizinhos, sobretudo rivais, contudo, retrabalhavam-nas. Decerto, era
forte a pressão por assimilações de povos muitas vezes mais
estruturados e organizados, de grandes nações e impérios com
mitologias e religiões exuberantes e elaboradas dando sentido às
organizações sociais.
Hoje temos meios
extremamente mais férteis do que há anos atrás para compreendermos
cenários primordiais deste processo, através de muitos documentos
dos povos do Oriente Próximo, como
os textos de Ras
Shamra, os manuscritos ugaríticos de Marzēah,
os selos de Tell Asmar, o Tratado de Enuma Elish, etc.
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Baal |
Uma muito influente
fora a vitória de Baal contra Leviatã, a serpente que aparece em
alguns achados representada com sete cabeças; ou contra Yam (ou o "Juiz Nahar), o mar, o deus
da destruição, ou contra "Mot", rei das profundezas da morte, em que Baal desta forma consegue escapar da sua
morte como destino final e passa a ser doador da vida. Baal era um
vistoso guerreiro, inferior no panteão à figura anciã sapiencial
de El, que sob uma outra forma, era cultuada pelos hebreus, se
mesclando com YWHW ( Yaweh), havendo ainda a controvérsia se o nome de YWHW
chegara de regiões egípcias ou sírias. Baal desafiara a serpente
do caos primordial e da morte, fulgurara aí aclamado como grande
divindade, doadora da vida.
Em outras fontes,
interagindo com outras figuras religiosas poderosas como Gilgamesh,
uma imagem similar a Leviatã aparece como Tiamat ( caldeus –
vencida por Marduk ), Rahab, etc. É impressionante o quão vasta é
esta marca no inconsciente coletivo humano, espalhado por tradições
em diversas regiões, como por exemplo milenarmente na Índia, com a
vitória de Indra sobre a serpente Vishnu.
Contudo, pode-se
conceber uma controvérsia na mentalidade hebreia, de onde se
reformatou a ideia dos vizinhos: o fator mais constrangedor seria que
sua divindade era anterior a qualquer outra, sendo assim, ficaria
embaraçoso conceber que se revoltou contra seres malignos
anteriormente mais poderosos. Desta forma, se inverteu, e estes
seres, poderosos mais inferiores, ora aparecem como insurretos
subjugados, ora como vencidos e dominados por El/Yaweh no ato de dar
forma e ordem ao mundo criado [concomitante, na busca de estabelecer sua identidade própria por contraste com os rivais, a cultura israelita foi associando algumas das divindades principais rivais - também devido a práticas cultuais que era condenada pela ética israelita - com os próprios seres insurgentes].
Alguns exemplos:
Alguns exemplos:
Jó 26, 10- 13:
Traçou um círculo à superfície das águas, até aos confins da luz e das trevas. As colunas do céu tremem e se espantam da sua ameaça. Com a sua força fende o mar e com o seu entendimento abate o adversário. Pelo seu sopro aclara os céus, a sua mão fere o dragão veloz.
Salmo 89, 9-10:
Dominas a fúria do mar; quando as suas ondas se levantam, tu as amainas. Calcaste a Rahab, como um ferido de morte; com o teu poderoso braço dispersaste os teus inimigos.
Isaías 51.9,10:
Por acaso não és tu aquele que despedaçou Rahab, que trespassou o Dragão?
Salmo 74.13-17:
Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos. Tu espedaçaste as cabeças do Leviatã e o deste por alimento às alimárias do deserto. Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos. Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol, tu os formaste. Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste.
Se estabeleceu então na religião hebreia essas figuras poderosas mas inferiores à sua
Divindade. Se temia, sobretudo pela associação com o mar, de onde
provinham muitos impérios conquistadores. Mas a concepção de um
estreito interesse com a vida humana era remota ainda.
Como muitos imaginários
de seu contexto geocultural, os israelitas concebiam o mundo habitado
por espíritos não-humanos, seres sobrenaturais de caráter
diversos. Alguns, como nosso caipora, caboclo d'água, curupira,
armavam emboscadas em bosques, beiras de rios, etc.
Abstraindo sobre o que
já foi abordado, as pessoas articulam seus sistemas simbólicos
sobre as realidades espirituais, transcendentes, sobrenaturais,
mediadas pelo impacto conotativo e carga semântica na representação
de seres, fenômenos e ideias de nosso mundo, e pelas impressões que
lhe são impingidas na vida, no mundo social, na própria natureza.
Assim, muito popular entre os hebreus também era a ideia de “corte
celestial”, sua divindade como Rei. Por exemplo, em expressões de
“buscar a face” do Senhor, a ideia é tomada da busca de se ter
audiência com os reis e serem atendidos por eles. O próprio termo
“El” entre os hebreus às vezes era usado na acepção de uma
mescla do Rei divino e a corte. Nesta corte atuaria um Promotor, um
Acusador, que era um destes espíritos dos quais falamos acima; era
inimigo declarado dos humanos. O nome com o qual mais se sagrou foi
“Ha Satan”, O Adversário.
Sob influência persa,
o que se incrementou, aí então já no judaísmo ( pois as tribos
israelitas do norte foram deportadas pelo Império Assírio nas décadas finais do século VIII a.C. e perderam-se na história, permanecendo o reino do Sul,
Judá (para o qual houvera uma migração maciça de refugiados do Reino do Norte no período imediatamente antecedente), que mesmo com a deportação pelo Império Babilônico nos inícios do século VI a.C.; a
tribo de Judá e juntamente, em grande parte, a de Benjamim,
permaneceu coesa em diversas partes do Oriente Próximo e muitos na
sua terra, com um grande retorno sob o Império Persa a partir da antepenúltima década do século VI numa política de repovoamento sob vassalagem imperial), foi que as
antigas formas monstruosas do caos passaram a ter um papel maior na
vida humana, na história. Se tornaram as senhoras de um mundo
sombrio, para onde iriam pessoas desertadas de Deus; e passaram a
atuar também como adversárias do projeto de Deus para Israel.
Já de um processo anterior se desenvolveu a ideia de que povos tinham um Guardião, e o povo de Israel tinha o Anjo Miguel.
Já de um processo anterior se desenvolveu a ideia de que povos tinham um Guardião, e o povo de Israel tinha o Anjo Miguel.
Belial, Baal, se
tornaram os nomes mais populares e difundidos para a grande Força do
Caos. Superior em hierarquia com Ha Satan, aos poucos foram se
fundindo. Temos, dos tempos de Jesus, documentos mais antigos
preservados entre a Seita do Mar Morto, cuja biblioteca em Qunrã
fora uma das maiores descobertas da história da arqueologia, que nos
legam textos em que interagem as crenças em Belial e Ha Satan, ambos
por trás das forças das guerras dos impérios opressores odiados –
em especial, “Manuscritos da Guerra”, da Biblioteca de Qunrã,
capítulo 13.
Com a ideia de Belial e
Ha Satan se fundindo, temos aí um grande ser do mal, com um caráter
de trazer o caos na criação e no mundo, a opressão na geopolítica
e inimigo de cada ser humano, atuando para destruir sua vida e lhe
buscando afastar da comunhão com Deus, ideia já desenvolvida nos
tempos da origem do cristianismo. Onde também veio ganhando corpo
outra dimensão extra para o ser maligno.
Um assunto extenso
seria traçar aqui a polêmica no judaísmo quanto a relação entre
a divindade transcendente ao mundo com o próprio mundo. Deus seria
tão “outro” em relação a este mundo, que como pensar sua
atuação no mundo sem comprometer sua transcendência. De fato, o
judaísmo caminhara para uma concepção monoteísta de caráter
muito mais acentuado do que nos tempos mais antigos e mais ainda no
período que o antecedeu, na religiosidade hebreia.

Assim, vemos alternando
entre estes papéis o nome de Belial, Ha Satan, e posteriormente (com
menos aparições em documentos cristãos) Samma'el, para o mesmo
ser, fundidas sua características.
Como testemunho
atestando as raizes antigas das quais brotaram este imaginário,
podemos ver nas passagens que falam da queda espiritual, política e
histórica de alguns grandes reis. Da onde proveio o termo “Lúcifer”,
Filho da Luz. Filho da Luz era o nome dado a Vênus. E era comum os
reis se associarem a astros, sendo Vênus um nome auspicioso. E o
duplo sentido, o sentido cósmico e espiritual presente como alusão
nesta epopeia de queda do rei soberbo, pode ser compreendido em que,
literariamente, estas passagens são intimamente ligadas à
literatura chamada “apocalíptica”; literatura na qual, como vemos ilustrado
no livro “Apocalipse” do cânon do Novo Testamento (temos muitos
“Apocalipses” no judaísmo contemporâneo de então, bem como
presença marcante nos livros veterotestamentários de Ezequiel,
Daniel, Joel, algumas passagens em Isaías, etc.), os traços das
batalhas dos poderes cósmicos por trás do palco da história humana
é marca característica.
De onde mestres cristãos dos primeiros séculos viram nesta passagem uma ilustração da queda do Demônio enquanto um Anjo especial que se revoltou contra Deus, crença já firmada independentemente delas.
De onde mestres cristãos dos primeiros séculos viram nesta passagem uma ilustração da queda do Demônio enquanto um Anjo especial que se revoltou contra Deus, crença já firmada independentemente delas.
Filho do homem, levanta uma lamentação sobre o rei de Tiro, e dize-lhe: Assim diz o Senhor DEUS: Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.
Estiveste no Éden, jardim de Deus; de toda a pedra preciosa era a tua cobertura: sardônica, topázio, diamante, turquesa, ônix, jaspe, safira, carbúnculo, esmeralda e ouro; em ti se faziam os teus tambores e os teus pífaros; no dia em que foste criado foram preparados.
Tu eras o querubim, ungido para cobrir, e te estabeleci; no monte santo de Deus estavas, no meio das pedras afogueadas andavas.
Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado, até que se achou iniqüidade em ti.
Na multiplicação do teu comércio encheram o teu interior de violência, e pecaste; por isso te lancei, profanado, do monte de Deus, e te fiz perecer, ó querubim cobridor, do meio das pedras afogueadas.
Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; por terra te lancei, diante dos reis te pus, para que olhem para ti.
Ezequiel
28:12-17
Como caíste desde o céu, ó estrela da manhã, Filho da Aurora! Como foste atirado à terra, subjugador das nações!Isaías 14:12-16
E no entanto, dizias no teu coração: Eu subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono, e na montanha da Assembléia me assentarei, nos confins do norte.
Subirei sobre até o céu, e serei semelhante ao Altíssimo.
E contudo foste precipitado ao Sheol, ao mais profundo do abismo.
Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: É este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os reinos?
Entremeado a esta passagem de Isaías, vê-se o pano de fundo de antigas tradições, constando com uma antiga divindade de sistemas históricos caananitas: Shahar = Aurora, e disputas por poder na corte da divindade máxima do panteão, El, que culminou com o desdouro do desafiante sacrílego no mundo da morte. A memória destas sagas vem reproduzida aqui num poema profético que interpreta a vaidade e quebra do poder de um rei conquistador soberbo.
Bibliografia Consultada:
Flusser, David.
Judaismo E As Origens Do Cristianismo, V.2. Capítulo 8, “O
Magnificat, o Benedictus e o Manuscrito da Guerra”. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
Foster, Benjamin R.
Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature. Bethesda, CDL,
2005
Kelly, Henry Ansgar.
Satan: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Globo, 2008.
Mettinger, Tryggve. O
Significado e a Mensagem dos Nomes de Deus na Bíblia. São Paulo: Ed.
Academia Cristã, 2008.
Smith, Mark S. O Memorial de Deus: História, memória e experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006.
Sparks, Kenton L.
Ancient Texts for the Study of the Hebrew Bible: A Guide to the
Background Literature. Peabody, Mass.: Hendrickson, 2005.
Wray, T. J., e Gregory
Mobley. The Birth of Satan: Tracing the Devil’s Biblical Roots. New York: Palgrave
Macmillan, 2005.